As Paralimpíadas ainda não começaram mas o capacitismo já ganhou ouro

Texto de Bia Cardoso e Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

As Paralimpíadas Rio 2016 começam dia 07 de setembro. Já estão pipocando ações e matérias na mídia para divulgar os Jogos. Porém, o que tem chamado mais atenção é o capacitismo e o quanto publicitários e responsáveis demonstram nem se preocupar com isso.

A revista de moda Vogue Brasil lançou uma campanha chamada “Somos Todos Paralímpicos” em que os atores Cleo Pires e Paulo Vilhena aparecem representando atletas paralímpicos. Por meio do photoshop, Cleo aparece sem um dos braços e Paulo está usando uma prótese na perna. A primeira pergunta que muita gente fez foi: por que não usar os próprios atletas paralímpicos?

Após uma chuva de críticas nas redes sociais, o escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva — que é deficiente físico e usa cadeira de rodas — publicou um texto explicando que a campanha era apenas para provocar e causar polêmica. Ele convidou Cleo Pires, Paulo Vilhena e Nizan Guanaes — dono da Agência África, responsável pela campanha —  para serem embaixadores paralímpicos e essa é apenas uma peça de divulgação. A segunda pergunta que muita gente fez foi: por que pessoas sem deficiência e sem qualquer ligação com a causa são chamadas para serem embaixadores paralímpicos?

Infelizmente, não há nada de novo nesse episódio. A invisibilidade é elemento constante na vida das pessoas deficientes. Como complemento, a Vogue Brasil publicou uma foto em seu blog dos atores com os atletas que serviram de inspiração para a imagem: Bruna Alexandre do tênis de mesa e Renato Leite do vôlei sentado. Além disso, a edição de setembro da revista traz um ensaio sensual, onde a protagonista é Cleo Pires: “a atriz se engajou numa campanha para atrair o público às competições e em apoio a causa nobre Vogue a convidou para ser a protagonista do ensaio “Super-humanos” da edição de setembro”.

Por que Cleo Pires é a protagonista de um ensaio para divulgar as Paralimpíadas?

Da esquerda para direita: Cleo Pires, Renato Leite, Paulo Vilhena e Bruna Alexandre nos bastidores da sessão de fotos da campanha "Somos Todos Olímpicos". Foto: Divulgação/Vogue Brasil.
Da esquerda para direita: Cleo Pires, Renato Leite, Paulo Vilhena e Bruna Alexandre nos bastidores da sessão de fotos da campanha “Somos Todos Olímpicos”. Foto: Divulgação/Vogue Brasil.

A Vogue Brasil é uma revista de moda e, como tal, é preciso que a deficiência transforme-se num produto. O corpo do deficiente não atrai o olhar, ele é um corpo na maioria das vezes visto como repulsivo. Então, os atletas paralímpicos devem servir de inspiração para que pessoas famosas os representem. Os atletas paralímpicos podem ser coadjuvantes num ensaio de Cleo Pires e sua deficiência usada como acessório, um item fashion. Porque para a pessoa com deficiência só existem dois papeis sociais: ou ela é uma coitada, que merece pena ou ela é uma guerreira, fonte de inspiração para que as pessoas comuns não desistam das barreiras encontradas no cotidiano. Um super-humano, como diz o ensaio da revista. Em ambos os casos, a pessoa com deficiência é paradoxalmente descrita de forma desumanizada e apartada da maioria.

O diretor de arte da Revista Vogue também deu uma declaração dizendo que quem criou a campanha “Somos Todos Paralímpicos” foi a atriz Cleo Pires: “E para quem nao sabe, a ideia toda da campanha foi da embaixadora das Paralimpiadas, Cleo Pires. A gente sabia que seria um soco no estômago, mas estávamos lá por uma boa causa”.

É sempre muito bom saber que as pessoas estão lá por uma boa causa — ainda que a causa central de qualquer peça publicitária seja vender — especialmente quando ao invés de assumir sua responsabilidade no processo preferem culpar uma mulher que, ao que sabemos, não é publicitária e nem trabalha na Agencia África. Porém, Cleo Pires viu as críticas e decidiu respondê-las em entrevista ao site F5 dizendo que:

“Preconceituosos são eles [as pessoas que criticaram]. Não tem erro nenhum em representar um atleta paraolímpico exatamente como ele é. Só vejo honra, mérito, orgulho”.

“A campanha foi criada por mim e pelo Paulo ao lado do comitê e dos próprios atletas. Os atletas endossaram a ideia”, diz Cleo, que no entanto concorda que o convite poderia ter sido feito a uma modelo ou a uma atriz portadora de necessidades especiais.

“Poderiam ter pensado nisso, mas não pensaram. Pensaram em mim e me convidaram para ser embaixadora, e aceitei com muita honra”.

Por que será que as pessoas não pensam em fazer campanhas com pessoas deficientes? Por que são pessoas que precisam ser representadas e não apenas retratadas, como outros atletas? Por ser uma revista de moda é preciso ter pessoas bonitas dentro do padrão de beleza? Então, por que não chamar modelos com deficiência?

