O conceito de cisgenaridade e o transfeminismo

Texto de Raissa Éris Grimm.

O conceito de cisgeneridade foi criado pelo ativismo trans
como uma forma de devolver o olhar e entender de outra forma
a posição social e política de pessoas “não-trans”, que até então eram simplesmente definidas como “bio mulheres”, “bio homens”, ou como “mulheres de verdade”, “homens de verdade”, “naturalmente mulheres”, “naturalmente homens”.

Essa definição dava a entender que pessoas cisgêneras seriam naturalmente e espontaneamente seu próprio gênero — nascides já como são — enquanto nós, pessoas trans, seríamos o efeito de uma artificialidade, de uma negação da nossa “verdadeira natureza”.

Diante desse discurso, caberia simplesmente as pessoas trans fazerem o melhor possível — a nível de comportamento, intervenções hormonais, cosméticas e cirúrgicas — para se tornarem “o mais parecido possível” com as ditas “verdadeiras mulheres” ou “verdadeiros homens”. Fomos investidas pela biomedicina para construir um culto ao seu poder de transformar o corpo num material plástico e 100% transmutável — ao sabor dos mágicos dedos dos hipercirurgiões, nossos “salvadores”
(*risos*).

Entretanto, esse lugar seria por definição inatingível.
Uma vez que as definições últimas sobre o que situa “verdadeiras mulheres” e “verdadeiros homens” segue nos escapando. Seja por nossa estrutura reprodutiva. Seja por nossas histórias. Por mais passáveis que sejamos, sempre carregaremos no nosso corpo alguma marca da “artificialidade”, do “simulacro”, da “falsidade” que constituem nosso sexo e gênero.

É aí que entra o transfeminismo. Uma das premissas chaves para toda reflexão — e ação — transfeminista é o entendimento que não basta oferecermos formas de adequar pessoas trans nos padrões sociais impostos, mas que precisamos transformar os padrões sociais impostos
para que possam acolher e dar inteligibilidade à multiplicidade de corpos trans.

A transformação desse padrão implica não apenas (embora também) mudar a forma como percebemos pessoas trans, mas mudar também a forma como percebemos e entendemos pessoas cisgêneras. Implica entender que a construção do seu sexo, do seu gênero são tão artificiais e fictícias quanto as nossas.

Imagem do perfil @FeminismoUnizar.
Imagem do perfil @FeminismoUnizar.

Sim, existem diferenças corporais — nossos processos metabólicos, hormonais, nossos sistemas reprodutivos — e existem diferenças nas nossas histórias, mas a forma como nossa sociedade interpreta isso
e atribui um significado a “corpos de homens” versus “corpos de mulheres”, “comportamentos masculinos” versus “comportamentos femininos”, são tão fictícias e artificiais quanto as que constroem o gênero das pessoas trans.

Ser fictício e artificial não quer dizer que não tenha efeitos materiais — essas ficções dividem nossos corpos, educam suas possibilidades, nos induzem a hormônios, além de exercerem diversos tipos de violência. Porém, são ficções, no sentido de que são construtos articulados à narrativa e ao imaginário dos seres humanos, situadas SEMPRE na história e na cultura.

Tudo isso, implica entendermos que pessoas cisgêneras são tão artificialmente construídas quanto pessoas trans. Mas, os lugares políticos dessas ficções e tecnologias são diferentes. É a partir desse entendimento que falarmos de “mulheres com pênis”, “homens com vagina” ganha sentido: não estamos buscando nos adequar aos seus conceitos sobre o que é ser mulher ou homem, estamos buscando transformar seus conceitos sobre o que significa ser “uma verdadeira mulher” ou “um verdadeiro homem”, para entendermos que essa verdade é algo que não existe para nenhuma de nós, a não ser no espaço da construção política das nossas narrativas.

Autora

Raissa Éris Grimm é graduada em Gêmeos, com mestrado em Aquário, doutoranda em Peixes, pelo Programa de Sobrevivência ao Saturno em Escorpião. Lésbixa trrransmutante, pornoterrorista em potencial. Aprendiz de dançarina e massoterapia na escola da auto-gestão. Publicado em seu perfil do Facebook no dia 14/07/2016.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.