Fun Home – Uma Tragicomédia em Família

Texto de Kori Ramos.

Oi, eu sou a Kori e hoje eu vou escrever sobre uma Graphic Novel, Fun Home – Uma Tragicomédia em Família por Alison Bechdel.

Fun Home de Alison Bechdel.

Graphic Novel, simplificando, é o termo designado para diferenciar histórias em quadrinhos com temas adultos das de super heróis. Pra variar, é uma atividade em sua maioria com destaque masculino, como Neil Gaiman (Sandman), Alan Moore (V de Vingança, Watchmen), Will Eisner (Spirit), esse último sendo homenageado com a premiação de quadrinhos Eisner Awards, que em 2007 deu o prêmio à Fun Home.

A história é auto-biográfica e fala desde a infância da autora até sua juventude. Na infância, Alison cresceu numa casa antiga em constante reforma, decorar era a obsessão de seu pai, sempre distante.

Na relação entre pai e filha, é ela que gosta das chamadas “coisas de meninos”: confortável em roupas largas e despreocupada com a aparência; e o pai, das “coisas de meninas”: decoração, jardinagem, moda. A troca de papéis entre os dois é visível, um dá contraste ao outro.

Sua mãe é uma artista brilhante, é atriz e pianista, mas deixa seus planos de lado, engravida, volta com o pai de Alison para o interior e toca com ele os negócios da família, o que dá nome a história: uma casa funerária, “o lar da graça”. Fun Home.

Seus pais, apesar de terem dado uma boa educação aos filhos, possuem uma relação fria um com o outro. No decorrer da história, Alison explica que nem sempre foi assim, que, movidos por cartas inspiradas em livros de Fitzgerald, ambos pareciam apaixonados e felizes, mas que essa deterioração se dá, em grande parte, a vida dupla do pai: homossexual, mas no armário até morrer, mantém casos com garotos mais novos, incluindo o babysitter dos filhos. Alison expõe a teoria de que, sufocado com a vida dupla, a morte de seu pai pareceu ter sido um acidente, mas na verdade foi um suicídio planejado.

Todas as tentativas de esconder o que o pai de Alison era, inspiraram nela, felizmente, o contrário. Já na faculdade ela se assumiu lésbica e contou para os pais, encorajada por grupos militantes que frequentava, pelo feminismo e pelos livros que lera. Entre as autoras estão Simone de Beauvoir, Virginia Woolf, Anais Nin e essa influência parece ter dado força à ótica feminista com a qual ela conta a história com questões de gênero, a submissão do casamento a qual a mulher é destinada e o feminismo e o movimento LGBT, inclusive com uma memória marcante de quando ela visitou Nova York pós Stonewall.

Infelizmente, não sei se pela tradução, mas quando ela descreve seu pai como gay, soa bastante preconceituoso, se há uma ironia ali, não captei e como me disseram, às vezes tentando ser irônica se dá voz ao preconceito.
De qualquer forma, um excelente livro, com desenhos lindos em tons azuis, detalhes, citações de livros e muito humor, afinal nada no livro é só trágico, e sim uma tragicomédia.

+ Sobre o assunto

Alison Bechdel  é autora do site/tirinhas http://dykestowatchoutfor.com/ e criadora da já citada aqui Lei de Bechdel. 😀

Pra quem se interessar, dois sites sobre Graphic Novels e Mulheres

http://www.squidoo.com/graphic-novels-for-girls (com uma lista ótima de livros)

Outro site em português: http://ladyscomics.com/

Carta-resposta: homem pode chorar?

Texto de Bruna Klöppel.

Maicon Tenfen, gostaria de fazer alguns comentários acerca da sua coluna no Jornal de Santa Catarina do dia 06/04/2011 – quarta-feira, em que comentou uma entrevista da pedagoga Tânia Brabo para a Folha de S. Paulo.

“Hoje começo com uma pergunta destinada apenas às leitoras mulheres: vocês suportariam por muito tempo um marido ou namorado chorão? Antes que vocês respondam, deixem-me tecer algumas considerações. Não me refiro aos homens que choram só de vez em quando, já que todo homem, se for homem de verdade, perde o equilíbrio a cada quatro anos (durante as copas, por causa das vitórias ou das derrotas da nossa seleção). Refiro-me, isso sim, aos homens que choram o tempo todo, principalmente naqueles instantes em que, diante das comoventes e autorizadas lágrimas femininas, deveriam manter a compostura para fazer de conta que as coisas não estão tão ruins assim. Dito isto, minhas caras leitoras, repito a pergunta: vocês suportariam por muito tempo um marido ou namorado chorão?”

