Chamada Blogagem Coletiva: Dia da Visibilidade Lésbica

Dia 29 de agosto é o Dia da Visibilidade Lésbica. Em 29 de agosto de 1996, realizou-se o 1° Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE no Brasil. A data existe para ser um marco do movimento das lésbicas no país. É um dia de celebração, mas também de discussão e reflexão sobre os estigmas, preconceitos e a lesbofobia que ainda permeiam a questão.

O SENALE surgiu da necessidade de se ter um espaço no Brasil onde a questão específica das lésbicas pudesse ser discutida de uma forma mais ampla e democrática, já que o espaço dos encontros mistos se mostrava insuficiente.

O desejo e a consciência de que era necessária a constituição de um espaço onde pudéssemos discutir nossas especificidades e articular nossa intervenção nos diversos lugares em que as lésbicas atuam como os Movimentos de Mulheres e Feministas, de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexual e Transgêneros, da saúde, de moradia, da educação, entre outros, mobilizou companheiras militantes do movimento de lésbicas para que passássemos do campo do desejo e partíssemos para a ação concreta. Continue lendo em Seminário Nacional de Lésbicas – SENALE do Coletivo Feminista Marias.

Por isso, nós, Blogueiras Feministas, convidamos você para participar de uma blogagem coletiva neste Dia da Visibilidade Lésbica. Escreva um texto no seu blog e cole o endereço aqui nos comentários ou nos envie por email, redes sociais, etc. No dia 29/08, às 15h saíra um post com todos os textos participantes.

Hoje eu acho que nesses 6anos de namoro, ou confinamento no armário, o relacionamento foi se desgastando pela falta de demonstrações de afeto. Acabamos nos acostumando com aquele papel de amigas que nós representávamos. Beijos e abraços só no cinema, em casa (sem a presença dos nossos pais, é obvio), e no motel é claro. Chegou num ponto que mesmo em locais gays ou friendly nós não expressávamos afeto. Primeiro porque não devíamos, depois por costume. Não pra mim, mas pra ela parecia que só poderíamos ser lésbicas em ambientes fechados, nem era pelo fato do namoro ter que ser escondido dos pais. O problema era ser identificada como lésbica. O problema dela era se assumir pra si mesma. Continue lendo em O cheiro do armário ou notas sobre orgulho da Inquietudine.

Parisian Lesbian & Gay Pride 2007. Imagem de Philippe Leroyer no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Carta Aberta das Mulheres em Luta pelo Direto à Comunicação

Hoje, dia 24 de agosto será um dia importante para todas as pessoas que defendem a liberdade na web. O PL Azeredo, conhecido como AI-5 Digital, voltou ao debate na Câmara recentemente e poderá ser votado a qualquer momento. O pessoal da Campanha Mega Não tiveram sucesso em adiar temporariamente a votação conseguindo que a Câmara sediasse um Seminário para debater o projeto de lei. Este seminário está marcado para esta quarta-feira e contará com a presença de parlamentares aliados e representantes da sociedade civil.

Sobre o PL 84/99

O projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados em 2003 e enviado ao Senado. No Senado tramitou com o numero PLC 89/03, e em 2005 recebeu uma nova redação proposta pelo então Senador Eduardo Azeredo, tornando-o um projeto extremamente polêmico. Em julho de 2008 o projeto foi aprovado no Senado em caráter extra pauta (não estava na agenda do dia), e em conjunto com o projeto da CPI da Pedofilia, sob o argumento de que era para combater esta prática.

No final de 2009, atendendo às pressões da sociedade o Presidente Lula solicita ao Ministro da Justiça Tarso Genro que coloque em consulta pública o projeto do Marco Civil da Internet. Neste momento, o projeto PL 84/99 ficou congelado na Câmara, aguardando o final da consulta pública, e seu envio para o Congresso Nacional.

No final de 2010, sem nenhuma razão explicita o PL 84/99 foi “descongelado” e recebeu parecer em algumas comissões. Logo no inicio da nova legislatura, o Azeredo, agora como Deputado foi o relator do PL84/99 na CCTCI e tentou vota-lo na comissão no final de maio, no calor dos supostos ataques hackers. Na ocasião o Deputado Emiliano José Protocolou uma audiência pública que fora realizada no dia 13/07 deste ano. E no mesmo evento a Deputada Luiza Erundina protocolou um pedido de Seminário que será realizado no dia 24.

