Qual a métrica de tolerância dos erros? Afetividade, estima social e reconhecimento

Texto de Nathália Fonseca para as Blogueiras Feministas.

[ps1: Nesse texto eu não tenho a intenção de estabelecer verdades, mas levantar uma reflexão a partir de experiências e observações das interações entre pessoas dentro e fora do ambiente da militância]

[ps2: essa reflexão não é levantada com base em dados sólidos de pesquisa científica – até porque ela nem se situa na minha área de concentração – mas a partir da vivência como mulher, da empiria]

Um dia, em meio às reflexões daquele período entre o “acabei de acordar” e o final da primeira xícara de café do dia, um pensamento me intrigou muito: como a sociedade reage a uma falha quando um homem a comete, e qual a reação quando quem escorrega é a mulher (aquela mulher que não é um conceito universal, mas sempre interpelada por outros marcadores sociais da diferença)?

Essa discussão ganhou uma visibilidade relevante nos últimos meses, quando as mulheres praticantes do ativismo feminista digital [pois é, eu não uso mais ciberativismo/ciberfeminismo, mas isso é pano pra um outro texto] se empenharam em discutir, entre outros casos, o fato de Kevin Spacey ter sofrido as consequências dos abusos que cometeu de uma maneira mais incisiva pelo fato de suas vítimas serem homens. Abro aqui um parêntese imaginário para fazer um adendo: ele é homossexual, e não é novidade pra ninguém que a sociedade possui abordagens diferentes quando se trata de pessoas homossexuais, essa relação de poder também influenciou o acontecimento em questão.

Então, voltando ao escopo da discussão: o que me proponho a estabelecer aqui é o levantamento de reflexões acerca de situações específicas que ocorrem no cotidiano. Essa necessidade de discutir esse âmbito de interações e sua relevância é muito bem elucidada por uma autora da Teoria Política Feminista, Jane Mansbridge, quando ela afirma que as relações cotidianas também criam condições de possibilidade para estabelecimento de luta política – uma luta que não se estabelece sob os olhos do Estado, mas através de interações do dia-a-dia das pessoas. Mansbridge se ancora na célebre frase de Carol Hanisch – o pessoal é político – para argumentar que as conversações cotidianas, entre duas ou mais pessoas, criam espaço para que se perceba o sentimento de injustiça compartilhado entre as mulheres, o que nos sensibiliza para o fato de que certas experiências não são exclusivas de uma ou outra mulher, mas problemas políticos que precisam ser combatidos através da coletividade.

Com base na discussão de Mansbridge, me vi profundamente intrigada ao observar um recorte específico das relações entre as pessoas. Esse olhar me interpelou depois do contato com a Teoria do Reconhecimento, do filósofo Áxel Honneth, na qual o autor (em linhas beeeem gerais) afirma que a ausência de reconhecimento nos três âmbitos que ele discute (amor, justiça e solidariedade) influencia diretamente a maneira como os sujeitos se vêem, podendo (a) fomentar o estabelecimento de lutas políticas por reconhecimento de maneira justificada OU (b) fazer com que as pessoas além de não se perceberem em situação de opressão, ainda se sintam satisfeitas e reconhecidas dentro dessa determinada relação de poder, é o que ele chama de reconhecimento ideológico.

Decidi me embasar nesse referencial teórico – e mais a Butler, que logo aparece – porque ele me auxilia a pensar como essas formas relativas de reagir podem ser danosas e até impedir o autocuidado e a autorrealização das mulheres.

Tendo dito o que precisava dizer de antemão, encaminho-me ao cerne da questão colocada no título: como reagimos quando um homem comete um erro? E se esse sujeito for uma mulher, qual a reação, tanto da sociedade quando do indivíduo afetado? O que tenho observado, ao longo dos meus anos de militância feminista e reflexões acerca das questões de gênero e demais marcadores de desigualdades, não é novidade pra ninguém. Mas me preocupa que isso não esteja sendo discutido, pois dependemos dessa discussão, dessa publicização, para que se alcance uma real mudança social.

