Considerações breves acerca da chamada “socialização”

Texto de Hailey Kaas. 

Socialização. Se as normas sociais que orientam a sexualidade e o gênero que são impostas a nós fossem eficazes em controlar e regular a (hetero)sexualidade e os papeis de gênero; Se as instituições de controle, a saber, a Escola, Igreja, a Família, os espaços compartilhados, fossem tão eficazes em (re)produzir a norma, por que existem os desvios – as pessoas homo, bissexuais, pessoas trans* e mulheres e homens cis que falham nas tarefas cotidianas do “ser” homem/mulher a ponto que há necessidade dessas mesmas normas não só se perpetuarem, mas também atuarem violentamente na tentativa de estabilizar algo que supõe-se estável (sexualidade e gênero)?

Decorre que, se existem as tais linhas de fuga, se as feministas estão aqui, lutando pela emancipação feminina e contra o que chamamos de patriarcado, como posso, então, tomar como fato a socialização feminina que, como sabemos, atribui às mulheres passividade, docilidade, subserviência e inferioridade ao homem? Que elemento mágico foi introduzido, e em que ponto, para que a tal socialização fatídica – aquela que, segundo a tal visão “materialista” (não-marxista, obviamente), aprisiona a história das pessoas trans* a seus desígnios de nascimento: (ou) homem (ou) mulher, com base em nossos genitais – seja dissipada, dispersada, desencantada? Se o simples boca-a-boca fosse suficiente para desviarmos da tal socialização fatídica, porque todas as mulheres que nos leem não se tornaram feministas e automaticamente começaram a lutar contra as próprias opressões? O que se esconde no subjetivo (inconsciente) que protege a tal socialização de produzir robôs orientados segundo a norma e como que tal elemento em elipse, por sua vez, produz os viados, as bichas, as sapatões, as travestis, as feministas peludas, os comunistas?

Se a socialização é o destino, como explicar a existência holográfica (sim, porque se o tal “materialismo” propõe que a socialização é um fato dado e imutável, decorre daí que as pessoas que fogem de suas premissas não passam e ectoplasmas, hologramas, o fantasma do natal passado) de todas essas pessoas que, cotidianamente lutam contra as mesmas normas cujo o argumento da socialização se baseia?

O que podemos chamar de material quando os assassinatos de travestis, de gays, lésbicas e bissexuais; a morte de milhares de mulheres em decorrência de feminicídio ou abortos clandestinos; o genocídio da população negra, a negligência e descaso com população de rua, a não-empatia com pessoas com deficiência ocorrem diariamente, muitas vezes, inclusive, com nós mesmas como testemunhas?

Foto da página Trans Student Educational Resources.
Foto da página Trans Student Educational Resources.

Quais são as palavras de carinho e afeto proferidas contra gays, lésbicas, travestis e mulher cis abortistas, a partir de legisladores que desarquivam projetos de leis esdrúxulos, para falar no campo da internet, e assassinos para falar no plano da “real” materialidade (um pleonasmo necessário), aquela que mata, aquela que produz exclusão, que diz que a neguinha deveria estar limpando o chão e não sendo caixa de banco, que sai com rosto pintado de preto imitando as “domésticas de luxo” no carnaval, que ri dos travecos esquartejados na sarjeta dos pontos de prostituição, que se vangloria dos espancamentos com lâmpadas fluorescentes em bairros de classe média alta (aqueles “civilizados”), que leva tantas pessoas ao suicídio, à fome, a falta de amor-próprio, à condição de moradora de rua, a quem se satisfaz com migalhas de amor e dignidade?

Vejam só porque eu não acredito na tal “materialidade” argumentada por certos feminismos radicais, pois, ironicamente, de material não tem nada.

Somos provas vivas de que a socialização não é o destino, quem não quer ver que continue com a cabeça enfiada na areia.

Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do facebook em 12/02/2015.

Autor: Hailey Kaas

Sou uma mulher trans* demi-bi/panssexual transfeminista. Eu blogo sobre Feminismos, Transfeminismos, Gordofobias, Racismos, Bissexualidades/Pansexualidades e Sexualidades não-binárias, Acessibilidades e outros elementos de Justiça Social.