Para que serve esse Feminismo em pleno XXI?

Texto de Daiana Barasa para as Blogueiras Feministas.

Segundo pesquisa recente, 3 em cada 5 mulheres já sofreram violência moral, seguida pelas violências física e sexual, com 32%, respectivamente.

Retomada breve das três ondas do feminismo

A Primeira Onda do movimento feminista foi marcada pelas sufragistas “Suffragettes”, em que as primeiras feministas em 1913 surgiram em manifestações na Inglaterra. O direito ao voto era a principal reivindicação do movimento e só foi conquistado em 1918.

Foi também marcada pela publicação do livro O Segundo Sexo, por Simone de Beauvoir, cuja expressão “não se nasce mulher, se torna mulher” transformou-se na principal essência para o início da Segunda Onda no movimento.

A Segunda Onda foi marcada pela luta contra as desigualdades sociais e culturais. A principal essência era a luta pela liberdade, pelo direito à própria vida e corpo. Foi quando surgiu a pílula anticoncepcional, discussões em torno da submissão da mulher surgiram com força e em que a heterossexualidade foi confrontada como norma e condição sexual feminina, já que o ‘ser mulher’ estava restrito aos papéis de mãe e esposa.

A Terceira Onda pode ser compreendida como uma continuação de lutas anteriores, importantes questões eram reverberadas por feministas jovens como: aborto, violência, corpo e adoção e liberdade. Essas militantes também queriam mostrar que a mulher poderia usar salto alto, decotes, batom, sendo ao mesmo tempo feminina e forte. A beleza feminina se impôs contra a objetificação. Este movimento buscava ir além dos estereótipos e contra a rotulação baseada na oposição Homem X Mulher, que era considerada uma construção artificial que poderia perpetuar o poder masculino.

Feminismo contemporâneo – o que ainda precisa ser conquistado?

A luta feminista hoje não se restringe apenas às mulheres, alguns dos principais assuntos de discussões e lutas atuais são: o sexismo (que grosseiramente resumido é a separação entre coisas de homem e coisas de mulher); culpabilização das vítimas; descriminação de gêneros não-hegemônicos (pessoas trans) e busca pela beleza e juventude eternas.

A principal lacuna no movimento feminista atual e para essa evolução de igualdade de gêneros é a falta de apoio mútuo entre mulheres e de espaços seguros para que conversem, discutam, para sororidade (união entre mulheres, baseado na empatia).

Já no que diz respeito ao público masculino, o ideal seria o reconhecimento de seus privilégios sociais apenas por serem homens e usar isso a favor das mulheres, apoiando projetos que podem favorecer suas mães, filhas, irmãs e amigas.

A questão da violência à mulher – Feminicídio em foco

Segundo artigo publicado pela ONU – Organização das Nações Unidas, em 2016, a taxa de feminicídios no Brasil era de 4,8 para 100 mil mulheres – quinta maior no mundo – de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), que também revelou que entre os anos de 2003 e 2013, o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, passando de 1.864 para 2.875. A Lei do Feminicídio só foi reconhecida pelo Código Penal em 2015.

Com a aproximação da data 8 de março (Dia internacional da Mulher) que é um marco de reflexão para mulheres em todo o mundo sobre direitos já conquistados e ainda não, o portal Trocando Fraldas, realizou uma pesquisa por meio de questionário, aberto entre os dias 5 e 12 de fevereiro, que obteve 14 mil participações.

Dados marcantes da pesquisa

• 58% das mulheres consideram o feminismo necessário, mas apenas 41% se consideram feministas;

• A necessidade do feminismo se mostrou maior entre mulheres de 18 a 24 anos e entre as mulheres acima de 50 anos;

• Em Goiânia, 3 em cada 10 mulheres se consideram feministas;

• 31% das mulheres já sofreram violência;

• Mulheres no Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Tocantins e Santa Catarina já sofreram algum tipo de violência (percentual acima de 35%);

• Palmas, Florianópolis e Salvador são as capitais com maior índice de violência à mulher;

• 3 em cada 5 mulheres já sofreram violência moral, seguida pelas violências física e sexual, com 32% respectivamente;

• Mais da metade das entrevistadas (56%) já sentiu algum tipo de desvantagem por ser mulher, independentemente da idade, local de moradia ou situação maternal.

A pesquisadora brasileira, Carla Cristina Garcia, em seu livro Breve História do Feminismo, traz importante reflexão:

“[…] o feminismo ao longo de sua história foi alvo de campanhas que fizeram com que a população de modo geral acreditasse que o feminismo era um inimigo a combater e não que segundo a época e a realidade de cada país existiram e coexistiram muitos tipos de feminismo com um nexo comum: lutar pelo reconhecimento de direitos e oportunidades para as mulheres e, com isso, pela igualdade de todos os seres humanos.”

É comum ouvirmos que: o feminismo é inútil. O feminismo não deveria existir. Feministas são todas loucas. O feminismo fracassou. O feminismo está morto. Só o movimento feminista inicial foi importante e genuíno.

Confesso que já questionei se poderia me intitular feminista, se gostaria dessa nomenclatura. Não, na verdade não gosto. Quem gosta de assumir um fardo tão pesado e sujo? Quem quer fazer parte de uma luta hoje vista como inglória? Quem quer fazer parte de um movimento com tantas rupturas, com tantos ziguezagues? Quem deseja, em sã consciência, ser parte de um dos movimentos mais ultrajados do planeta? Mas é necessário. Posso me expressar aqui e tantas mulheres podem se expressar ao redor do mundo, porque mulheres lutaram e colocaram a própria vida à prova por vidas futuras, que seriam livres (todas somos) para aderir ou não ao movimento e à afirmação: sou feminista.

Referência

GARCIA, Carla Cristina. Breve História do Feminismo. Claridade. 3 ed. São Paulo, 2015.

Autora

Daiana Barasa trabalha para o Portal de maternidade Trocando Fraldas.

Créditos da imagem: Estudo: Importância do Dia internacional da Mulher. Portal Trocando Fraldas. Fevereiro, 2018.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.