Gordofobia: seu corpo é o resultado de um milhão de fatores

Texto de Sueli Feliziani.

Tava conversando com a Michele Machado, aquela deusa, agorinha, e pensando… cara como parece que conseguem fazer até as gorda se odiarem, né…

Eu lembro quando eu li um texto que me tirou umas lágrimas assim do nada, que falava que gordas tamanho 46 eram um problema pra luta antigordofobia, porque invisibilizavam mulheres maiores. E, quando eu ouvi de uma pessoa que eu respeitava e curtia muito do movimento negro que eu não era gorda e que era bonita demais pra falar sobre exclusão gorda…

Eu lembrei das cadeiras quebradas em festa infantil. Meu ginecologista me mandando arrumar homem e tomar pílula porque tava gorda por causa de SOP (Síndrome do Ovário Policístico) sem saber nada do meu histórico de saúde. Do ortopedista que não viu meu encaminhamento do reumatologista e falou que meu problema eram 15 quilos e não fibromialgia. Dos mais de vinte e tantos quilos ganhos com lítio e ainda por ganhar com medicação. Sem esperança de perda. Dos antes e depois jogados na cara. Das várias vezes que me fiz vomitar. Dos diuréticos, dos laxantes. Da automutilação que ainda não venci. Da família fazendo piadas. Do namorado comentando meu corpo. Dos ex-cunhados fazendo piadas após dez anos de separação para o meu filho. Das comparações com a atual do Ex sobre meu caráter relacionado ao peso. Do meu chefe falando disso pro cliente na minha frente. De perder trabalho. E de tantas outras coisas….

E pensando que o mundo taca na nossa cara o tempo inteiro que somos doentes, loucas, más, preguiçosas, feitas, até menos inteligentes por sermos 48 ou 54.

E se pá, a gente acredita que o problema é a mina do lado. A mina de tamanho menor. Nunca os FDP da indústria meritocrática do corpo.

Eu já devo ter achado que o problema é a mina tamanho 42. E ficado puta com ela. Ou a atual ex-modelo do Ex. Ou a mina da revista.

Cara, corpo não é mérito. Corpo é o invólucro do ser. Apenas. O que você tem e é está contido nele. Não o contrário. Não dá pra esperar merecer uma vida, um destino, uma felicidade ou uma voz quando houver um corpo x que a mereça.

Seu corpo é o resultado de um milhão de fatores. Como seu modo de pensar. Sua personalidade. Seus sentimentos. Suas emoções. E suas marcas o são.

Eu não posso querer parecer uma garota de 16 anos. Não posso ser mãe de manequim 38, anymore. E tá ok. Minha história é outra. Aceitar isso não é comodismo. E quem tentar me provar o contrário é que é maluco.

Recusar o auto ódio é prova de inteligência. De sabedoria. E de auto trabalho. Não de covardia ou preguiça. Não se deixe levar pela ideia de que se você não gastar 20% do seu dinheiro e tempo para parecer com o que os outros gostariam, você não gosta de você. Se você precisa gastar mais tempo se modificando do que se conhecendo para se gostar, talvez o problema não seja você. Avalie. Conheça seu corpo e sua saúde. E só aja sobre sua aparência e peso, se for necessário. Não imposto.

E ame suas migas que tão na mesma luta. Isso aí é sororário. Beijos de luz.

Autora

Sueli Feliziani, kilos e kilos de massa cinzenta envoltos em uma pele negra macia e tatuada com cachos e sarcasmo pra dar charme… Publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 09/06/2017.

Imagem: Outubro/2016. Editorial Primavera Diva Plus. Foto de André Carvalho/Cind Biquínis.

Mãozinhas na areia, perigo à vista.

Texto de Conceição Barros para as Blogueiras Feministas.

Aviso: trata-se de um conto, que fala sobre abuso e tem a intenção de chamar a atenção para a violência que rodeia as crianças e adolescentes, deixando assim marcas eternas.

