Pode o cisgênero falar?

Texto de Sofia Favero.

Não vejo mais o porquê de determinar que somente pessoas trans possam falar sobre questões trans, ou pior, que apenas elas possam opinar sobre questões trans. Me entendam, com isso não estou dizendo que a nossa perspectiva é irrelevante ou que sempre nos escutaram, jamais, mas estou falando que outros pontos de vista são necessários para o debate. A nossa visão é uma só, ela é singular e acaba por ser situacional, não no sentido de ser usada ocasionalmente, mas no sentido de que passamos por aquilo. Nós vivemos o que falamos e esse conteúdo é fundamental, não dá pra negar, mas é um deslize impedir a contribuição das pessoas cis ou exigir que elas se calem dentro de uma luta política, focada nas identidades de gênero dissidentes.

A elaboração de alianças se dá coletivamente e é plural, a partir de uma série de vozes, objetivos e apoios. Se a minha disposição, ao militar pelo reconhecimento de humanidade das travestis e pessoas trans, é também fazer as pessoas cis se colocarem no meu lugar, através de uma certa empatia, isso significa que o conteúdo passado por mim deixou de ser meu e foi assimilado por elas.

Foto da página Trans Student Educational Resources.
Foto da página Trans Student Educational Resources.

Ainda que isso não aconteça de verdade, ao falar de mim eu também já estou falando de um outro alguém – que, nesse caso, é cisgênero. Então não há a possibilidade de contar uma história única, que está sendo contada justamente pelas violações que sofro e que são mantidas pelo silêncio, pelos que se calam. E eu não quero mais que estejam nesse lugar tranquilo, sossegado, eu quero que as pessoas cis estejam igualmente abaladas.

Chegamos ao ponto em que as pessoas que não são trans já deixaram de ter certeza se devem ou não se posicionar frente a uma situação transfóbica, isso não é revolucionário, é mais do mesmo. Não pretendo aqui discursar sobre silenciamento ou liberar os discursos de ódio, não, esses devem ser eliminados. Venham de onde for, inclusive do nosso lado. Estou querendo construir um movimento político onde o que a pessoa é não impede a sua participação, mas sim o que ela pensa, o que ela tem a dizer.

Não me serve mais insistir num protagonismo singular, subjetivo, quando as próprias pessoas trans não são idênticas em seus posicionamentos. Com isso, desejo pensar em laços menos irreconciliáveis, que não sejam totalmente opostos, e partir para trocas com mais proximidade. Eu quero vocês perto de mim, tão perto que as dores sejam confundidas e deslocadas, para que eu não precise mais explicar o que é apanhar na rua ou ser expulsa de casa, pois vocês já saberão e estarão situados contra. Essas alterações demandam uma fala, uma conversa, um diálogo. Não somente uma escuta. Se o nosso ativismo reproduz aquilo que queremos mudar, ou seja, se os nossos meios nos impedem de conquistar os fins: precisamos propor novas formas de fazê-lo.

Autora

Sou aquela que vive um eterno conflito com a crase, às vezes ganho, outras vezes perco. Essa é uma batalha linguística que teve início logo quando nasci: é Fávero ou Favéro? Me questionavam. Bom, eu também não sei, depende da localidade e da pronúncia. É uma crise, parece-me que os acentos vieram ainda cedo pra me colocar em incerteza. E não seria exatamente isso o que tentamos fazer aqui? Bagunçar a direção de algo, da crase e do agudo. Sofia Favero, travesti e ativista. Esse texto foi publicado na página Travesti Reflexiva em 13/12/2015. 

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.