Por Higui e por todas: unidas as feministas podem tudo

Texto de Mary Lara-Salvatierra para as Blogueiras Feministas.

Os coletivos feministas da Argentina estão há vários anos na luta para mostrar os danos que a violência machista causa as mulheres daquele país. Só para exemplificar, de janeiro a abril de 2017, os dados indicam que uma mulher foi assassinada a cada 25 horas tendo como motivação a violência de gênero. Até o momento são mais de 150 mulheres que foram assassinadas por maridos, namorados ou ex-parceiros.

Na Argentina, as mulheres vivem uma situação muito particular, já que os movimentos feministas tem visibilidade, há organizações que tem inspirado muitos outros movimentos na região, e as mulheres estão conquistando muitos direitos graças à luta diária que fazem sem cansar. Porém, apesar da luta e de todo o trabalho, os feminicídios são notícia todos os dias.

Não é uma questão de insegurança, é uma questão de violência machista que deveria ser, pela magnitude do problema, uma questão de estado, mas ainda não é. O sistema judicial da Argentina, como em outros países da América Latina, ainda tem muitas coisas para melhorar à favor da mulher e dos coletivos LGTBQI.

O caso de Higui é um acontecimento que mostra todo o poder que nós, feministas, temos. E mostra como podemos retomar os direitos que o sistema patriarcal está nos roubando.

Eva Analía de Jesús — a quem seus amigos chamam de Higui (porque ela é goleira e lembra o goleiro colombiano Higuita) — é uma mulher lésbica que foi presa por lutar contra dez homens para evitar ser estuprada.

Durante muito tempo, Higui sofreu ameaças em seu bairro desse grupo de homens que queriam “corrigir” sua sexualidade. Ela foi assediada inúmeras vezes, escapou de uma situação similar 15 anos atrás, quando o grupo a agrediu, levando três facadas nas costas pelas quais teve que ficar no hospital. Nesse primeiro ataque ela não fez uma denuncia, até chegou a dizer para algumas pessoas que seus ferimentos foram causados por uma tentativa de assalto.

Ela teve que mudar de bairro e, cada vez que voltava lá, levava uma faca por precaução. Infelizmente, no dia 16 de outubro de 2016, ela teve que usá-la para se defender. Um grupo de dez homens tentou estuprá-la. Dez homens preparados para feri-la, humilhá-la e bater nela. Eles rasgaram suas roupas, sua calcinha, a tocaram enquanto diziam coisas horríveis, insultos cheios de ódio. Cristian Rubén Espósito deitou-se sobre ela, nesse momento, ela conseguiu usar a faca que tinha e o apunhalou no peito, foi a única facada que ela deu e conseguiu acertar, de modo que o agressor morreu posteriormente.

Quase oito meses depois — após muitas marchas públicas de coletivos feministas como #NiUnaMenos e #AsambleaLésbicaPermanente — determinaram que Higui sairia da prisão e poderia esperar o julgamento em casa. É preciso lembrar que os outros nove agressores ainda estão em liberdade e a causa foi tipificada como homicídio simples, sem levar em conta que Higui agiu em legitima defesa.

A importância deste êxito feminista e da pressão popular precisa ser replicada em toda América Latina. Demonstramos que juntas podemos alcançar a justiça que necessitamos como mulheres, a justiça que o mundo quer. Temos demonstrado que somos muito mais fortes do que o sistema corruto que insiste em nos roubar a liberdade, que insiste em negar que estamos sendo assassinadas e que fecha os olhos diante da violência machista que nos oprime.

A luta das companheiras argentinas é um exemplo do poder das manifestações pacíficas. Agora, a luta vai continuar por todas as mulheres desaparecidas, por todas as meninas vítimas, por todas as pessoas que precisam de justiça. Vamos continuar até o final com o caso de Higui, porque agora celebramos sua liberdade, mas o triunfo final será quando a justiça argentina disser que Higui foi absolvida das acusações. Por isso vamos lutar, por isso não vamos descansar, unidas as feministas podem alcançar a justiça que o mundo necessita.

Autora

Mary Lara-Salvatierra é filósofa, feminista e globetrotter peruana. Seu verbo favorito é Lutar.

Imagem: Higui/Arquivo Pessoal.

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Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.