Uma breve história do patriarcado

Texto de Bianca Marques para as Blogueiras Feministas.

Antes de tudo, é importante ressaltar que o termo patriarcado já passou por diversas alterações durante o tempo, seja o tempo espacial como também o tempo político. Neste texto, quero discorrer sobre o que é patriarcado, sua origem e suas consequências.

A partir do momento em que estudos começaram a ser feitos — principalmente na década de 1960 — sobre a relação de opressão sofrida pelas mulheres, essa dominação masculina recebeu a denominação de patriarcado, sendo uma organização social perpetuada através do tempo que beneficia o homem em relação à mulher.

Existem pensadores que qualificam a origem do patriarcado na forma de reprodução humana, onde mulheres tiveram seu desenvolvimento social atrasado devido à maternidade, sendo apenas as mulheres seres reprodutores e provedores do primeiro sustento através da amamentação de suas proles. Patriarcado é uma noção antiga, que inclusive já foi conceituada por Max Weber como: sociedades tradicionais centradas e coordenadas pela figura patriarcal.

Tecnicamente, o patriarcado é o território parental controlado pelo patriarca sob suas concepções de moral, ética e dignidade em relação ao tempo de duração. O termo patriarcado invoca uma relação de superioridade e controle parental, sendo ele positivado pelo ordenamento jurídico, atualmente menos presente em algumas jurisprudências, entretanto sendo a base de criação para outras.

CONCEITO E CONTEXO HISTÓRICO

Este conceito de patriarca teve início nos tempos antigos, onde a igreja era provedora de regras, costumes e leis. O mesmo nos permite referir-se à dignidade dos bispos de algumas igrejas, ao fundador de uma ordem religiosa e a alguns dos personagens do Antigo Testamento que foram líderes de grandes famílias.

O patriarca também pode ser o homem que pela sua idade, vivência e teórica sabedoria chefia uma coletividade de pessoas também como uma família. Podemos dizer que, para a sociologia, o patriarcado é uma organização social primitiva onde a autoridade é exercida por um homem e, esse poder aplica-se aos parentes da mesma linhagem hereditária desse individuo detentor de poder.

A divisão sexual no trabalho (com as mulheres a cargo do trabalho não remunerado, como as tarefas domésticas, ou dos empregos mal pagos), a falta de independência econômica (quando são os homens que gerem o dinheiro), a violência doméstica e o assédio sexual são questões relacionadas, de alguma forma, com o patriarcado que ainda se mantém.

SURGIMENTO

O surgimento do patriarcado ocorreu nos primórdios do que entendemos hoje como sociedade. A partir do momento em que o homem começou a se desenvolver e se relacionar com outros homens começaram também a exercer seu poder imposto aos seres do sexo feminino (no original está masculino), a natureza e a vida em sociedade. O termo sociedade nos remete a algo igualitário e justo, mas não é isso que ocorre em sua construção.

A subordinação da mulher se dá muitas vezes por meio da força, mas também pela divulgação de sua inferioridade. Portanto, a maioria dos homens não tem consciência do poder que possuem socialmente e nem porque o tem. E, enquanto algumas pessoas lutam por igualdades, há pessoas como Camille Paglia, teórica literária que pregava o seguinte discurso:

“Quando eu vejo um guindaste gigante se movendo num caminhão, eu paro em respeito e admiração, como alguém que estivesse numa procissão religiosa. Que poder de concepção! Que grandiosidade! Este guindaste nos remete ao Egito Antigo, onde a arquitetura monumental foi primeiramente imaginada e executada. Se a civilização tivesse sido deixada em mãos femininas, estaríamos ainda vivendo em cabanas de palha”, (PAGLIA, 1990, p.38).