Vou começar também com uma pergunta, querido Maicon. Você suportaria por muito tempo uma esposa ou namorada chorona? Digo isto porque, não sei, mas parece que o adjetivo “chorão/chorona” é considerado negativo para a maior parte das pessoas. E é muito diferente de “poder chorar”, que é a pergunta que o senhor coloca no início do texto.

Quando você coloca a expressão “homem de verdade” no texto, o que quer dizer, exatamente? Que existem homens de mentira? Ou que o senhor estabeleceu um padrão do que é ser homem? Ou seja, aqueles que choram com uma freqüência maior que a cada quatro anos (todos com quem me relacionei, seja pai, irmão, namorado ou marido, devo ter muita sorte ou azar, não sei) não são homens de verdade?

Você presume também que todas as mulheres choram com bastante freqüência e que a postura ideal dos homens é “fazer de conta que as coisas não estão tão ruins assim”. Qual seria o propósito dessa postura, Maicon?

“Insisto na pergunta por causa do palavrório repetitivo das feministas. Para a pedagoga Tânia Brabo, por exemplo, que recentemente concedeu uma entrevista à Folha de S. Paulo, a escola é o berço do sexismo porque rapazes e moças NÃO recebem tratamento igualitário. Para ela, as aulas de Educação Física deveriam ser sempre conjuntas (mesmo se o esporte for pugilismo) e, desde a mais tenra infância, eles e elas precisam brincar tanto com bonecas quanto com carrinhos.  Tudo isso é muito edificante, mas a nossa pedagoga, bem como as feministas nas quais se baseia, esquece o importante detalhe de que, se as pessoas são diferentes umas das outras, os sexos também o são. Alguém aí colocaria uma menina de 50 quilos para lutar contra o Mike Tyson? Se existem categorias de peso que separam os atletas masculinos nas competições, por que não haveria nas aulas de Educação Física, para separar certas atividades praticadas com tensão diferente entre meninas e meninos?”

Maicon, você quer mesmo comparar a diferença entre uma menina de 50 quilos (ou um menino do mesmo peso) e o Mike Tyson lutando com um menino e uma menina de 10 anos com a mesma altura e peso, por exemplo? Acredito que se for o caso das escolas ensinarem pugilismo, as duplas poderiam ser divididas por tamanho e peso, e não por sexo. Mesmo porque também não acharia justo uma menina de 1,70 com 60kg lutar com um menino de 1,50 com 50kg. Sem contar que a entrevistada critica o fato de que os dois sexos não só são separados nas mesmas atividades, como também aprendem atividades diferentes. Qual a lógica? Pessoas com vagina fazem vôlei? E pessoas com pênis futebol? Por quê?

“Do mesmo modo, não há provas concretas de que os brinquedos prejudiquem a formação das identidades de gênero. Meninas brincam com bonecas, crescem e se tornam motoristas melhores do que muitos homens; meninos brincam com carrinhos, crescem e se tornam babás mais carinhosas do que muitas mulheres.”

Concordo contigo, Maicon. Realmente, não há provas concretas de que os brinquedos prejudiquem a formação das identidades de gênero. Pelo contrário. Os brinquedos ajudam a formar as identidades de gênero. Porque o próprio conceito de gênero, segundo Joan Scott, diz respeito às “origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e mulheres”. Ou seja, aquilo que é ensinado, apreendido durante a vida em sociedade. Um dos jeitos de se aprender é brincando. Ainda bem que não é o único, senão pouquíssimas mulheres saberiam dirigir. Mas vamos lá. Quantos homens babás (nem vou dizer carinhosas) existem em Blumenau? Por que será que são tão poucos? Será que porque pessoas com pênis não gostam de ser babás ou porque não são educadas para gostarem? Por que ainda são poucos os homens que dividem as tarefas domésticas, e quando o fazem apenas “ajudam”, como se não fosse também uma obrigação sua?

“Que fique claro: não estou falando de direitos, apenas de diferenças. A luta contra a discriminação feminina deve continuar, especialmente nas folhas de pagamento. De resto, parece que todo mundo finge engolir a mentirinha de que os sexos são iguais. Hoje as mulheres não hesitam em afirmar que “homem também pode chorar”, mas aposto que a maioria respondeu que não dividiria a cama com um chorão por muito tempo. A maioria das sinceras, quero dizer.“

A questão, Maicon, é que é claro que há diferenças biológicas entre homens e mulheres, e elas devem ser respeitadas. Mas por que não deixar essa diferenciação restrita aos casos em que ela é realmente necessária. Depois, o senhor termina com um argumento no mínimo desleal, não acha? “Aqueles que não concordam estão mentindo”.

