A Força das Vadias

Texto de Carolina Branco.

Cerca de 500 pessoas reunidas na Praça do Ciclista na Av. Paulista numa tarde de sábado fria em São Paulo. Dentre elas, jovens mulheres uma ao lado da outra, em silêncio, comiam maças. Algumas as comiam outras as mantinham na boca, como se as calassem. No entorno, “mulheres com pouca roupa” e homens seguravam cartazes que traziam frases de repúdio a violência de gênero, estupro e ao machismo em geral: “Respeito é sexy, machismo broxa”.

Marcha das Vadias em Brasília. Imagem de Fernando Bizerra Jr./EFE.

Em janeiro de 2011, a Universidade de Toronto registrou muitos casos de abuso sexual em mulheres no Campus. Depois dos acontecimentos, um policial orientou como medida de segurança que “mulheres evitassem se vestirem como putas para não serem vítimas”. Depois disso, 3.000 pessoas foram às ruas no Canadá protestar contra a culpabilização de mulheres envolvidas em episódios de violência sexual. Assim, nasceu o movimento internacional Slut Walk (em português Marcha das Vadias) que rapidamente se espalhou por dezenas de cidades no mundo.

A breve descrição acima chama atenção para a primeira versão brasileira da Marcha das Vadias que aconteceu em julho deste ano em São Paulo. No Brasil, assim como no âmbito internacional, essa iniciativa repetiu-se em várias cidades como Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, dentre outras. Nas diversas versões destes protestos contra a violência de gênero, o termo “vadia”, foi deslocado e (re) apropriado de maneira criativa ao borrar os limites normativos que constroem a figura da “mulher estuprável”. Ao saírem às ruas, mulheres e homens ao invés de dizerem: “Cuidado para não ser estuprada”, disseram: “Não estupre!”.

Nas variantes do movimento no Brasil, além da (re) apropriação de noções rejeitadas moralmente para designar o feminino e práticas sexuais femininas, houve a incorporação de elementos populares originários de grupos muitas vezes desqualificados do ponto de vista de suas produções culturais. Nas manifestações brasileiras víamos cartazes com trechos de hinos funks como: “A buceta é minha e eu dou para quem eu quiser”. A denúncia criativa e humorada sobre relações diferenciais de poder que geram violências de gênero da Marcha das Vadias apontam, se não para uma política feminista no sentido estrito do termo, para modalidades

de participação política bem próximas ao feminismo. Historicamente o debate feminista tem sido marcado por controvérsias de diversas naturezas e pela heterogeneidade de posições teóricas, políticas e de atores sociais. Justamente por essa razão, esse campo deve ser considerado um dos mais frutíferos no que diz respeito à questionamentos de ordem teórica, práticas políticas e processos naturalizadores de desigualdades sociais, sejam elas de gênero, raça/cor da pele/etnia, classe social, etária e etc. Nesse sentido, eu arriscaria afirmar que o Movimento das Vadias ao mesmo tempo em que pauta uma prioridade política praticamente unânime dentro do feminismo, qual seja, a denuncia e o combate à violência de gênero, cria novas possibilidades de produção discursiva, práticas políticas e articulações dentro e fora do campo feminista. A marcha das vadias alavanca tanto no meio acadêmico, político e no senso comum possíveis destituições de feminismos, práticas e opiniões conservadoras. Esse processo é da maior relevância se considerarmos que ele deixa aberturas, primeiro, para a novos modos de instituir relacionalmente noções menos essencializadoras de masculino e feminino, violências e práticas sexuais.

Segundo, essa manifestação política surge articulada a outras como a descriminilização da maconha, marcha da liberdade (sem contar as relações que podemos fazer aos recentes questionamentos radicais à democracia na Europa) em meio a um contexto nacional de atualização contemporânea de idéias reacionárias que recriam um facismo pra lá de ultrapassado. Aqui, eu me refiro as nada humoradas afirmações de Rafinha Bastos relacionados a mulheres estupradas, as infelizes observações do filósofo Luiz Felipe Pondé sobre o que querem as mulheres e as pregações missionárias da ex-atriz Miriam Rios sobre a homossexualidade.

Porque a luta dos feminismos também são biolutas!!

25 de Julho: Lembrando de Benedita da Silva

Texto de Luana Tolentino.

Na adolescência possuía dois sonhos: ser uma pessoa inteligente e conhecer o Rio de Janeiro. O primeiro, não serei eu a dizer se alcancei ou não. Já o segundo, realizei no ano passado.