Os principais problemas no PL84/99 estão nos artigos 285-A, 285-B, 163-A, 171 e 22 conforme detalhado neste estudo.

Mulheres em luta pelo direito à comunicação

Lutar contra o AI-5 Digital é um das frentes de luta para muitas blogueiras feministas. Como diz Ju Pagul:

Uma cultura que muitas buscaram: hoje milhões de mulheres possuem seus próprios espaços na internet. Fizemos nossos telhados e jardins de expressão. Muitas trocam informações e conhecimento na rede. Tantas outras têm perfil no Twitter, Facebook, Orkut (isso sem citar as ferramentas livres). As redes sociais são praças. Hoje nós mulheres andamos de dia e de noite, pelas praças do mundo virtual. E voltamos pra casa quando bem entendemos.

Porém, nem todas conseguem usufruir da liberdade de criação e expressão na rede. Ainda temos muitas barreiras para derrubar quanto nossa vida expressiva no mundo virtual. Sabemos que poucas mulheres são programadoras, compreendem como funcionam os computadores, ou devido as múltiplas jornadas de trabalho conseguem tempo para navegar e aprender . Ainda temos muitos desafios de emponderamento na rede. Estamos justamente em várias frentes de batalha pela apropriação tecnológica e inclusão digital de mais mulheres. Continue lendo em Precisamos abortar o AI5 Digital.

Mulheres Conectadas. Imagem de Srta. Bia no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A internet é peça fundamental no empoderamento das mulheres e na livre circulação de idéias. É um espaço que deve ser ocupado por todos, por isso nós do Blogueiras Feministas assinamos junto com diversos outros grupos de mulheres a Carta aberta das Mulheres em luta pelo direito à comunicação.

O documento a seguir é fruto da Reunião Estratégica sobre Banda Larga e Marco Regulatório das Comunicações realizada pelo Instituto Patrícia Galvão, Geledés – Instituto da Mulher Negra e Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, com o apoio da Fundação Ford, entre os dias 3 a 5 de junho de 2011, em São Paulo. Esse encontro teve como objetivo a construção de uma agenda feminista de atuação de curto e médio prazo para a incidência no debate público e também na 3a Conferência Nacional das Mulheres em torno desses dois temas: banda larga e marco regulatório das comunicações.

A reunião contou com a participação de ativistas e especialistas de várias regiões do país, de diversas organizações feministas e do movimento pelo direito à comunicação. Veja mais detalhes no site: www.patriciagalvao.org.br / e-mail: agencia@patriciagalvao.org.br

Mulheres em luta pelo direito à comunicação

 Carta aberta por um novo marco regulatório para as comunicações no Brasil

As organizações do movimento feminista há tempos discutem a necessidade de mudanças no sistema midiático em nosso país de forma a garantir a liberdade de expressão e o direito à comunicação de todos e todas, e não apenas daqueles que detêm o poder político ou econômico e a propriedade dos meios de comunicação em massa.

Historicamente, combatemos a mercantilização de nossos corpos e a invisibilidade seletiva de nossa diversidade e pluralidade e também de nossas lutas. Denunciamos a explícita coisificação da mulher na publicidade e seu impacto sobre as novas gerações, alertando para o poder que esse tipo de propaganda estereotipada e discriminatória exerce sobre a construção do imaginário de garotas e garotos. Defendemos uma imagem da mulher na mídia que, em vez de reproduzir e legitimar estereótipos e de exaltar os valores da sociedade de consumo, combata o preconceito e as desigualdades de gênero e raça tão presentes na sociedade.

No momento em que o governo federal, o Parlamento e a sociedade brasileira discutem a elaboração de um novo marco regulatório para as comunicações em nosso país, nós, mulheres, trazemos a público nossas reivindicações, somando nossos esforços ao de todos os movimentos que acreditam na urgência de uma mídia efetivamente plural e democrática para a consolidação da democracia brasileira.

