Xanas on fire, ressaca e resistência: sobre a Marcha das Mulheres em Washington

Texto de Ana Rusche para as Blogueiras Feministas.

Xanas on fire

A primeira faísca veio do Havaí. Sem conseguir dormir bem com a vitória do Trump, Teresa vai lá desabafar no facebook: gente, e se no dia da posse, muitas mulheres marchassem para Washington? A aposentada vai lá e cria um evento. 40 pessoas confirmaram. Foi dormir preocupada com o futuro das netas. Quando acordou, a surpresa: seu evento tinha 10 mil confirmações! O segundo estouro foi visto em Nova York, quando Bob posta a foto com a legenda “Marcha de um milhão de bucetas – acho que a gente devia montar uma coalizão de t-o-d-a-s as aliadas marginalizadas e fazer isso”. Recebeu 31 curtidas e 4 comentários. A partir daí, não é possível traçar muito bem a genealogia do pussyfire que se alastrou. Aliás, se tem algo que o Trump fez de bom, foi colocar pussy na boca de todo mundo.

A palavra Pussy de pussycat pode designar gatinho, algo fofo e felpudo. Mas pussy é um termo pejorativo para buceta. Também designa mulher como mero objeto sexual. No português, será que a etimologia de “xana” indica esse caminho? Gatinha, bichana, xana? Os dicionários não estão nem aí com estas palavras, daí a gente pode fazer o que bem entender com elas. Pussy se tornou popular com um vídeo que viralizou durante a campanha presidencial. Nele, Trump diz a frase “Grab them by the pussy” (as agarro pela buceta) – expressão que resume o tratamento misógino dispensado às mulheres por parte do então presidenciável. De pussy para lá e pussy para cá, criou-se o pussyhat (gorro-buceta, no original rima com pussycat), indumentária rosa-choque que inundou todas as fotos que se vê da marcha.

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‘Madame Oráculo’ e as mulheres de classe média

Texto de Ana Rüsche.

Durante o feriado, pensei bastante no que poderia trazer para vocês. Dicas de leitura são sempre bem-vindas, não são? Aí lembrei de Madame Oráculo, livro da Margaret Atwood que me impressionou bastante, embora agora, visto com olhares mais críticos, lá tenha suas muitas pontas soltas… Dessa maneira, compartilho algumas de minhas discussões internas com vocês.

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Margaret Atwood, autora de ‘Madame Oráculo’.

Margaret Eleanor Atwood é uma escritora canadense, nascida em 1939. Começou a publicar em 1961 e nunca mais parou! Tem uma profusão de romances, poemas, livros infantis, fez crítica literária, peças de teatro e roteiros para rádio e televisão. Inclusive, tem um perfil no twitter considerado muito influente: @MargaretAtwood.

Nos anos de 1970 a 1990, poderíamos dizer que o “falar de mulher” é marca da sua obra. Parte da crítica a recepciona como feminista e, sem dúvida, não dá para pensar em alguns de seus livros sem ter em mente as profundas alterações no status das mulheres no século XX. Só para complementar, recentemente, lá pelos anos 2000, há uma ruptura temática na sua produção e a autora incursiona pelo gênero da ficção científica, tratando bastante de apocalipses ecológicos e outras questões (os livros Oryx e Crake, O Ano do Dilúvio e MaddAddam), gosto bastante do segundo, dá o que pensar.

Madame Oráculo (Lady Oracle) foi publicado em 1976 e faz parte do primeiro trio de romances da autora, antes viriam The Edible Woman (1969) e Surfacing (1972). Nesta época, Atwood trabalha sobre as questões da condição social da mulher e de sua representação, mas dentro do universo feminino das mulheres de classe média norte-americanas e europeias: trata de casamento (sim, ainda!), da configuração do corpo dentro de regras estéticas rígidas, das maneiras de ocupação do espaço privado, etc.

Se me perguntarem qual o interesse nessa leitura, diria que é observar melhor a ideologia que acompanha a transição histórica da consolidação das mulheres de classe média no mercado de trabalho, sem a garantia da tão prometida equiparação aos homens – você enxerga muita resistência em admitir esse papel subalterno, ao mesmo tempo em que não se consegue enxergar uma superação possível da condição que não seja a destruição de seus próprios privilégios. Lady Oracle traz essa discussão: a impossibilidade de emancipação feminina, mas dentro de uma visão liberal do conceito de “emancipação”, pois a protagonista está fadada a suportar os aprisionamentos de sua classe e condições sociais.

