Por que o Ciberativismo é tão valioso para o feminismo?

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

“Sai desse Facebook! Compartilhar textão feminista nas redes sociais não vai surtir efeito nenhum”, me disseram. Mas se a gente se dispor a analisar um pouco mais profundamente o quão significante é o fato de hoje nós, mulheres, ocuparmos esse espaço, fica bem fácil entender.

Antes de mais nada é sempre importante ressaltar que nenhuma de nós pode ser ingênua; a gente não pode, e nem deve pensar que a internet é algo que veio salvar e resolver todos os problemas (no entanto, ela ao menos nos abre espaço para apontar eles), porque afinal de contas: 1) ainda existe exclusão digital no brasil e no mundo; 2) todas nós estamos inseridas em uma diversidade incalculável de sistemas, e esses sistemas se mantém através de dispositivos — operadores materiais de poder — que interferem direta e indiretamente na nossa vida. Então sendo o computador — e a internet — um desses dispositivos, inevitavelmente, eles também estão inseridos em relações de poder, servindo como suporte pra algumas dessas essas relações. O poder, na atualidade, depende da tecnologia, seja no estabelecimento militar e de segurança, ou no setor financeiro, na mídia, e nas instituições de ciência e tecnologia, existe uma cultura virtual, isso é muito perceptível: a cibercultura está envolvida em todos os âmbitos da nossa vida, e isso se expandiu e alcançou a militância feminista.

Mas antes de entrar no ciberativismo feminista, um breve passeio pelo caminho trilhado desde a criação do computador até a sua ocupação pelos movimentos feministas, pois é muito significativo que a gente entenda o que existe de resistência em cada post que a gente replica, cada comentário, mensagem inbox ou até mesmo cada vez que um homem abusador é exposto nas redes sociais.

O “pai” do computador nasceu durante a segunda grande guerra. Ele foi construído por Alan Turing, que trabalhava para a inteligência britânica. Essa máquina, denominada “The Enigma”, literalmente pôs as tropas aliadas à frente do eixo. Pois, através da criptoanálise, ela identificava qual seria a próxima ação executada pelos inimigos. A internet foi criada mais tarde, em 1960, pelos estadunidenses, no intuito de proteger documentos de um possível ataque às bases militares; ela era basicamente usada para transmissão de dados. Mais tarde, em 1992, a internet deu mais um passo em direção do que a gente conhece hoje: foi criada a world wide web (WWW), ou rede mundial de computadores, pelo Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla original), exclusivamente para troca de conhecimento científico. Depois disso Bill Gates e Steve Jobs entram em cena, transformam as máquinas que até aquele momento só eram acessadas por programadores e/ou pesquisadores em algo com uma interface mais “acessível”. Sim, entre aspas, afinal essa acessibilidade da internet fica questionável se analisarmos quem colonizou a rede – homens brancos.

Então até aqui possuímos os seguintes dados:

a) máquina que antecedeu o computador criada por homens, para fins de guerra;

b) internet criada durante a guerra fria, para proteger documentos dos estadunidenses de um possível ataque;

c) WWW criada dentro de um centro de pesquisas nucleares, para troca de conhecimento científico.;

d) colonizada por homens brancos.

O computador hoje (e todos os dispositivos que foram pensados a partir dele, como os smartphones, por exemplo) é um dispositivo que conectado à internet passa a atuar como mídia (todo suporte de difusão da informação que constitui um meio intermediário de expressão capaz de transmitir mensagens), o que colaborou para a mudança no paradigma da comunicação — que antes sabia bem delimitadamente quem produzia os produtos da comunicação e quem os consumia (no caso, nós). O movimento que pode ser observado atualmente é que as pessoas que tem acesso à internet tanto consomem quanto produzem material para outras pessoas consumirem.

Quando se envolve mídia na discussão, o caminho a ser trilhado certamente é o da esfera do discurso. E aqui a gente precisa estar ciente de que a ordem do discurso de determinado momento histórico possui uma função reguladora e coloca em funcionamento mecanismos de organização do real por meio da produção de saberes (foi Foucault¹ quem disse). Ou seja, o poder regula a sociedade através do saber, logo, todo discurso possui um viés ideológico.

“Saber” é um termo chave. Porque a dominação, o poder, tem uma relação estrita com o saber. Os saberes femininos são hoje tidos como inferiores aos saberes masculinos. “Ah, Nathalia, como assim, tu estás dizendo que as mulheres são menos inteligentes?”. Não, nunca. Eu tô dizendo que em dado momento histórico os homens se colocaram nessa situação de privilégio, e pra ser mais específica, eu costumo usar o exemplo da divisão sexual do trabalho, que é um dos grandes marcos dessa sujeição. O desenvolvimento das novas formas de produção culminou na mudança da situação social da mulher. O surgimento da propriedade privada possibilitou aos homens se apropriar do excedente da produção e, ao mesmo tempo, estabelecer o privado como o local de pertencimento da mulher, que passou a dedicar seu tempo aos cuidados da casa e dos filhos. O casamento serviu de ícone do controle da sexualidade feminina.

Então, às mulheres (brancas) que eram esposas desses homens ficou estabelecido o “pertencimento ao lar”, enquanto o homem era um sujeito público. E assim eles obtiveram acesso à educação, cultura, entre muitas outras coisas; ou seja, condições de múltiplas possibilidades. Os saberes masculinos se estabeleceram como hierarquicamente superiores, conceituais, qualificados, científicos(!) e às mulheres coube justamente o contrário. Mas preste atenção que todo saber sujeitado hora ou outra encontra uma forma de insurgir (aqui de novo quem disse foi Foucault¹). A gente chega lá.

