Sabe porque mulheres trans são mulheres?

Texto de Bia Pagliarini.

RECONHEÇAM A NOSSA DIGNIDADE. NÃO RESUMA NOSSAS VIDAS A UM RÓTULO. NÃO FETICHIZE NOSSA EXISTÊNCIA.

Sabe porque mulheres trans são mulheres? Justamente pelo fato do ser mulher não ser um rótulo. Justamente pelo fato do ser mulher não ser um rótulo que a gente reconhece a identidade de pessoas trans como legítima. Justamente por identidade de gênero não ser um rótulo que a gente compreende a construção identitária para além da cisnormatividade. A gente compreende, justamente, o processo de subjetivação como processo de resistência a essas designações e expectativas impostas quanto ao gênero.

Sabe porque? Porque a vida das pessoas trans não é e tampouco se resume a um rótulo. Nossa luta por direito e cidadania tampouco se resume a um rótulo. Aliás, se tudo se resumisse a um rótulo, todas as pessoas seriam cisgêneras, afinal, rótulo é algo que nos foi imposto numa certidão de nascimento e a partir disso, se criam expectativas sobre essa designação. Nós pessoas trans ao contrário, resistimos a esses rótulos impostos e todo um imaginário que vem a partir da designação deles. E sofremos violência por questionar essa atribuição coercitiva: o Brasil é o país em que mais se mata pessoas trans no mundo, 90% das travestis se encontram na prostituição por falta de oportunidades e a nossa expectativa de vida é de cerca de 35 anos. Ainda hoje pessoas trans no nosso país e em tantas parte do resto do mundo tem dificuldade em obter educação e cuidados de saúde específicos, além da falta de inserção no mercado de trabalho em virtude de discriminação.

CFESS lança cartaz especial para o Dia Nacional da Visibilidade Trans.
CFESS lança cartaz especial para o Dia Nacional da Visibilidade Trans.

Nós mulheres trans não nos resumimos também a comportamentos estereotipados femininos. Somos diversas, assim como pessoas cis são diversas. Nossas identidades não são previamente definidas. As identidades trans não apenas reproduzem padrões e expectativas, elas também são capazes de subverter tais normas.

Nós não somos fetiche de gente cis, preciso avisar. Gente cis falar que mulher trans é “fetiche” de gente cis só prova, ao contrário, o quanto mulheres trans são fetichizadas por um olhar exterior (ciscentrado) a nossas próprias existências, um olhar que busca destituir das pessoas trans a nossa própria condição de sujeito. Este olhar, que pretende supostamente criticar a objetificação feminina, objetifica as identidades trans e em especial, as identidades trans femininas. Nós não somos fetiche; somos sujeitos. Dizer que pessoas trans são fetiche de gente cis é em si mesmo um processo transfóbico de fetichização de nossas existências.

Nós pessoas trans reivindicamos a nossa condição enquanto sujeitos de nossa própria vida e história. Nós resistimos à transfobia e nós somos, portanto, sujeitos que irão transformar esta realidade opressora. Buscamos que as pessoas cis construam alteridade em relação as pessoas trans: ou seja, que saibam se reconhecer através desta diferença, saibam, enfim, reconhecer a humanidade na existência do Outro através da empatia.

Toda vez que alguém usar do suposto argumento de que “ser mulher não é um rótulo” pra corroborar a tese de que “mulher trans não é mulher”: desconfie. Sabe porque? Porque essa pessoa está, na verdade, resumindo todo um processo de vida e luta – já que a construção das nossas identidades trans num mundo transfóbico é um processo de luta também – a um rótulo. As nossas vidas enquanto pessoas trans não se resumem a um rótulo. Então pessoa cis, se atente para as nossas lutas, se atente para a nossa humanização antes de dizer que a luta pelo reconhecimento das identidades trans se resume a um “rótulo”. Vai muito além de um rótulo. Rótulos servem pra que nós, enquanto militância organizada, mobilize a luta pelo reconhecimento coletivo.

A luta de pessoas trans também é um processo histórico e coletivo de um grupo social por reconhecimento e direitos. Isso passa pelo reconhecimento de nossas identidades. Isso passa pela desconstrução da noção de que pessoas trans são falsas, erradas, abjetas e inadequadas.

Obrigada.

Publicado em 29/05/2016 na página Transfeminismo no Facebook.

O cissexismo é fundante e estruturante das normas de gênero

Texto de Bia Pagliarini para as Blogueiras Feministas. 