Em dezembro participei do Seminário Mulher e Mídia 7, realizado na capital fluminense. A organização do evento não divulgou a programação antecipadamente. Foi uma grata surpresa encontrar Nilcéia Freire, Luiza Bairros, Liv Sovik, Nalu Faria e o Rodrigo Vianna por lá. Único convidado do sexo masculino, o jornalista e blogueiro progressista se saiu muito bem ao falar sobre temas feministas. Durante os três dias do seminário, nada me tocou tanto quanto Benedita da Silva, de quem lembro neste 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Ao lembrar de Benedita Sousa da Silva Sampaio, lembro também de todas as mulheres negras deste país.

A platéia estava lotada. Eram mais ou menos 250 mulheres. Benedita e eu éramos umas das poucas negras presentes. Quando a vi, meus olhos brilharam. Uma mulher linda, viva, forte. Nem de longe aparenta ter 69 anos. Benedita quebrou todos os protocolos. O que era para ser apenas uma comunicação, transformou-se num brado contra a discriminação de gênero, classe e raça sofrida pelas afro-descendentes. Não poderia ser diferente. Fiquei emocionada. Ao final da apresentação, corri em direção à Bené e pedi um abraço. Mais que um afago, recebi um sorriso e o direito de tirar uma foto. Tremi. Tive a sensação de estar diante de um espelho, onde a minha imagem era refletida.

A história de Benedita da Silva é semelhante a da maioria das mulheres negras do Brasil. Nascida na favela da Praia do Pinto, Rio de Janeiro, a atual Deputada Federal pelo PT, viveu por 57 anos no Morro do Chapéu Mangueira. Assistente Social por formação, antes de ingressar na carreira política, Bené trabalhou durante longos anos como empregada doméstica. Como ela costuma dizer, lavou muito chão para as madames até pisar no tapete vermelho do Palácio do Planalto, quando tomou posse como Deputada Federal em 1986.

Imagem de Luana Diana. Arquivo Pessoal.

Benedita da Silva foi a primeira mulher negra a ocupar uma vaga no Senado e a governar um estado. Antes disso, fora eleita vereadora em 1983. Com a renúncia de Anthony Garothinho para concorrer à Presidência da República, Benedita assumiu o governo do Rio em 2002.

Feminista e ativista do Movimento Negro, Benedita da Silva fundou o Departamento Feminino da Associação de Moradores da favela em que passou boa parte da vida. Participou também da criação das primeiras associações de mulheres negras nos anos de 1980. Tema pouco estudado na Academia, o Feminismo Negro foi uma resposta à pouca visibilidade dada pelas feministas às especificidades das afro-brasileiras no que concerne à saúde, educação e participação no mercado de trabalho. Eliza Larkin do Nascimento considera a situação da mulher negra o próprio retrato da feminização da pobreza. Pesquisas revelam que as não-brancas formam a maior parte da população analfabeta do país, estão empregadas em grande parte no setor de serviços, encontram barreiras no acesso aos serviços de saúde e sofrem com os estereótipos construidos durante os quase quatro séculos de escravidão.

Ao ser perguntada sobre o que significava ser mulher negra, Benedita da Silva sintetizou com as seguintes palavras:

O meu orgulho é a missão de ser negra. Mas eu já quis deixar de ser negra. Era maltratada, riam de mim, puxavam meu cabelo, me chamavam de nega maluca, de macaca, e até de Benechita. Ah, mas macaca não foi há tanto tempo! (…) De vez em quando aparece alguém para me chamar de macaca”. (Revista Eparrei, 2º semestre de 2005, p.27)

 Nós, mulheres negras, sabemos exatamente o que significam cada uma dessas palavras…

Em dezembro, realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Pisei em solo carioca. Conheci o Cristo Redentor e Copacabana. Dancei samba na Lapa e tomei cerveja no mesmo “Amarelinho” que abrigou João Nogueira por diversas noites. Mesmo de longe, vi o Maracanã e o Engenhão. Em uma feijoada na quadra da Portela, ganhei autógrafos do Monarco e da Tia Surica. Mas a vida, que é muito generosa comigo, ainda me concedeu a oportunidade de conhecer Benedita da Silva, por quem tenho grande admiração.

Certamente Benedita da Silva não se lembra daquele abraço, daquela foto tirada no dia 3 de dezembro de 2010. Eu jamais esquecerei.

Estaria a Barbie evoluindo com as mulheres?