Foto de Adam White no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Porém, vou dizer ainda algo a mais. Concordo que provavelmente a maioria das mulheres responderia que não. Porém também acredito que a maioria dos homens responderia que não à pergunta que fiz no início. E mais: as mulheres adultas que hoje estão aqui, em sua maioria, foram educadas de uma maneira sexista, ou seja, reproduzem exatamente aquilo que a pedagoga pretende mudar propondo uma educação não excludente (seja para homens e para mulheres). Uma luta contra o sexismo é libertadora não só para as mulheres, mas também para os homens. Porque lamento muito se o senhor só chore a cada quatro anos. E lamento por todos os homens que se sentem mal ao chorar; lamento o fato de quão presos a estereótipos eles estão.

Por fim, acredito que um mundo em que os homens possam chorar sem serem reprimidos nem pelos homens e nem pelas mulheres (porque ambos são sexistas) seria um mundo melhor. E pra esse mundo acontecer, é necessário que a educação seja diferente.

Cordialmente, Bruna.

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Bruna Klöppel vive em uma mudança tão constante do eu para o não-eu e escreve no blog Espaço B.

Os ratos e o meu lado machista

Texto de Luana Tolentino.

Se existe uma coisa nessa vida que me causa pavor, são os ratos. Ao menor sinal da presença dos roedores entro em pânico. Melhor não pensar nisso.

Essa é uma história antiga. Quando criança, um infeliz passou no meu pé. Saí correndo desesperada pelo quintal. Pedia por socorro, chorava, tremia, soluçava. Minha vizinha, coitada, pensou que havia acontecido uma tragédia. Tudo por causa de um simples ratinho.

Fiquei traumatizada. Não consigo me libertar desse medo. Quando vejo um, é motivo até para sonhar que uma ninhada anda pela minha cama. Houve um tempo em que sonhava com ratos quase que diariamente. Minha irmã e companheira de quarto, já não aguentava mais ser acordada pelos meus gritos durante a noite, até que um dia esbravejou: “Poxa, Luana! Por que você sonha tanto com ratos? Não tem outra coisa pra sonhar?”. Se pelo menos macacos, coelhos ou galos povoassem meus pensamentos enquanto eu dormia, poderia tentar a sorte no jogo de bicho.

Na semana passada, mais uma vez os ratos estiveram presentes em minha vida. Isso sim é mania de perseguição. A Mel e a Sol, minhas cadelinhas, mostraram sua força na guerra contra aquelas pestes. Mataram dois camundongos e deixaram a prova do crime bem na varanda da minha casa. Por aqui os papéis são invertidos. Dengo, meu gato, não quer mais saber da vida de caçador. Passa os dias na janela olhando o horizonte. Acho que ele se sente mais realizado assim.

Meu pai foi a primeira testemunha daquela cena terrível. Logo pela manhã, enquanto saía para trabalhar, deu de cara com os cadáveres. Espantado, perguntou a minha mãe:

– Uai, Nelita?! O que é isso aqui?

Com sua calma habitual, Dona Nelita respondeu:

– São ratos, Nicolau.

Após ouvir esse diálogo, gritei:

– Pai, suma com esses bichos daqui! Misericórdia! Não quero ver!

Fui surpreendida pela resposta do meu pai:

– Eu, não. Tenho nojo.

Não conseguia parar de rir. Um homem com quase dois metros de altura com nojo de ratos. Esqueci literalmente que aqueles defuntos estavam a apenas alguns metros de mim. Não resisti:

– Mãe, você está mal de marido. Você é o homem da casa!

Seu Nicolau foi motivo de piadas durante a semana inteira.

Rindo de um canto ao outro, contei esse episódio memorável para uma amiga. Inteligente como ela é, não achou graça nenhuma:

– Como assim, Luana? Isso é um machismo às avessas! Ou você pensa que só as mulheres podem ter medo de ratos e baratas?

Emudeci. Arregalei os olhos. Parei para pensar nas bobagens que havia dito. Assim como minha amiga, não achei mais graça em nada disso. Sem perceber, fui traída pelo pensamento machista, que acredita que só nós mulheres podemos ser frágeis, inseguras, chorar, ter nojo de ratos e baratas. Já os homens, tem que ser fortes, valentes e corajosos. Qualquer comportamento que fuja disso é coisa de mulherzinha.

Fiquei envergonhada por pensar dessa forma. Justo eu, uma feminista convicta. Não posso mais cair nesse tipo de armadilha. Esse lado machista não me pertence! Que outro ser do sexo masculino teria coragem de assumir sua aversão aos ratos a não ser o meu pai? Na verdade, Seu Nicolau foi  muito homem.

Retiro o que disse. Minha mãe não poderia ter feito escolha melhor, tem ao seu lado o melhor companheiro do mundo.  E eu, mais do que nunca, morro de orgulho do meu pai.

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Luana Tolentino é historiadora, professora da Rede Estadual de Ensino de Minas Gerais, pesquisadora da UFMG e militante do movimento negro.