A identidade de gênero das pessoas se objetiva enquanto fato social não pela categoria de indivíduos, mas porque a estrutura das normas de gênero (enquanto fato social exterior a qualquer indivíduo) estabelecem que a identidade dos indivíduos deve ser cisgênera, heterossexual, etc…

As normas de gênero, além de heterossexuais, são cisgêneras. O cissexismo não é violência que pessoas trans sofrem enquanto indivíduos pontuais em razão da externalização das suas identidades; o cissexismo atua de forma prévia a casos de violência contingentes e eu vou explicar o porquê. A atuação do cissexismo, portanto, é estruturante e fundante das normas de gênero que causam violência.

O argumento que diz que a causa das pessoas trans ou o transfeminismo é “subjetivista” apela, na verdade, através justamente de um argumento liberal, já que a categoria de análise que se está usando para negar a existência da transfobia como estruturante das normas de gênero é a de indivíduos. Quando se diz que mulheres trans são homens em virtude de um desígnio dado as nascer se está apelando para a existência individual de pessoas trans (em especial, apelando para uma vaga imagem sobre “mulheres trans não transicionadas”) não enquanto classe de pessoas.

Para uma perspectiva materialista, ao contrário, pessoas trans se configuram enquanto “classe” ou grupo social na medida em que existe transfobia (assim como pelo fato de ser este o grupo que resiste à esta opressão e propor a transformação e superação desta realidade), e na medida em que existe transfobia, a existência de pessoas trans é questionada, causando marginalização deste grupo. Ou seja, independentemente da existência pontual de pessoas trans, existe a interdição prévia, em nossa sociedade, de que pessoas possam ser trans!

Protesto “Me deixem fazer xixi em paz". Foto: Alexandre Calanca.
Protesto “Me deixem fazer xixi em paz”. Foto: Alexandre Calanca. Retirada do site:

É aí que reside simultaneamente o cissexismo e a naturalização e justificação da transfobia. A transfobia, compreendida por esta perspectiva, não é portanto gerada a partir da existência de indivíduos lidos como trans e dos casos pontuais de violência que daí resultam; já que ela existe externamente e anteriormente à existência dos indivíduos, ela sustenta de forma prévia a naturalização e a justificação destas mesmas violências. A gênese da transfobia não reside no olhar do agressor que enxerga uma pessoa trans enquanto trans e torna a violência transfóbica em ato só a partir disto; a gênese da transfobia está previamente inscrita a qualquer ato contingente, pois é o que, além de orientar o ato, justifica, sustenta e naturaliza a violência. É assim que as violências se tornam sistemáticas, pela inscrição da transfobia no próprio funcionamento das normas de gênero. Só existe a violência transfóbica a partir de um regime que estrutura previamente o cissexismo como base de normas de gênero; este regime estruturado, por sua vez, está inscrito e diluído por todo o tecido social.

O discurso trans-excludente é liberal porque impede a compreensão das pessoas trans enquanto grupo; e justamente há a compreensão de pessoas trans enquanto indivíduos tanto no intuito de culpabilizar as violências pelas quais elas estão expostas quanto no intuito de deslegitimar as lutas por direitos dessa população.

Pra quem quiser ler sobre como falar de identidade não se contrapõe com falar sobre materialidade – já que justamente a identidade É material, recomendo ler o texto de Éris Grimm, “Sobre o corpo e a dicotomia entre subjetivo e material” e o meu último texto publicado por aqui, “As materialidades das identidades“.

Vemos com muita frequência discursos trans-excludentes que afirmam que gênero é uma entidade de poder que se baseia tão somente na biologia como um dado previamente estabelecido. De fato, o poder machista se apodera dos corpos como forma de controlá-los, mas a categoria de análise que nós enquanto feministas temos que acionar para a compreensão deste fenômeno não é da biologia, mas sim categorias provenientes de um trabalho teórico que se inscreve no âmbito de uma teoria de cunho social e histórico. Apelar para a universalização de uma suposta condição de “macho” para invalidar a identidade feminina de mulheres trans só se sustenta a partir de uma perspectiva que toma como categoria de análise fundante o indivíduo.

Há uma sobreposição equívoca entre as categorias que se utiliza para a análise crítica e o fenômeno que se pretende criticar quando se toma as relações hierárquicas de poder enquanto reflexo de uma realidade biológica. Vejam bem, o discurso que afirma que o transfeminismo é “subjetivista” é, em si mesmo, subjetivista, pois só pode fazer isso a partir do momento em que se toma para si uma categoria de análise liberal centrada em uma biologia do indivíduo trans.

Essa falsa perspectiva materialista que julga supostamente criticar a causa de pessoas trans como liberal é em si mesma liberal porque ela in-compreende a existência de pessoas trans; esta falta de compreensão se dá sobretudo através do aparecimento sub-reptício da questão da transição de pessoas trans como uma categoria de análise que se dá de forma, justamente, liberal com um teor culpabilizante.

