De novo? Privilégio de orgasmo, sexo casual e prazer feminino

Texto de Lauren Ingram. Publicado originalmente com o título: “Come Again? Orgasm privilege, casual sex, and female pleasure”, no site Medium em 11/10/2016. Tradução de Iara Paiva para as Blogueiras Feministas.

Nota da autora: Este artigo trata quase exclusivamente da vivência de mulheres cis, heterossexuais e suas experiências com orgasmos. Ainda que discuta vaginas, em nenhuma circunstância genitais determinam o sexo.

Nota da tradutora: o texto original apresenta, desde o título, diversos trocadilhos com a palavra “come” em inglês, que pode ser traduzida como “vir” e “gozar”.


Quando dizemos as palavras “orgasmo” e “privilégio” na mesma frase, o que vem na mente da maioria das pessoas é o privilégio que homens têm durante as relações sexuais: a capacidade de “espalhar sua semente” a maior parte das vezes, e o foco que nossa cultura dá ao prazer masculino sobre o prazer feminino.

Mas olhem só: eu tenho privilégio de gozar.

(Hashtag Ostentação).

Em um mundo onde muitas mulheres acham que orgasmos são uma ilusão, eles são uma ocorrência comum para mim, sozinha ou acompanhada, mesmo que meu parceiro na cama não se esforce muito. Posso contar nos dedos quantas vezes uma relação sexual na minha vida adulta não resultou em orgasmo, a maioria delas porque eu estava muito bêbada na ocasião. As relações sexuais consensuais e os orgasmos decorrentes delas sempre foram experiências extremamente prazerosas pelas quais eu já ansiava e apreciava de várias maneiras desde que era adolescente.

Sou uma raridade. Às vezes me sinto um pouco com uma Samantha Jones da vida real (sem as tiradas espirituosas, o trabalho glamouroso de relações públicas e o guarda-roupas colorido).

Samantha: Perdi meu orgasmo.

Carrie: No táxi?

Charlotte: Como assim, perdeu?

Samantha: Quer dizer, passei as últimas duas horas transando sem gozar.

Carrie: Acontece. Às vezes a gente simplesmente não consegue chegar lá.

Samantha: Eu sempre consigo chegar lá.

Charlotte: Todas as vezes que você transa?

Carrie: Ela tá exagerando! Por favor, diga que você está exagerando.

Samantha: Ok, eu assumo que precisei me dar uma mãozinha uma ou duas vezes, mas sim! Quando eu confirmo minha presença numa festa eu compareço com prazer!

O fato é que enquanto a maioria dos homens — cerca de 90-95% — atinge o orgasmo durante o sexo heterossexual, o número é muito menor para as mulheres. No estudo australiano da saúde e relacionamentos (ASHR) realizado em 2013, 92% dos homens disseram que gozaram a última vez que transaram, em comparação com apenas 66% das mulheres. Uma pesquisa informal, realizada nos Estados Unidos pela revista Cosmopolitan ano passado, relatou resultados semelhantes, com 57% das mulheres contando que regularmente tem um orgasmo durante o sexo, mas dizendo que os seus parceiros gozam 95% das vezes.

Essa diferença entre as experiências de homens e mulheres com o sexo pode ser chamada “o vácuo do orgasmo”. Com mais discussão e pesquisa sobre o tema, as mulheres jovens estão falando sobre sua frustração com suas experiências sexuais. A revolução sexual, a cultura pop e a pornografia lhes prometeram tudo e deu-lhes nada. Com um melhor acesso ao controle de natalidade e um menor estigma social em torno do sexo antes do casamento, as mulheres de hoje aparentemente estariam muito melhor que as de gerações anteriores.

Mas, ainda que muitas mulheres agora estejam livres para transar como quiserem, talvez elas não tenham relações de qualidade. Segundo Alana Massey, isso nos levou a uma nova era não de positivismo sexual para as mulheres, mas ao que ela chama de sexo “blah-tivismo”. “Para as mulheres que fazem sexo com homens, algumas das experiências mais frustrantes na vida são sexo com homens. Nós incentivamos as mulheres a transarem com tantos parceiros elas quiserem, mas depois não incentivamos veementemente os parceiros a serem bons de cama”, escreveu Massey no site do jornal The Guardian.

Aplicativos como Tinder e OKCupid estão fazendo sucesso, e a cultura da “ficada” dos jovens dos anos 2000 estão matando as pessoas das gerações anteriores do coração e provocando-as a escrever editoriais mordazes. Dizem que vivemos uma utopia sexual, com o fim de todos papéis de gênero e novos parceiros a apenas um deslizar de dedos de distância, mas as mulheres ainda estão tendo sexo medíocre. Enquanto isso, os homens alimentados com uma dieta de pornografia e objetificação das mulheres, estão exigindo que as mulheres façam cada vez mais atos sexuais sem restrições para seu próprio prazer.