Afirmamos a importância da adoção de medidas de regulação democrática pelo Estado sobre a estrutura do sistema de comunicações, a propriedade dos meios e os conteúdos veiculados, de forma que estes observem estritamente os princípios constitucionais do respeito aos direitos humanos e à diversidade de gênero, étnico-racial e de orientação sexual. Já passou da hora de o Brasil respeitar os acordos e tratados internacionais que ratificou sobre este tema e de colocar em pleno vigor sua própria Constituição Federal, cujo capítulo da Comunicação Social é, até hoje, vergonhosamente, o menos regulamentado.

Neste sentido, reivindicamos a criação do Conselho Nacional de Comunicação, uma das resoluções centrais da I Conferência de Comunicação, até hoje não tirada do papel. Defendemos ainda a instituição de mecanismos de controle de propriedade, com o estabelecimento de limites à propriedade cruzada dos meios; o fortalecimento do sistema público e das mídias comunitárias; transparência e procedimentos democráticos no processo de concessão das outorgas de rádio e televisão, com o fim das concessões para políticos; o estímulo à produção regional e independente, garantindo espaço para a expressão da diversidade de gênero, étnico-racial e de orientação sexual; mecanismos de proteção à infância e adolescência, como o fim da publicidade dirigida à criança; e procedimentos de responsabilização das concessionárias de radiodifusão pela violação de direitos humanos na mídia, entre outros.

Num cenário de digitalização e convergência tecnológica, entendemos que o marco regulatório deve responder às demandas colocadas em pauta e promover uma reorganização do conjunto dos serviços de comunicações. Trata-se de um processo que não pode ser conduzido de forma apartada das diversas definições que já vem sendo tomadas pelo governo federal neste campo, como os recentes acordos anunciados com as empresas de telefonia em torno do Plano Nacional de Banda Larga.

As organizações do movimento feminista se somam à Campanha Banda Larga é um Direito Seu! e repudiam não apenas o recuo do governo em fortalecer a Telebrás e dar à empresa pública o papel de gestora do PNBL como a total entrega ao mercado da tarefa de ofertar à população aquilo que deveria ser tratado como um direito: o acesso a uma internet de qualidade, para todos e todas. Para as mulheres, a banda larga é uma ferramenta essencial de inclusão social, acesso à saúde e educação, geração de emprego e renda, acesso à informação e exercício da liberdade de expressão. Um serviço que deveria, portanto, ser prestado sob regime público.

Por isso, e porque queremos um novo marco regulatório para as comunicações, nós iremos às ruas. Trabalharemos em 2011 para sensibilizar, formar e mobilizar mulheres em todo o país. Defenderemos esta pauta na III Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres; no processo da Reforma Política; nas marchas que faremos a Brasília; junto à Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular; em nosso diálogo com o governo federal e com a Presidenta Dilma.

Esta é uma luta estratégica para as mulheres e fundamental para a democracia brasileira. Dela não ficaremos fora.

Brasil, julho de 2011.

Instituto Patrícia Galvão – Mídia e Direitos

Geledés – Instituto da Mulher Negra

Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

ABCCOM – Associação Brasileira de Canais Comunitários

ABCIBER – Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura

ABONG – Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais

Acmun – Associação Cultural de Mulheres Negras

ALCC- Associação de Apoio ao Imigrante em Portugal

Anas do Brasil – Educação Popular Ampliada – Gênero na Reforma Urbana e Direitos Humanos

ARCCA – Associação para Inclusão à Comunicação, Cultura e Arte

Article 19 – Oficina para Sudamerica

Articulação Brasileira de Lésbicas

Articulação de Mulheres Brasileiras

Articulação de Mulheres do Amapá – AMA

Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras

Articulação Mulher & Mídia Bahia

Articulação Mulher e Mídia de SP

Assesoar – Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural – Francisco Beltrão/PR

Associação Cultural e Recreativa Anjo Azul

Associação Cultural Ilê Mulher – Porto Alegre/RS

Associação de Mulheres da Zona Leste (SP)