Então, os homens dominaram as mulheres, os saberes, a política, a religião, a economia, etc. etc. etc., entre esses etcéteras estavam o discurso e a mídia. Logo, o discurso, mesmo quando falava de mulheres, falava de uma perspectiva masculina, enunciando o que deveria ser uma mulher sob os olhos de um homem. Ou, nas palavras de Beauvoir²: “a humanidade é masculina, e o homem define a mulher relativamente a ele”. Os discursos midiáticos ao longo da história tendem a seguir essa linha de raciocínio de sujeição da mulher. E a única forma de modificar essa situação é deixar que as mulheres falem por si. Mas o foco do ciberativismo não pode ser apenas a fala, mas a relação entre a fala e os saberes femininos.

É nesse sentido que as mídias sociais surgem com um leque de possibilidades para os movimentos feministas. Dentro desses ambientes, mulheres das mais variadas localidades possuem espaço para falar sobre as suas vivências, insurgindo ante a dominação dos seus saberes, e por isso é tão significativo que a internet seja ocupada: é um espaço criado por homens, para fins de guerra, sendo instrumentalizado para combater a violência que eles vem nos causando.

Print do Facebook de Débora Nisenbaum com autorização concedida a autora.

Portanto, uma das possibilidades centrais que a internet trouxe pra nossa vida é a possibilidade discursiva, para que nós mesmas façamos corpo de contra-discurso. Neste ambiente a gente encontra e ocupa um espaço que há muito nos foi negado, assim como, temos a possibilidade de narrar nossas histórias. E, através disso, se conectar a redes de mulheres que passaram pelas mesmas situações.

“Enquanto os leões não tiverem os seus contadores de histórias, as histórias das caçadas glorificarão os caçadores”, Provérbio yorubá.

Um ótimo exemplo é o combate aos relacionamentos abusivos. Podemos observar uma onda de mulheres respondendo à violência desses abusadores através das redes sociais. E quando falam, elas encontram suporte em outras mulheres e também ajudam outras mulheres que ainda não perceberam as amarras invisíveis dos relacionamentos abusivos a identificarem esses traços em seus próprios relacionamentos.

A partir da possibilidade de construir nossas próprias narrativas, insurgir desconstruindo pensamentos e construindo saberes através da coletividade, criamos possibilidades de vivências nas quais a violência de gênero é identificada com facilidade por mulheres que não a tem mais como algo natural, que passam a lutar para desconstruir esses discursos e apontar a direção que se deve seguir para uma sociedade mais igualitária. Igualitária para todas: um local no qual uma variedade imensa de feminismos encontram possibilidade de fala.

É nesse sentido da fala que gosto de ressaltar o ciberativismo como uma ferramenta muito valiosa — que talvez não esteja sendo utilizada em toda a sua dimensão. A autora indiana, Chandra Mohanty³, fala da necessidade de descolonizar o pensamento feminista. Em uma de suas pesquisas, ela constatou que existe um discurso proferido por feministas de países “desenvolvidos” que acabam por criar/construir uma imagem reificada das mulheres nos países subdesenvolvidos, como uma classe homogeneamente submissa, sem levar em conta, em nenhum momento, as subjetividades dessas mulheres, e principalmente suas formas de resistência. Pois bem, Chimamanda já havia alertado sobre os perigos de uma história única, que é o que acontece quando não temos o direito de contar nossas próprias histórias.

Neste sentido, o ciberativismo se mostra um dispositivo importante nessa caminhada de descolonizar o feminismo. Pois abre possibilidades para as mulheres que estão fora do eixo hegemônico EUA-EUROPA. Penso que a partir desse dispositivo existe uma possibilidade de se construir um feminismo mais atento às demandas de uma variedade maior de mulheres: negras, amazônidas, trans, mães, indígenas, quilombolas, etc. etc. etc; mulheres que vêm sendo silenciadas dentro do próprio movimento feminista, mas que dentro das redes sociais têm falado acerca de suas demandas. Infelizmente não serão todas que desfrutarão dessa possibilidade, mas se a gente se faz ouvir, é muito importante que não nos esqueçamos de não falar por essas mulheres, mas buscar abrir espaço para que elas mesmas possam falar. Caso contrário, estaríamos sendo agregadas à hegemonia. E a gente não quer reforma, né? A gente quer revolução.

Referências

¹ FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 28 ed. Tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro, Graal, 2010.

² BEAUVOIR, Simone de. O segundo Sexo. Círculo do Livro. São Paulo: 1986.

³MOHANTY, Chandra Talpade. Under Western Eyes: Feminist Scholarship and Colonial Discourses. Boundary 2, v. 12, n. 3, p. 333-358, 1984.

Autora

Nathália Fonseca tem 24 anos. É natural latinoamericana-amazônida-paraense-belenense, mãe solo de Gabi e Enzo, bacharela em Comunicação Social: Multimídia. Tentando conciliar a vida de pesquisadora do ciberativismo feminista com a maternidade e a militância, mas como é capricorniana tem certeza que um dia consegue.

Créditos da Imagem: Ciberativismo feminista, criação da autora Nathália Fonseca.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.