#QuemMatouJuan?

Texto de Luana Tolentino.

Faz pouco tempo que ingressei nas redes sociais. Talvez por ser resistente ao novo (pra não dizer que sou cabeça-dura), ainda prefiro o bom e velho email. Tenho algumas restrições à exposição exacerbada cometida por alguns no twitter e no facebook. Concordo com o Ziraldo quando ele diz que vivemos um momento de evasão de privacidade.

Críticas à parte, é incontestável o poder de mobilização que as páginas de relacionamento possuem, como foi mostrado na Carta Capital no mês passado. Assistimos a eclosão das Marchas das Vadias em vários estados, o sucesso do Churrasco da Gente Diferenciada e da Marcha pela Liberdade. Esses são apenas alguns exemplos dessa nova forma de ativismo, que não requer necessariamente um líder e um gabinete para exigir direitos e mudanças.

E por acreditar na força dos protestos virtuais, participei do twitaço realizado na noite de sexta-feira passada – #QuemmatouJuan?. As centenas de posts no twitter foram uma reação ao assassinato do garoto Juan Moraes, na Comunidade Danon, localizada na Baixada Fluminense. O corpo do menino de 11 anos foi encontrado num rio, em 6 de julho, 16 dias após o seu desaparecimento. Os principais suspeitos do crime são quatro policiais militares que lideraram uma ação de combate ao tráfico de drogas no local na data em que Juan desapareceu. O irmão de Juan também foi baleado e por sorte sobreviveu.

08/07/2011 – Ong Rio de Paz, faz manifestação na praia de Copacabana, pela morte do menino Juan. Na foto, Rosana Drumond, 55 anos, dona de casa, colocando flores perto da foto do menino Juan. Foto de Paulo Alvadia / Ag. O Dia

Temos no assassinato de Juan uma continuidade histórica. Ainda no século XIX, intelectuais brasileiros tomaram de empréstimo as teorias raciais disseminadas na Europa, que atestavam a inferioridade dos negros. Ao adaptá-las à realidade nacional, imputaram aos descendentes de escravos uma suposta tendência ao crime. Outrossim, o negro associado à criminalidade foi fundamentado pela Ciência, ganhou caráter institucional no Estado e foi amplamente disseminado pela população.

Passado mais de um século, este estigma permanece arraigado no inconsciente coletivo e nas abordagens policiais. Os moradores das periferias, vilas e favelas, sobretudo os negros e do sexo masculino, são vistos como “Elementos suspeitos”. Do ponto de vista da violência urbana, um estudo realizado pelo Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais da UERJ mostrou que, entre os anos de 1999 e 2005, o número de pretos e pardos assassinados cresceu 46,3%. No contingente branco, esse crescimento foi de 0,1%. Os reflexos das teorias raciais formuladas pela elite brasileira nos primeiros anos da República também são visíveis no sistema prisional. No Rio de Janeiro, 90% da população carcerária é formada por afro-descendentes. Impossível não lembrar dos versos de Gil e Caetano: “mas presos, são quase todos pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres, e pobres são como podres, e todos sabem como se tratam os pretos”.

Como se sabe, racismo é uma palavra praticamente proibida no Brasil. Dessa forma, crimes como o ocorrido em Nova Iguaçu dificilmente são associados à violência racial. Além disso, quando chegam a ser noticiados na mídia impressa e televisa são fruto de denúncias de moradores e de pressões dos movimentos sociais. Embora eu não tenha assistido, é necessário louvar as reportagens veiculadas recentemente pelo SBT e pela Rede Record, que recentemente levaram ao ar matérias sobre a discriminação racial e a violência policial no Brasil. Fato raro na televisão brasileira.

No ano passado, em um dos debates entre os presidenciáveis, Plínio Arruda, candidato do PSOL, nos poucos minutos em que teve direito de se pronunciar, sintetizou um dos legados deixados pelos quase quatro séculos de escravidão no país: “Ser negro no Brasil é extremamente perigoso”. A assertiva de Plínio deve ter passado desapercebida para muitos, porém, a morte precoce de Juan não deixa dúvidas de que o militante socialista estava coberto de razão.

O assassinato de Juan ganhou o noticiário, mobilizou a comunidade, as redes sociais e as organizações não-governamentais. Maria do Rosário, Ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, exigiu rigor nas investigações através de uma Nota Pública. O depoimento de uma testemunha aponta #QuemmatouJuan. Resta saber se os acusados serão julgados e condenados.

