Sobre o limbo entre a invisibilidade e o ridículo

Texto de Gabriela de Jesus.

“Capoeira que é bom sabe cair.”

Há uns anos atrás frequentei um projeto de capoeira em Guarulhos e a princípio entrei no grupo para aprender a tocar os instrumentos, mas a professora e o mestre primavam que todos tinham que saber fazer tudo, então comecei a treinar. Logo no primeiro treino, levei um golpe e cai, óbvio. FOI HORRÍVEL!

Nossa, não queria nunca mais entrar na roda, não queria ter que passar por aquilo de novo e constatei uma coisa muito interessante: EU TENHO PAVOR DE CAIR. Ninguém é afeito a cair infinitamente, mas enquanto os outros caiam e riam de si, se animavam em continuar, eu ficava eternamente envergonhada, sem saber como lidar e passei a refletir sobre essa diferença. Percebi que por ser gorda, cair é quase que um pavor constante por ser justamente a hora que as pessoas mais usam para nos ridicularizar.

Quer ver um exemplo? Quando uma pessoa magra entra num bar/ restaurante/sala de aula ela olha a cadeira e analisa se vai aguentá-la ou não? Toda vez, toda vez? Pois bem, se um magro sentar na cadeira e ela quebrar é porque a cadeira estava quebrada, agora se uma pessoa gorda sentar na cadeira e cair ela deixa de ser um “corpo invisível” para o “corpo ridículo”: Também olha o tamanho dela, não se enxerga. Come feito um boi, quer o quê? (Mesmo que nem tenha ideia do quanto a pessoa coma e isso realmente não tem a ver com ela). Também pra essa pessoa a cadeira tem que ser de ferro!!! RISOS RISOS RISOS INFINITOS RISOS nunca a alternativa da cadeira estava quebrada aparece.

Tenho refletido muito sobre como ser gorda desde sempre afetou a construção da minha subjetividade e como tenho como situações desagradáveis algo que para as pessoas é comum e até banal.

Durante o ano 2000, estudei num colégio que era tipo magistério e me lembro que nesse ano eu USEI MOLETOM/BLUSA DE FRIO O ANO INTEIRO. Fazia sol, fazia chuva estava de moletom. Mas não era pra ostentar meu curso e nunca me lembrava da razão disso, até eu perceber que tenho a impressão de que como era nova na escola, tive que comprar uma camiseta de uniforme nova. Provavelmente ela ficou apertada (nem vou comentar sobre roupas G padrão) e devo ter ficado envergonhada e por isso um ano inteiro, meus 15 anos passei desse jeitinho aí, me escondendo. Ah, regata? nunca, jamais, morria de vergonha do meu braço. Nas aulas de educação física no ensino médio inteiro que me lembre, me pesava escondido e meu pesadelo por tempos foi imaginar as pessoas da minha turma saberem quantos quilos eu pesava.

Receber elogio é outra cena, não sei receber elogio. Sempre acho que a pessoa está mentindo, tentando fazer média ou querendo me ridicularizar. Não sei como reagir, normalmente sorriso amarelo e mudança de assunto. Mas suave, adianta nada a pessoa me chamar de “maravilhosa” e só ter afeto por gente magra, muito sensata minha desconfiança.

Outdoor no metrô. A foto é da atriz Gabourey Sidibe, que participa da Campanha #ThisBody da marca Lane Bryant.

Usar roupas que marquem a barriga ou muito coloridas, muito curtas, maquiagens, adereços, enfim, esse desafio tenho me feito desde ano passado (em partes) usando coisas mais coloridas, mais vestidos, roupas mais curtas, mas sempre que alguém passa rindo perto de mim penso ser eu o motivo do riso. Toda vez. Quase insano.

E começar um novo relacionamento e a insegurança de se despir na frente da pessoa, de pensar se algo “sensual” pode ser lido como “UAU” ou como ridículo. Sempre um questão.

Tenho a impressão de que a gordofobia foi tão ardilosa em interferir no meu jeito de lidar com os outros e comigo que chega a ser bizarro. Para os outros, pralém da força da mulher negra ainda gorda EPA: forte pakas, não precisa de ajuda pra nada, não chora nada e ajuda todo mundo. Adoro ela… Zzzz.

Sobre me olhar, percebi que negligenciei meu corpo, como diziam que era feio, incapaz, inadequado, não deixava de fazer coisas ou frequentar lugares na maior parte das vezes, mas não me olhava, não olhava minha barriga, minhas coxas, meus braços. Acordava, colocava roupa, ia pra labuta. Quando alguém falava: “Olha, isso é celulite”, daí que ia reparar que tinha celulite, que tinha estria, que a barriga é assim ou assado. Perverso você desconhecer seu corpo, ignorá-lo totalmente para não pirar mais ainda.

Confesso que desde que me entendo por gente sou gorda, olho com mais cuidado e respeito para o espelho, nem sempre me sinto feliz com meu corpo, pois na verdade acho que de tanto lutar contra a gordofobia eu ando cansada. Cansada de ver que a pessoa gorda é inteligente e esforçada, mas e linda, bonita? Falaí aquela sua amiga gorda, quando foi a última vez que você se lembra que ela esteve em destaque?

Pois bem, ando cansada de ter que lutar contra um monte de coisa e, ainda assim, se falo das minhas sensações acabo sendo tirada de vitimista. Não sei se é meu olhar que está contaminado (e pode estar), mas só ando vendo pessoas de destaque/sucesso magras. Pode ser viagem, pode ser bad, mas pode não ser e acredito que tem muito o que ralar pra mudar esses placares, para entendermos que a diversidade é em si bela.

Dedico essa postagem à todas minas gordas do meu Face, pelos olhares que temos que suportar todos os dias, pelos desaforos e preterimentos, por toda força e beleza que enfrentam(os) nas lutas. Não está fácil, mas nunca foi. Acesso e exponho algumas experiências negativas para ver se encarando-as assim de frente e de forma coletiva eles possam doer menos (em nós) e o caminhar seguir menos doloroso.

Tamo juntas, por que sabe né? Pra nos invisibilizar é um, dois.

Texto originalmente publicado em seu perfil do Facebook no dia 21/12/2016.

Autora

Gabriela de Jesus é mulher negra da periferia de Carapicuíba/Grande São Paulo. Militante feminista, antirracista e anti gordofobia em cada célula do corpo!

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.