Whip It – Garota Fantástica

Quando eu era criança, depois de assistir a um filme que eu gostava muito, sempre queria ser como alguém dele, geralmente tinha boas referências, outras vezes, meu gosto era meio duvidoso.

Bom, depois de muito tempo e de já não mais querer ser bruxa (Jovens Bruxas), patricinha (As patricinhas de Beverly Hills), caça-vampiros (Buffy), líder de torcida (Bring It On) ou espiã (A Pequena Espiã), eis que assisti a um filme que, no fim dos créditos, já queria fazer o mesmo: Roller Derby, por culpa do filme Whip It ou, em português, numa daquelas traduções tudo a ver, Garota Fantástica.

Cena do filme Whip It - Garota Fantástica

Roller Derby é um esporte que envolve patins, uma pista e brutalidade, passado o momento do filme, eu não cheguei nem perto de me envolver, portanto não sei mais do que isso. Mas, quanto ao filme, mesmo depois de dois anos, continuo gostando muito dele.

Sem mais enrolação, a história é sobre uma adolescente do Texas, Bliss Calendar (Ellen Page de A Origem e Juno) que tem uma mãe viciada em concursos de beleza, que quer reviver na filha seus tempos de glória, mas Bliss não pertence a esse mundo. Ela é quieta, só tem uma amiga, trabalha como garçonete e leva uma vida pacata até conhecer o Roller Derby. Então acontece a transformação: a aparente fraqueza fica de fora durante o jogo e Bliss vira a estrela do time. E essa parte faz a diferença nos filmes que servem para diversão, pois as mudanças giram ao redor da personagem e não sobre o que ela tem que fazer – leia-se “padrões de normalidade que ela tem que seguir” – pra ficar com determinado cara ou ser a mais popular do colégio etc. Tanto é que a chamada pro filme é Be Your Own Hero.

O filme foi escrito por uma ex-roller derby, Shauna Cross e dirigido por Drew Barrymore e além da história básica e dos clichês de drama, comédia, romance; mostra como as patinadoras lidam com a violência do Roller Derby: escolhem um pseudônimo “durão”, deixam pra trás o nome e jogam com tudo, assim mesmo nesse jeito que soa como pura liberdade. E por outro lado, mostra como as patinadoras dão duro para jogar esse esporte pouco conhecido (e reconhecido) e a amizade que liga a todas, inclusive aquela que parece “vilã”, Iron Maven, interpretada por Juliette Lewis.

Fica a dica então pra quem quer um filme “sessão-pipoca” e não tem nada na lista a não ser a reprise de “A sogra” no TNT. Whip It ainda por cima tem ótima trilha e é inspirador!

[+] Vídeo – Considerado “de menina” roller derby tem muita pancadaria

A Força das Vadias

Texto de Carolina Branco.

Cerca de 500 pessoas reunidas na Praça do Ciclista na Av. Paulista numa tarde de sábado fria em São Paulo. Dentre elas, jovens mulheres uma ao lado da outra, em silêncio, comiam maças. Algumas as comiam outras as mantinham na boca, como se as calassem. No entorno, “mulheres com pouca roupa” e homens seguravam cartazes que traziam frases de repúdio a violência de gênero, estupro e ao machismo em geral: “Respeito é sexy, machismo broxa”.

Marcha das Vadias em Brasília. Imagem de Fernando Bizerra Jr./EFE.

Em janeiro de 2011, a Universidade de Toronto registrou muitos casos de abuso sexual em mulheres no Campus. Depois dos acontecimentos, um policial orientou como medida de segurança que “mulheres evitassem se vestirem como putas para não serem vítimas”. Depois disso, 3.000 pessoas foram às ruas no Canadá protestar contra a culpabilização de mulheres envolvidas em episódios de violência sexual. Assim, nasceu o movimento internacional Slut Walk (em português Marcha das Vadias) que rapidamente se espalhou por dezenas de cidades no mundo.