O pensamento anterior serve apenas para ilustrar o que indivíduos são instruídos a acreditar, visando perpetuar essa relação de inferioridade quanto à mulher. Apesar de pensamentos assim, existem outros indivíduos que tem total consciência da importância da mulher e da igualdade real para toda uma sociedade, como Ursula Le Guin:

O homem civilizado diz: Eu sou autossuficiente, eu sou o Mestre, todo o resto é o outro – o exterior, abaixo, inferior, subserviente. Eu possuo, eu uso, eu exploro, eu aproprio, eu controlo. O que eu faço é o que importa. O que eu quero é o que é importante. Eu sou o que eu sou e o resto é mulher ou selvagem, para ser usado como eu achar conveniente (LE GUIN, 1989, p.45).

Historicamente, nem sempre a sociedade teve o homem como “chefe” antropólogos como: Adrienne Zihlman e Nancy Tanner (1978), Elizabeth Fisher (1979) e Frances Dahlberg (1981) vem desde 1970 direcionando suas pesquisas para uma sociedade em que os homens eram responsáveis pela caça e as mulheres pela colheita. Funções relacionadas a características biológicas, onde as mulheres eram responsáveis pela maternidade e o homem por meio da força bruta teria condições mais propícias a caça. Dessa maneira, teoricamente as mulheres perdiam tempo de desenvolvimento. Visto isso, também é importante pontuar que nessas sociedades, 20% da alimentação eram advindas da caça e 80% da colheita. Isso ajuda a desmitificar o fato de os homens serem os principais responsáveis pelo provimento do alimento.

Esse pensamento de que as mulheres se desenvolveram menos que os homens se tornam irreais ao observar os fatos da história, onde fica comprovado que em algumas épocas desse período pré-agricola as mulheres por serem “responsáveis” pela colheita também se tornavam responsáveis pelos locais de acampamento. Quanto ao desenvolvimento, historicamente é comprovado que tanto homens como mulheres construíam ferramentas de pedras usadas nas funções básicas de sobrevivência, sendo utilizadas na caça ou na colheita. De acordo com Rosalind Miles nessa época os homens não exploravam ou inferiorizaram as mulheres:

“eles exerciam pouco ou nenhum controle sobre o corpo da mulher ou das crianças, não havia fetiches sobre a virgindade ou castidade, e não havia exigência de exclusividade sexual da mulher” (MILES, 1986, p.16).

CONSEQUÊNCIAS

Patriarcado tem origem na palavra grega pater. A primeira vez que o termo foi usado, com o intuito de representar a superioridade do homem na organização social, foi pelos hebreus com a intenção de qualificação do líder de uma sociedade judaica. Então, neste momento podemos identificar que as mulheres tinham suas capacidades subjugadas pelos homens e por vezes até mesmo por outras mulheres. Em outro tempo e outro povo, os gregos helenísticos também já faziam menção ao termo, pois as mulheres eram concebidas como objetos de satisfação masculina e, consequentemente, eram inferiorizadas pelos homens como apenas forma de prazer e status, sendo colocadas mais uma vez na posição de incapazes.

O patriarcado detém consequências predominantes à cultura em que estamos inseridos, todavia não se faz apenas presente no Brasil, na grande maioria dos países as leis e costumes foram criados com base nesse sistema. Ao redor do mundo pessoas são submetidas ao patriarcado por vezes de forma velada e por outras de forma explicita, porém sempre de forma a submeter-se a algo imposto com base no ser dominante, os homens.
As consequências da existência do patriarcado estão totalmente ligadas a direitos, num contexto geral vai desde a vestimenta até escolhas delimitadas de comportamento.

No Brasil, o patriarcado encontra-se de forma ativa no Direito e na Justiça. Quando analisamos o Código Penal, criado em 1940, onde consta o crime de adultério e que penalizava alguém pela liberdade sexual, também se vê que ao longo dos anos esse Código sofre alterações buscando atrelar os moldes do direito atual com a direitos reconhecidos através de muita mobilização. Isso de certa forma traz esperança a quem busca a ideia atualmente utópica de igualdade.