Associação Fala Negão/Fala Mulher

Associação Mulheres na Comunicação – Goiânia

Associação Multiplicadoras de Cidadania Flôr de Lótus de Nova Friburgo/AMB

Bamidelê – Organização de Mulheres Negras na Paraíba

Bem Mulher – Direitos e Diversidades

Casa Laudelina de Campos Mello – Organização da Mulher Negra. Campinas/SP

Católicas pelo Direito de Decidir

CCLF – Centro de Cultura Luiz Freire (PE)

Centro de Comunicação e Cultura Popular Olho da Rua

Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé

Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará-CEDENPA

Centro de Referência da Cultura Negra de Venda Nova

CFEMEA – Centro Feminista de Estudos e Assessoria

CFP – Conselho Federal de Psicologia

Cipó – Comunicação Interativa da Bahia

Ciranda Internacional da Comunicação

Coletivo de Mulheres Aqualtune – ES

Coletivo de Mulheres da CUT – Amapá

Coletivo Leila Diniz (RN)

Coletivo Soylocoporti

Colmeias – Coletivo de Mulheres, Educação, Intervenção e Ação Social – Campina Grande (PB)

Comitê pela Democratização do Ceará

Comunicação e Cultura – Fortaleza/CE

Comunicação Mulher – Comulher

Conajira – Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial

CONEN – Coordenação Nacional de Entidades Negras

Confederação das Mulheres do Brasil

Conselho Regional de Serviço Social – CRESS 4ª Região

Criola Organização de Mulheres Negras- Rio de Janeiro/RJ

Elas por Elas – Vozes e Ações das Mulheres-S.Paulo

Escola de Comunicação da UFRJ

Federação das Associações de Mulheres de Negócios e Profissionais- BPW Brasil – MT

Federação Democrática Internacional de Mulheres

FNDC – Fórum Nacional Pela Democratização da Comunicação

Fopecom – Fórum Pernambucano de Comunicação

Fórum de Comunicação Sertão do São Francisco – Bahia

Fórum de Mulheres de Pernambuco

Fórum de Mulheres de São Leopoldo

Fórum de Mulheres do Espírito Santo

Fórum Estadual de Mulheres Negras de Minas Gerais

Fórum Nacional de Mulheres Negras

Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC-CE)

Fórum Paraibano de Promoção da Igualdade Racial

FRENAVATEC – Frente Nacional pela Valorização das TVs do Campo Público

Grupo Cactos (Paulista/PE)

Grupo Curumim (PE)

Grupo de Mulheres Negras Malunga (Goiânia/GO)

Grupo de Teatro Loucas de Pedra Lilás

GT Mulheres do Fórum da Amazônia Oriental

IDEC – Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor

IMEL – Instituto Imersão Latina

Imena – Instituto de Mulheres Negras do Amapá

Instituto AMMA Psique e Negritude

Instituto Búzios

Instituto Flores de Dan

Instituto Raízes da Terra – ES

Instituto Telecom RJ

Laboratório de Políticas de Comunicação (LaPCom) da Universidade de Brasília (UnB)

LBL – Liga Brasileira de Lésbicas

MAMA – Movimento das Mulheres do Amazonas

Mandato da Deputada Estadual Neusa Cadore – PT – Bahia

Marcha Mundial das Mulheres

Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras – Porto Alegre/RS

Maria Mulher – Organização de Mulheres Negras – RS

Movimento D´Ellas

Movimento das Mulheres Trabalhadoras Urbanas de São Miguel Oeste SC- MMTU

Movimento Negro Unificado-PE

Movimento Permanente de Mulheres de Políticas Públicas da Baixada Fluminense e Território Nacional

Observatório da Mídia Regional: direitos humanos, políticas e sistemas

Observatório da Mulher

Observatório Negro

Observatório Negro – Recife/PE

Pastoral Afrobrasileira do Litoral Norte de Ubatuba-SP

Prevenção Madalena’s / Suiça – Brasil

Programa de Pós-Graduação da Eco-UFRJ – Grupo de Pesquisa em Política e Economia da Informação e da Comunicação (PEIC)

