As musas que foram estupradas e os debates que nunca acontecem

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Minha intenção nesse texto é falar sobre traumas, mas também sobre relações saudáveis. E, sobre as responsabilidades de todos envolvidos para que isso ocorra. Não é um puxão de orelha nos homens, nem um abraço apertado nas mulheres, é um convite para reflexão. Violência é um assunto dolorido e incômodo, mas precisamos encará-la se temos a intenção de realmente aprender algo com as experiências, sejam nossas ou de outras pessoas.

Ontem, o texto “Como foi transar com uma vítima de estupro” viralizou. Vi vários compartilhamentos. De início, li errado o título e entendi “Como é” em vez de “Como foi” e fiquei preocupada se estava rolando algum texto com uma receitinha de bolo que ensinasse a lidar com vítimas de violência. Ainda bem. Afinal, não existe receita certa para lidar com estupro, até porque não existe uma forma só de estupro, assim como não existe uma forma só de trauma ou de como lidar com ele.

Terminei de ler o texto com algum incômodo, e não fiquei surpresa ao ver textos pipocando com críticas a essa viralização. Muito se falou sobre a romantização do relato, sobre a possibilidade da moça (musa inspiradora do texto em questão) não ter consentido a divulgação da sua história, sobre como a viralização desse tipo de texto em detrimento ao de tantos outros que falam da cultura de estupro seria um desserviço à causa feminista.

Porém, acho que precisamos encarar outro ponto: se várias mulheres compartilharam é porque, em algum momento, elas se identificaram com o texto ou no mínimo acharam importante visibilizá-lo. E, ainda que possamos questionar a romantização da narrativa, este pode ter sido um recurso importante ao tratar de um tema delicado como esse. Vamos combinar que presumir que a protagonista da história não gostou ou se sentiu desconfortável com o relato faz tanto sentido quanto presumir qualquer outra coisa sobre ela. E, ainda que alguém muito próximo dos dois possa sacar de quem se trata a pessoa, houve um esforço no texto de não deixar sua identidade evidente.

Na minha opinião, o único momento em que o narrador acerta é ao identificar que toda a emancipação da situação de violência não se tratava sobre ele, se tratava da relação de uma mulher com seu próprio corpo.

Nesse momento, ele entende que foi apenas um coadjuvante na situação. Talvez, aí ele tenha contado com a ajuda direta ou indireta do debate feminista ao qual ele não deu nenhum crédito. De qualquer forma, acredito que esperamos demais desse texto, que tivemos muitas expectativas ao ler um homem escrevendo sobre sexo e estupro. Eu mesma queria ter lido outra coisa apesar de não saber bem o quê, mas muito disso se dá pela falta de debate em cima do tema.

Depois de ler as críticas, algumas passionais outras também romantizadas, consegui entender melhor meu incômodo. E isso tem a ver com tudo que não foi dito até agora. Tem a ver com tudo que eu nunca li sobre a desconstrução da masculinidade, sobre a superação de traumas e sobre a construção de relações saudáveis. Queria ter outro texto para fazer uma comparação, bons textos aqui pra linkar sobre os pontos que estou levantando, links com uma perspectiva feminista para indicar a amigos sempre que buscam encarar de frente alguns dilemas da masculinidade. Mas, o material sobre o assunto é bem limitado.

O texto que viralizou não tem nada de tão bem escrito, nem nenhuma grande nova reflexão, mas acredito que tenha viralizado exatamente por tratar de um tema pouco explorado: é a vida sexual das vítimas de violência.

É uma história sobre uma mulher buscando se libertar de um trauma num sexo casual. Aliás, como sociedade, ou mesmo como movimento feminista, será que temos consciência sobre quais são os impactos dessas violências na rotina das mulheres? Quais são as formas da manifestação desses traumas? Quais os desafios que são enfrentados ao seguir a vida sexual e afetiva? Tenho muitas dúvidas sobre como enxergamos isso.

Cena da série Jessica Jones (Netflix/2015) em que a protagonista, que foi vítima de um estupro, se relaciona com outro personagem.
Cena da série Jessica Jones (Netflix/2015) em que a protagonista, que foi vítima de um estupro, se relaciona com outro personagem.

