Queimem a Bruxa: os reflexos atuais da “demonização” da figura feminina sob a óptica medieval

Texto de Larissa Correa para as Blogueiras Feministas.

Séculos se passaram e as denominações pejorativas atribuídas às mulheres certamente adquiriram variantes. E, engana-se quem acredita que a punição jurídica e social por condutas consideradas “desviantes” ou não condizentes com as normas religiosas e sociais impostas pelo Estado cessou com o início da Idade Moderna. A criminalização do aborto, por exemplo, possui ligação direta com a estigmatização da bruxa medieval.

Explico.

É fato que a forte atuação da Igreja Católica, tanto no sentido de impor as diretrizes adotadas pela sociedade da época, quanto com relação à pena imposta aos que transgrediam a lei, é marca registrada da baixa Idade Média (séc. XIV). Esse período é notoriamente imbuído pelo medo, próprio da crença no sobrenatural e advindo do verdadeiro pavor da figura do “Demônio” – aposto que você que lembrou do filme “A Bruxa”. E quem eram as pessoas consideradas “demônios”? O padrão não se alterou muito em relação aos dias atuais: QUALQUER pessoa que provocasse estranheza. E quando eu digo “qualquer”, é QUALQUER. O sangue de inocentes era cotidianamente derramado sem qualquer atenção a um devido processo legal ou certeza da prática daquela conduta delitiva. Eram (são) elas: pessoas cujas práticas religiosas e espirituais distinguem-se das usualmente adotadas pela maioria dos cidadãos; pessoas doentes; pessoas pobres; e SIM, AS MULHERES.

A partir de então, etiquetou-se as mulheres com a tão famigerada denominação de “BRUXA”, atualmente adjetivo pejorativo em decorrência da visão hollywoodiana tão difundida das telas de cinema, bem como na sessão da tarde e livros clássicos dos “Irmãos Grimm”. E sabem quem eram as mulheres consideradas bruxas (ou feiticeiras)? As prostitutas (consideradas mulheres de sexualidade exacerbada, não necessariamente praticantes da prostituição); as que lidavam com métodos relacionados à medicina alternativa (O QUÊ, UMA MULHER DESAFIANDO A CIÊNCIA MASCULINA?); as pobres e velhas; as que não se adequavam ao padrão estético da época; e, claro, como não poderia faltar, as que realizavam abortos em outras e as que decidiam por abortar. Hoje em dia pode até soar engraçado, mas o que se dizia na época, com toda a certeza, é que essas mulheres transgressoras possuíam ligações demoníacas. Chegava-se ao cúmulo da afirmação de que existiam mulheres que praticavam sexo com o Demônio durante a madrugada e, por isso, adotavam condutas consideradas “subversivas” no dia seguinte – desde desejar autonomia sobre sua vida até rir escandalosamente (é sério).

Não preciso nem dizer qual era o destino dessas “nefastas” criaturas: a fogueira! E sabem qual era justificativa para a aplicação dessa sanção? O absurdo e tão rebatido argumento de que as mulheres ontologicamente possuíam instintos demoníacos… isso mesmo, nasciam com tendências a praticar o mal. Assim, por gerarem todo esse incômodo social e legal, tinham que ser extintas da face da Terra, ou, no mínimo, controladas ou encarceradas (qualquer semelhança com a criminalização do aborto no ordenamento jurídico brasileiro é mera coincidência).

Ainda, faz-se necessário destacar a posição da mulher na figura do casamento medieval, tendo em vista que a referida instituição é elementar do sistema patriarcalista, o qual estrategicamente outorgou à mulher um papel secundário. No tocante ao casamento, portanto, tal qual como conhecido hoje – religioso e dotado de sentido “espiritual” – foi instituído entre os séculos IX e XIII, justamente com a intervenção da Igreja. Os religiosos persistiam na ideia de que a mulher era ontologicamente inferior ao homem, e, por esse motivo, o casamento era compreendido como um instituto que concedia poderes de dominação ao sexo masculino em relação a sua companheira.

Nessa linha de raciocínio, dizia-se, ainda, que a mulher era inferior ao homem em decorrência dos “perigos da carne”, pois o prazer sexual era condenável e aquela se encontrava mais vulnerável aos prazeres “mundanos”. Nessa perspectiva, “por intermédio do casamento, o corpo da mulher tornava-se posse do esposo. Mas a alma, essa deveria permanecer na posse exclusiva de Deus¹.”

Todos esses fatores estão intimamente ligados às agressões das quais milhares de mulheres são vítimas todos os dias. Isso porque, atualmente, o que vemos é a manutenção do domínio masculino em praticamente todas as esferas da vida e um desenfreado julgamento da população, em sua maioria homem, consubstanciado na objetificação da mulher – visão essa fomentada pelos holofotes midiáticos – no sentido de justificar as agressões verbais e físicas das quais as mulheres são vítimas. Traduzidas em frases aparentemente inofensivas e acreditando-se, veementemente, na racionalidade destas, é gritado aos quatro ventos frases do tipo: “- se abortar é assassina”; “tá se fazendo de vítima”; “ó lá, veste roupa curta e depois não sabe porque é estuprada,”, dentre outros absurdos. Em suma, a mulher continua sendo a representação do mal e da culpa, dessa vez não mais com argumentos (exculpantes) baseados em figurinhas apocalípticas, em um manual inquisidor² ou crenças do além… e sim (pior) na sua própria realidade.

Discorri sobre o contexto medieval apenas com o intento de demonstrar que a inferiorização e estigmatização feminina possui raízes distantes, certamente encontradas em períodos muito anteriores à Baixa Idade Média. Entretanto, este período, por ser marcado pela demonização, literalmente falando, do sexo feminino, contribuiu (e muito) para difundir esse discurso embelezado pelo patriarcado. Com efeito, continuamos sendo as bruxas e queimadas na fogueira da intolerância machista diariamente, desde cada assovio aparentemente inofensivo ao atravessarmos a rua até casos extremos de relacionamentos abusivos e violência sexual.

Referências

¹ MACEDO, José Rivair. A Mulher na Idade Média: a situação no meio familiar, a atividade profissional, política, intelectual, exclusão, preconceitos e marginalidade. 2ª Ed. São Paulo: Editora Contexto, 1992, p. 21.

²  Referência à obra “O Martelo das Feiticeiras”, escrito em 1484 por Heinrich Kramer e Jacob Sprenger e consagrado pelo Papa Inocêncio VIII.

Autora

Larissa Correa é bacharel em Direito e advogada. Tem 26 anos. Natural de São Paulo/SP e atualmente reside em Curitiba/PR. Viciada em felinos, cinema, literatura e café. Absurdamente libriana, nas horas vagas se entrete com as estrelas.

Créditos da imagem: Estampa de camiseta vendida pelo site Heroicas durante o período do Dia das Bruxas em 2014.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.