Quando vou ao banheiro: banheiros públicos como fronteiras identitárias

Texto de Josefina Cicconetti para as Blogueiras Feministas.

Situação 1 –  Estou num evento cultural e decido ir ao banheiro. Ao chegar à porta do banheiro feminino, encaro uma pequena fila que começa lá dentro. Conforme as pessoas avançam, vou chegando mais perto. Quando finalmente entro, ainda esperando, uma mulher me aborda dizendo “isto aqui é um banheiro feminino, de mulheres, não de homens, você tem que sair”. Minha reação: levar meus braços até meus seios e dizer “eu também sou mulher”.

Situação 2 – Uma breve parada na estrada, no posto de gasolina. Vou ao banheiro. Outra fila enorme. Ocupo meu lugar e uma senhora comenta em voz alta, de modo que todas as pessoas ali ouvissem: “olhem só a que ponto a sociedade chegou! Agora tenho que dividir o banheiro com isso, que nem sei se é homem ou mulher”.

Situação 3 – Estou no banheiro feminino de um restaurante. Termino de usá-lo e saio em direção à pia. De repente, uma mulher assoma a cabeça pela porta do recinto, olha ao redor, checa a placa da porta e, como ainda em dúvida, resolve perguntar: “isso aqui é o banheiro feminino?”. Eu respondo que sim. Ela replica: “certo… Desculpe, é que a luz estava muito tênue e não percebi que você é mulher”.

Tento problematizar, com isso, como os banheiros públicos, além da sua utilidade imediata e óbvia, podem representar um espaço que constrói fronteiras indenitárias de gênero. A identificação, frequentemente simbolizada por figuras de homens e mulheres nas portas, traduz-se, muitas vezes, numa exigência, não só de gênero e de sexo, mas também de uma determinada “identidade” que deve coincidir com os moldes socialmente estabelecidos.

MPF investiga denúncias de falta de identificação em banheiros da UFG. Foto de Vanessa Martins/G1.
MPF investiga denúncias de falta de identificação em banheiros da UFG. Foto de Vanessa Martins/G1.

A não adequação dos corpos aos padrões de homem-mulher faz surgir o policiamento coletivo, traduzido em questionamentos constantes, e transforma o espaço do banheiro em mais um cenário normativo de afirmação do que é masculinidade e do que é feminilidade.

Que o controle sobre o gênero e a sexualidade nos diga entre que paredes temos de estar, sob que padrões (modelados e repetidos) devemos nos mover, faz com que as pessoas se distingam entre si e definam suas preferências, impulsionando de maneira microscópica agentes de normalização dos estereótipos de gênero. Exige-nos uma identidade para fazer cocô, xixi, lavar o rosto e os dentes. Afinal, qual é o tipo de mulher que pode entrar nos banheiros femininos?

Os sistemas de representação são reforçados por meio do discurso e só entendem o significado das coisas que eles conhecem. Desta maneira, constituem-se os lugares através dos quais os indivíduos se posicionam. A fiscalização do gênero entra em ação dizendo-nos como devemos nos posicionar como sujeitos, impulsionando dentro dos banheiros um regime sexual de exclusão.

O banheiro é, portanto, muito mais do que um espaço privado de satisfação, invadido de aromas, precipitações, desejos, onde nós experimentamos situações de espera, encontros e preconceitos convencionalistas. É aqui, neste espaço de necessidade que surpreendentemente – ou não – se enredam os olhares, a aceitação e a rejeição, o desconhecido, e tudo se torna mistério: é homem? Ou é mulher? Passou da hora de desconstruir essa percepção binária.

Autora

Josefina Cicconetti é lésbica, feminista e defensora de direitos humanos.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.