Malhação – Viva a Diferença: combate ao racismo, diversidade e defesa da escola pública

Esses dias chega ao fim a atual temporada da novela Malhação da Rede Globo. Malhação – Viva a Diferença foi uma das melhores novidades na televisão em 2017 e seu sucesso mostra que a juventude está interessada em conhecer e falar sobre temas como o racismo e educação pública. Conhecida como uma novela adolescente, com temas bobos e sempre girando em torno de um casal e alguém que tenta separá-los, essa temporada trouxe novidades, colocando foco em cinco adolescentes e no universo socioeconômico que as cercam.

Cinco mulheres protagonistas. Uma mãe adolescente, uma bad girl rica, uma nerd negra, uma japonesa com família tradicional e uma estudiosa com espectro autista. Keyla, Lica (Heloísa), Ellen, Tina (Cristina) e Benê (Benedita) representaram muitas adolescentes. Ao mesmo tempo que se tornaram um grupo de amigas (as Five) também viviam intensamente seus dramas pessoais. Os medos, anseios e dilemas de quem está se tornando adulto tentando entender como o mundo funciona.

No geral, é possível ver os elementos clássicos de uma novela, mas ao contrário da maioria, Malhação – Viva a Diferença se propôs a discutir abertamente temas atuais e fundamentais para a juventude, trazendo novas perspectivas para antigos problemas. Racismo, violência policial, violência escolar, drogas e álcool, homossexualidade foram assuntos retratados sem filtros, com sensibilidade e ousadia que não é comum na televisão brasileira.

Keyla é uma personagem que sempre vimos, a adolescente mãe solteira. Porém, ao invés de ser tratada apenas como uma irresponsável, vimos um interessante arco sobre autoestima e independência. Lica é a clássica menina rica revoltada com tudo e todos, sem objetivo e muita liberdade, com o tempo vai canalizando essa energia para ações que realmente podem beneficiar pessoas ao seu redor. Tina é uma adolescente que representa a dualidade do Japão entre tradição e tecnologia. Com uma mãe extremamente rígida e controladora, ela precisa lutar por espaço e autonomia. Porém, as personagens mais interessantes em termos de representatividade são Ellen e Benê.

Racismo sem rodeios

Ellen é uma adolescente negra, moradora da periferia, por um tempo flertou com a possibilidade de usar seu conhecimento como hacker para burlar regras, mas logo percebeu que isso traria consequências não só para ela. Um de seus melhores momentos foi quando teve receio de aceitar uma bolsa de estudos no colégio particular por causa do racismo.

Suas cenas mais marcantes envolvem o racismo que sofre na nova escola e que explode num capítulo. A dona da escola é racista com Ellen, a humilha por ela ter conquistado uma bolsa de estudos. Alunos fazem bullying constantemente. Até que ela explode e rebate todo racismo que recebe. Mesmo tendo amigos na escola, Ellen se sente solitária, pois é uma luta diária que parece não ter fim. Ela questiona: “Que escola é essa que não ensina ninguém a ter respeito pelo outro? E se você for diferente aí é que aproveitam pra pisar mesmo em cima de você”.

O universo ao redor de Ellen também chama atenção. Uma família negra moradora de periferia. Uma avó que segue religião afro e faz salgados para vender. Uma mãe evangélica que lutou muito para estudar enfermagem e faz inúmeros plantões e por isso tem pouco tempo para ver os filhos. Um irmão mais velho que largou a escola por não ver futuro ali e foi trabalhar como motoboy. O vizinho Fio, jovem negro, cantor e dançarino que estuda na mesma escola pública. Cada um desses personagens teve importantes falas sobre racismo. E em nenhum momento chamaram de preconceito, a palavra usada foi racismo.