A autora desse texto é Renata Arruda

A boneca criada por Ruth e Elliot Handler – morto nesta sexta-feira (22/07) aos 95 anos -, inspirados na personagem de tirinhas semi-eróticas Lilli, do alemão Reinhard Beuthien, e batizada com o apelido da filha do casal, surgiu como o modelo de beleza ideal: americana, loura, branca, magra, alta, seios fartos. Barbie foi a primeira boneca a imitar formas adultas em seu corpo numa época em que as bonecas tradicionais para crianças eram em formatos de bebês. O slogan “Be anything” ou “Seja o que quiser”, em tradução livre. De acordo com a professora Paula Sibila no artigo “A arma de guerra chamada Barbie“, ‘duas tendências aparentemente contraditórias: por um lado, ilustra a ampliação da autonomia e das liberdades de escolha para as mulheres; por outro lado, também representa a ardilosa transformação do corpo em uma mercadoria que deve ser constantemente aperfeiçoada. Duas tendências que se aprofundaram nas últimas décadas, e não há dúvidas que a própria Barbie contribuiu para sua expansão. Por isso, quando as meninas crescem e não conseguem atingir nem o sucesso e nem o talhe prometidos na infância, costumam recorrer a consolos mais acessíveis para aliviar suas frustrações: as modelagens do bisturi, por exemplo, ou então os antidepressivos -que um jargão mais antiquado chamaria de barbitúricos.’

Lili – 1955 e Barbie – 1959. Imagem: comparação entre Lili e Barbie

Talvez não por acaso, a única profissão da boneca na época era a de modelo e, um ano após o lançamento da primeira boneca, é lançada a Barbie “Moça ocupada” – aquela que ganhou uma bolsa de estudos em Nova York e se tornou estilista de moda. Assim Barbie acabou prenunciando não só a liberação feminina dos anos 60 como também a popularização de modelos magérrimas iconizadas por Twiggy. “Na época do seu lançamento, porém, há mais de quatro décadas, até a revista que a descobrira admitiu o choque da novidade que tais formas corporais apresentavam. A ‘Vogue’ viu-se obrigada a publicar a seguinte advertência junto às fotografias: ‘Suas pernas fazem pensar que ela não tomou suficiente leite quando era bebê, e seu rosto mostra a expressão que deviam ter os habitantes de Londres durante a guerra'”, conta Sibila em seu artigo.

Imagem de Renata Arruda. Tirada no Museu Encantado da Barbie, no Rio Design

Desta forma, aliada ao mundo da moda, tão logo se transformou em um tirânico ícone da ditadura da beleza, sendo imitado por diversas meninas e mulheres ao redor do mundo e através dos anos. “Em 1997, quando a moça já era bem mais que uma balzaquiana, os fabricantes resolveram responder às crescentes críticas acerca da influência negativa que estaria exercendo sobre as meninas do mundo inteiro, alastrando um padrão corporal inatingível e contribuindo, dessa maneira, para a “epidemia” de distúrbios alimentares e transtornos da imagem corporal. Assim, nos exemplares mais recentes, tanto a cintura como os quadris da boneca engrossaram levemente, na tentativa de tornar seu corpo um pouco mais “realista”, enquanto os seios foram diminuídos. De todo modo, as mudanças são bastante sutis, e a Barbie continua sendo a Barbie”, conclui a Doutora.

Moça Ocupada. Imagem Marcela Constant, tirada no Museu Encantado da Barbie, no Rio Design

Mas a boneca também se transformou em um ícone da cultura pop, e grandes personalidades e personagens do cinema, da música e da cultura em geral podem ser vistos reproduzidos na forma das charmosas bonecas. Difícil não se encantar ao ver reproduzidos ícones como Joan Jett, Frank Sinatra, Elizabeth Taylor, Elvis, Marylin, Audrey Hepburn, Diana Ross ou personagens clássicos como os do Mágico de Oz, James Bond, Romeu e Julieta. Mais encantadores ainda, são os representantes das diversas etnias mundiais, além das coleções de deusas e rainhas.

Talvez o grande trunfo da Barbie seja estar atenta às questões femininas dos seus tempos, aliada a combinação moça rica, bonita, meiga e politicamente correta. Talvez para as meninas do lema “prefiro ser feminina”, este seja um pacote completo. E algo a ser observado com um pouco mais de atenção pelos movimentos feministas, já que a tática de guerrilha nem sempre funciona com grandes ícones adorados no mundo inteiro. Barbie já provou que pode paradoxalmente, ser uma aliada. Ou talvez aquela “feminista inconveniente” citada por Marta Lamas, a que luta pelos direitos direitos das mulheres sim, mas com as armas disponíveis. Subindo lá de salto e maquiagem, e saindo com a liberação do aborto, por exemplo. Voltando à Barbie, um exemplo disto é que uma boneca que “começou” como modelo, hoje já conta com mais de cem profissões – a mais recente é Engenheira de Informática – e inclusive foi candidata à presidência dos EUA em 1992 com uma plataforma de oportunidades para meninas, excelência educacional e direitos dos animais.

