Mulheres Negras, cadê?

Texto de Luana Tolentino.

Há dois anos pesquiso sobre imprensa feminina e feminismos. Encontrar as Blogueiras Feministas foi um achado. É com entusiasmo que recebo as centenas de emails diariamente sobre os mais variados assuntos. Sempre que posso, leio e comento as mensagens e os posts do blog. Aprendo muita coisa bacana aqui.

Contudo, não posso deixar de tecer algumas críticas quanto à invisibilidade da mulher negra neste grupo, que, se não estou enganada, é composto por mais de 300 mulheres e alguns poucos homens.

Com o auxílio da Srta. Bia consegui o número de textos postados no site de outubro de 2010 até a presente data: 282 no total (contando com este post). Dentre eles, apenas 3 (3!) tratam especificamente do binômio gênero e raça. Dois deles foram enviados pela Historiadora aqui.

Foto foi tirada no Fazendo Gênero de 2010. Imagem de Luana Diana dos Santos.

Lélia Gonzalez, uma das maiores feministas que este país já teve, costumava dizer que no Movimento de Mulheres, as negras, ao reivindicar uma maior representatividade e participação, eram vistas como criadoras de caso e encrenqueiras. É exatamente isso que estou fazendo neste momento: expondo uma questão que, acredito eu, precisa ser repensada.

Afinal de contas, que Feminismo é este pelo qual empunhamos bandeiras? Como falar da opressão sofrida pelas mulheres, quando não damos espaço às negras? Agindo desta forma, não estamos reproduzindo os preconceitos que julgamos combater diariamente? Além de mim, há mais afro-descendentes no grupo? Lutar, denunciar e divulgar a forma perversa como o machismo, o sexismo e o racismo incidem sobre a mulher negra é uma responsabilidade somente nossa?

Parafraseando Sueli Carneiro, acho que precisamos enegrecer o Blogueiras Feministas.

Então?! Alguém topa o desafio?

[+] Texto – Enegrecer o Feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero, de Sueli Carneiro.

Whip It – Garota Fantástica

Quando eu era criança, depois de assistir a um filme que eu gostava muito, sempre queria ser como alguém dele, geralmente tinha boas referências, outras vezes, meu gosto era meio duvidoso.

Bom, depois de muito tempo e de já não mais querer ser bruxa (Jovens Bruxas), patricinha (As patricinhas de Beverly Hills), caça-vampiros (Buffy), líder de torcida (Bring It On) ou espiã (A Pequena Espiã), eis que assisti a um filme que, no fim dos créditos, já queria fazer o mesmo: Roller Derby, por culpa do filme Whip It ou, em português, numa daquelas traduções tudo a ver, Garota Fantástica.

Cena do filme Whip It - Garota Fantástica

Roller Derby é um esporte que envolve patins, uma pista e brutalidade, passado o momento do filme, eu não cheguei nem perto de me envolver, portanto não sei mais do que isso. Mas, quanto ao filme, mesmo depois de dois anos, continuo gostando muito dele.

Sem mais enrolação, a história é sobre uma adolescente do Texas, Bliss Calendar (Ellen Page de A Origem e Juno) que tem uma mãe viciada em concursos de beleza, que quer reviver na filha seus tempos de glória, mas Bliss não pertence a esse mundo. Ela é quieta, só tem uma amiga, trabalha como garçonete e leva uma vida pacata até conhecer o Roller Derby. Então acontece a transformação: a aparente fraqueza fica de fora durante o jogo e Bliss vira a estrela do time. E essa parte faz a diferença nos filmes que servem para diversão, pois as mudanças giram ao redor da personagem e não sobre o que ela tem que fazer – leia-se “padrões de normalidade que ela tem que seguir” – pra ficar com determinado cara ou ser a mais popular do colégio etc. Tanto é que a chamada pro filme é Be Your Own Hero.

O filme foi escrito por uma ex-roller derby, Shauna Cross e dirigido por Drew Barrymore e além da história básica e dos clichês de drama, comédia, romance; mostra como as patinadoras lidam com a violência do Roller Derby: escolhem um pseudônimo “durão”, deixam pra trás o nome e jogam com tudo, assim mesmo nesse jeito que soa como pura liberdade. E por outro lado, mostra como as patinadoras dão duro para jogar esse esporte pouco conhecido (e reconhecido) e a amizade que liga a todas, inclusive aquela que parece “vilã”, Iron Maven, interpretada por Juliette Lewis.

