Aquarius: um filme político, mas também um filme sobre Clara

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Em meio a todas as polêmicas envolvendo Aquarius (2016), acredito que seja O filme brasileiro a ser visto esse ano. Isso não significa que achei o filme ótimo, nem que seja o melhor filme do ano, nem que deveria ter sido indicado ao Oscar. Para mim, em O Som ao Redor (2012), o diretor Kleber Mendonça trata com mais sutilezas as relações sociais desiguais brasileiras e o poder do mercado imobiliário. Porém, a luta de Clara (Sônia Braga) para permanecer em seu apartamento representa o atual momento político em que vivemos, em que é preciso deixar transparente de que lado estamos.

Porém, Aquarius é sobre Clara. Uma personagem feminina que foge do convencional, que junto com suas músicas apresenta uma interessante representação feminina para o cinema brasileiro. Clara convive com muitas mulheres e todas elas mostram um pouco do que é ser mulher nos dias atuais. O foco da história é Clara, uma mulher na faixa dos 60 anos, que se recusa a vender o apartamento em que viveu durante grande parte da vida para uma construtora que pretende fazer um grande prédio na orla da praia de Boa Viagem, em Recife. O filme é uma grande caixa de lembranças de Clara. Acompanhamos seus momentos no passado e também suas relações no presente com a família e amigos. Sua principal aliada é a empregada doméstica Ladjane (Zoraide Coleto).

As empregadas domésticas são personagens constantes nas produções de Kleber Mendonça. Desde que vi seu curtametragem Recife Frio (2009), elas estão ali para concretizar uma das mais rançosas e complicadas relações de classes existentes no Brasil. Da mesma maneira que nas casas brasileiras elas são “quase da família”, nos filmes de Kleber Mendonça elas estão sempre presentes em cena, mas quase imperceptíveis. Não é fácil lembrar seus nomes e, especialmente por isso, além de Ladjane há uma outra empregada doméstica importante em Aquarius.

Racismo é um dos temas menos focado no filme. Na cena em que aparece de maneira mais explícita — num diálogo entre Clara e Diego (Humberto Carrão), o jovem que veio sacudir a empresa do avô com novas ideias — vemos o que parece ser até uma fanfic de esquerda. Clara confronta Diego sobre seu elitismo e ele faz referência a cor de sua pele para em seguida Ladjane defender a patroa. Tanto Clara como Diego fazem parte da elite e aí se instala o confronto.

Outra característica interessante dos filmes de Kleber Mendonça é que seu foco se volta para a classe média. Essa massa social que (numa visão estreita) não é pobre e não é rica, que constrói uma cadeia de privilégios e ao mesmo tempo se considera injustiçada, que não dá conta de explicar sua complexidade. Eu me vejo nesses personagens, em seus discos, em seus carros, em seus óculos, em seus cabelos, em suas vivências. Aquarius também é político porque fala diretamente com essa faixa social que faz textão no Facebook, que pratica meditação, que frequenta hamburgueria gourmet, que fez doutorado. Clara e suas pessoas próximas explicitam essas complexidades todo tempo.

Cena do filme Aquarius (2016).
Cena do filme Aquarius (2016).

Porém, talvez o mais impactante do filme seja o retrato de Clara. Sônia Braga está presente em praticamente 95% do filme e com ela vemos uma mulher de 66 anos, vaidosa e independente, que deseja e é desejada. Para uma geração que cresceu com Gabriela (1975) na mente, essa imagem é rompida na cena em que Clara se despe antes do banho, ao voltar da praia. Para uma geração que não a conheceu e não sabe de sua fama, a cena de sexo no sofá da sala representa o quanto foi transgressora. É um grande presente ter Sônia Braga em sua melhor forma.

Portanto, Clara é uma mulher viúva e avó, com filhos adultos, segura de si. Uma mulher que enfrentou um câncer e que exita algumas vezes ao se deparar com a realidade de seu corpo. Uma mulher que demonstra desejo, seja com um homem da mesma idade ou com um homem mais novo. Uma mulher que tem uma profunda ligação com a família, com o local que mora, com a empregada doméstica e com o amigo salva-vidas.

Sobre as mulheres, o filme começa mostrando Lúcia (Thaia Perez), a tia de Clara. A imagem trangressora dessa tia envolve-se diretamente na personagem de Clara, em suas lembranças e na maneira como olhamos uma simples cômoda. Há sua filha Ana Paula (Maeve Jinkings), que repete alguns clichês da relação mãe-filha, já que parece que apenas ela — diferente dos irmãos — tem um conflito com a mãe. Mas, isso não deixa de ser comum para muitas mulheres. Fora isso, Ana Paula é uma mulher recém-separada que tenta se organizar com o trabalho e o filho pequeno, sem muita ajuda do ex-marido, ao que parece. Essa com certeza uma realidade de muitas mulheres.

Também há o grupo de amigas de Clara, muitas delas viúvas, que saem pra dançar, beber e paquerar. Uma realidade bem diferente das mulheres nessa idade há pouco tempo atrás.

Portanto, Aquarius é um ótimo filme não apenas para pensar questões políticas como a especulação imobiliária, o capitalismo que ergue e destrói coisas belas, mas também para ver mulheres livres, felizes com suas escolhas, conquistas e vivências. Sem vergonha de serem quem são.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.