Doenças sexualmente transmissíveis: estigmas e pessoas marcadas

Texto de Raissa Éris Grimm.

Na aula de Biologia da sétima série ensinaram pra gente que o que transmite doenças sexualmente transmissíveis (DST’s) era transar sem proteção. Que não era sobre com quantas pessoas você transa
ou sobre a orientação sexual de quem você transa.

Se você usa proteção, pode transar com quantas pessoas quiser – e tá protegide. Se você não usa proteção, você pode transar com 1 pessoa, e contrair DST com uma pessoa. Isso foi no finzinho dos anos 90 —
muitas de vocês que tão aqui não lembram nada dessa época —
naquela época, rolava uma mobilização forte da comunidade gay
das travestis e mulheres (cis, trans..) profissionais do sexo lutando contra o estigma por serem considerados “vetores de contágio”.

Ah, tinham pessoas bissexuais nesse corre. Porém não tinham visibilidade política.

Naquela época, o tratamento pra HIV-AIDS não era ainda tão disseminado quanto hoje — existia com muita força o imaginário de que “AIDS = morte”. Então vocês imaginam o preconceito que existia contra as pessoas soropositivas.

Então, vocês imaginam que travesti, puta, viado, pessoas consideradas “vetores de contágio” da doença eram todas consideradas vetores de morte pela sociedade. Nós éramos consideradas a própria doença, nós éramos consideradas a própria morte.

Vocês imaginam o quanto esse discurso, esse imaginário, contribuía pras violências que nossa comunidade sofria naquela época? Quantas de nós foram agredidas e mortas, expulsas de casa sofrendo violência doméstica com esse discurso que nos marcava como “doença social”.

Dress to dance. Foto de Pedro Figueiredo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Dress to dance. Foto de Pedro Figueiredo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Então, vocês talvez possam imaginar o quanto essa iniciativa de irem nas escolas ensinar pra gente que: “não tá errado ser gay, travesti ou puta
o que importa é vocês usarem profilaxia”, foi importante PRA CARAMBA. Vou lembrar: na época não se falava sobre bissexualidade, tá?

Daí o tempo passou, e acho que as pessoas perderam a memória dessa época. Muitas simplesmente não vivenciaram — eram recém-nascidas nesse período. Mas, vocês tão aí hoje usando um discurso MUITO parecido
em relação a mulheres bissexuais — eventualmente discriminam os homens também, só pra lembrar.

Vocês ficam tratando elas como responsáveis únicas e exclusivas por contrair e transmitir DST’s pra comunidade de mulheres que se relacionam com mulheres. Quando, na realidade, essa comunidade inteira está desprotegida quanto a métodos de prevenção a esse contágio
e isso independe — sim, independe — da mina transar com homens ou não.

Aliás, transfóbicas: independe de transarem com travestis. Independe de transarem com mulheres trans.

Se as manas usam camisinha nessas transas — e boa parte utilizamos — isso não torna nenhuma delas mais “vetor de contágio do que vocês”.

“Ahh, mas tem o machismo, muitas não conseguem negociar preservativo”. Pois é, daí você pega sua arma e aponta pra cara do machista de merda que tá ABUSANDO dessas manas, pressionando por sexo desprotegido e não fica culpabilizando as minas por essa situação.

Só quem tem lembrança dos anos 90 e de ter sido marcada como “grupo de contágio” sabe o peso e a violência do discurso que vocês proferem. Não é coincidência vermos justamente as minas bi, as travestis e as putas agrupadas no rechaço a esse “””feminismo””” fascista e higienista.

Autora

Raissa Éris Grimm é graduada em Gêmeos, com mestrado em Aquário, doutoranda em Peixes, pelo Programa de Sobrevivência ao Saturno em Escorpião. Lésbixa trrransmutante, pornoterrorista em potencial. Aprendiz de dançarina e massoterapia na escola da auto-gestão. Publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 13/07/2016.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.