A questão é que nem mesmo numa peça publicitária das Paralimpíadas se pensa em fazê-la com os atletas que nela estarão competindo. Os corpos de pessoas com deficiência não são atraentes, podem ser substituídos pelos corpos de atores e aí só incluímos a deficiência naquela parte específica. Para continuar nos lembrando que Cleo Pires e Paulo Vilhena só estão representando, que eles não são assim no dia a dia e que só seremos obrigados a conviver com a deficiência na ficção, ou nem mesmo nela. Já que a sociedade não gosta de olhar para quem é diferente, quem evidencia a falta de perfeição do corpo humano.

Muitas pessoas acham que representatividade é uma bobagem, que o importante é lutar por direitos dos deficientes. Porém, como conseguir direitos básicos como banheiros adaptados, rampas e pessoas capacitadas para atender diferentes deficiências nos serviços públicos e privados se as pessoas com deficiência não são vistas? Não são tratadas pela sociedade como iguais e na maioria das vezes são excluídas?

Com atores famosos a campanha ganha mais visibilidade, mas isso se reflete em mais respeito para as pessoas com deficiência? Saber que Cleo Pires ou Paulo Vilhena podem sofrer um acidente e terem que lidar com uma deficiência aproxima mais as pessoas comuns das pessoas com deficiência ou apenas as distanciam ainda mais da realidade? As pessoas com deficiência não querem ser ver em campanhas? Se reconhecer e saber que também podem ser estrelas de uma peça publicitária?

Marcelo Rubens Paiva também é um dos diretores da cerimônia de abertura das Paralimpíadas, junto com o designer Fred Gelli, o artista plástico Vik Muniz e o produtor executivo do Rio 2016, Flávio Machado. Em agosto de 2015, falaram sobre a experiência de planejar a cerimônia numa entrevista ao site Globo Esporte:

– Nosso grande desafio será mostrar como essas pessoas que estão nas Paralimpíadas saíram do fundo do poço para conquistar medalhas. Vamos mostrar a fronteira entre a deficiência e a eficiência. Na prática, o tema paralímpico é inspirador à humanidade. Com base nisso, vamos lançar um novo desafio – afirmou Fred Gelli, autor do símbolo dos Jogos Paralímpicos de 2016.

– O que me trouxe para esse grupo de diretores de cerimônia foi a minha ignorância sobre o universo paralímpico. Me questionei sobre o porquê de eu saber pouco sobre esse mundo e lancei esse desafio a mim mesmo. Paralelamente às conquistas esportivas, você tem histórias de vida incríveis. Queremos elevar o interesse do esporte paralímpico ao mesmo patamar do olímpico. Fizemos um Parapan maravilhoso com recorde de medalhas. Vim para o time certo, dos campeões – afirmou Vik, conhecido por suas obras com materiais inusitados, como lixo, restos de demolição e componentes como açúcar e chocolate.

Um dos diretores acha que as pessoas com deficiência saíram do fundo do poço. O outro chegou até esse trabalho devido a sua ignorância sobre o assunto. Aparentemente, para o senso comum, é mesmo impossível que uma pessoa com deficiência tenha uma vida completa. A deleção funcional do corpo deve acompanhar o estilo de vida de quem o possui, o que transforma a vida com deficiência automaticamente em uma tragédia humana. Essa visão é equivocada e estereotipada, já que as deficiências são tão diversas quanto as pessoas, logo as narrativas são bastante distintas. Parece realmente difícil compreender como essas pessoas farão um espetáculo para pessoas com deficiência sem resvalar no pieguismo e nos clichês tão característicos deste tipo de evento. No momento, estamos torcendo para que não haja palhaços com pernas de pau de madeira de demolição representando atletas paralímpicos.

Por fim, para nós a sensação é de que a estética da deficiência ainda é muito agressiva e ofensiva para a mídia. Ela pode vir pontuada, pode vir por meio de sombras ou substituições, mas a pessoa deficiente não pode aparecer completa. Ela deve existir como cenário, personagem ou fantasia, nunca como pessoa. A representação das pessoas com deficiência é feita por meio da exclusão, especialmente nos casos de deficiências que não se aproximem da aparência de uma pessoa comum.

Em alguns momentos, vemos pessoas com deficiência ganharem algum destaque e terem sua beleza elogiada, mas na maioria das vezes elas usam uma cadeira de rodas ou uma prótese moderna, é o que Fatine Oliveira chama de “privilégio da semelhança”: é a possibilidade de experimentar a aceitação social por não apresentar características que evidenciem qualquer diferença que esteja fora dos padrões estabelecidos pela sociedade.

Sabemos que há inúmeras deficiências, justamente por isso as pessoas com deficiência não são todas iguais. Seus corpos retratam suas vidas, assim como os corpos das pessoas comuns, mas não são corpos atraentes para uma campanha publicitária, mesmo que você seja uma atleta com inúmeras medalhas. Vencer no jogo da vida capacitista, machista, racista e heteronormativa — onde qualquer modificação estrutural ou direito garantido por lei é visto como uma vantagem que prejudica as pessoas comuns — é na maioria das vezes mais difícil que ser campeão paralímpico.

O que nos intriga, é que a Rio 2016 já produziu uma peça publicitária bacana com atletas paralímpicos que possuem diferentes deficiências, colocando-os numa academia comum e mostrando que o esporte também faz parte de suas rotinas. O que nos leva a outra pergunta: por que os jogos paralímpicos são separados dos jogos olímpicos? Mas isso ficará para outro texto.

Autor: Blogueiras Feministas

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