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O romance narra a história de vida de Joan Foster, escritora de romances pulp no estilo gótico sob o pseudônimo Louisa K. Delacourt (a Jeanne iria gostar), atividade que esconde de seu marido Arthur, depressivo e “pretenso intelectual perdido entre as teorias sociais e políticas de uma sociedade em transformação[1]”. Na infância, Joan era uma garota obesa com problemas de relacionamento com a mãe, tendo que suportar as maldosas coleguinhas de escola.

A narrativa inicia-se com Joan maquinando uma trama mirabolante que envolve sua própria morte durante um pequeno veraneio solitário na vila de Terremoto na Itália. Tomando sol à beira de uma sacada, na tradição ocidental trovadora, um local de passagem entre o espaço público e o recôndito privado, a narradora explica suas motivações: sendo constatada sua morte, obteria alguma liberdade que não possuía na vida casada sem maiores aspirações. Com a morte forjada, a união dos anseios que a dividiram em duas identidades (a escritora gótica e a esposa infeliz) seria finalmente possível, com o vislumbre para uma vida tolerável. Citando esse trechinho:

“Mas esta não era uma sacada romântica. Tinha um parapeito geométrico como aqueles dos prédios de apartamento de renda média dos anos cinquenta, e o chão era de cimento bruto já começando a erodir. Não era o tipo de sacada em que um homem ficaria embaixo tocando alaúde, ansioso, nem a escalaria carregando uma rosa nos dentes ou um estilete na manga[2]”.

O contraste entre a situação patética da narradora e seus desejos românticos é engraçado (geralmente, os textos da Atwood possuem um humor ácido), mas acaba reforçando as limitações sociais da narradora: sempre à espera de suposto amante “genuíno”, que a salve heroicamente da situação desconfortável. Veja, não estamos no século XIX e a protagonista também não é nenhuma boba, é bastante irônica a seu próprio respeito. Entretanto, não deixa de desejar sinceramente que seus amantes corporifiquem um herói… Conhece a história?

No fim, o romance produz a famosa configuração da tragédia rasa, uma tragédia sem o verdadeiramente trágico: uma desgraça sem apresentar um sentido maior histórico ou social, pois se resume a lamentar (inutilmente) a ausência de liberdade individual dentro de uma noção de liberdade e de felicidade definidas ali no quadradinho.

Acho que a discussão sobre esses romances é muito boa, pois faz com que possamos pensar com mais perspectiva sobre muitos assuntos. Encontrei dois outros textos que comentam o enredo da obra: Madame Oráculo e Madame Oráculo e seus labirintos.

Até a próxima!

Referências

[1] HOSSNE, Andréa, Bovarismo e Romance, Madame Bovary e Lady Oracle. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, p. 52.

[2] Tradução de Domingos Demasi citada em HOSSNE, Andréa, Bovarismo e Romance, Madame Bovary e Lady Oracle. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000, p. 49.

Mulheres engarrafadas: não sou Jeannie, só quero beber minha cerveja

Texto de Ana Rüsche.

Hoje o papo é de bar. Desculpe, é o hábito. Podia até escrever algo mui sisudo sobre as representações violentas da mulher executadas pela cultura que envolve o consumo de cerveja, mas creio que a forma não é a adequada. Ninguém resiste a papo furado. Aí lembrei de começar pela Jeannie é um Gênio, essas bobageiras do século passado. Se não temos metáforas cultas, vamos mesmo de patáfora: o assunto hoje é mulheres engarrafadas.

Série de tv americana 'Jeannie é um gênio' (1965).
Série de tv americana ‘Jeannie é um gênio’ (1965).

A Jeannie é um gênio, educadora sentimental de tantos lares dos anos 60 aos 80. Loira, penteada, corpo escultural, tinha lá o seu lado arrojado — teve que filmar com massinha no umbigo para evitar escândalo. Na trama, embora tenha sido libertada pelo amo no primeiro capítulo e fosse a toda-poderosa, queria mesmo ter sua idolatria incondicional ao Cap. Nelson realizada, resumindo-se a ser bastante ingênua, cômica. Engarrafada.

Sim, eu também adoro a musiquinha da abertura. Até já me fantasiei de Jeannie numa época pré-instagram. A questão é: e se eu quiser utilizar os poderes de gênia a meu próprio favor ou a favor de minhas próprias convicções? Hum, creio que a Jeannie instantaneamente teria sua carteirinha de maga cassada.