A questão que fica: será que as mulheres são mais livres agora que estão tendo mais sexo, mas a qualidade continua na mesma média de antes do advento da revolução sexual?

Qualidade é importante, e ainda que sejam métodos imperfeitos, as estatísticas sobre o vácuo do orgasmo estão sendo usadas como um exemplo das desigualdades na forma como homens e mulheres vivenciam o sexo. Na pesquisa da revista Cosmopolitan, 40% das mulheres disseram ser mais propensas a ter um orgasmo quando se masturbam, indicando que não é que as mulheres não conseguem gozar, mas sim que seus parceiros não estão apertando os botões certos durante o sexo hétero. A razão é parcialmente biológica: a maior parte das mulheres requerem estimulação do clitóris para gozarem, que sexo hétero com penetração não oferece. Mas há também fatores históricos e sociais que afetam as experiências das mulheres e como os homens se aproximam dos corpos femininos.

Só nos últimos cinquenta anos as mulheres comuns começaram a abraçar sua sexualidade e seus desejos sexuais. Mesmo que tenha havido exceções — pense em mulheres como Madame du Barry, amante do rei Luís XV, ou a modelo fetiche Bettie Page — em sua maioria, as mulheres “respeitáveis” não foram autorizadas a manifestar interesse por sexo; pelo menos não abertamente. Aquelas que o fizeram foram párias sociais, e em casos extremos, internadas em hospícios. Em muitas culturas determinou-se que a sexualidade feminina é inexistente ou perigosa, e deve ser controlada pelos homens. Sexo era puramente para o prazer dos homens; mulheres foram aconselhadas a “deitar e pensar no bem comum” até que o marido acabasse.

Essas ideias e preconceitos ainda são evidentes no mundo moderno, de códigos de vestimenta em escolas que proíbem adolescentes de mostrarem seus ombros, passando pela prevalência do complexo de santa-prostituta, até a mutilação genital feminina. Mas eles também estão presentes no sexo heterossexual consensual. Durante anos, a maior parte de todo o conteúdo produzido relacionado ao sexo — de pornografia, artigos em revistas, à investigação de transtornos funcionais do sexo — tudo tem se concentrado em homens cis e heterossexuais. É por isso que temos o Viagra, por isso a Aids não foi levada a sério quando descoberta pela primeira vez, e o ato final dos pornôs é o orgasmo masculino.

Este desequilíbrio desvirtua a ideia de sexo e prazer para ambos, homens e mulheres. Uma cifra impressionante de 72% das mulheres entrevistadas pela revista Cosmopolitam disseram que já tiveram um parceiro do sexo masculino que gozou mas não tentou ajudá-las a atingir o orgasmo. Podem ter se passado décadas desde a revolução sexual, mas para muitas mulheres o sexo ainda é, principalmente, sobre o prazer dos homens. Ainda que as mulheres agora estejam autorizadas a desfrutar do sexo, o ato em si continua sendo sobre o que é bom para um homem. Muitas mulheres, que se resignaram ao sexo sem orgasmo, se sentem pressionadas a agir como se estivessem gostando, mesmo que não estejam. O sexo se torna performativo para que a mulher não magoe os sentimentos do seu parceiro.

Daí chegamos nessa situação; as mulheres devem agir como se estivessem curtindo o sexo, mesmo que não estejam, porque os homens querem sentir que suas parceiras estão aproveitando, mesmo quando focam-se apenas em seu próprio prazer. É um estranho beco sem saída — dizemos que as mulheres devem gostar e curtir o sexo, mas apenas como um efeito colateral do que dá prazer aos homens.

Parte do que causa o vácuo do orgasmo e a frustração com o sexo vivida pelas mulheres é a ignorância geral sobre a anatomia feminina. Apesar da importância da estimulação do clitóris para a maioria das mulheres, pessoas de ambos os sexos ignoram sua localização. Mas o problema pode ir além da simples ignorância sobre a estimulação. A sociedade nos impõe uma aversão à vulvas, não apenas aos homens mas às mulheres também. “Cunt” (buceta) é geralmente considerado o insulto mais obsceno em inglês. Vaginas são vistas como sujas e feias, especialmente durante a menstruação. Alguns homens heterossexuais expressam abertamente seu nojo por vaginas, causando nas parceiras inseguranças terríveis.

“Meu namorado de três anos nunca olhou diretamente para minha vagina ou mostrou o menor interesse além das preliminares normais. Ele faz sexo oral em mim de vez em quando, mas sempre sob a escuridão do edredom, admitiu que não acha vaginas especialmente atraentes e brinca que a minha é particularmente repulsiva. Fico muito magoada, envergonhada e considero o comportamento dele infantil. Ele brinca dizendo que os fluidos corporais são nojentos e sempre se lava depois de transar. Me sinto insegura e pouco atraente, e receio que nunca vamos curtir uma vida sexual interessante como a que eu tive com meus parceiros anteriores". Pergunta submetida a coluna de conselhos do site do jornal The Guardian.

