A mídia brasileira sempre dá uma segunda chance para agressores de mulheres

Texto de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Esse mês, estreou na Rede Record, a nona edição do reality show: A Fazenda. Entre os participantes estão dois homens que foram denunciados por agredir mulheres que eram suas namoradas: Yuri Fernandes e Marcos Harter. Mesmo com o feminismo sendo pauta na mídia e cada vez mais denúncias públicas de agressões, a TV brasileira segue promovendo a naturalização da violência contra as mulheres.

Em 2014, Yuri Fernandes foi preso em flagrante por agredir Ângela Souza. Em abril de 2017, Marcos Harter foi expulso e indiciado por agressão a Emilly Araújo durante o programa Big Brother Brasil (BBB) da Rede Globo. A proposta da atual edição de A Fazenda é ser uma “segunda chance” para participantes de reality shows que não ganharam o grande prêmio final. O que leva a Rede Record a convidar dois notórios agressores de mulheres para um reality show? O que leva a mídia brasileira a nunca ser responsabilizada por enaltecer agressores de mulheres? Por que agressores de mulheres são tratados constantemente como coitados e merecem uma segunda chance?

A mídia brasileira faz escárnio e chacota da violência contra a mulher ao dar espaço e visibilidade para esses homens. A mensagem transmitida é que esses homens fizeram uma “besteira”, tiveram um “comportamento inadequado”. O histórico dos reality shows brasileiros nos mostra que agressores de mulheres tem grande apelo popular, são apresentados como “conquistadores” ou “polêmicos” pela mídia e, justamente por isso, tornam-se celebridades. Do outro lado, emissoras de TV só costumam tomar uma atitude em relação a violência que exibem quando acionadas pela polícia.

Em 2008, o ator Dado Dolabella agrediu sua namorada Luana Piovani e a camareira Esmeralda de Souza Honório. Menos de um ano depois, ele foi eleito pelo voto popular, o grande campeão da 1° edição de A Fazenda da Rede Record. Apenas em 2013, Dado foi condenado pela justiça. Posteriormente, foi acusado e condenado em outros casos de agressão.

Esse mês, Laércio de Moura foi condenado a 12 anos de prisão pelos crimes de estupro de vulnerável e armazenamento de material (foto ou vídeo) contendo cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente. Ele foi participante da edição de 2016 do Big Brother Brasil na Rede Globo. Em 2012, o participante Daniel Echaniz foi expulso do BBB por suspeita de ter estuprado uma participante que estava embriagada.

Tanto a Rede Record como a Rede Globo fazem uma longa etapa de seleção e pesquisa antes de confirmar os participantes, porém, em nenhum momento essas emissoras de televisão foram responsabilizadas pelas escolhas de seus participantes ou por agressões que mulheres sofreram, muitas vezes transmitidas ao vivo. A Constituição brasileira estabelece que emissoras de TV e rádio são concessões públicas e tem regras claras a cumprir, entre elas a de privilegiar conteúdos educativos, artísticos, culturais e informativos. Não é isso o que vemos. Portanto, é preciso que haja mais fiscalização e punições quanto ao que é veiculado.

A proposta dos reality shows de confinamento é mostrar a “realidade”. Porém, assim como no jornalismo policial, é comum vermos casos de violência contra a mulher serem atenuados por termos como “crime passional”, abrandando-se a culpa do agressor. Fala-se sempre que o homem se “descontrolou” em decorrência de sua paixão, quando na verdade, a violência contra a mulher tem sua raiz na cultura de posse do homem sobre a mulher. O que Rede Record e Rede Globo fazem é esvaziar e descontextualizar a violência contra a mulher visando apenas interesses econômicos.

A violência contra a mulher tem sua origem em seu papel social, na imagem de que deve cumprir uma função a Outro (o homem). Por isso, repetimos tanto que é preciso reconhecer as mulheres como pessoas. Os meios de comunicação tem influência na desigualdade social entre homens e mulheres, afinal, não veiculam conteúdos inocentemente. Ao selecionar, ordenar e enunciar os acontecimentos criam narrativas que determinam os papéis sociais, reiterando e construindo desigualdades entre os gêneros.

Talvez, o caso mais absurdo de enaltecimento de um agressor de mulheres na mídia tenha sido a capa da revista Placar com o goleiro Bruno. O assassinato de Eliza Samudio é menor do que a dor que Bruno sente por não poder jogar futebol. E assim vamos normalizando a violência contra a mulher.

É possível a qualquer cidadão denunciar conteúdo veiculado na TV ou rádio. Basta protocolar uma denúncia ao Ministério Público Federal, o que pode ser feito pelo site. A partir daí, cabe ao órgão pedir esclarecimentos à emissora e ao Ministério das Comunicações. O ministério também recebe denúncias por email: denuncia@comunicacoes.gov.br. Em seguida, caso comprovada a irregularidade, se negocia com a emissora uma retratação ou abertura de espaço na programação para veicular campanhas educativas ou que possam dar voz aos grupos que se sentiram atingidos pelo conteúdo. Porém, como sabemos, essa punições são muito raras.

Vivemos em uma sociedade que condena a violência física enquanto ratifica todas as demais formas de violência sofridas pelas mulheres. Necessitamos, urgentemente, de uma mídia que respeite os direitos humanos das mulheres. Porém, somente mudanças na legislação, se não acompanhadas de uma mudança na mentalidade e na construção cultural, não resolvem o problema. É necessário aliar mudanças nas leis a uma educação comprometida com a promoção dos direitos humanos, principalmente nos cursos de Comunicação Social, que geram formadores de opinião e atores sociais na mídia. Referência: A mídia, a naturalização do machismo e a necessidade da educação em direitos
humanos para comunicadores (.pdf) por Fabiana Nogueira Chaves.

Sempre que falamos de violência contra a mulher, é comum que as pessoas digam: “mas não são necessárias leis específicas, as pessoas não apoiam a violência contra a mulher”. Porém, sempre que houver uma mulher denunciando violência haverá alguém questionando: “mas será que ela não provocou?”. Essa culpa implícita ao comportamento feminino está em toda parte. O mito de Eva retrata as mulheres como pessoas traiçoeiras que levaram o homem a perdição e assim seguimos, só temos chance de nos redimir se formos santas como Maria.

Sempre que um homem é acusado publicamente de violência contra uma mulher, também surge alguém para dizer: “mas e se não for verdade? A vida dele será destruída”. Porém, o que vemos é que não há pecado para os homens, eles sempre ganharão uma segunda chance, especialmente na mídia brasileira.

Créditos da imagem: Marcos Harter em peça de divulgação da 9° edição do reality show A Fazenda da Rede Record.

+ Sobre o assunto:

[+] BBB e A Fazenda: a mídia enaltece agressores de mulheres. Por Coletivo Intervozes.

[+] BBB 17: A violência contra a mulher ganha mais um capítulo na rede Globo. Por André de Oliveira.

[+] Quem é a mulher vulnerável e hipossuficiente? Por Camilla de Magalhães Gomes.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.