Se ninguém precisa ser trans então quer dizer que todos nós devemos ser cisgêneros?

Texto de Bia Pagliarini.

Eu já escrevi bastante sobre isso, mas eu fico injuriada com certas noções sobre as identidades trans. Uma delas é acerca da história das pessoas dizerem, a partir de um certo tom de “crítica aos estereótipos de gênero”, que ninguém “precisa” ser trans “por gostar de x coisa”, sendo x algo relacionado a um outro gênero em relação ao designado ao nascer de alguém.

O que fica implícito nessa suposta crítica é de que as pessoas trans só seriam trans porque estariam seguindo uma noção binária e estereotipada acerca das coisas que gostam de fazer, de forma com que elas estariam se iludindo a serem trans a partir de uma internalização de normas de gênero.

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A gênese da transfobia

Texto de Bia Pagliarini.

Quando dizem por aí que opressão “não se escolhe” no intuito de desconsiderar a legitimidade das identidades trans, desconfie – afinal, pessoas trans também não escolhem sofrer transfobia! Vou explicar o porquê: tudo tem a ver com duas concepções distintas da gênese da transfobia. Uma concepção individualista/liberal e outra materialista/estrutural desta gênese. O mais irônico de toda essa “polêmica” é que justamente uma concepção individualista/liberal acerca da transfobia se reivindica enquanto materialista/estrutural e até mesmo em nome de um “feminismo radical”. Vou explicar o porquê de todo esse imbróglio.

Vemos sistematicamente a tentativa de pessoas em nome de um feminismo trans-excludente de denunciar que o reconhecimento de mulheres trans enquanto mulheres seria algo “perigoso” e “mentiroso” para o feminismo. O argumento dessas pessoas que se reivindicam “feministas radicais” seria de que, como a identidade de mulheres trans se dá enquanto uma “escolha individual”, a transição como ponto de origem de toda a transfobia, a transfobia não poderia se configurar enquanto uma opressão. Ou seja: esta perspectiva, que supostamente se intitula enquanto materialista, toma como ponto de partida a categoria de indivíduo para a compreensão da gênese da transfobia, já que toda forma de violência contra este grupo de pessoas estaria vinculada a este momento fundante da transição de gênero de indivíduos.

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Sabe porque mulheres trans são mulheres?

Texto de Bia Pagliarini.

RECONHEÇAM A NOSSA DIGNIDADE. NÃO RESUMA NOSSAS VIDAS A UM RÓTULO. NÃO FETICHIZE NOSSA EXISTÊNCIA.

Sabe porque mulheres trans são mulheres? Justamente pelo fato do ser mulher não ser um rótulo. Justamente pelo fato do ser mulher não ser um rótulo que a gente reconhece a identidade de pessoas trans como legítima. Justamente por identidade de gênero não ser um rótulo que a gente compreende a construção identitária para além da cisnormatividade. A gente compreende, justamente, o processo de subjetivação como processo de resistência a essas designações e expectativas impostas quanto ao gênero.

Sabe porque? Porque a vida das pessoas trans não é e tampouco se resume a um rótulo. Nossa luta por direito e cidadania tampouco se resume a um rótulo. Aliás, se tudo se resumisse a um rótulo, todas as pessoas seriam cisgêneras, afinal, rótulo é algo que nos foi imposto numa certidão de nascimento e a partir disso, se criam expectativas sobre essa designação. Nós pessoas trans ao contrário, resistimos a esses rótulos impostos e todo um imaginário que vem a partir da designação deles. E sofremos violência por questionar essa atribuição coercitiva: o Brasil é o país em que mais se mata pessoas trans no mundo, 90% das travestis se encontram na prostituição por falta de oportunidades e a nossa expectativa de vida é de cerca de 35 anos. Ainda hoje pessoas trans no nosso país e em tantas parte do resto do mundo tem dificuldade em obter educação e cuidados de saúde específicos, além da falta de inserção no mercado de trabalho em virtude de discriminação.

CFESS lança cartaz especial para o Dia Nacional da Visibilidade Trans.
CFESS lança cartaz especial para o Dia Nacional da Visibilidade Trans.

Nós mulheres trans não nos resumimos também a comportamentos estereotipados femininos. Somos diversas, assim como pessoas cis são diversas. Nossas identidades não são previamente definidas. As identidades trans não apenas reproduzem padrões e expectativas, elas também são capazes de subverter tais normas.

Nós não somos fetiche de gente cis, preciso avisar. Gente cis falar que mulher trans é “fetiche” de gente cis só prova, ao contrário, o quanto mulheres trans são fetichizadas por um olhar exterior (ciscentrado) a nossas próprias existências, um olhar que busca destituir das pessoas trans a nossa própria condição de sujeito. Este olhar, que pretende supostamente criticar a objetificação feminina, objetifica as identidades trans e em especial, as identidades trans femininas. Nós não somos fetiche; somos sujeitos. Dizer que pessoas trans são fetiche de gente cis é em si mesmo um processo transfóbico de fetichização de nossas existências.

Nós pessoas trans reivindicamos a nossa condição enquanto sujeitos de nossa própria vida e história. Nós resistimos à transfobia e nós somos, portanto, sujeitos que irão transformar esta realidade opressora. Buscamos que as pessoas cis construam alteridade em relação as pessoas trans: ou seja, que saibam se reconhecer através desta diferença, saibam, enfim, reconhecer a humanidade na existência do Outro através da empatia.

Toda vez que alguém usar do suposto argumento de que “ser mulher não é um rótulo” pra corroborar a tese de que “mulher trans não é mulher”: desconfie. Sabe porque? Porque essa pessoa está, na verdade, resumindo todo um processo de vida e luta – já que a construção das nossas identidades trans num mundo transfóbico é um processo de luta também – a um rótulo. As nossas vidas enquanto pessoas trans não se resumem a um rótulo. Então pessoa cis, se atente para as nossas lutas, se atente para a nossa humanização antes de dizer que a luta pelo reconhecimento das identidades trans se resume a um “rótulo”. Vai muito além de um rótulo. Rótulos servem pra que nós, enquanto militância organizada, mobilize a luta pelo reconhecimento coletivo.

A luta de pessoas trans também é um processo histórico e coletivo de um grupo social por reconhecimento e direitos. Isso passa pelo reconhecimento de nossas identidades. Isso passa pela desconstrução da noção de que pessoas trans são falsas, erradas, abjetas e inadequadas.

Obrigada.

Publicado em 29/05/2016 na página Transfeminismo no Facebook.