Vamos imaginar uma situação: um homem branco comete um erro (os problemas do Zac Efron com drogas, por exemplo). Agora imagina que uma mulher, também branca, cometeu o mesmo erro (os problemas da Lindsay Lohan com drogas). Olhe ao redor e perceba que a mulher sofreu retaliações, foi exposta e até hoje deve lidar com as consequências das suas ações (ela é uma dependente química), enquanto o problema do homem provavelmente já deve ter sido esquecido pelas pessoas há algum tempo [quantos aqui, de fato, sabiam que ele teve esses problemas?].

Agora façamos o exercício de olhar para os casos recentes de abuso ocorridos dentro do ambiente dos movimentos sociais (e aqui eu falo especificamente pelos que tenho contato, em Belém, porque é a realidade que eu conheço): vemos homens diariamente sendo expostos nas mídias sociais pelos erros que cometem. No entanto, a vida deles segue. Eles continuam no mesmo círculo de amizades, a dinâmica de interação com as outras pessoas é a mesma, eles malmente sentem os efeitos dos abusos que cometeram (isso quando as pessoas acreditam na mulher que relatou o abuso). Quantos de nós convivemos com homens que foram abusivos com suas companheiras/companheiros? E quanto às mulheres que foram abusivas? Sabe a mina escrota? Pois é. Elas são isoladas. Excluídas das arenas de militância e esquecidas pelas amizades em um piscar de olhos.

Agora vamos mais fundo, olhar pras nossas relações afetivas (sexuais, familiares, de amizade) de uma maneira mais subjetiva: de quem é mais fácil de afastar? Quem é perdoado mais fácil e continua dentro dos círculos familiares ou de amizade como se nada tivesse acontecido? Eu não sei como acontece com vocês, mas na minha experiência (apenas usando pra ilustrar, não querendo estabelecê-la como se fosse um único exemplo que é suficiente ou estabelecer uma universalidade de vivências, afinal nunca vai ser) o que eu percebo, são homens que já assediaram, já traíram, já agrediram fisicamente e até mesmo já estupraram sendo aceitos pelas pessoas como se nada disso tivesse acontecido; e em contrapartida a isso, conheço mulheres que foram desprezadas, descartadas, rejeitadas por conta de um comportamento desviante – ser/estar estressada, por exemplo. E, convenhamos, difícil é ser pacífica o tempo inteiro quando se tem consciência de todas as relações de poder às quais estamos subordinadas. O que estou tentando visibilizar aqui é que a sociedade tende a afastar-se de nós com mais facilidade! O que eu percebo é um processo de desvalorização afetiva que precisa – urgentemente – ser discutido!

Nesse espírito de festas de final de ano, percebo que durante as comemorações eu muito provavelmente – mesmo que contra a minha vontade – confraternizarei com esses homens que já machucaram mulheres (e inclusive me machucaram), enquanto que nem sequer penso em passar próximo de mulheres que, por exemplo, me deixaram desconfortável com palavras, ou me diminuíram e abalaram a minha autoestima de alguma forma (nada que também já não tenha sido feito por esses homens). Penso que esses processos possuem relação direta com a estima social. Entendo perfeitamente que todas nós – e inclusive os homens – crescemos em uma sociedade que supervaloriza o homem, em detrimento da valorização da mulher. Mas o centro dessa reflexão é a métrica da tolerância que se tem com os erros. Percebam que não estou levantando uma bandeira que afirme a necessidade de sermos tolerantes com pessoas tóxicas em nossas vidas, temos todo o direito do mundo de distanciar-nos de quem nos adoece. O questionamento é por que a sociedade tem mais facilidade para se afastar – abandonar, rechaçar, marginalizar – as mulheres?