Fica a dica então pra quem quer um filme “sessão-pipoca” e não tem nada na lista a não ser a reprise de “A sogra” no TNT. Whip It ainda por cima tem ótima trilha e é inspirador!

[+] Vídeo – Considerado “de menina” roller derby tem muita pancadaria

A Força das Vadias

Texto de Carolina Branco.

Cerca de 500 pessoas reunidas na Praça do Ciclista na Av. Paulista numa tarde de sábado fria em São Paulo. Dentre elas, jovens mulheres uma ao lado da outra, em silêncio, comiam maças. Algumas as comiam outras as mantinham na boca, como se as calassem. No entorno, “mulheres com pouca roupa” e homens seguravam cartazes que traziam frases de repúdio a violência de gênero, estupro e ao machismo em geral: “Respeito é sexy, machismo broxa”.

Marcha das Vadias em Brasília. Imagem de Fernando Bizerra Jr./EFE.

Em janeiro de 2011, a Universidade de Toronto registrou muitos casos de abuso sexual em mulheres no Campus. Depois dos acontecimentos, um policial orientou como medida de segurança que “mulheres evitassem se vestirem como putas para não serem vítimas”. Depois disso, 3.000 pessoas foram às ruas no Canadá protestar contra a culpabilização de mulheres envolvidas em episódios de violência sexual. Assim, nasceu o movimento internacional Slut Walk (em português Marcha das Vadias) que rapidamente se espalhou por dezenas de cidades no mundo.

A breve descrição acima chama atenção para a primeira versão brasileira da Marcha das Vadias que aconteceu em julho deste ano em São Paulo. No Brasil, assim como no âmbito internacional, essa iniciativa repetiu-se em várias cidades como Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, dentre outras. Nas diversas versões destes protestos contra a violência de gênero, o termo “vadia”, foi deslocado e (re) apropriado de maneira criativa ao borrar os limites normativos que constroem a figura da “mulher estuprável”. Ao saírem às ruas, mulheres e homens ao invés de dizerem: “Cuidado para não ser estuprada”, disseram: “Não estupre!”.

Nas variantes do movimento no Brasil, além da (re) apropriação de noções rejeitadas moralmente para designar o feminino e práticas sexuais femininas, houve a incorporação de elementos populares originários de grupos muitas vezes desqualificados do ponto de vista de suas produções culturais. Nas manifestações brasileiras víamos cartazes com trechos de hinos funks como: “A buceta é minha e eu dou para quem eu quiser”. A denúncia criativa e humorada sobre relações diferenciais de poder que geram violências de gênero da Marcha das Vadias apontam, se não para uma política feminista no sentido estrito do termo, para modalidades

de participação política bem próximas ao feminismo. Historicamente o debate feminista tem sido marcado por controvérsias de diversas naturezas e pela heterogeneidade de posições teóricas, políticas e de atores sociais. Justamente por essa razão, esse campo deve ser considerado um dos mais frutíferos no que diz respeito à questionamentos de ordem teórica, práticas políticas e processos naturalizadores de desigualdades sociais, sejam elas de gênero, raça/cor da pele/etnia, classe social, etária e etc. Nesse sentido, eu arriscaria afirmar que o Movimento das Vadias ao mesmo tempo em que pauta uma prioridade política praticamente unânime dentro do feminismo, qual seja, a denuncia e o combate à violência de gênero, cria novas possibilidades de produção discursiva, práticas políticas e articulações dentro e fora do campo feminista. A marcha das vadias alavanca tanto no meio acadêmico, político e no senso comum possíveis destituições de feminismos, práticas e opiniões conservadoras. Esse processo é da maior relevância se considerarmos que ele deixa aberturas, primeiro, para a novos modos de instituir relacionalmente noções menos essencializadoras de masculino e feminino, violências e práticas sexuais.

Segundo, essa manifestação política surge articulada a outras como a descriminilização da maconha, marcha da liberdade (sem contar as relações que podemos fazer aos recentes questionamentos radicais à democracia na Europa) em meio a um contexto nacional de atualização contemporânea de idéias reacionárias que recriam um facismo pra lá de ultrapassado. Aqui, eu me refiro as nada humoradas afirmações de Rafinha Bastos relacionados a mulheres estupradas, as infelizes observações do filósofo Luiz Felipe Pondé sobre o que querem as mulheres e as pregações missionárias da ex-atriz Miriam Rios sobre a homossexualidade.

Porque a luta dos feminismos também são biolutas!!