Desculpe por estragar o seu céu: machismo no grafitti

Por Panmela Castro.

Eu recebi meus “amigos” em minha casa. Além das tintas, churrasco e cerveja de graça para todos, eu dei uma coisa muito mais importante: meu carinho. Eu, que sempre sou desqualificada como “a exibida” e “a que gosta de chamar atenção”, doei a minha energia para que seu painel ficasse bastante bacana com seus desenhos individuais. Eu pintei todo o fundo enquanto eles pintavam seus personagens e letras. Achei importante esta decisão porque mais do que fazer meu próprio graffiti, eu queria fazer algo pelo coletivo para que meus “amigos” ficassem felizes com os seus próprios desenhos e com o resultado final.

Uma parte desses meus “amigos” resolveu cobrir o céu criado com minhas estrelas com suas próprias, deixando o painel com dois estilos diferentes. Já antes, um deles me dizia como deveria pintar este céu. Veja bem, por estar doando o meu trabalho e tempo para complementar seus trabalhos, o mínimo que esperava ter era a confiança de que acreditariam que eu teria capacidade de criar um fundo bonito ali, e, caso não agradasse, eles deveriam, por respeito, deixá-lo como eu criei. Apagá-lo na situação onde eu dou tudo, e eles nada, é uma forma de impor sua superioridade e demonstrar que em nenhum momento eu teria qualquer tipo de direito, e que, enquanto mulher, eu estaria sempre ali com eles como uma serviçal para cumprir e respeitar os desejos e ordens dos rapazes e não como parte do coletivo com direitos iguais.

Rio de Janeiro. 2016. Mural "Nice" no Boulevard Olímpico, obra de Panmela Castro. De acordo com a mitologia grega, Nice é a divindade que personifica vitória, triunfo e glória. Imagem: Site oficial Panmela Castro.
Rio de Janeiro, 2016. Mural “Nice” no Boulevard Olímpico, obra de Panmela Castro. De acordo com a mitologia grega, Nice é a divindade que personifica vitória, triunfo e glória. Imagem: Site oficial Panmela Castro.

Esta é uma história de muitos outros acontecimentos do dia a dia no convívio com a minha Crew de graffiti onde sou humilhada e violentada sem ter o direito de contestar sem ser chacoteada. Talvez por isso possa ter me tornado uma pessoa que incomoda. Talvez por não aceitar esta minha posição como se espera que uma mulher aceite – sendo cúmplice de seu escravizador, sendo dócil, magra e meiga – não seja aceita nos seus grupos de WhatsApp, nem nas pinturas coletivas e muito menos nas festas. Talvez por isso não seja parte do grupo de verdade. Talvez por falar isso seja bloqueada de suas redes. Talvez não. Certamente.

Pensei que meu movimento poderia mudar algo em vocês, mas mudou mais em mim tornando-me deprimida e oprimida. Mas a culpa não é minha, ok? Eu não sou assim, se vocês respeitassem a mulher e eu não fosse tão maltratada, talvez eu tivesse o privilégio masculino de exercer a felicidade plenamente. Ter um portfólio superior a qualquer homem da cena para conseguir algum destaque poderia agravar esta tristeza, mas agora me proporciona ser independente e saber que para continuar tanto na minha arte como não minha vida “Eu Não sou obrigada”.

É por isso galera, que fecho este texto rompendo com estes meus “amigos” de crew e com esta situação de opressão no qual convivo há algum tempo. O homem sempre pensa no que é melhor para ele, mas quando a mulher faz isso, é julgada como egotista e até desequilibrada. Denunciar esta minha vivência e tornar este texto público não é ser egotista e nem querer atenção, é mostrar para outras moças que a violência existe e está nos mais sutis atos no nosso dia a dia, e que elas não precisam conviver com isso. Acredite, mesmo sendo boicotada, tudo isso vai ser bom para mim que precisarei, daqui para frente, aprender a voar.

Autora

Panmela Castro é artista plástica e grafiteira. Feminista, nascida e criada no Rio de Janeiro, apoia e incentiva a arte de rua produzida pelas mulheres brasileiras por meio da Rede Nami.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.