A breve descrição acima chama atenção para a primeira versão brasileira da Marcha das Vadias que aconteceu em julho deste ano em São Paulo. No Brasil, assim como no âmbito internacional, essa iniciativa repetiu-se em várias cidades como Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, dentre outras. Nas diversas versões destes protestos contra a violência de gênero, o termo “vadia”, foi deslocado e (re) apropriado de maneira criativa ao borrar os limites normativos que constroem a figura da “mulher estuprável”. Ao saírem às ruas, mulheres e homens ao invés de dizerem: “Cuidado para não ser estuprada”, disseram: “Não estupre!”.

Nas variantes do movimento no Brasil, além da (re) apropriação de noções rejeitadas moralmente para designar o feminino e práticas sexuais femininas, houve a incorporação de elementos populares originários de grupos muitas vezes desqualificados do ponto de vista de suas produções culturais. Nas manifestações brasileiras víamos cartazes com trechos de hinos funks como: “A buceta é minha e eu dou para quem eu quiser”. A denúncia criativa e humorada sobre relações diferenciais de poder que geram violências de gênero da Marcha das Vadias apontam, se não para uma política feminista no sentido estrito do termo, para modalidades

de participação política bem próximas ao feminismo. Historicamente o debate feminista tem sido marcado por controvérsias de diversas naturezas e pela heterogeneidade de posições teóricas, políticas e de atores sociais. Justamente por essa razão, esse campo deve ser considerado um dos mais frutíferos no que diz respeito à questionamentos de ordem teórica, práticas políticas e processos naturalizadores de desigualdades sociais, sejam elas de gênero, raça/cor da pele/etnia, classe social, etária e etc. Nesse sentido, eu arriscaria afirmar que o Movimento das Vadias ao mesmo tempo em que pauta uma prioridade política praticamente unânime dentro do feminismo, qual seja, a denuncia e o combate à violência de gênero, cria novas possibilidades de produção discursiva, práticas políticas e articulações dentro e fora do campo feminista. A marcha das vadias alavanca tanto no meio acadêmico, político e no senso comum possíveis destituições de feminismos, práticas e opiniões conservadoras. Esse processo é da maior relevância se considerarmos que ele deixa aberturas, primeiro, para a novos modos de instituir relacionalmente noções menos essencializadoras de masculino e feminino, violências e práticas sexuais.

Segundo, essa manifestação política surge articulada a outras como a descriminilização da maconha, marcha da liberdade (sem contar as relações que podemos fazer aos recentes questionamentos radicais à democracia na Europa) em meio a um contexto nacional de atualização contemporânea de idéias reacionárias que recriam um facismo pra lá de ultrapassado. Aqui, eu me refiro as nada humoradas afirmações de Rafinha Bastos relacionados a mulheres estupradas, as infelizes observações do filósofo Luiz Felipe Pondé sobre o que querem as mulheres e as pregações missionárias da ex-atriz Miriam Rios sobre a homossexualidade.

Porque a luta dos feminismos também são biolutas!!

25 de Julho: Lembrando de Benedita da Silva

Texto de Luana Tolentino.

Na adolescência possuía dois sonhos: ser uma pessoa inteligente e conhecer o Rio de Janeiro. O primeiro, não serei eu a dizer se alcancei ou não. Já o segundo, realizei no ano passado.

Em dezembro participei do Seminário Mulher e Mídia 7, realizado na capital fluminense. A organização do evento não divulgou a programação antecipadamente. Foi uma grata surpresa encontrar Nilcéia Freire, Luiza Bairros, Liv Sovik, Nalu Faria e o Rodrigo Vianna por lá. Único convidado do sexo masculino, o jornalista e blogueiro progressista se saiu muito bem ao falar sobre temas feministas. Durante os três dias do seminário, nada me tocou tanto quanto Benedita da Silva, de quem lembro neste 25 de julho, dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Ao lembrar de Benedita Sousa da Silva Sampaio, lembro também de todas as mulheres negras deste país.

