Minha cabeça não é pra isso! Da desconstrução da mentalidade acerca da inaptidão da mulher para tecnologia

Texto de Ana Rita Dutra para as Blogueiras Feministas.

Das lembranças que tenho da minha fase escolar, principalmente do ensino médio, as festas escolares marcaram bastante. Dia de festa na escola, a organização pautava por meninas decorarem a sala e meninos deveriam trazer o refrigerante. Hoje, ao olhar para este tempo, percebo que a divisão de tarefas pautada por gênero não estava presente somente nestes eventos festivos. Meninas deveriam jogar vôlei e pular corda na educação física, meninos correr e jogar futebol. Nas aulas de português e literatura meninas deveriam ler romance e escrever poesias, já os meninos deveriam ler jornal e notícias de esportes. A capacidade das meninas nas aulas de exatas eram questionáveis, pois para nosso sexo, raciocínio lógico e direto deveria ser trabalhoso.

As condições em que vivem homens e mulheres não são produtos de um destino biológico, mas, antes de tudo, construções sociais. Homens e mulheres não são uma coleção – ou duas coleções – de indivíduos biologicamente distintos. Eles formam dois grupos sociais que estão engajados em uma relação social específica: as relações sociais de sexo. (Kergoat, 2000, p. 55)

Estas relações sociais de sexo acabam levando meninos e meninas para caminhos distintos, ouso dizer que esta divisão não começa a ser fomentada na escola, mas muito antes no ventre materno, na maternidade, nas aquisições para um bebê já estamos imputando nesta criança papeis específicos e bem definidos de ser homem e ser mulher, juntamente com seu papel na sociedade. Para mulher lhe é delegado o sentimento, o lar, para o homem da porta para fora, o raciocínio e o mundo todo.

Hoje, na educação profissionalizante tenho a oportunidade de atender estas meninas que procuram se qualificar em cursos voltados para áreas exatas: informática, t.i, engenharia, mecânica industrial. O que me chama a atenção no primeiro dia de aula quando entro nessas escolas: o baixíssimo número de alunas. Normalmente de uma turma de 30 alunos, tenho na minha classe cerca de 4 mulheres, isso sendo otimista. Com frequência pego turmas de cursos voltados para tecnologia que possuem somente homens matriculados.

Inúmeros fatores afastam estas mulheres do mercado de trabalho: maternidade, casamento, racismo, transfobia, homofobia, lesbofobia. Porém, quero falar principalmente de um fator fundante para o afastamento destas mulheres: a cultura.

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. (Beauvoir, 1967, p. 9)

Ao refletir sobre as nuances que afastam esta mulher dos bancos acadêmicos da área das ciências exatas, o fator: “eu não sou capaz”, salta aos olhos. Ao receber meninas para lecionar a disciplina de Lógica de Programação ou Matemática, a primeira frase que escuto destas garotas é de que não possuem “cabeça boa para isto”, os olhares nas primeiras aulas estão assustados e totalmente descrédulos de sua capacidade. O ambiente entre os colegas também não facilita a convivência com estas meninas, com raras exceções normalmente as mulheres são hostilizadas na forma de piadinhas discretas sobre suas dificuldades e rotinas, além do que estudar com colegas homens fazendo comentários machistas sobre suas namoradas, esposas, colegas e mulheres aleatórias, não cria um ambiente favorável e encorajador para o ensino destas mulheres.

Estas meninas acabam criando estratégias de sobrevivência nestes meios, se nas primeiras aulas você lançar um desafio em grupo, a primeira pergunta que você vai ouvir é se: “da pra ter um time só de meninas?”, “posso fazer coma s gurias?”, E não venham me dizer que isto é preconceito, é resposta e estratégia de defesa de um grupo oprimido.

Workshop de arduíno promovido pelo MariaLab, espaço em São Paulo que espaço voltado para mulheres e meninas, que quer ensinar e divulgar ciências e tecnologia como coisa de mulher! imagem: Facebook do Marialab.
Workshop de arduíno promovido pelo MariaLab, espaço em São Paulo voltado para mulheres e meninas, que quer ensinar e divulgar ciências e tecnologia como coisa de mulher! Imagem: Facebook do Marialab.

Lógico que como professora procuro intermediar estas situações e desenvolver um ambiente propício ao aprendizado de todos, porém esta situação normalmente já está instaurada quando assumo a classe. Cabe aqui também um alerta a professora(o), que fique atento a estas questões, pois as discriminações que constam nas ruas também se fazem presentes na sala de aula. E devemos encará-las.

A partir do momento em que este ambiente hostil não é enfrentado, esta aluna torna-se forte candidata a evasão e desistência de seus sonhos, em sua mente reforça-se a ideia de que “realmente eu não levava jeito”, quando sabemos que o fator primordialmente é de uma série de culturas que oprime e afasta as mulheres destes bancos acadêmicos.

Vale lembrar que Marie Skłodowska Curie, primeira mulher a ganhar um Nobel, foi também a primeira a pessoa, homem ou mulher, a ganhar DOIS DELES! Mas também vale lembrar que nenhuma mulher repetiu seu feito até hoje, o que pode ser atribuído em parte ao fato de algumas terem seu nome omitido na pesquisa como com Rosalind Franklin no modelo de dupla hélice do DNA.

O processo de desconstrução destas situações e construção de uma presença feminina forte no campo das ciências exatas passa pela desconstrução cultural machista em todos seus aspectos. Desconstrução esta que não se dá somente em sala de aula, mas em todas as relações humanas em que esta mulher está presente. Vivemos em um momento político tenso e lamentável no cenário político nacional, o retrocesso bate a nossa porta, mais do que nunca a discussão de gênero deve estar presente em todos os campos, inclusive nas ciências exatas e suas vertentes.

Além do desafio de desconstruir a noção de que a mulher possui um raciocínio logico matemático não “tão bom” quanto o masculino, a permanência das mulheres nos bancos acadêmicos passa também pela “autenticação” da figura masculina que está ao seu lado, e da noção de que o trabalho do lar é de sua responsabilidade. Infelizmente em diversos momentos não consegui reverter a decisão de inúmeras mulheres de abandonarem os bancos da educação profissionalizante por uma decisão de seu “companheiro” que não estava gostando da ausência da mulher em casa, pois esta acarretava problemas no cuidado do lar e dos filhos. A noção de que os cuidados domésticos e dos filhos é responsabilidade primordial da mulher também contribui para os índices de evasão das mesmas. Estamos em 2016, estas alunas estão na faixa dos 16 aos 40 anos, e ainda se submetem as definições que lhes são imputadas por uma sociedade ainda fortemente patriarcal, seja pelo seu pai, irmão, namorado, marido. A figura opressora masculina ainda acorrenta estas mulheres, subjugando sua capacidade, suas decisões e seus sonhos.

A presença de mais mulheres na tecnologia, nas ciências exatas passa por uma grande mudança cultural, mudança esta que se dá em casa, nas ruas, nas escolas. Projetos de incentivo da participação de mulheres e meninas em olimpíadas de matemática, projetos que incentivem a participação na tecnologia, programação fazem diferença na vida destas mulheres.

Referências bibliográficas

BEAUVOIR, Simone. (1967) O Segundo Sexo, Volume 2. Difusão Européia do Livro, 1967.

KERGOAT, D. Divisão sexual do trabalho (M. Nobre,
Trad.). Paris: PUF, 2000.

Autor: Ana Rita Dutra

Ana Rita Dutra dos Santos é Especialista em Novas Tecnologias Aplicadas a Educação. Feminista, professora e educadora.