O “desconstruído” se relacionaria com mulheres trans?

Texto de Maria Clara Araújo para as Blogueiras Feministas. 

Ele se diz um homem “desconstruído, libertário”, volta e meia até solta um ”não me identifico totalmente como homem”, estuda gênero e até se orgulha de ser um pró feminista para as garotas do coletivo, mas não consegue questionar a razão que leva seu histórico de relacionamento, antes e, inclusive, agora, não ter uma mulher trans ou travestis.

Quando escrevi “Por que os homens não estão amando as mulheres trans?”, que afirmo ser mais um desabafo, do que um texto de cunho político, fui, infelizmente, obrigada a ler mulheres trans e travestis desabafando que vivenciam/vivenciaram o mesmo. Elas contaram sobre suas tentativas fracassadas de relacionamentos, sobre os assujeitamos que se submetiam para terem algo, sobre rapazes que não queriam sair em público com elas e outras situações degradantes oriundas de uma transfobia que nos violenta não só fisicamente, mas também afetivamente. Porém, o relato que mais me doeu, talvez por se assemelhar tanto com o que já vivenciei e ainda vivencio, é o quanto fantasiamos certos espaços como “inclusivos” quando, na verdade, eles continuam compartilhando da mesma transfobia que o resto da sociedade.

Quando entrei no meio universitário, há 2 anos atrás, iludida pelo slogan “liberdade e desconstrução”, cheguei a cogitar que pudesse, enfim, ser vista e tratada como um ser humano por todos. Afinal, se subentende que os preconceitos estariam dos muros da universidade para fora e que, a partir da entrada naquele âmbito e com a vivência de certas discussões, a transfobia estaria sendo deixadas de lado e uma outra postura viria a ser tomada. Felizmente, a carapuça não demorou para cair. O modo que pessoas cis foram socializadas para nos verem como figuras exóticas, criam formas bem cruéis na universidade:  nos deparamos cegas por conta de uma suposta “empatia” e deixamos de reconhecer o quanto continuamos impossibilitadas de certos direitos, incluindo, o afetivo.

Marcha das Vadias de Porto Alegre, 2012. Foto de Nanni Rios no facebook.
Marcha das Vadias de Porto Alegre, 2012. Foto de Nanni Rios no facebook.

A coerção social parece estar tão introjetada, que a mínima tentativa de enxergar mulheres trans e travestis a partir de uma ótica humanizada, certamente, parece assustar. Quando um interesse de nossa parte surge, automaticamente, da parte deles, surge o presságio do medo de seus privilégios sendo postos em cheque, ao serem vistos aos beijos conosco. Essa visão aterroriza uma gama de rapazes que enxergam a “bolha” progressista como um grande palanque, mas ignora que lá pode ser o único espaço dito seguro para certos indivíduos.

Nosso gosto é construído a partir de marcadores bastante visíveis, mas, ainda assim, parece existir uma grande parede de concreto que impossibilita uma grande parte dos homens e aqui eu falo de, majoritariamente, os cisgêneros, a não conseguir ter consciência do que afirmações como essas deixam explícito:

  • “Eu te acho linda, mas não me sinto atraído.” (?)
  • “Eu te admiro muito, fortaleço tua luta (?), mas devo ter passado impressão errada.”
  • “Você é maravilhosa, te vejo como uma heroína, não dessa forma aí, entende?”

O reconhecimento de nossa humanidade se resume a nos tornar marionetes políticas para endossar um discurso progressista? A companhia de mulheres trans e travestis, para a grande maioria de vocês, é uma estratégia para a campanha do DCE? Empatia é tirar foto conosco pós palestra e/ou compartilhar nossos posts e legendar acima “Pelo fim da transfobia!”, mas, se quer, chegar perto nos círculos sociais, com medo de ser visto ao nosso lado?

A liberdade tão reverberada por via de um “discurso revolucionário”, só fará parte da relação opressor-oprimido, quando, da forma mais palpável possível, o diálogo for posto na mesa e vivenciado na prática, para além da “propaganda libertadora”¹. Estamos situados numa cultura que não só deturpou, como desumanizou a população trans, fazendo com que nossa existência e vivências, sejam vistas como “distantes” do resto da população. A distância chega a ser tanta, que parece existir uma proibição de qualquer ato que consiga estabelecer, minimamente, uma relação entre os dois polos: cisgêneros e transgêneros. O encontro dos dois pode abalar uma estrutura e a dita “desconstrução”, tão celebrada nos espaços acadêmicos, não conseguiu lidar com isso ainda.

Dessa forma, aqui fica o questionamento: o “desconstruído” se relacionaria com mulheres trans?

Maria Clara Araújo. Afrotransfeminista, graduanda em Pedagogia pela UFPE, pesquisadora sobre questões de gênero e sexualidade na educação, colaborada da Revista Capitolina e Blogueiras Negras.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.