Com as mãozinhas brincando na areia, sua inocência exalava a satisfação de estar ali, fazendo o que toda criança gostaria de fazer. Brincar! Brincar das mais diferentes brincadeiras. Brincar de tudo tal qual sua imaginação mandasse. Ser feliz naquele mundo era tudo. Mundo esse que só a criança entende e percebe que faz parte dele, da realidade que ele proporciona de forma colorida e fictícia, sem perceber que em sua singela inocência, o perigo por ali passava. Perigo esse que não vinha de longe, nem do desconhecido, ao contrário do que se podia imaginar, nunca acreditaria que a brincadeira sadia e inocente poderia vir a ter uma triste lembrança em sua vida, lembrança eterna, ferida que não cicatriza, marca que parece tatuada em seus pensamentos até o resto de sua vida.

Permanece de forma viva, em sua mente, os bons momentos, mas ao mesmo tempo vem a lembrança das suas mãozinhas, ainda sujas de areia, pois fazia bolinho de areia para cozinhar, afinal de contas, a “cozinha foi o que restou como lugar”, segundo a sociedade. Logicamente que seus pais, uma vez criados por um viés conservador, machista e patriarcal, tinham esse mesmo pensamento. Apesar do conservadorismo, os conselhos voltados para os estudos não faltavam, pois sabiam que os estudos a proporcionariam muitas realizações. Mas deixando claro que, a mulher é a ‘peça’ principal da casa, parceira das construções, mas dona das desconstruções da vida familiar. Por isso a importância da submissão ao homem, uma vez que deveria zelar pela família acima de tudo, até mesmo de sua felicidade, pois a família estando bem, logo, ela estaria também, o “resto faz parte da vida de casado”. Essa era a lógica que envolvia o mundinho infantil e feminino daquela criança e provavelmente ainda continua sendo de outras crianças. A casa imaginária, mas precisamente a cozinha, era o reduto. Meu Deus, quanta inocência!

Mas, quantas vezes terá sido? Não sabe-se ao certo, em sua infância talvez duas ou três vezes, na sua adolescência, uma vez, com toda certeza . Dói! Dói a lembrança que ainda é bastante forte, apesar dos tempos terem passado, mas a lembrança é bastante viva em sua mente. Gostava tanto dele, o tinha como um segundo pai. Incrível como nunca imaginou que algo dessa natureza existiria e que pudesse acontecer com crianças, pois seria de uma monstruosidade indescritível. Se era manhã, tarde, não se sabe, é como que o que aconteceu viesse a apagar algumas coisas de sua memória. Mas a lembrança de ser subtraída da brincadeira, para sentar no colo e ser abusada, é inesquecível. Em vez do afago, que era para vir em forma de um toque em sua face, de um cheiro em sua cabeça, ou um beijo em sua testa, vinha o tocar do pênis em seu corpo enquanto sentada em seu colo, para talvez conseguir uma penetração, ou algo próximo mesmo. Plantava assim em sua cabecinha, o sentimento de dúvida, de vergonha, de medo e ao mesmo tempo de culpa. Respostas queria, mas não tinha. Ninguém sabia e assim o seu mundinho, já não estava mais tão colorido, algo tinha acontecido e fez com que ele perdesse um pouco do seu brilho. Pois agora, estava no ar, o porquê dele ter feito isso.

Mas o tempo passou e tudo permanecia do mesmo jeito, afinal de contas foram umas duas ou três vezes. Os pais não sabiam, a família não sabia, ninguém sabia, e o encanto da essência infantil ajudou a ir esquecendo aos poucos esse trauma em sua vida. Pelo menos era o que ela acreditava.
Adolescência, bela adolescência! São tantas mudanças, tantas transformações, o estranhamento entra em cena trazendo novidades, a busca pelas descobertas é incessante. Corpinho bonito, tudo no lugar, tudo novinho, os hormônios só faltavam falar. Essa é uma das fazes da vida em que você quer viver intensamente. É um perigo! Mas quem não quer passar por ela? Mas, para o desprazer, o mundo que estava colorido, também em sua adolescência, sofreu a mesma perda de cor, que tinha acontecido em sua infância, tornando-se um pouco mais opaco. Mas agora, não mais criança, o sentimento veio em forma de nojo, de raiva, de desprezo e de desilusão. De fato, agora tinha certeza que aquela pessoa em que depositava um sentimento de amor paternal, não era a pessoa que correspondia a esse sentimento.

—Menina, não vai não! Falava a mãe.