Entendo que ser uma militante feminista é encarar, todo dia, uma série de dados e relatos de violência contra as mulheres e, muitas vezes se enxergar como parte deles. De novo e de novo. É sentir raiva, medo e na maioria das vezes se sentir de mãos atadas frente a realidade que vivemos. Buscar enxergar esse cenário de forma mais ampla e entender as particularidades de cada mulher, de cada pessoa vítima das inimagináveis formas de violência, através do feminismo interseccional pode ser esmagador. Mas, ainda sim, é importante continuarmos buscando formas e mais formas de lidar com essa situação e, acima de tudo, transformar essa realidade.

E, por que faço essa reflexão? Para lembrar que a desconstrução, seja do papel de opressor, seja do papel de oprimido, não é um processo fácil e muito menos simples. Esse é um dos motivos pelo qual não existe como eu escrever uma receita de bolo sobre como um homem pode tratar uma vítima de violência. Porque a cultura do estupro e a violência de gênero podem se manifestar de diversas formas. E, ainda que eu enxergue que é necessário que cada pessoa individualmente se responsabilize por transformar essa realidade, também entendo que sozinhas não podemos mudar um cenário que é estrutural.

Queria muito poder dizer aos amigos, que já compartilharam comigo a impotência e os próprios traumas ao se relacionar com mulheres que foram violentadas (física ou psicologicamente), que existe uma forma de confortá-las contribuindo para sua emancipação, delas e de outras mulheres.

Queria muito poder dizer para qualquer pessoa que se relacione com outra, que sofreu violência ,que existe uma fórmula para não esbarrar nos traumas e viver um relacionamento tranquilo sem que isso seja uma questão.

Mas nada disso é possível. As violências de gênero, raça, orientação sexual, classe e tantas outras de opressão (assim como aquelas geradas em relações horizontais) deixam marcas e cicatrizes. Assim como as tentativas de superar esses traumas, numa sociedade que ainda acredita que temos responsabilidade no estupro que sofremos. Encarar essa realidade, principalmente se existe intenção de transformá-la, é inevitável.

O que posso fazer aqui é um convite para o debate, a reflexão e principalmente para ouvir e observar mais. Essa última sugestão vai principalmente para homens e pessoas de grupos mais privilegiados. Precisamos debater sobre o consentimento (verbalizado ou não). Precisamos debater sobre as variadas formas de manifestação de traumas de violência (sem cair em críticas moralistas e generalizantes). Precisamos debater sobre como manter relações sexuais e afetivas mais saudáveis nessa sociedade tão doente. Precisamos debater sobre a necessidade da desconstrução da masculinidade tendo em vista os alicerces em que ela foi construída.

O que é para um homem não ser um provedor, ou não ter sua vida centrada em dinheiro e sexo, ou não ser o suporte inabalável em nenhuma relação, ou ainda, o que é para um homem ser vítima de violência? Lembrando que mesmo a maioria das vítimas de estupro sendo mulheres e meninas, há uma porcentagem significativa de meninos que sofrem diversos abusos na infância. E, dentro da comunidade LGBT, a violência sexual contra homens não é tão inexpressiva assim.

Eu não tenho como responder essas perguntas agora, nem acredito que qualquer homem ou grupo de homens, por mais “desconstruídos” que sejam, possa responder isso sozinhos. Entendo que é importante que os homens comecem a encarar a cultura de estupro, a realidade em que estão inseridos e busquem transformar sua posição na manutenção desse cenário. Principalmente através de uma escuta ativa de tudo que as mulheres já vem pontuando a tanto tempo sobre essa situação, mas também com uma reflexão profunda sobre si mesmos e seu papel na sociedade.

Nesse sentido, termino esse texto com um único apelo: por menos textos romantizados e mais, muito mais debate.

[+] Ter alguém legal ao lado muda tudo, inclusive voltar a transar depois de um estupro por Carol Patrocínio.

Autor: Jussara Oliveira

Nerd em tempo integral, baladeira nas horas vagas. Ativista de espirito e aventureira por hobby.