A platéia estava lotada. Eram mais ou menos 250 mulheres. Benedita e eu éramos umas das poucas negras presentes. Quando a vi, meus olhos brilharam. Uma mulher linda, viva, forte. Nem de longe aparenta ter 69 anos. Benedita quebrou todos os protocolos. O que era para ser apenas uma comunicação, transformou-se num brado contra a discriminação de gênero, classe e raça sofrida pelas afro-descendentes. Não poderia ser diferente. Fiquei emocionada. Ao final da apresentação, corri em direção à Bené e pedi um abraço. Mais que um afago, recebi um sorriso e o direito de tirar uma foto. Tremi. Tive a sensação de estar diante de um espelho, onde a minha imagem era refletida.

A história de Benedita da Silva é semelhante a da maioria das mulheres negras do Brasil. Nascida na favela da Praia do Pinto, Rio de Janeiro, a atual Deputada Federal pelo PT, viveu por 57 anos no Morro do Chapéu Mangueira. Assistente Social por formação, antes de ingressar na carreira política, Bené trabalhou durante longos anos como empregada doméstica. Como ela costuma dizer, lavou muito chão para as madames até pisar no tapete vermelho do Palácio do Planalto, quando tomou posse como Deputada Federal em 1986.

Imagem de Luana Diana. Arquivo Pessoal.

Benedita da Silva foi a primeira mulher negra a ocupar uma vaga no Senado e a governar um estado. Antes disso, fora eleita vereadora em 1983. Com a renúncia de Anthony Garothinho para concorrer à Presidência da República, Benedita assumiu o governo do Rio em 2002.

Feminista e ativista do Movimento Negro, Benedita da Silva fundou o Departamento Feminino da Associação de Moradores da favela em que passou boa parte da vida. Participou também da criação das primeiras associações de mulheres negras nos anos de 1980. Tema pouco estudado na Academia, o Feminismo Negro foi uma resposta à pouca visibilidade dada pelas feministas às especificidades das afro-brasileiras no que concerne à saúde, educação e participação no mercado de trabalho. Eliza Larkin do Nascimento considera a situação da mulher negra o próprio retrato da feminização da pobreza. Pesquisas revelam que as não-brancas formam a maior parte da população analfabeta do país, estão empregadas em grande parte no setor de serviços, encontram barreiras no acesso aos serviços de saúde e sofrem com os estereótipos construidos durante os quase quatro séculos de escravidão.

Ao ser perguntada sobre o que significava ser mulher negra, Benedita da Silva sintetizou com as seguintes palavras:

O meu orgulho é a missão de ser negra. Mas eu já quis deixar de ser negra. Era maltratada, riam de mim, puxavam meu cabelo, me chamavam de nega maluca, de macaca, e até de Benechita. Ah, mas macaca não foi há tanto tempo! (…) De vez em quando aparece alguém para me chamar de macaca”. (Revista Eparrei, 2º semestre de 2005, p.27)

 Nós, mulheres negras, sabemos exatamente o que significam cada uma dessas palavras…

Em dezembro, realizei um dos maiores sonhos da minha vida. Pisei em solo carioca. Conheci o Cristo Redentor e Copacabana. Dancei samba na Lapa e tomei cerveja no mesmo “Amarelinho” que abrigou João Nogueira por diversas noites. Mesmo de longe, vi o Maracanã e o Engenhão. Em uma feijoada na quadra da Portela, ganhei autógrafos do Monarco e da Tia Surica. Mas a vida, que é muito generosa comigo, ainda me concedeu a oportunidade de conhecer Benedita da Silva, por quem tenho grande admiração.

Certamente Benedita da Silva não se lembra daquele abraço, daquela foto tirada no dia 3 de dezembro de 2010. Eu jamais esquecerei.