—Meu coração tá pedindo para você não ir. Coração de mãe não se engana! Assim dizia a mãe, ao clamar à filha para não ir à casa da tia.

Era uma linda tarde e não tinha aula, poderia ter ficado em casa com sua mãe, estudando ou fazendo alguma outra coisa, mas ninguém vai saber o que lhe espera mais na frente. Seus pais não toleravam faltas na escola e sempre lhe falavam da importância dos estudos, apesar de não terem tido o privilégio de os completarem, chegando apenas até segunda ou terceira série do primário, tendo que trabalhar logo cedo para se sustentar. Tinha a mãe como uma guerreira e um exemplo de mulher a ser seguido, por sua determinação e persistência nas barreiras impostas pela vida. Seu pai trazia para ela a segurança, pois sabia que ao lado dele estaria segura em qualquer lugar. Sem contar com o amor e carinho, que sempre passava para ela. Ou seja, amor nunca faltou em sua vida.

Mas a casa da tia a esperava. Se ela soubesse o que iria acontecer com certeza não iria. A tarde estava ótima, calma e tranquila. Como um raio, bêbado, surge ele, cambaleando, querendo algo para comer, para servir de acompanhamento à cachaça. Mocinha, bem prendada, já ia ao fogão. Foi o “fim da picada”. Mais uma vez vinha a acontecer tudo o que aconteceu enquanto sua fase de criança. Enquanto tirava algo para ele comer, a mando da tia, ele mexia no corpo dela como uma propriedade sua, percorrendo suas mãos por todo ele, pressionando-a contra o fogão e depois contra a parede, tentando explorar dele o máximo possível. Sua tia nem imaginava o que estava acontecendo. A força e a voz pareciam ter sumido da sua natureza. Algo inexplicável! Mas de repente, já não se encontrava ali uma criança, e sim uma quase mulher, que em seu eu, ainda que transtornado e tomado pelas dúvidas da adolescência, criou força para gritar, afastar e chorar de forma descompensada, clamando por uma grito de socorro. A tia chega e o coloca para fora aos gritos, logo, quase todos ficam sabendo, mas o silêncio pairou no ar, definitivamente, a história passou a não existir. Penetração? Não, não existiu, não deu tempo, na verdade. Se chegaria a esse estágio, não se sabe. Mas a marca ficou em seu eu, para sempre. Casos assim em família, não se fala. Se cala, para sempre. Você de imediato começa a pensar que as pessoas naturalizam esses tipos de acontecimentos.

Para a mãe foi o maior desgosto, pois não contou para o pai, que provavelmente poderia matá-lo, ou morrer, de tanta raiva que iria sentir. Em sua persistência, em sua forma de ver a vida, procurando viver ao máximo os momentos ofertados por ela, a menina, hoje, mulher, busca forças sabe-se lá como, para dar continuidade a sua vida fazendo o possível, pelo menos por alguns instantes para não lembrar das cenas que sua mente lhe faz questão de recordar, ao escutar ou saber de noticias desse tipo. Sua pessoa foi fragilizada, sua personalidade também, mas nunca entregou-se definitivamente às tristes lembranças, sempre se reergueu. Uma luta constante com seu eu, com sua consciência. Mas enxergou, que por ser mulher, sofre por inúmeras atitudes machistas e preconceituosas, simplesmente pelo fato de ser mulher. Mas que tal situação precisa-se mudar, é importante a desconstrução dessa forma de pensar e agir relacionada ao gênero feminino. Optou por ser mais uma do time daquelas que podem fazer a diferença na vida de muitas outras mulheres, levando consigo a ferramenta do empoderamento feminino, através do fortalecimento da luta pelos seus direitos, buscando sempre por um lugar de direito e de respeito na sociedade.

A luta é contínua e constante, porque não árdua também. Mas a cada conquista, seja ela individual ou coletiva, é necessário uma comemoração. É essencial que proliferem-se as buscas por novas retomadas, pelos seus objetivos, pelo seu espaço, seja em qualquer esfera, pela emancipação feminina, pelo não à violência, pelo reconhecimento do verdadeiro lugar da mulher, que é onde ela quiser.

Autora

Conceição Barros é assistente social, feminista, militante, gosta de escrever, gosta de amar e ser amada, de respeitar e ser respeitada, ama viver.