Projeto Promotoras Legais Populares de Taubaté-SP

Rede das Mulheres de Terreiro de Pernambuco

Rede de Mulheres da AMARC-BRASIL

Rede de Mulheres em Articulação na Paraíba

Rede de Mulheres em Comunicação

Rede Mulheres Negras – PR

Rede Nacional da Promoção e Saúde das Lésbicas Negras – Rede Sapatà

Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos

REDEH – Rede de Desenvolvimento Humano

Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul

Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce)

Sociedade das Jovens Negras Feministas

SOS CORPO – Instituto Feminista para a Democracia

Teatral Grupo de Risco – Mato Grosso do Sul

TV Comunitária de Brasília

Uiala Mukaji Sociedade das Mulheres Negras de Pernambuco

Umar – União de Mulheres Alternativa e Resposta/ Observatório das Representações de Género dos Media

União Alternativa Cultural – UNIAC

União Brasileira de Mulheres – UBM

Via TV Mulher

Carta a um machista em redenção

Este post foi originalmente publicado no Papo de Homem a convite de seus editores, com o título “Conselhos a um machista em redenção”. Ele está sendo republicado aqui na íntegra como foi enviado. Outro post nosso que também foi publicado lá é o “7 Mitos Machistas que eu e você reproduzimos” que já teve seu original “7 Fatos do Machismo Diário” republicado aqui.

Imagem de Paul Lowy, no Flickr em CC alguns direitos reservados

Oi, Gustavo Gitti,

Soube que você estava se questionando, pensando em como ser menos machista, e resolvi escrever pra você. Não tenho pontos de chegada, mas conheço umas estradas, vamos percorrê-las? De quebra, escrevo não só pra você mas todos aqueles que desistiram de ser o macho que bate no peito e grita como Tarzan no século XXI. Para os que resolveram mudar e construir um mundo mais igualitário, para mulheres e homens. Aquele que decidiu que chegou a hora de tirar o “S” do peito e deixar de lado aqueles preconceitos idiotas de que mulher no trânsito é perigo constante, de que se pagou o jantar na sobremesa deve estar incluído um boquete.

Então, eu acredito que existem três coisas fundamentais pra começar este processo:

a) sair da postura defensiva. Quando falamos de machismo não estamos reduzindo você a este aspecto. Não é que você SEJA machista e nada mais. Reconhecemos que você também se comporta de forma atenciosa, inteligente, espirituosa…isso são aspectos, né? Cada um de nós é um mosaico.

b) aceitar abrir mão de privilégios. Faz parte da sociabilidade humana: ceder, respeitar, reconhecer. Que privilégios, você pode se perguntar. Eu respondo: desde ser melhor pago pelo mesmo trabalho que uma mulher até avaliá-la e classificá-la pejorativamente pela sua disposição ou disponibilidade sexual. Se eu for de vestido curto para faculdade, se entrar embaixo do edredon com alguém num reality show, se pegar dois caras de uma mesma turma, o que me acontece? Não interessa minha inteligência, meu senso de humor e nem minhas dicas de shows bacanas, se eu era de esquerda ou direita, a partir daquele momento eu sou a vadia, a puta, a biscate que não vale nada. E você? Quando você pegou duas mulheres na mesma noite, disseram o quê? Pois é. Privilégio é isso.

c) ficar vigilante. Nossa sociedade é estruturada com valores machistas. Há uma naturalização dos campos de comportamento, aprendizagem, trabalho, lazer, sexualidade, baseados em estereótipos biológicos. Masculino e Feminino não são regras fixas, pré-determinadas, naturais. São conceitos construídos e fixados ao longo de séculos de formação cultural, reproduzidos diariamente. Será que você consegue enxergar as entrelinhas? Por exemplo: mulheres não foram sempre preocupadas com dietas, achando que sempre podem perder mais 3 quilos. Não é biológico categorizar mulheres em dois grandes grupos: as putas e as decentes. A cientista que passou anos estudando e descobriu a cura para uma doença terá que dar entrevista falando que sempre arruma um tempinho para pintar as unhas. A presidenta, senadora, deputada ou vereadora será questionada em entrevistas sobre o que mais gosta de cozinhar. A universitária que cursa engenharia mecatrônica terá que ouvir milhares de piadinhas sobre mulheres que não sabem ligar uma cafeteira. Nenhum homem terá seu trabalho, ou seu blog avaliado como “coisa de homenzinho”. Essa banalização de papéis nos cega para as distinções cotidianas. É preciso “estar atento e forte” e reconhecer que todo mundo pisa na bola, que somos passíveis de engano, que vez ou outra o contexto cultural fala pela nossa boca.

