A Marcha do Progresso: a experiência de uma mulher trans na Marcha das Mulheres

Texto de Galen Mitchell. Publicado originalmente com o título: “The March of Progress: One Trans Woman’s Experience at the 2018 Denver Women’s March”, no site TransSubstantiantion em 20/01/2018. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Eu marchei hoje. E isso foi bom.

Entretanto, esta manhã, quando minha esposa e eu entramos no carro para ir até a Marcha das Mulheres de Denver junto com nosso filho, eu estava apreensiva. Eu não sabia o que esperar. Quer dizer, nós fomos a Marcha das Mulheres de Denver no ano passado, mas isso parece que aconteceu há séculos. Era praticamente uma outra era. Naquela época, tínhamos medo do que poderia acontecer naquele ano. Desta vez, nós carregamos o peso do que aconteceu. Eu estava preocupada que isso mudasse as coisas.

Dirigindo até o centro da cidade, fiquei preocupada com o fato de que o último ano foi implacável, isso poderia ter diminuído o movimento. Eu me preocupava se a multidão seria menor e, como resultado, a mensagem seria menos impactante. Eu me preocupava se, apesar de todos os esforços, o movimento iria desaparecer — se acabaria sendo substituído pela mesma apatia, que quase sempre vem em seguida, de uma longa e dura luta com a inércia social.

Além disso, pessoalmente, estava preocupada se ainda não me sentiria bem-vinda.

Muito foi dito na sequência da Marcha das mulheres do ano passado. Muitas pessoas criticaram o movimento, com razão, por não incorporar a enorme variedade de experiências e perspectivas que as mulheres têm em todo o país. O foco ficou centrado nas experiências das mulheres brancas da classe média alta, enquanto ignoraram mulheres de outras raças, etnias e grupos marginalizados. As mulheres queer, por exemplo, foram em grande parte misturadas e colocadas de lado — as mulheres trans foram duplamente tratadas assim.

Essas críticas se encaixaram muito bem com minha experiência na Marcha do ano passado. A Marcha das Mulheres de Denver foi essencialmente branca e, é seguro dizer que roupas esportivas modernas eram o código de vestimenta não oficial. As mulheres ao meu redor mantinham seus cartazes em uma mão e um café latte na outra. Muitas vezes, seus cartazes equiparavam a feminilidade com uma determinada configuração genital ou um conjunto de cromossomos. Então, ao mesmo tempo em que eu estava feliz vendo tantas mulheres e admirava a astúcia de seus cartazes — até mesmo sua braveza — eu não podia mais me ver nesses cartazes, tanto quanto podia me ver usando um agasalho de $250 dólares da loja North Face.

Eu me senti fora de lugar. Eu me senti como uma espectadora. Fui à Marcha pela solidariedade e interseccionalidade, mas me sentia progressivamente mais marginalizada a medida que passava mais tempo lá.

Ainda assim, eu tinha esperanças que desta vez fosse diferente. Parecia que as organizadoras ouviram as críticas e as assumiram com o coração. Eu li que as organizadoras da Marcha do Colorado, em particular, estavam tentando ser mais inclusivas com mulheres marginalizadas, incluindo mulheres queer e trans. Na verdade, uma das minhas amigas, uma mulher trans, foi convidada para fazer um discurso depois da Marcha. Então, eu ousei ter esperança de que houvesse uma maior preocupação com as pessoas trans e a necessidade de sermos incluídas no movimento das mulheres.

Porém, isso não mudou o fato de eu estar apreensiva. Isso só me fez sentir como se eu tivesse mais a perder se isso não acontecesse. Eu estava errada ao esperar por algo mais.

Então, fiquei agradavelmente surpresa quando a primeira coisa que vi ao sair do carro, depois de estacionar perto do Capitólio, foi uma mulher que usava a bandeira do orgulho LGBT como uma capa. Eu fiquei esperançosa que fosse uma indicação de que mais coisas legais como essa poderiam vir. A medida que nos aproximávamos do local em que as pessoas estavam se reunindo, eu procurava por mais sinais de que as coisas seriam diferentes este ano.

Fiquei desapontada quando ficou evidente que as mulheres negras e de outras etnias ainda estavam absurdamente sub-representadas, e os agasalhos esportivos modernos ainda eram o código de vestimenta não oficial. Meu humor diminuiu ainda mais quando vi que os cartazes, com mensagens que diziam #Resistência, ainda eram freqüentemente colocados em dupla com os cafés latte de seis dólares. Para mim, era a evidência de que em parte se tratava de uma forma de resistência mercantilizada. Meu receio era que desaparecesse no momento em que saísse de moda.

Porém, quando olhei em volta, fiquei feliz em ver que muitos cartazes mudaram. Havia menos foco na anatomia e nos trocadilhos de palavras. Haviam mais pedidos de interseccionalidade e justiça social que não se limitavam às preocupações das mulheres brancas cisgênero e heterossexuais da classe média alta. Havia mais substância aliada ao estilo.

À medida que nos aproximávamos do ponto de reunião do “Contingente Queer”, onde deveríamos encontrar nossas amigas, eu me vi pensando que talvez o movimento não fosse ser um fiasco.

A uma centena de metros do ponto de encontro, vi um sinal que dizia: “Sim, a vagina morde de volta. E: nem todas as mulheres têm vagina. Não seja uma TERF*”. Foi difícil não sorrir. Era exatamente o tipo de coisa que eu desejava ter visto no ano passado — especialmente porque o cartaz era levado por alguém que parecia ser uma mulher cis. Esse cartaz apontou a natureza reducionista de muitos outros cartazes e ajudou a garantir que as mulheres trans se sentissem bem-vindas.

Ainda assim, tinha medo de que tudo fosse por água abaixo em breve.

Entretanto, quando finalmente chegamos ao local de encontro do “Contingente Queer”, senti a tensão que se acumulou sair dos meus ombros. Era um grupo pequeno — muito menor do que eu esperava — mas era um grupo muito maior que o do ano passado. As bandeiras de orgulho trans e LGBT eram predominantes, assim como as mensagens de apoio as pessoas queer de todas as formas, tamanhos e sabores. Isso foi maravilhoso.

Não me senti um peixe fora d’água. Eu não me sentia apenas como uma espectadora. Eu tinha encontrado o que estava procurando: solidariedade e interseccionalidade.

Foi perfeito? Não, longe disso. Mas, foi um progresso.

*TERF é uma sigla para Trans Exclusionary Radical Feminist. É comumente usada para se referir às chamadas “feministas” que não acreditam que as mulheres trans são mulheres e as excluem do movimento.

Autora

Galen Mitchell é escritora, educadora, mãe. Musicista, filósofa, cervejeira. Queer, Trans, Gay.

Créditos da imagem: Marcha das Mulheres na Pensilvânia em 2017. Foto de Vlad Tchompalov/Unsplash.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.