Um dos argumentos usados para dizer que transfeminismo seria liberal usa da ideia de que, se mulheres trans podem, enquanto indivíduos, não transicionar, poderiam supostamente se beneficiar estruturalmente do machismo como homens. Percebam que tal argumento ignora que a transfobia é FUNDANTE e ESTRUTURANTE das normas de gênero, independentemente de existirem mulheres trans não transicionadas enquanto indivíduos; apelar para isso não prova nem desmente nada em relação a existência da transfobia como fato estruturante das violências de gênero e não poderia ser mobilizado, portanto, como categoria de análise materialista já que se sustenta na concepção da violência contra pessoas trans como acontecimento contingente. O fato de mulheres trans não poderem transicionar sem sofrerem violência prova justamente a existência da transfobia, e não o contrário.

As materialidades das identidades

Esse texto faz parte da coluna Transfeminismo. Texto de Bia Pagliarini. 

A partir do momento em que nossa sociedade se estrutura através de normas de gênero e sexualidade que elegem a heterossexualidade, monossexualidade, cisgeneridade, alossexualidade, masculinidade e a binaridade como destinos esperados de todos os indivíduos, não podemos dizer que falar sobre identidades homossexuais, bissexuais, transgêneras, assexuais, femininas e não binárias seja algo da esfera do puramente individual.

Se a sua identidade é tida como um tabu social, ela é objetivada enquanto uma questão social. Se uma identidade funciona como tabu, é porque ela é implicada, pela sua própria exclusão ou recalcamento, no funcionamento “normal” da estrutura social.

Eu não entendo porque ainda em 2016 tem gente que a acha que falar sobre binarismo, bifobia, transfobia ou certos assuntos não tem “materialidade” suficiente.

Sim, pode ser que existam análises não materialistas sobre esses assuntos; mas o que eu quero demarcar é que é urgente falar sobre esses assuntos a partir de uma teoria feminista materialista das identidades e devires minoritários. Se é correto afirmar que possam existir análises não materialistas destes assuntos, é igualmente incorreto afirmar que uma análise seria necessariamente não materialista apenas por tratar deles. Isso seria o mesmo que abdicar da própria teoria materialista que se julgava reivindicar. Não faz sentido nenhum afirmar isso se nós entendemos que a materialidade da nossa sociedade se estrutura através de normas que concernem a estes vetores minoritários. Não faz sentido falar que certos assuntos sociais – como os objetos de nossa teoria – não teriam materialidade.

Foto da página Trans Student Educational Resources.
Foto da página Trans Student Educational Resources.

Falar sobre essas formas de identidade é desde sempre uma questão política. Então eu não entendo porque algumas questões são vistas como supostamente menos “materiais” que outras; mais “individualistas” que outras; mais “pós-modernas” que outras.

Materialidade, como eu já disse, não é questão de estar mais ou menos presente como um determinado conteúdo em nossas análises; materialidade não é sobre conteúdos e assuntos que seriam “mais ou menos” materiais; materialidade, ao contrário, é a FORMA como o todo das análises são feitas. Todos os assuntos relevantes para a teoria materialistas são materiais. E por isso não faz sentido opor identidade/subjetividade a materialidade/objetividade. Como eu disse: se a sociedade se estrutura necessariamente através da gestão de certas identidades, falar sobre essas identidades se objetiva como uma questão social.

Falar sobre identidades não significa que estamos levando uma perspectiva que toma as identidades como pairando no ar, que se fundariam sob um sujeito dono de si, criador de suas identidades num vácuo. Falar sobre identidades não implica considerar as identidades como fundadoras da realidade social. Nós podemos compreender como a realidade social estrutura certas formas de identidade (ou seja, como ela as materializa). A identidade emerge necessariamente através de um contexto histórico, cultural e político específicos e determinados.

Acontece que todos esses determinantes não são capazes de serem deterministas: a história não é um jogo de cartas marcado; a sociedade é feita de inúmeras divisões, não é homogênea e o político atesta que as relações de poder são inerentemente instáveis, ou seja, elas podem mudar de acordo com o tempo. Ou seja: afirmar que existem determinantes não implica considerar que a história, o social e o político são deterministas, porque há jogo possível para a luta e transformação social a partir da resistências das minorias. E aqui, falei sobre minorias do campo do gênero e sexualidade: isso implica considerar que estes devires minoritários são capazes de resistirem a estas normas sociais, ao proporem formas outras e diferentes de constituição de subjetividade.

Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 03/04/2016.