Hoje eu quero voltar sozinha: a necessidade de desconstruir mitos sobre a violência contra as mulheres

Texto de Jussara Oliveira com colaboração da equipe de coordenação das Blogueiras Feministas.

Sempre que comento sobre ações que faço sozinha como caminhar de madrugada, passar por determinados trechos da cidade ou sobre minhas viagens, ouço frases similares a: Nossa, como você é corajosa!

Dificilmente parabeniza-se um homem por voltar pra casa sozinho ou elogiam um homem por ter viajado sozinho. Então, por que a mim seria necessária tanta coragem? Porque desde pequenas somos ensinadas a não sair de casa. Desde a infância somos ensinadas a ter medo. Medo dos “estranhos”, especialmente dos homens. Esses “doentes” ou “bandidos” que podemos esbarrar na rua e vão tirar proveito de alguma forma.

Ao ler sobre o recente caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro, descobrimos que a jovem de 16 anos foi sozinha encontrar pessoas conhecidas. Saiu para ir a um baile se divertir, para encontrar um rapaz com quem tinha um relacionamento. A violência que sofreu contou com a participação de pessoas desconhecidas, mas também contou com a conivência e apoio de homens que a conheciam.

No Brasil, os recentes números sobre violência mostram que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos. Há uma denúncia de violência contra a mulher a cada 7 minutos. Os números são assombrosos, mas um dado é importante: a maioria dessas violências não são provocadas por estranhos, mas sim por conhecidos, que possuem ou possuíram algum laço afetivo com a vítima. De acordo com dados de pesquisas nacionais, em 67,36% dos relatos, as violências foram cometidas por homens com quem as vítimas tinham ou já tiveram algum vínculo afetivo: companheiros, cônjuges, namorados ou amantes, ex-companheiros, ex-cônjuges, ex-namorados ou ex-amantes das vítimas. Já em cerca de 27% dos casos, o agressor era um familiar, amigo, vizinho ou conhecido. Dos 4.762 homicídios de mulheres registrados em 2013, 50,3% foram cometidos por familiares, sendo a maioria desses crimes (33,2%) cometidos por parceiros ou ex-parceiros.

Protesto contra estupros no Rio de Janeiro, dia 27/05/2016. Foto de Rafael Moraes / Agência O Globo.
Protesto contra estupros no Rio de Janeiro, dia 27/05/2016. Foto de Rafael Moraes / Agência O Globo.

Não é preciso fazer um exercício matemático complexo para entender que: se a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, não são meia dúzia ou mesmo uma centena de homens que estupram no Brasil. Estamos falando de milhões de casos protagonizados por milhões de pessoas, em sua grande maioria homens, em sua grande maioria com plena consciência de seus atos.

Quem são esses homens? Podem ser muitas vezes pessoas próximas, alguém da família, um vizinho, um namorado, o amigão de infância. Pode ser aquele que todo mundo acha gente boa, sabe? Porque sabemos que entre quatro paredes, nas relações íntimas, a dinâmica pode ser outra. Então, se é mais fácil eu sofrer agressão de alguém que conheço, por que eu deveria ter medo de andar sozinha na rua?

Não estou querendo dizer que toda e qualquer rua vazia e escura à noite seja um lugar seguro. A violência urbana e policial atinge mais os homens e mostra-se muito presente para pessoas negras, especialmente que as que vivem em periferias. Atualmente, há muitos homens negros que tem receio de sair de casa. Porém, nós mulheres crescemos tendo nossa liberdade restringida com a desculpa de que isso nos garantiria segurança, mas sabemos que isso está longe de ser verdade.

Essa restrição não pára por aí. Também somos levadas a acreditar que determinadas roupas e atitudes nos tornam mais vulneráveis a violência. Somos levadas a acreditar que podemos impedir que a violência aconteça se nos “comportarmos”. Somos levadas a sentir medo e culpa o tempo todo. Mas e os homens? Tem receio de violentarem mulheres? Além da cadeia, que outras punições sociais recebem por isso? Se reconhecem nas violências praticadas por outros homens?

Chega a ser irônico ver certos homens bradando sobre a “justiça” que deveria ser aplicada a estupradores e violentadores de mulheres: pena de morte, castração química. São muitas vezes os mesmos homens que classificam as mulheres em “estupráveis” ou não. É fácil dizer que estupro é um absurdo, que é crime há muito tempo e até torcer para que o agressor seja estuprado na cadeia como pena pelo que fez. Mas isso só ocorre porque vemos o estupro como uma violência pontual, praticada pelo outro, realizada por homens doentes ou muito cruéis.

É evidente que a impunidade e o fato de muitas mulheres não denunciarem, contribui para que os números da violência contra a mulher não seja reduzidos drasticamente. A Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio são ferramentas importantes para estruturar políticas e ações de combate, mas não podem ficar reduzidas as suas determinações punitivistas, pois há uma estrutura machista que violenta mulheres diariamente e toda sociedade é conivente com isso, porque a mulher deve “saber qual o seu lugar”.

As mulheres, na maioria das vezes, não denunciam por medo, vergonha e humilhação. Várias não saem imediatamente de um relacionamento após a primeira violência porque há muitas questões envolvidas: família, filhos, trabalho, sentimentos. Não recebem apoio de pessoas próximas, não são acolhidas pelas instituições públicas de segurança, tem medo do agressor querer se vingar se perder o trabalho, não querem que os filhos sofram.

Às mulheres, é desejada a passividade e resignação. Enquanto a agressividade é permitida aos homens em diversas esferas sociais. Podem ser ambiciosos, rudes, enérgicos. Um presidente interino que bate na mesa e diz ter negociado com bandidos para afirmar sua competência para governar não é descrito como uma pessoa descontrolada pelas revistas semanais.

A cultura do estupro não se limita apenas a educação em casa, ela se reflete em toda sociedade. Está presente entre as mulheres quando julgamos a sexualidade umas das outras, seja por uma roupa curta ou por ter se relacionado com um homem comprometido. Quando duvidamos dos relatos de violência: mas o que você estava vestindo? Mas por que você estava sozinha com ele? Tem certeza de que você disse não?.

Entre os homens é comum ver piadas ou ironias em relação a violência contra as mulheres, fora o fato de compartilharem fotos e vídeos entre amigos sem autorização das pessoas expostas. Há religiões que minimizam a segurança das mulheres quando enfatizam a necessidade de preservação do casamento acima de tudo. Governos e legisladores que não estabelecem um compromisso com a igualdade de gênero, quando excluem ações inclusivas ou quando propõem iniciativas que visam retirar direitos das mulheres, como o PL 5069/2013 que visa retroceder nos direitos de aborto em caso de estupro.

São nesses contextos sociais brasileiros que a cultura do estupro está inserida. Nessa ideia de que as mulheres não podem ser agressivas, portanto, não são ensinadas a reagir, a identificarem situações de violência que violam seus direitos mais básicos. Aos homens é dada a prerrogativa da violência, especialmente quando seus atos são descritos como “crimes passionais” ou “marcados pelo ciúme”. Não são ensinados a respeitarem as mulheres, mas a protegê-las dos outros, confinando-as no espaço doméstico. As mulheres que arriscam romper com essas convenções não merecem a admiração social, mas sim a violência corretiva expressa por meio de um estupro ou das pessoas que desacreditam seu relato e questionam o que ela estava fazendo ali. Se estivesse em casa, na escola, na igreja, não teria sido violentada?

Vídeo: #meninapodetudo – Machismo e violência contra a mulher na juventude.

Autor: Jussara Oliveira

Nerd em tempo integral, baladeira nas horas vagas. Ativista de espirito e aventureira por hobby.