Saia, batom, flor e glitter na barba

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Nas últimas semanas observei várias falas, posts e atitudes pondo em xeque uma tal figura já bastante conhecida para o ativismo feminista: o “Esquerdomacho”, também conhecido como “Feministo”. Aliás a gota d’água para eu me aventurar a tocar no assunto foi o compartilhamento de imagens traçando o perfil destas tais figuras, algumas postagens vindas de páginas bem preconceituosas e cheias de discurso de ódio mas que foram largamente compartilhadas no facebook por mulheres que se identificam com o feminismo.

Quero pontuar aqui que quando falo desses caras, estou falando daqueles homens cis que se aproveitam de alguns espaços e pessoas feministas ou de outros movimentos sociais para ganhar algum tipo de vantagem. Seja para alimentar o próprio ego, seja para se aproveitar da vulnerabilidade de algumas mulheres, seja até mesmo para encobrir violências praticadas. Toda ativista já conheceu uma ou várias dessas histórias.E minha maior crítica, não é sobre passar a mão na cabeça desses caras, mas evitarmos buscar um perfil de comportamento e vestimenta facilmente identificável dessas figuras.

Eu, particularmente, gostaria muito que o feminismo se preocupasse menos com homens dentro ou fora do movimento do que com os próprios objetivos e ações que podemos tomar. Mesmo achando que é importante a lembrança de que os homens que compartilham dos nossos espaços não estão isentos de seus privilégios concedidos pelo patriarcado. Mas vamos combinar uma coisa? Se todo cara é esquerdomacho ou feministo. Nenhum cara é esquerdomacho ou feministo.

Mas o que eu quero dizer com isso?

Bem, se a gente se preocupa mais em apontar do que em refletir, debater e problematizar de fato, no fim acabamos nos perdendo no meio do caminho e nos prendemos a uma crítica vazia. Que perde a razão de existir. E quando digo isso não quero apontar e culpar as mulheres que se sentem ameaçadas por essa figura. Muito menos me compadecer de homens que eventualmente se sintam chateados com a atitude de algumas mulheres.

Como citei, eu sei que existem homens que entram no movimento feminista só para pagar de desconstruidões e acabam violentando várias mulheres. Nos últimos anos tivemos vários tumblrs e relatos públicos denunciando esses caras, além de movimentos espontâneos nas redes como os relatos do #MeuAmigoSecreto.

Outro ponto que quero levantar é o quanto nós mesmos não perdemos muito ao nos deixar levar por essa lógica maniqueísta de que existem homens bons ou maus apenas. Da mesma forma que não acredito, ou pelo menos não acho que deveríamos gastar nosso tempo tentando classificar homens de esquerdomachos ou feministos, também não acredito que exista qualquer pessoa que seja desconstruída de fato em qualquer meio que seja.

Quem aí já não sofreu com companheira de luta ferrando seu psicológico? Porque somos todas pessoas, com nossos egos, desejos, limitações, humores e visões de mundo. Mesmo em grupos que só há mulheres há disputas de poder, de ideologias. Isso faz parte e nem todas vão estar fortes o suficiente naquele momento para compreenderem isso. Por isso é importante que existam grupos mais acolhedores e outros que são mais focados em ações e estratégias externas. Portanto, é necessário também que existam grupos fechados de mulheres além de grupos mistos, que permitam a participação de homens, para que cada pessoa encontre o que é melhor para si naquele momento e, possa criar os alicerces para sua luta.

Glitter. Foto de Nadine Kelly no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Porém, a minha questão principal com esse texto é: por que perdemos tempo julgando pessoas e não ações e atitudes? Porque os motivos que levam uma pessoa a ser preconceituosa, por exemplo, são várias, por isso nós também podemos cometer as mesmas atitudes que criticamos.

Nós não gastamos tanto tempo debatendo sobre quais opressões são estruturais ou não pra sair por aí agindo como se existisse um selo do INMETRO ou um certificado de proficiência feminista, certo???

Eu particularmente não dou a mínima, por exemplo, para o que ou como os caras andam se vestindo. Ainda mais em espaços feministas (afinal, uma coisa é um homem usando uma saia num protesto feminista, outra é ele usando a mesma saia, sozinho, no centrão da cidade em horário de pico). Ninguém vai me ver aqui levantando um dedinho que seja para aplaudir ou escrachar esse tipo de atitude. Minha preocupação com os homens que participam dos mesmos círculos ativistas e de amizade que os meus é se eles respeitam as mulheres à sua volta, se em algum momento erraram, souberam reconhecer e buscaram tomar alguma atitude, se eles se dispõe a ouvir de fato e, principalmente, se sabem ouvir um não e se afastar quando necessário.

Além do que, eu já vi e ouvi sobre situações em que feministas estavam tão preocupadas em escrachar certas figuras por usar certas roupas ou demonstrar afeto em certos espaços que no fim acabaram atacando uma pessoa trans ou até mesmo outra mulher cis no meio da “empolgação”.

É muito importante lembrar que desconstrução é trabalho pra vida inteira, sempre tem alguma coisa que podemos rever na nossa rotina que pode contribuir para uma redução de danos causada pelas tantas opressões que existem por aí. Além de termos muito ao que resistir e pelo que lutar para que a nossa realidade mude de fato.

Para tanto acho importante observarmos algumas coisas:

– Onde e com o que gastamos nosso tempo e energia na militância;

– Se julgamos que um homem (ou qualquer pessoa) não é capaz de cometer violência só porque participa de certos espaços, age de certa forma ou conhece certas pessoas, não estamos nós mesmas contribuindo para que certas violências sejam questionadas ou relativizadas? Digo isso porque já ouvi justificativas questionando vítimas porque os caras “andavam na linha” e tinham amigas feministas. Isso nunca deveria ser critério para questionar a violência exercida por ninguém. E aí o extremo oposto também se aplica ao achar que um cara esteja querendo tirar vantagem de um espaço só porque usa saia;

– Ninguém nasce manjando tudo sobre feminismo, e tem muita gente que demora bastante pra mudar algumas atitudes.

Acho sim que a masculinidade precisa ser mais debatida e problematizada, assim como a branquitude, a heterosexualidade, a cisgeneralidade, etc. Só tenho uma leve sensação que zombar de quem está tentando, ainda que pelos motivos mais questionáveis, não contribua muito para que qualquer transformação aconteça. E quando digo isso não estou de forma alguma cobrando uma postura dócil e condescendente do ativismo de ninguém, mas questionando se algumas ações apressadas não podem acabar atingindo quem não esperamos atingir.

Por fim só queria dizer que:

– Roupa e glitter não tem gênero;

– Batom, maquiagem e roupas ditas femininas já vem sendo usadas por homens da comunidade gay há muito tempo;

– Saia é legal (demorei anos pra descobrir);

– Ficar usando glitter e purpurina suja demais a casa.

Autor: Jussara Oliveira

Nerd em tempo integral, baladeira nas horas vagas. Ativista de espirito e aventureira por hobby.