No fim das contas, um dos motivos pelos quais os homens não se esforçam em dar prazer à mulheres é porque eles não apreciam nem compreendem partes do corpo que não são as suas. Eles mal compreendem as funções, e muito menos a beleza da vulva, lábios, clitóris. Na melhor das hipóteses, eles estão curiosos mas mistificados; na pior das hipóteses eles só vêem uma buceta como um buraco onde buscam o seu próprio prazer.

As mulheres não deveriam aturar sexo abaixo da média e sem orgasmos. O pessoal é muito político, mas há anos as mulheres têm tolerado sexo sem orgasmo. Devemos lutar pela igualdade não apenas em salas de reuniões e nas ruas, mas em nossos quartos. Nicki Minaj, ícone e heroína feminista, diz que se manifesta livremente e não aceita estar com um cara que não se esforça para dar a ela um orgasmo.

Eu exijo gozar. Acho que as mulheres tem que exigir isso. Eu tenho uma amiga que nunca teve um orgasmo em sua vida. Nunca na vida! Isso me dói o coração. É uma loucura para mim. Sempre temos conversas sobre orgasmo e, tipo, mostramos pra ela como fazer as coisas. Abrimos as pernas das outras dizendo: 'Você tem que pegar nele assim e fazer assim.’ Ela diz que gosta de dar prazer. Eu também curto, mas é meio a meio, disse Nicki.

Tenho sorte de raramente precisar exigir orgasmos. Sou um unicórnio mágico que perpetua o mito de que ter sexo agradável significa ter orgasmos múltiplos. Meu corpo simplesmente reage bem à penetração sexual heteronormativa (entre outras coisas). Por isso, mesmo se um cara não se esforça, é fácil para mim gozar. Mas o fato é que o corpo de cada mulher é diferente.

O problema está, ao que parece, em ideias pré-concebidas sobre o que constitui o sexo, e o que você precisa fazer e viver para ter prazer no sexo. Como a autora de The Sex Myth (O Mito do Sexo), Rachel Hills, destacou em uma entrevista para a revista India Trending Now, essas ideias são reforçadas pela cultura: “A mídia e a cultura popular nos vendem a ideia de que é possível conseguir prazer no sexo seguindo uma fórmula: faça movimento X, na duração Y e misture com um pouco de Z, você vai ser incrível na cama”.

Parte da fórmula para o “sexo bom” é, de acordo com representações de sexo nos meios de comunicação, orgasmos para ambas as partes. E, mesmo se orgasmos são ótimos, a razão pela qual nos concentramos tão enfaticamente neles é resultado de uma cultura dominada pelos homens, bem como reminiscência de conceitos puritanos nos quais o sexo é considerado apenas para fins reprodutivos. Por que fazemos do orgasmo o único indicador do que é uma experiência sexual aceitável e agradável Talvez o privilégio do orgasmo não seja um privilégio no fim das contas. Talvez ele só pareça assim porque ainda que tenhamos mais liberdade para fazer sexo casual, ainda estamos todos presos a pensamentos antiquados sobre o que é sexo e o que não é. Desencanar dos orgasmos pode nos levar a melhores experiências sexuais para ambas as partes, sem a pressão para gozar.

Dito isto, orgasmos são bons. Muito bons. E se as mulheres querem tê-los, mas são impedidas por estereótipos, deseducação e desinteresse do sexo masculino, isso tem que mudar. Parte dessa mudança vem com o fortalecimento das mulheres para falar sobre orgasmos sem vergonha ou constrangimento.

O orgasmos criam uma divisão entre as mulheres: aquelas com “privilégio de orgasmo”, que podem gozar com facilidade; e o resto, que se sentem abandonadas. É hora das mulheres exigirem que seus corpos recebam a mesma atenção íntima e o mesmo prazer que os homens recebem sem pensar duas vezes. As feministas da segunda onda do feminismo lutaram pelo direito das mulheres transarem sem consequências. Vamos lutar pelo direito das mulheres de fato aproveitarem tanto quanto possível.

Agora é hora de encabeçar esta questão e exigir igualdade. Não tem que ser tarefa das mulheres individualmente ensinarem seus parceiros do sexo masculino. Precisamos mudar nossa cultura para que se espere dos homens todos os esforços necessários para dar prazer às mulheres com quem estão transando. Este é um início de uma nova revolução sexual, e devemos todas nos unir para garantir que as mulheres tenham os orgasmos legitimamente merecidos.

Eu gosto de sexo. Gosto de orgasmos. E eu gostaria de criar uma sociedade onde as mulheres não só possuam a liberdade de ter o sexo que querem, mas também a justiça para ter o sexo bom que elas merecem — incluindo ou não um orgasmo.

Autora

Lauren Ingram é escritora, feminista, nerd política e bebedora de gim.

Referência da Imagem

A virada da maré. Ilustração de Charles Dana Gibson, 1901.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.