Anderson, o irmão de Ellen, sofre uma abordagem racista numa blitz policial. Fio sofreu racismo e até correu risco de vida ao ir numa festa, os seguranças do prédio e depois a polícia o trataram de forma racista, a família o apoiou e falaram sobre a dificuldade de denuciar. Em outra cena apenas por estar abraçado a uma garota branca, foi confundido com um assaltante e atacado por um segurança, também negro. Fio questiona essa atitude. Nenhuma cena de racismo passa incólume, sem questionamento. Os jovens negros são mortos diariamente no país, passou da hora de isso aparecer nas produções culturais e não apenas nas notícias policiais.

O autismo e o preconceito com quem é diferente

Benê é a joia do enredo. Uma ostra dentro de uma concha. Uma adolescente que possui sérias dificuldades em se relacionar com as pessoas pois não entende sutilezas da comunicação como metáforas e ironias, que não sabe mentir, que não sabe guardar segredo.

Desde a divulgação do programa foi dito que Benê teria um espectro autista, mas raramente isso foi mencionado na trama. Como disse uma amiga, por um lado foi bom só terem citado a Síndrome de Asperger no fim da trama porque evitou que tudo que ela fazia fosse culpa do autismo, na maioria das vezes foi enfatizado que ela era diferente e que isso não era um problema, porque em alguma medida todos somos diferentes.

O melhor é que Benê foi tratada em pé de igualdade com as outras protagonistas, teve dramas pessoais como o abandono do pai, possibilidades de relacionamentos amorosos com garotos. Uma garota que finalmente tinha amigos, como ela tanto gostava de dizer. Todo esse amadurecimento está presente na cena em que Benê explica ao pai o que é Síndrome de Asperger.

Outro ponto positivo de Malhação – Viva a Diferença é apresentar personagens masculinos com muita sensibilidade, que fogem a masculinidade tóxica tão comum em novelas brasileiras. Tato é o que mais se destaca, ele deseja ser pai do bebê de Keyla, mostra-se presente, escuta as mulheres ao seu redor, erra e é sincero em seus relacionamentos. Guto é outro personagem sensível, que gosta de música, se aproxima de Benê e em vários momentos se questiona por ser diferente dos outros garotos, levantando a possibilidade de ser assexual. Todas as vezes em que há uma briga física entre garotos, a violência é prontamente repreendida.

A homossexualidade é discutida por meio de Gabriel, assumidamente gay que, junto com o amigo Felipe, sofre um ataque homofóbico cometido por colegas de classe. A bissexualidade surge como tema a partir do relacionamento de Lica e Samantha, as duas vão se aproximando, descobrindo coisas em comum até o momento em que namoram. Essas discussões perpassam vários núcleos, com filhos ensinando os pais a serem menos preconceituosos. Há uma cena muito especial em que Roney fala para Gabriel o quanto tem orgulho de ser seu pai. Em outro momento, Ellen e sua mãe conversam abertamente sobre o fato de Nena (Helena) ter visto Lica e Samantha juntas.

A defesa da escola pública

Uma escola pública e uma escola particular de elite são os principais cenários de Malhação – Viva a Diferença. Estão no mesmo bairro, há poucos metros e representam fisicamente a desigualdade social e econômica que permeia a vida dos personagens. A escola pública Cora Coralina é excelência, mas não possui os recursos de laboratórios e infraestrutura que o Colégio Grupo tem. Enquanto o dono da escola particular pensa mais em dinheiro que educação, a diretora do Cora Coralina representa as pessoas comprometidas com os alunos. Porém, conflitos existem constantemente nos dois ambientes e as vidas dos alunos interfere diretamente no andamento das atividades, o que só mostra como a educação é extremamente complexa.

Na trama, os personagens trocam de escolas e isso abre novas perspectivas. Na reta final, o fato da crise econômica ter afetado o orçamento de muitas famílias de classe média é mostrado como pano de fundo para questionar a mercantilização da educação. Num momento tão crucial para o Brasil, as pessoas podem ver no maior canal de televisão brasileiro uma defesa incondicional da importância da educação e da escola pública para a formação de uma sociedade mais justa e igualitária.

