A página da história que as brasileiras estão escrevendo

Texto de Adriane Rampazzo para as Blogueiras Feministas.

Há 8 meses acompanho, de longe, a efervescência do Brasil. Se é verdade que de longe se consegue ver e perceber melhor a vida de todos os dias, tanto melhor quando o observador, ainda que geograficamente distante, continua muito próximo – e talvez mais do que antes – do seu pequeno universo.

De tudo que vi acontecer até agora, o que mais tem me chamado atenção – e alegrado muito, é bem verdade! – tem sido a ampliação dos debates “feministas” (e as aspas aqui me socorrem da necessidade de, nesse momento, discorrer sobre conceitos e ou teorias, ao que não me pretendo). Brasil afora, nos últimos meses, pulularam discussões que perpassaram pela recorrente tentativa de culpabilização da mulher, como meio para legitimar a violência de gênero, como no caso do vídeo amplamente divulgado em que um marido agride a mulher ao flagrá-la saindo de um motel com outro homem, pela denúncia de abusos através da #meuamigosecreto, pela polêmica ‘do shortinho’ em Porto Alegre até as recentes manifestações em apoio à adolescente carioca vítima desta ignomínia que é o estupro, terrivelmente agravado em seu modus faciendi coletivo.

São Paulo/2016. Mulheres tomam a avenida Paulista em protesto contra a cultura do estupro. Foto de Leonardo Benassatto/Futura Press/Estadão Conteúdo.
São Paulo/2016. Mulheres tomam a avenida Paulista em protesto contra a cultura do estupro. Foto de Leonardo Benassatto/Futura Press/Estadão Conteúdo.

Nunca se falou tanto sobre empoderamento feminino. E, sabemos, informação e conhecimento são sempre o primeiro e imprescindível movimento de transformação individual e social. A veloz propulsão de notícias, discussões e informações, principalmente, através das redes sociais, o que reputo ser o melhor que há nelas, alcançou mulheres de todas as idades, em todos os recônditos deste país continental, levando-as a refletir, quiçá, pela primeira vez, sobre sua condição, enquanto mulher, sobre o papel que a sociedade patriarcal lhes atribui e sobre o controle que impinge aos seus corpos, em suas mais variadas formas. Mas, para além disso e talvez também pela primeira vez, muitas foram as mulheres que puderam se perceber não como culpadas e ou “merecedoras” de abusos e agressões, mas como vítimas e muitas podem, agora, estar mais próximas de vencer as difíceis barreiras e, enfim, conseguir quebrar o círculo sempre vicioso da violência, não mais se sujeitando, procurando ajuda e denunciando seus agressores.

Se nestes últimos meses acompanhei de longe, mas senti bem de perto, o acirramento dos ânimos no Brasil, impulsionado por acaloradas discussões que iniciavam sobre o processo que culminou com o impedimento da presidenta Dilma mas, invariavelmente, descambavam para lugares comuns carregados de preconceitos e meias verdades, vi também mais da metade da população brasileira (51,4% de acordo com o último Censo) unindo-se em torno de pautas que nos conduzem a um ambiente social igualitário, justo e, antes de mais, seguro. Vi meninas de 12, 13 anos insurgindo-se contra códigos de vestimenta que não são exigidas dos meninos; vi mulheres que, apoiadas por outras mulheres, já conseguem se assumir como donas de seus corpos e já podem encorajar suas filhas a comportarem-se e a vestirem-se do modo que melhor lhes convier e vi também mulheres que vão às ruas em multidões para gritar – e o fazem para que um dia não mais precisem gritar para serem ouvidas – que não há lugar para as mulheres entre os culpados por violência de gênero e violações.

Desde Lisboa, sinto os mesmos ventos que levaram caravelas para tantos lugares do mundo, agora soprando em sentido contrário para me trazer boas notícias. Notícias de que, graças à força da união de mulheres cada vez mais empoderadas, estamos conseguindo debater nossos valores de base, questionar imposições patriarcais, desconstruir estereótipos, exigir comportamentos sociais que nos respeitem enquanto seres humanos e, sim!, notícias de que estamos construindo um lugar melhor para as mulheres brasileiras.

Autora

Adriane Rampazzo é bacharel em Direito pela Fundação Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Mestranda em Ciências Jurídico Criminais na Universidade de Lisboa e feminista em – contínua – formação.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.