Por que votar em meio à crise política?

Texto de Priscilla Brito para as Blogueiras Feministas. 

A concretização do golpe parlamentar no Brasil coincidiu com o início da campanha para as eleições municipais. O cenário aterrador do círculo de homens engravatados que formam o machistério de Michel Temer incentivou muitas feministas a fazer campanha para candidaturas que defendam os direitos das mulheres, o que significa que no momento de maior crise das instituições democráticas, saímos às ruas pedindo que as pessoas voltem a confiar nelas.

É como se vivêssemos exatamente o contrário do que acontece no livro “Ensaio Sobre a Lucidez” (1995), de José Saramago, quando a maioria das pessoas de uma cidade imaginária decidem ir às urnas para votar em branco. A chamada “epidemia branca” causa alvoroço entre governo, polícia e mídia, e coloca sob intenso questionamento a fragilidade da democracia, pois a vida segue, a despeito das suas instituições e rituais. Já por aqui, nessa realidade chamada Brasil, o governo Temer assumiu sem votos para legitimá-lo, mas com apoio de setores poderosos como o da mídia e do empresariado, que apostam num pacote de medidas para frear a crise econômica. Enquanto isso, “Fora Temer” virou saudação, para em seguida lançar como bote a ideia de que podemos mudar a política, se as prefeituras e câmaras se tornarem mais diversas e plurais.

No romance de Saramago, um dos ministros sugere que o voto em branco é uma manifestação da lucidez das pessoas. E, no nosso caso, qual seria o oposto? Por que estamos declarando votos, saindo às ruas, organizando listas de candidaturas de mulheres feministas, elaborando a campanha pelas Diretas Já, quando só no sudeste duas capitais tem grandes chances de eleger como prefeitos candidatos fundamentalistas?

Maio/2016 - Erundina “assume” presidência da Câmara em sessão informal no plenário. Foto de André Dusek/Estadão Conteúdo.
Maio/2016 – Erundina “assume” presidência da Câmara em sessão informal no plenário. Foto de André Dusek/Estadão Conteúdo.

Não tenho respostas, somente algumas precárias convicções. A principal delas é que acreditamos que a democracia capitalista era o fim da história, o arranjo possível que só precisava ser aperfeiçoado a partir da ampliação da participação e da implementação de políticas sociais. Miramos um horizonte de progresso, que para algumas desembocaria numa revolução cultural, depois na queda do patriarcado, e enfim na igualdade de direitos. Para outras, talvez não houvesse horizonte, mas algumas ideias de igualdade calcadas em noções como empoderamento, empreendedorismo feminino, real beleza e livre escolha, que até tornam o feminismo simpático para o mercado.

Entre as duas expressões, milhares de debates, muita visibilidade para alguns temas e manifestações, mas pouco sucesso em frear a ascensão conservadora. Ainda assim insistimos, antes a democracia do que a ditadura. Mas agora que vivemos um momento de crise das democracias latino-americanas, vale a pena questionar: as instituições são mesmo uma saída? Se sim, que mudanças por dentro fariam a diferença? Se não, quais são as nossas alternativas?

Questões, apenas questões, não tenho respostas. Esse texto era pra ser sobre as funções de prefeitas e vereadoras, algo importante para nos orientarmos nos debates nas cidades. Saiu esse, repleto de inquietações. Paciência. Amanhã eu volto, prometo, tentando responder o que afinal podem fazer vereadoras e prefeitas nos seus municípios em meio à crise política e econômica em que vivemos.

[+] Por que eleger prefeitas e vereadoras em meio à crise política?

Autor: Priscilla Brito

Priscilla Brito é brasiliense é escritora e cientista política formada pela UnB. Atualmente mora no Rio e faz mestrado em sociologia e antropologia na UFRJ. Também constrói o projeto colaborativo da Universidade Livre Feminista, de formação feminista online, e apoia o Agora Juntas, proposta de uma casa feminista na cidade do Rio.