Uma leitura que muito tem me ajudado a pensar essas relações é Vida Precária, vida passível de luto (2015), da Judith Butler. Nesse texto, a autora elucida – entre outras coisas – que alguns sujeitos são lidos como passíveis de luto, enquanto outros não o são – ou seja, a sociedade sofre mais pela perda de sujeitos específicos. Butler se refere à morte para desenvolver sua reflexão, não obstante, é possível relacionar suas colocações com os laços afetivos, o que me leva a pensar o seguinte: por qual motivos a sociedade se afasta mais facilmente das mulheres enquanto tolera com facilidade os comportamentos abusivos masculinos? É fato que são relações de poder diferentes, mas quando se fala de afetividade, mantemos em nossas vidas as pessoas das quais nós precisamos para viver, aquelas com as quais fazemos questão de compartilhar nossas vitórias e derrotas. Olhar ao redor e perceber que as pessoas têm mais facilidade de desfazer os laços afetivos com as mulheres, me faz pensar que o afastamento dessas pessoas é menos passível de luto, que o rompimento dos laços afetivos com esse sujeitos causa um dano menor. Que afastar-se de um homem causa mais sofrimento do que causaria se a outra pessoa fosse uma mulher. Ou mesmo que as pessoas são mais tolerantes com os homens do que com as mulheres ou com outras pessoas em situação de desprivilégio dentro das relações de poder.

Esses comportamentos refletem ações de misoginia enrustida e velada, mas solidamente entranhada no tecido social, em todos os âmbitos do nosso convívio. Olhemos ao nosso redor para tentar identificar quais homens com os quais convivemos já foram acusados de terem praticado algum tipo de abuso, quais ainda são extremamente machistas (todos são, o que varia é o nível e a abertura ao diálogo), quais interrompem as mulheres quando elas falam, subjugam sua capacidade e destroem autoestima pelo simples prazer em se sentir “maior”. Agora vamos olhar pras mulheres. Quantas cometeram erros e foram automaticamente desligadas do nosso convívio social? Isso é um problema pessoal ou político?

O convite que eu deixo para 2018, é o de olhar com maior sensibilidade para nossas relações cotidianas. É pensar que a afetividade também é política, assim como a fragilidade dela. É perceber que as relações de poder refletem diretamente na estima social – e interfere na capacidade de autorrealização dos sujeitos(!!!!) –, e subverter essa lógica de desvalorização das mulheres é necessário! Concluo afirmando que distanciar-se mais facilmente das mulheres do nosso convívio social é, sem sombra de dúvidas, um problema político.

Referências

Butler, Judith. Vida Precária, vida passível de luto. In: Quadros de Guerra: Quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2015, p. 13-55.

HONNETH, Axel. Luta por reconhecimento: a gramática moral dos conflitos sociais. São Paulo: Ed. 34, 2003.

Para entender melhor sobre Jane Mansbridge e o âmbito cotidiano como arena de luta política: CAL, Danila. Configuração política e relações de poder. In: Comunicação e trabalho infantil doméstico: política, poder, resistências. Salvador: EDUFBA, 2016. Disponível em: https://goo.gl/QCEeMF

Para entender melhor sobre o reconhecimento ideológico:
MARTINS, Rafael; BASTOS, Aline. O reconhecimento como ideologia e os papéis dos media na representação da mulher. Revista Vozes & Diálogo, v .16 nº 02. Itajaí, jul./dez. 2017, p. 69-81.

Autora

Nathália Fonseca, 24 anos. Latinoamericana-amazônida-paraense-belenense, mãe solo de Gabi e Enzo e bacharela em Comunicação Social: Multimídia. Integrante do Grupo de Pesquisa Comunicação, Política e Amazônia (COMPOA/ UFPA). Tentando conciliar a vida de pesquisadora das práticas feministas digitais com a maternidade e a militância, mas como é capricorniana tem certeza que um dia consegue.

Créditos da imagem: Foto de Josias Cardoso/VC no G1.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.