Numa cena maravilhosa, Dóris, diretora do Cora Coralina faz um discurso sobre a escola pública e a importância que ela tem para a sociedade. Os alunos, professores, funcionários e a população querem melhorar cada vez mais a educação. É preciso acreditar nessa união para mudar e valorizar cada vez mais professoras e professores.

“A escola é uma extensão da casa de vocês. Eu mesma, só estou aqui hoje, graças a minha mãe que sempre investiu e priorizou os meus estudos. A escola é um bem público, é de todo mundo. Todo mundo tem que usar e todo mundo tem que cuidar. (…) Tenho muito orgulho de meus professores que, apesar de todas as dificuldades, provam pra gente que educação só se faz com amor. Com amor a nossa casa, a nossa cidade, com amor ao próximo, amor ao nosso país. A sociedade tem que entender que a educação é fundamental na formação de um cidadão. Essa cidadania começa aqui, na sala de aula. O grande educador Anísio Teixeira dizia que só vai existir democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que produza democracia, que fomenta a democracia, que prepara a democracia. E essa máquina se chama escola pública”. 

O tema da violência na escola foi abordado por meio do personagem Dogão. Um jovem que colocou uma bomba na escola e que debochava de tudo, não vendo perspectiva nenhuma na escola e até agredindo a diretora quando ela tentou ajudá-lo. No início, vários personagens defendem que é preciso denunciá-lo a polícia, que ele é um bandido sem conserto. Contra todos, Dóris decide propor que ele trabalhe na biblioteca, explica as condições e exige respeito. Com o tempo descobrimos que Dogão é um jovem que vive numa família fraturada, que não recebe nenhum tipo de atenção e a mãe mal lembra seu nome. A sociedade abandona os jovens e depois finge surpresa com o resultado. Dogão muda a partir do momento em que é tratado com dignidade, como um ser humano que merece respeito e é capaz de pensar sobre suas atitudes.

Outro tema que afetou diretamente o rendimento escolar de uma aluna foi o assédio sexual em casa. O padrastro de K1 (Katarine) a assedia em casa, a persegue, tenta forçar um beijo. A jovem que vivia feliz começa a ter um comportamento arredio, tem medo, acha que a culpa é sua. Ao conversar com a diretora recebe todo apoio e é acompanhada até uma Delegacia da Mulher. A delegada explica todos os direitos de K1 e que a culpa é sempre do agressor. Primeiramente, a mãe de K1 não acredita na filha, passado algum tempo se mostra arrependida. Essa é uma situação muito comum e na maioria das vezes as jovens não conseguem contar o que está acontecendo, muito menos denunciar. A abordagem mostrou todo o processo de tristeza e angústia e como é importante denunciar. Não houve sensacionalismo gratuito.

Malhação – Viva a Diferença é escrita por Cao Hamburger, o criador de programas infanto-juvenis que marcaram gerações como O Castelo Rá-Tim-Bum (1994). O autor já tinha trabalhado com várias das temáticas de Malhação na série Pedro & Bianca, exibida pela TV Cultura em 2012, que mostra a adolescência de dois irmãos gêmeos, um branco e uma negra, que estudam em uma escola pública. A série ganhou um Emmy e outros prêmios internacionais. Você pode assistir todos os capítulos no Youtube.

Muita gente diz que não tem como tratar assuntos sérios em novelas porque fica chato, porque cai no didatismo. Malhação – Viva a Diferença é um ótimo exemplo de que isso é possível. Há inúmeras explicações e nenhum tema sério fica sem resolução, esquecido. As questões pesadas e difíceis são intercaladas com as angústias banais do cotidiano e assim cria-se um enredo que não procura chocar a audiência com temas pesados, mas sim abrir espaço para que se saiba mais e se encontre novas formas de lidar com questões fundamentais da sociedade brasileira. O jovem é o futuro e precisa ter cada vez mais voz.

+ Sobre o assunto:

[+] Malhação: Viva a Diferença e viva Cao Hamburguer. Por MR nas Valkírias.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.