Não deslegitime a luta das pessoas trans por meio de estigmas transfóbicos

Texto de Bia Pagliarini com contribuição de Vinicius Medeiros.

Uma reflexão vale aqui por um enunciado que eu li sobre os “perigos” do pós modernos. Sujeito diz: “acho muito mais importante lutar pelos trabalhadores do que lutar para que playboy use saia em universidade”.

Eu gostaria de falar muitas coisas sobre esse raciocínio e o centro do meu argumento seria de que essa frase é transfóbica. Alguns poderiam objetar: “mas Bia, a luta de pessoas trans “de verdade” nada tem a ver com playboy que quer usar saia em universidade pra ‘zoar'”. Eu me pergunto: será mesmo? Qual é a visão e o imaginário social sobre pessoas trans? Nossas vidas trans não são vistas como dignas de serem vividas e qualquer deslegitimação da nossa causa política é efeito disto — mesmo que sob o véu da distorção.

Para quem tá falando em pós modernismo falar de uma luta pra “playboy usar saia” não se dissocia da deslegitimação como um TODO da luta trans. Pejorativamente, toda luta pela dignidade das vidas das pessoas trans pode ser resumida à “macho poder usar saia”. Toda vida trans não é vista como digna de ser vivida e qualquer pauta política de pessoas trans é vista com escárnio.

Além disso, num país em que mais de 90% das travestis e mulheres transexuais estão na prostituição é importante se questionar de onde que algumas pessoas acreditam que a militância de base, essa que se organiza muitas vezes a despeito e à revelia da academia, está lutando por direitos do “playboy”. As pessoas têm outras prioridades. Sobreviver é uma delas. Não tem uma monte de pessoas trans organizando cursinhos pré-vestibulares país afora à toa — pra citar uma das ações.

Foto de Kate Henderson. No Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Eu há muito tempo tenho mostrado como é importante a nossa militância ser crítica ao estigma que recai sobre “homens que se vestem como mulher” justamente porque esse estigma recai de forma ainda mais pesada sobre travestis e mulheres trans.

O enunciado que fala sobre “playboy” tenta apenas camuflar a sua intenção: ridicularizar vidas e pautas, e sabemos quais vidas e pautas concretamente são inviabilizadas e invisibilizadas em nossa sociedade quando se tira chacota de uma luta “pra que se possa usar saia”.

Falar mal de playboy com discurso de esquerda é fácil, ninguém em sã consciência vai querer defender playboy. O problema é este esquecimento sobre vidas que são de fato muito mais vulneráveis de que as vidas de “playboy” e estão em jogo — a vida de travestis e transexuais expulsas de casa, do mercado de trabalho e de instituições que garantem direitos (inclusive a universidade, veja só). Este esquecimento que é muito conveniente para discurso transfóbico, seja ele discurso de esquerda que se julga defender trabalhador.

Também não sei que classe trabalhadora abstrata é essa da qual se fala, de onde sai essa fixação por uma categoria única na qual o trabalhador pode se encaixar, criando essa entidade metafísica de alguém que não tem raça, gênero, sexualidade, subjetividade, individualidade, etc. É quase como se o trabalhador só pudesse ser objeto da esquerda elucidada ou da direita reacionária, nunca sujeito de si próprio, nunca capaz de se auto-enunciar. Esse é um pensamento bem perigoso.

Esse texto foi publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 22/11/2o16. 

Autor: Bia Pagliarini

Sou mulher trans - síntese disjuntiva inclusiva entre travesti e transexual. Transexual ou travesti? Sim, e também outras coisas. Revoltada contra o cistema, transfeminista e interessada na forma como o discurso pode ser utilizado como arma de resistência.