Falar de mulheres e da cultura que envolve o mercado de cerveja é um pouco por aí. Difícil não lembrar rápido de uma propaganda ou campanha que não trate a mulher como a engarrafadinha, pronta a ceder aos desígnios do primeiro amo bêbado que surgir tropeçando. E, pobre amo, relegado ao papel único de machão grosseiro eterno. Ama, nem pensar! Tudo nas caixinhas da heteronormatividade, organizadinhas. É uma cultura que afirma e reafirma que a mulher deve ficar ali naquele lugarzinho de prontidão à obediência de corpo e alma ao amo: alegre, mas não muito alcoolizada; sorrindo, mas para somente para seu Homem, e assim vamos ladeira abaixo…

Encontrei alguns textos mais focados que falam do assunto. Um texto assertivo da Luma: Reflexões sobre Feminismo e Cerveja: Nós podemos!. O artigo acadêmico ‘A representação da mulher na mídia: um olhar feminista sobre as propagandas de cerveja’ da Sabrina Uzêda da Cruz (UFBA). O texto da Tassia Hallais: Sobre cervejas, detergentes e desodorantes. Outro da Ju Pagul, sobre a decisão de vender ou não a Devassa: Já tomou Tarado? Ou… fermentando a mercantilização dos corpos das mulheres, (a decisão acertada da Ju você já pode imaginar qual é). Sem perdoar ou nem esquecer o racismo da propaganda da Brasil Kirin para a mesma marca, como aponta Soraya Barreto no texto: A estereotipia da cegueira: o caso ‘Devassa Dark Ale’. Mil vezes a Brew Dog que ironizou a macheza das leis “anti-gay” do Putin com a campanha Hello, my name is Vladimir.

Da esquerda para direita: A escocesa BrewDog fez campanha irônica contra o Putin com o rótulo “Hello, my name is Vladimir”, destinado a “uber hetero men”. Rótulo premiado no concurso brasileiro agora em Blumenau: Double Viena da Cervejaria Morada Cia. Etílica. Rótulo da Rogue especial para o Dia das Mães, cerveja de trigo com pétalas de rosa. Não era rosa que tinha que dar para a mãe?
Da esquerda para direita: (1) A escocesa BrewDog fez campanha irônica contra o Putin com o rótulo “Hello, my name is Vladimir”, destinado a “uber hetero men”. (2) Rótulo premiado no concurso brasileiro: Double Viena da Cervejaria Morada Cia. Etílica. (3) Rótulo da Rogue especial para o Dia das Mães, cerveja de trigo com pétalas de rosa. Não era rosa que tinha que dar para a mãe?

Como gosto de cervejas artesanais, fico pensando se, pelo menos nesse nichinho de mercado, as coisas podiam ser menos trágicas. Creio que não. Ainda não. É só ler alguns textos e convites que colocam as mulheres na posição de acompanhantes, coadjuvantes, eternas principiantes e donzelas em perigo. Do tipo: olha, ela até bebe! Ou, olha, ela sabe que existem estilos de cerveja! Ou ainda, olha, ela até enfrenta uma IPA! E meus prediletos: podem levar as esposas! Sempre melhor rir e tomar um trago amargo do que chorar.

De qualquer forma, preciso dizer que algumas marcas, bares e eventos de artesanais se preocupam mais com o produto em si do que na perpetuação eterna das propagandas sexistas. Não é ainda uma superação, mas, pelo menos, uma mudança de foco. Tivemos a pouco o Concurso Randy Moscher de Design de Rótulos, por ocasião do Festival de Blumenau, e nos vencedores do rótulo de linha dá para ver bem isso.

Enfim, desejo que nesse tão alardeado “renascimento da cultura das cervejas artesanais”, possa surgir uma cultura de consumo menos sexista, menos engarrafadora de mulheres em rótulos enfadonhos.

Que a Jeannie possa parar de tanto querer agradar o tal do amo (o qual deve ter coisas mais interessantes para fazer do que ser agradado) e vá atrás de seus próprios desejos. Inclusive, a Jeannie pode usar toda sua genialidade para descobrir quais são. Nunca é simples descobrir o que se deseja fora do rótulo. Viver fora da garrafinha pode ser mais complexo, mas, pelo menos, você pode bebericar tua cerveja em paz. Saúde!

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CONVITE

Junto com Mayara Miranda coordeno a Hildegarda, projeto para difundir a cultura das cervejas artesanais, com ênfase à produção brasileira.

Nosso próximo encontro será em São Paulo, no sábado 22/3. Terá a honrosa presença das Lupulinas – Cilmara Bedaque e Vange Leonel. Beberemos e conversaremos. O tema de março? Cerveja e mulheres, o que mais poderia ser?

Quem não puder vir, pode acompanhar pela página no Facebook, no twitter (@cervejashildegarda) ou no blog. Às ordens!