“Amamos mulheres independentes”. Amam? Até que ponto?

Texto de Pamela Sobrinho para as Blogueiras Feministas.

Ontem minha mãe me disse: “Tenho dó do seu futuro marido, você só pensa em trabalhar”. Fiquei assustada, não imaginava minha mãe me falando uma frase dessas. Reconsiderei, minha mãe tem os reflexos de uma sociedade machista e patriarcal que acha um absurdo uma mulher trabalhar muito.

Às vezes conversando com amigos ou até alguns caras com quem saio, eles dizem: Amamos mulheres independentes. Amam? Até que ponto?

Uma vez um cara me dispensou porque eu era bem sucedida no meu trabalho e ele não. Outra vez disse que a um cara que eu tinha saído dizendo que estava tranquila, saindo pouco e ele me disse: “Agora sim podemos voltar a sair”, é claro que eu não voltei a sair com esse cara e pouco me importei a se a masculinidade do outro foi afetada porque meu salario é maior que o dele.

Esses homens amam mulheres independentes porque talvez elas não tenham amarras, não tenham preconceitos, sejam livres e paguem metade da conta, mas na hora de assumir um relacionamento, eles estão preparados para tanta liberdade?

Estão preparados para as verem sair com as amigas e amigos, irem para o bar, curtirem uma baladinha, ficarem até mais tarde no trabalho, trabalharem finais de semana, quererem ficar sozinhas porque querem curtir um tempo delas, não fazerem comidinhas só para agradar, exigirem a divisão igualitária das tarefas domestica, lutarem por igualdade, falarem de futebol, curtirem futebol, assistirem futebol ou qualquer outro jogo dito masculino, ganharem mais do que eles, terem empregos melhores do que eles, não querem filhos ou não naquele momento, desejarem crescer na carreira, quem sabe entrar na política? Lutarem por um mundo melhor. Será que esses homens estão preparados para mulheres livres, inteligentes, com voz, ou será que seu maior sonho sejam as moças recatadas, que se posicionem como o patriarcado manda: no domingo depois do almoço, elas na cozinha e eles na sala.

Não sou uma má amada como dizem ou daquelas que acredita que todos os homens sejam assim, ou que se sente a coitada. Mas, pensem minha mãe que tanto lutou para me dar estudo disse “Coitado do seu marido”. Será que a “minha futura sogra” não vai pensar: Coitado do meu filho? Por mais desconstruído que seja esse cara, o quanto é para ele difícil entender o papel da mulher. Estou dizendo que mesmo ele, se desconstruindo todos os dias ainda é um caminho longo para aceitar que nós mulheres podemos ser fortes, independentes e seguras.

O processo de desconstrução acontece com as crianças de hoje para que elas possam ser adultos melhores, mas todos nós estamos fazendo isso? Quando educamos nossos filhos/sobrinhos/afilhados nós realmente pregamos a igualdade de gênero? Ou apenas a desejamos para nós e para as outras irmãs, elas que lutem. Quantas vezes ouvi de amigas feministas, quando outra precisa de ajuda: “Há mais quando eu precisei de ajuda eu que tive que correr atrás”. É mesmo? Você descobriu sozinha o feminismo? Quanta hipocrisia, não? Enquanto nós mulheres não passarmos a abraçar a causa, ter empatia e pensar na outra como irmã, enquanto uma única mulher precisar de ajuda, todas nós devemos ajuda-la, ouvi-la. Nós não temos as mesmas demandas, às vezes nem compreendemos o problema da outra, mas empatia é justamente isso, ouvir, entender, acolher e não julgar.

Para um mundo mais desconstruído, em que homens e mulheres sejam iguais e para que possamos ser livres: A luta começa dentro de casa, eu conversei com minha mãe, ela tem que entender o quão machista ela foi, eu converso e ensino meu sobrinho. Se eu quero um parceiro que me trate de igual para igual, eu também tenho que ensinar aos a minha volta o que é igualdade. A luta é muito grande, é intensa. Ás vezes cansa, às vezes dói, às vezes machuca. Mas não dá para fechar os olhos e dizer que está tudo bem, que nenhuma mulher não sofre mais. É uma gota no oceano, mas se não houver a minha gota, esse oceano nunca mudará.

Autora

Pamela Sobrinho é economista no Sistema S, editora na revista Betim Cultural, blogueira, mulher, feminista, sem denominações religiosas, mas amante do respeito e da igualdade. Escreve no blog: Universo de Pam.

Créditos da imagem: SP – Manifestantes colam cartazes contra o machismo e a violência sexual no tapume que cerca obras no Masp, na avenida Paulista. Foto de Avener Prado/Folhapress.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.