Imagem: Pamella Gachido no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Carta para meu amigo artista

Texto de Laís Ferreira para as Blogueiras Feministas.

Meu querido amigo artista,

Hoje eu lhe escrevo com as costas doendo, mil ideias, a lista de tarefa que só aumenta e a sensação que a gente nunca fez muito. Você sabe, quem inventou que isso de “ser artista” é fácil é porque, obviamente, nunca tentou. Mas sabe, meu amigo, acho que você possa ter aproveitado um pouco mais desse lugar tão privilegiado que criaram para os artistas: alguém que cria, que pensa, que põe no mundo algo que não existia antes. Aproveitado até muito, eu diria. Porque, meu amigo, eu preciso te dizer: você é homem. Você, meu amigo, achou que, por ser artista, deveria ser compreendido. E aí, meu amigo, você fez como todo mundo privilegiado faz: não olhou, de verdade, para os outros. E se esse outro for mulher… Vixe, meu amigo, eu só consigo te imaginar forçando tudo que a ordem do seu desejo, desse mundo onírico que esses deuses-artistas-fabricados levam podem pedir: o sexo do seu jeito, as ideias do seu jeito, o trabalho, o seu, sempre maior. Sabe, meu amigo, ser artista não te faz menos suscetível a nenhuma doença: esse lugar de deus que você quis criar não é tão forte assim. Você pode contrair doenças sexualmente transmissíveis como qualquer pessoa que, pela vida, só pode criar o jeito de chegar até o fim do dia. Então, meu amigo, esse seu desejo não é especial assim não. Não, meu amigo, você não pode pressionar qualquer mulher para transar sem camisinha e isso não será perdoado pelo seu grande raio iluminador: esse ego é seu, não uma blindagem das vicissitudes do mundo. E, veja só, meu amigo: não é possível dizer que o sexo, tão perto da vida e da morte, tão próximo a pulsão da arte, deve circular em torno do seu tesão. Porque, meu amigo, veja só, outra vez: ser artista não te inibe de ser gente. E, deixa eu te contar: uma mulher também deseja. Então, meu amigo, eu preciso te dizer que tesão, sexo, não é só seu: não é para ter, nas mãos de uma mulher, uma personagem para o que você criou. Porque, veja uma novidade: mulheres também criam. Na cama, em seus sonhos, em seus desejos, nas suas angústias. Então, meu amigo, preciso te dizer: nem mesmo a sua fama pode passar por cima disso. Porque ser artista não te inibe de ser gente. Não te inibe de ter consequências sobre os seus gestos, não te protege de nada. Na verdade, eu preciso te contar: ser artista é um trabalho. Um trabalho. E, por isso, eu preciso te dizer: há mulheres também nesse mercado. Mulheres que criam, que trabalham, que estudam. Muitas mulheres. E, eu preciso te dizer, meu amigo, com sensibilidades e ideias às vezes mais potentes que aqueles que o signo do privilégio masculino ajudou a chegar no mundo. Então, meu amigo, não pense que uma mulher precisa de você para alguma coisa. Ela não precisa não, meu amigo. E mais, ela não precisa trabalhar com você para adquirir experiência. Ela tem um mundo de oportunidades e desafios pela frente, para enfrentar do jeito que a vida permitir agora. E não, meu amigo, uma mulher não precisa de alguém para inseri-la em nada. Tampouco tem menos potencial. Acontece, meu amigo, que as mulheres artistas tem mais dores nas costas porque, em momentos de trabalho, precisam mostrar o que sabem duas vezes. Porque, meu amigo, você é pequenino. Acha que é grande, mas morre de medo de entender que ser artista não te inibe de ser gente, não te faz diferente e, veja só, uma mulher pode trabalhar como você. Então, meu amigo, mude: se ser artista é algo tão iluminado assim, destrua, com as mãos em gestos, as trevas do seu machismo e sexismo.

Autora

Laís Ferreira é escritora, pesquisadora, jornalista e fotógrafa. É autora de Caderno de Bolsa (Chiado Editora, 2015) e Canções do Porto e do Mar (Multifoco, 2017). É editora da Revista Moventes.

Imagem: Máscaras/Notitarde.