Estereótipos de gênero, restrições e relato de minha experiência como uma garota

Recentemente, publicamos em nossa página no Facebook, a matéria: Estereótipos de gênero fazem mal à saúde física e mental de adolescentes; a Luh fez um comentário tão bom, que pedimos para publicar no blog.

Texto de Luh Basílio.

Ainda são precisos estudos pra apontar o que é óbvio pra quem se questiona sobre comportamentos impostos e pedidos de uma menina ao longo de sua vida. Em alguns momentos de questionamento que faço a mim mesma fui me dando conta de várias percepções – sobre mim, meninos e meninas e o que desejo para meu filho:

Quando criança eu gostava de ler, brincava de boneca e tal, mas também gostava de correr na rua, jogar bola, subir em árvore, já pulei o muro de casa, brincar e conversar tanto com meninos e meninas e jamais tinha parado pra pensar ou perceber profundamente o que era ser “homem” e “mulher”.

Em minha experiência de vida como menina/mulher, até hoje lembro a puberdade como a fase mais detestada da minha vida, não porque eu tivesse algum problema comigo realmente, mas porque comecei a perceber minhas liberdades infantis tolhidas.

Jogava bila no quintal da vó com meus primos, mas aos 12 anos a mãe não deixava mais. Bola na rua com os meninos até tarde? Você é mocinha. E isso acontecia em diversas situações: porque eu estava perto de/havia “me tornado mulher” não tinha a liberdade pra fazer uma série de coisas enquanto os meninos continuavam brincando.

Na época não racionalizei, mas pensando depois percebi que é porque o feminino precisa ser contido e encarcerado: “menina não pode andar só” “isso não é coisa de menina” “e tu joga bola?” “nossa, como tu é uma mulher prática, diferente das outras” e por aí vai. Somos separadas e divididas, classificadas, restringidas nas mais pequenas coisas.

Eu, que antes era igual à ELES, era lembrada constantemente que era uma ELA, e por isso não podia. Ponto. E fazemos isso com milhões de meninas mundo afora, encarcerar, tutelar e dar a entender que tem algo errado, que pode menos, pelo simples fato de não ter um órgão sexual fálico (lembrando que o que coordena o corpo e a mente é o cérebro. Pênis e vaginas pouco tem a ver com isso).

Essa mudança de comportamento dos outros em relação à mim, sem um motivo lógico aparente (não, menstruar pela 1ª vez não é motivo lógico) me tornou mais arredia e criou uma certa aversão à características femininas. Se antes não gostava por não serem práticos, agora detestava cor de rosa, saias e saltos porque me faziam ser vista como garota.

Passado o alto da turbulência hormonal e da adolescência, hoje me dei conta de tudo isso e estou bem resolvida. Uso rosa, preto, azul, a cor que quiser. E parei de cair nessa besteira de grupinhos ou me isolar de certas percepções femininas. Afinal, o quem te errado com o feminino? Nada. Absolutamente.

E isso cria outra discussão dentro do espectro de ser feminina (o). Como é a experiência dos meninos com as imposições de “masculinidade” e das meninas, quando não se enquadram na orientação sexual esperada?

Aos poucos vamos dando “liberdades” às meninas e reconhecendo que podemos tanto quanto qualquer um – embora, se você olhar bem, as características louvadas geralmente são aquelas por séculos taxadas de masculinas (coragem, determinação, capacidade analítica, esportes, dentre outras).

Mesmo que isso seja bom, empoderar as minas, apenas evidencia uma coisa pra mim: o comportamento “feminino” – uma construção social muitas vezes estereotipada negativamente, como ser doce, gentil, cuidadora, delicada – continua sendo visto da mesma forma: fraco.

– Se uma menina é feminina, precisa ser protegida, a coitada, precisa de alguém que resolva por ela, precisa ser tutelada, por alguém forte e protetor, pois não pode fazer nada sozinha.

– Se o menino é feminino, coitado. É bixa, viado, é fraco, é vadia de alguém. Não é homem.

E, obviamente, tudo o que nega ou se recusa a incorporar, em algum nível, sua “força masculina” ou a tutoria/companhia sexual de um macho, está errado e deve ser corrigido (Daí vemos ataques a gays, trans, lésbicas ou qualquer pessoa que não se enquadre no gênero binário).

Uma esperança minha é que as pessoas entendam que o “feminino” não é inferior ou frágil, seja vindo de um menino ou menina. Que seja possível que pessoas que nasceram com uma vagina, ou se identificam com a feminilidade sejam permitidas ser, sem mais. E que a masculinidade tóxica, que não deixa meninos se mostrarem gentis e doces, seja desencorajada.

Afinal, um ser humano inteligente, emocionalmente evoluído, gentil com os outros, não reúne “características de uma boa pessoa” que desejamos ver mais em nossa sociedade? Então por que a feminilidade é tão desencorajada?

Agora, criando meu filho, procuro dar uma educação de gênero mais neutra, não incentivando violência nas brincadeiras e oferecendo várias cores e brinquedos de acordo com as preferências dele, que brinca com as bonecas baby das priminhas, gosta de fazer a feira comigo e guarda as compras quando chegamos em casa (ele só tem 2 anos). E à medida que ele vai crescendo, vou explicando e dividindo mais coisas, aqui não tem isso de “coisa de mulher” e “coisa de homem”, até porque seja trocar lâmpadas, consertar o computador (depois de ser enganada por um técnico homem, resolvi aprender e hoje monto e substituo as peças só, minha irmã entende um pouco de sistema) mover um móvel de lugar, consertar algo geralmente fica dividido entre eu e minha irmã mais nova. Ensino a ele que habilidades dependem do conhecimento da pessoa, não do gênero, que temos que fazer as coisas juntos, igualmente, pois não adianta somente incentivar a reconhecer e respeitar, temos que aprender a fazer junto, fazer parte da mudança.

E como exemplo de que a mudança reside até nas mais pequenas coisas, quando fomos comprar uma lousa mágica pra ele desenhar, segurei as 2 opções na frente dele (apenas rosa e azul, como quase sempre) e ele escolheu a rosa, afinal criança não vê gênero em cor de brinquedo, ainda não foram ensinados sobre isso. Apenas adultos que sexualizam e seccionam, como se brinquedos fossem fazer alguma diferença na orientação de cada um.

Minha vontade é que meu filho cresça um ser humano mais aberto e gentil com os outros. E que ele saiba que eu tô aqui pra aceitá-lo do jeito que for, pra não fazer ele se sentir desconfortável como eu me senti na minha própria pele. E que mesmo que eu encoraje, outras pessoas não irão. Por isso vou estar aqui pra ouvir.

Graças à santa racionalidade, muitas coisas vão melhorando no mundo, mesmo que a passos lentos. Uma das 2 coisas que sonho em ver acontecer antes de morrer (além de ver uma missão humana começar a colonizar marte) é que as meninas das próximas gerações jamais se percebam restringidas simplesmente por serem meninas. Que as coisas sejam melhores, mais iguais e justas a ponto de não sermos mais classificadas apenas como “homens” e “mulheres” ao se tratar de igualdade e respeito social, mas simplesmente como pessoas.

Autora

Luh Basílio é publicitária e tem 24 anos. De Fortaleza/CE, é otaku, apaixonada por livros de todos os tipos e sci-fi. Gosta de descobrir tesouros musicais nas sugestões do youtube.

Créditos da imagem: Foto de Malin Sjöberg no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.