Partindo do reconhecimento destas premissas, algumas sugestões pro dia-a-dia. Não é receita, não é modelo, tá? Se se compreende que há diversidade de anseios, desejos e comportamentos nas mulheres simetricamente também se reconhece a diversidade dos homens. Das pessoas. Mas vamos às dicas que estamos neste papo pra isso, né?

1. Não faça piadas sexistas. Nem homofóbicas. Nem racistas. Não ria de piadas assim. Observe a sua linguagem. Por exemplo: quando você fica com raiva de uma mulher – seja por um problema no trabalho, no trânsito, etc. – qual o primeiro xingamento que lhe ocorre? Você já chamou algum homem de “boi”, “galo”, “piranho”? Já reparou a diferença de conotação entre “vagabundo” e “vagabunda”? É isso, tente evitar usar palavras que trazem essa carga de sexismo. Ah, uma dica, repare também se você fala “o homem” no sentido de “a humanidade” como: “o homem está pesquisando a cura de várias doenças”, é um bom indício de um pensamento sexista.

2. Não rotule. Reflita se suas conclusões estão sendo tiradas a partir da sua relação pessoa-pessoa ou baseada em generalizações sociais. Pode causar estranheza ver uma mulher em ambientes considerados masculinos, como estádios de futebol, cursos de engenharia, etc. Mas não tire conclusões precipitadas, não assuma logo de cara que ela está ali porque está a fim do jogador ou porque quer aparecer. Muitas mulheres gostam de futebol, curtem matemática, são hábeis em situações que exigem lógica. Olha, comportamento não vem de fábrica. É item customizado. “Mulher”, assim como você, é ser em construção e deve ser compreendida uma a uma.

3. Pense. Somos humanos e desde Sócrates (o filósofo, não o meia) que se reconhece que uma das coisas que caracteriza nossa humanidade é a capacidade de refletir sobre a reflexão. Na dúvida, antes de fazer um julgamento, se pergunte: e se fosse um homem naquela situação? Se a resposta for a mesma, beleza. Se houver inquietação, alerta vermelho, comportamento machista à vista. E se fosse um homem andando sozinho na rua de madrugada? E se fosse um homem dirigindo? Jogando? Falando sobre leis da física? Cozinhando?

4. Observe o cotidiano. Repare no trabalho invisível que sobrecarrega as mulheres. Por que as mulheres é que levam as crianças ao médico? Por que elas é que comparecem às reuniões de pais na escola? Por que você lava a louça e se sente “ajudando em casa” e ela esfrega os azulejos do banheiro, engoma a roupa, arruma os armários quando se chega do mercado, coloca as roupas na máquina? Repare nas obrigações e culpas invisíveis que exacerbam esta sobrecarga. Por que “quem pariu Mateus que balance”? Se você quer realmente mudar, Gustavo, faça o trabalho doméstico. Porque eu posso ficar horas nesse blá blá reflexivo, mas nós dois sabemos que na hora do pega pra capar (olha a linguagem sexista aí, gente – tá vendo, eu também piso no tomate) o que vale é ação refletida. Então, faça o trabalho doméstico. Experimente a rotina dela: chegar em casa e ainda ter a casa para cuidar, o supermercado para fazer, a roupa para lavar. Melhor do que ler e se informar sobre a dupla jornada de trabalho das mulheres é entender na prática o que isso significa. Se quiser dar mais realismo à experiência, peça a essa mulher que ao chegar em casa te pergunte o que tem pra jantar e reclame: “Frango, de novo?!”

Ah, como você notou, tenho muito a dizer sobre isso. Quem sabe continuamos falando, adoro papear.

Para entender mais:

Pesquisa da Fundação Perseu Abramo em parceria com o Sesc: Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado.