Crônicas Nada Diárias de Uma Feminista Interseccional

Texto de Camila Cerdeira para as Blogueiras Feministas.

Fui convidada a escrever essa coluna pro Blogueiras Feministas e como estou trabalhando a síndrome do impostor que habita em mim, não irei falar agora sobre a surpresa pelo convite e o fato de me achar sem talento de escrita, porém isso vai ficar para outro dia, outra coluna.

Eu pensei, preciso começar com um texto bom, sabe chegar chegando. E a confusão se instalou, do que eu iria falar? Entendam, sou uma mulher cis negra bissexual nordestina nerd e bipolar. Eu grito bingo no jogo da opressão, eu literalmente só não sofro transfobia e capacitismo físico. Por isso, me é tão natural ser uma feminista intersecional.

Dentro da comunidade negra a minha vivência como mulher não hetero é muitas vezes ignorada. Na comunidade LGBT, além de da bifobia que eu sofro de gays e lésbicas, eu ainda preciso lidar com o racismo velado ou não que existe na comunidade. O meio nerd é ainda um espaço muito masculino, branco e hetero, ainda que eu participe de grupos só pra minas ainda serão grupos muito brancos e heteros e eu vou continuar deslocada.

A internet é um meio maravilhoso para se fazer amigos que tem ideologias parecidas com as suas, mas eu sou nordestina e infelizmente muito dos parceiros e parceiras de militância que encontro em grupos onlines são do Sul/Sudeste do país e a realidade deles é completamente diferente da minha. E no topo disso tudo, ainda sou bipolar e nada na sociedade está preparada pra lidar com transtornos psicológicos.

Juntando tudo, eu sou uma pessoa socialmente isolada pelo simples fato de ser eu. Não existe um grupo ou local que consiga me aceitar e compreender integralmente, sempre vai ter um pedaço faltando, uma parte negligenciada. E em tempos antigos eu já retirei muito de mim para fazer parte de algum grupo, acredito que todas nós fizemos isso uma vez na vida e sabemos como isso dói.

Com a intenção de celebrar “mulheres, corpos e amor-próprio reais”, duas norte-americanas criaram o @loveyourlines, um perfil no Instagram que reúne fotos e mensagens de apoio sobre marcas como estrias e flacidez, causadas pelo ganho de peso durante a gestação, e em outros momentos da vida de muitas mulheres.

Entrando em choque tentando achar sobre como começar essa coluna, aos 27 anos, me dei conta de algo. Eu não vou escolher que parte da minha identidade é mais acessível ou mais aceita. Essa sou eu, esse mar de rótulos e identidades, uma completa confusão e que na maior parte do tempo eu não consigo compreender. Sou todas as minhas dores, mazelas e medos. Todos os meus erros e os meus acertos também, afinal ninguém chega aos quase 28 sem alguns acertos na vida.

Essa sou eu e eu me aceitei desse jeito. Você já se aceitou?

Acho que depois que a gente se aceitar podemos começar a discutir todos os paranauês e rolês desse feminismo interseccional.

Autora

Negra, nordestina, bi, escritora, fotógrafa. Nerd de criação, morando em Fortaleza onde faz parte da curadoria do Geekontro, parte da equipe do Preta, Nerd & Burning Hell. Espalhada virtualmente é mais fácil de encontrar no @CamilaAngel onde posso estar discursando sobre questões sociais ou sobre nerdiandade, muito provavelmente sobre ambos ao mesmo tempo.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.