Cultura hip hop americana. Imagem: Renata Arruda. tirada no Museu Encantado da Barbie, no Rio Design

As Barbies Negras

A indústria por trás da boneca parece atenta ao próprio mundo. A primeira Barbie negra foi lançada nos anos 80, vestida por um estilista também negro, em uma época onde era muito celebrada a cultura disco. Mas apenas recentemente as amigas negras de Barbie tem ganho destaque em seus filmes e passaram a ser comercializadas nas lojas em maior número e com mais frequência. Na recente exposição vista em 2009 em São Paulo e este mês no Rio de Janeiro, foi montada toda uma ala para celebrar a beleza e cultura negras, ressaltando figuras importantes como Diana Ross, passando por ícones de cultura como as baianas brasileiras, a diva do jazz, as tribos, a realeza, como também um stand somente para profissões modernas e outra antenada com a recente cultura hip hop americana, tendo inclusive, um boneco vestido com uma roupa desenhada pelo rapper Jay-Z. A maior parte das bonecas desta coleção são de origem recente e fica a torcida para que o  interesse na linha coloque um fim na super-valorização da cultura de colonização da pele branca e dos cabelos louros e lisos.

A Barbie Feminista

 A indústria de filmes da Barbie, nos anos 2000, teve início com grandes clássicos como “O Quebra-Nozes”, “Lago dos Cisnes”, “Rapunzel” e outros. Com o sucesso dos longas, começou a se investir em temas de maior apelo comercial, como fadas, filmes 3D e princesas modernas. Mas no segundo semestre de 2009 o grande sucesso de público da Barbie foi o filme “Barbie e as Três Mosqueteiras”, uma releitura feminista da grande obra de Alexandre Dumas. Talvez como o paradoxo que sempre foi a boneca Barbie ou talvez exista uma certa ingenuidade em achar que uma marca como a Barbie possa defender ideiais tão contraditórios como modelos de beleza e consumismo e feminismo, mas a verdade é que o longa é uma prova de que se podem utilizar estereótipos a nosso favor. Insisto que talvez seja uma estratégia mais eficaz do que a de  demonização que certos grupos costumam preconizar.

Cena do Filme Barbie e as Três Mosqueteiras.

Voltando ao filme, Barbie é filha de ninguém menos que Dartanhan e, desde pequena treina para realizar o sonho de ser mosqueteira. Ao completar 17 anos, resolve sair sozinha de casa rumo a Paris, portando apenas uma carta de recomendação dirigida aos chefes dos mosqueteiros. Como é de se esperar, todos riem dela e disparam: não é profissão para mulher. Então, Barbie consegue um emprego como criada no castelo real e lá conhece outras meninas que, além de suas habilidades “socialmente aceitáveis”, secretamente também sonham em ser mosqueteiras. Juntas, treinadas por uma velha criada -sábia e também habilidosa mosqueteira em segredo – conseguem salvar a vida do rei e provar que merecem o posto, sendo as primeiras mulheres aceitas como mosqueteiras. Está tudo lá: a irmandade feminina, muito bem representada pelo velho lema, agora no feminino “uma por todas e todas por uma”, a liderança de uma sábiA, a inteligência de bolar um plano para desmascarar as traições ao rei todo planejado e executado pelas mulheres, sem nenhuma ajuda ou dica masculina. Pelo contrário, enfrentando o descrédito dos mesmos, sendo, inclusive, expulsas do castelo. Há ainda o príncipe que se apaixona por sua salvadora e a pede em casamento e aqui, fato quase inédito em contos de fadas, a mocinha rejeita o pedido para seguir seu sonho e exercer sua profissão, ao lado de suas companheiras. São elas, guardas reais femininas, protegendo o jovem príncipe cientista – um grande avanço para a história feminina. Mais do que um mero modelo de beleza e comportamento “politicamente correto”, Barbie também quer ser uma aliada das mulheres, todas elas.

Cena do Filme Barbie e as Três Mosqueteiras

Esta não é a primeira vez que surgem sinais de mudanças. Em “O Castelo de Diamantes” (2008), Barbie e sua amiga rejeitam a proposta de viver no conforto de um castelo, com dois pretendentes e sua rainha, para serem fiéis as suas próprias origens, verdades e amizade. No recente “Moda & Magia” (2010), embora o filme flerte com as origens da Barbie rica, apaixonada por moda e cair no clichê da inveja e competição feminina, também vemos uma Barbie que, ao pensar ter sido abandonada pelo namorado – que cruza o mundo atrás dela para desfazer o mal entendido – e ter sido demitida do emprego, resolve mudar completamente de vida, dando a volta por cima ao assumir os negócios falidos da tia, com ajuda de uma talentosa amiga e, também, de algumas fadas. A sorte e o talento sorrindo para quem não desiste de vencer. Pelo visto, algo está mudando no reino encantado da Barbie.