Todavia, enquanto as mudanças ocorrem gradativamente no Brasil ora retrocedendo ora avançando, em países como o Paquistão, as minorias buscam direitos básicos como direito igualitário à educação ou a liberdade de ir e vir. Uma grande representação dessa luta é a líder paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz de 2014 pelo reconhecimento de seu ativismo na luta por acesso à educação igualitária, uma vez que apenas os homens de sua aldeia eram autorizados a frequentar as escolas.

A consequências do patriarcado são delicadas e, por se tratarem de estruturas que alicerçam relações mundiais, acaba se tornando um assunto abrangente. Ponderar algo que é notícia no mundo todo de forma mascarada é tarefa difícil, pois as pessoas devem falar de suas lutas e não deixar que falsos representantes o façam, por isso precisamos observar os aspectos políticos do patriarcado.

É nítido a predominância do patriarcado na política mundial. Quando observamos os locais onde nossos líderes políticos se concentram os indivíduos são em sua maioria esmagadora homens, brancos, cisgênero, heterossexuais e de classe econômica acima da média nacional. Ou seja somos representados pelo patriarcado, exemplo disso é o Congresso Nacional brasileiro, onde a bancada feminina tem 51 deputadas (9,94% das 513 cadeiras) e 13 senadoras (16% das 81 vagas). Nas eleições de 2014, apenas 3% das pessoas eleitas se declararam negros. É importante frisar que o Congresso Nacional é o órgão responsável por fiscalizar, criar emendas constitucionais, leis complementares e ordinárias, assuntos de extrema importância para todos os indivíduos independentemente de cor, raça, credo e orientação sexual. Quem está no poder definindo todos esses assuntos é o patriarcado.

A representação não é efetiva, pois mesmo as mulheres sendo 53% dos eleitores ativos, na hora de escolher quem serão esses representantes a tarefa de emponderar mulheres é falha. Tal circunstância pode ser justificada pela forma com que o sistema cria os indivíduos, fazendo-os acreditar que aquele representante do patriarcado é a melhor escolha. Todos os dias reproduzimos discursos onde nos subjugamos a estereótipos impostos por esse sistema que cria e molda indivíduos que, ao invés de questionar, aprender e buscar o conhecimento, simplesmente cumprem seu papel de seguir com essa conduta de fazer o que de certa forma foi transmitido como certo, gerando assim um ciclo de ações errôneas que fazem exatamente o esperado, perpetuar o sistema patriarcal em que estamos inseridos, deixando o poder com o patriarcado. Pretender que se tenha representatividade sem buscar meios para tal é utópico.

Tendo em mente que a representação é falha, a cobrança, todavia é sem fundamento. Como esperar que indivíduos em realidades totalmente alheias a da maioria tomem atitudes que podem gerar igualdade para todos? Esse sistema só tem a ganhar com a desigualdade atual, pois a população não detém de conhecimento e empoderamento necessários para exigir que o atual sistema mude e assim o patriarcado é perpetuado. É fato que apenas grandes massas mobilizadas conseguem mudanças significativas, entretanto a mobilização não ocorre devido a alienação da população.

Bibliografia:

AGUIAR, Neuma. Patriarcado, sociedade e patrimonialismo. Soc. estado, vol.15, nº 2, Brasília, Editora UnB, 2000, pp.303-33.

LE GUIN, Ursula, (1989). “Women/Wildness” in Judith Plant, ed., Healing the Wounds. Philadelphia: New Society.

PAGLIA, Camille. Personas Sexuais. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

MILES, Rosalind, (1986). The Women’s History of the World. London: Michael Joseph: London.

WEBER, Max (1947). The theory of social and economic organization. Organizada por T. Parsons. Glencoe-Ill: The Free Press e The Falcon Wing Press.

ZERZAN, John Pessoa. Patriarcado, civilização e as origens do gênero. Revista Gênero e Direito, v.1, n.2, 2011.

Autora

Bianca Marques tem 21 anos. É feminista, vegetariana, estudante de direito e extremamente intrigada por todas as relações sociais.

Créditos da imagem: Family Portait por Yaser Abo Hamed/Cartoon Movement.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.