O texto da Professora Luana

Texto de Luana Tolentino.

São cinco da manhã. Hora de acordar. Há tempo apenas para um banho rápido e um café. Até chegar à Escola Estadual Djalma Marques, na periferia de Ribeirão das Neves, serão dois ônibus e uma hora de viagem. Depois desse longo percurso é preciso andar um pouco mais pelas ruas sem asfalto do bairro Florença. A paisagem predominante é a de casas inacabadas, esgoto a céu aberto, pequenos comércios e muitas, muitas igrejas de variadas denominações.

O Djalma é uma escola nova, tem pouco mais de quatro anos. Logo à entrada vê-se a deterioração do prédio. Vidros e portas quebradas. Nas salas de aula a situação se repete com as mesas e cadeiras. A quadra ainda não ficou pronta. Segundo a coordenadora pedagógica, a biblioteca foi criada apenas para que houvesse o cargo de bibliotecária, e os poucos livros que tem devem ficar sempre trancados. A escola conta com câmeras por todos os lados para reforçar a segurança.

Escola de Ensino Fundamental Roberto Mubarac. Foto: Agência de Notícias do Acre, no Flick em CC, alguns direitos reservados.

Sete da manhã. Na sala dos professores entre as conversas, a insatisfação pelo descaso das autoridades com a educação, os problemas do dia anterior, e pedidos de proteção para mais um dia de aula. O sino toca. Os alunos sabem que precisam formar filas para a oração do Pai Nosso. É necessária uma longa espera. Fico em dúvida sobre quem fala mais: a coordenadora aos berros exigindo silêncio ou os alunos dispersos, sem muito interesse em rezar a oração que o Senhor os ensinou. Finalmente a oração é feita e as turmas são conduzidas pelos professores até a sala de aula. Até às 11:30 serão cinco turmas: quinta, sexta, sétima e oitavas séries, num total de quase 200 alunos.

Indisciplina, desinteresse e agressões fazem parte do cotidiano do Djalma. De quem é a culpa? Como disse o Ferreira Gullar “Uma sociedade fundada sobre a injustiça educa para a injustiça.” Entro na sala da 701. Uma turma com 40 alunos. A mais cheia, a mais bagunceira, a mais difícil, enfim, a mais tudo. De que forma sensibilizar esses alunos provenientes de famílias desestruturadas, expostos de forma cruel às mazelas sociais, sem perspectivas, sedentos de carinho e afeto? Penso que Dom Pedro II esteja muito distante deles, talvez uma das causas do desinteresse pelas aulas. Resolvo então dar uma pausa no conteúdo e levo para sala de aula “Luana”**, crônica que narra a violência urbana que assola os jovens das periferias do Brasil.

Distribuo o texto e ouço reclamações quanto ao tamanho. Insisto para que eles leiam. Encontro espaço para falar da importância do ato de ler e digo que o texto é muito bacana, que eles vão gostar. Não consigo acreditar no que vejo. Todos os alunos lendo. Alguns têm dificuldade na leitura. Outros mais afoitos interrompem a leitura a todo o momento, querendo saber se aquela “Luana” sou eu. Não respondo. Peço somente que eles continuem a leitura. Percebo que em cada parágrafo os alunos parecem estar vendo/ouvindo/vivendo aquilo tudo. “Luana” é real, “Luana” está próxima, certamente ao lado de cada um deles. Ao final da leitura um misto de incredulidade e tristeza: “Nossa, que triste professora, a Luana morreu”.

Iniciado o debate acerca do texto a maioria está ansiosa para falar. Ora Luana é culpada, ora inocente. É difícil contê-los. É difícil conter-me. Fico emocionada. Pela primeira vez em dois meses consigo me aproximar dos meninos, fazer com que eles participem da aula. Como na escola os materiais são precários, nem sempre é possível deixar os textos com os alunos. Dessa vez não teve jeito, alguns pediram que deixasse o texto com eles.

Tive a sensação de estar começando uma longa caminhada. Não posso desistir. Acredito que uma educação pública de qualidade é possível e que um dia nossos governantes passarão a tratar nós professores e os alunos como prioridade. Quimera, utopia, ilusão? Ainda não sei. Prefiro acreditar que nem tudo está perdido.

Ps: Escrevi este texto em agosto de 2008, logo que comecei a lecionar. De lá para cá, pouca coisa mudou. Mas uma coisa é certa: o último parágrafo do texto continua dando o tom do meu trabalho como docente.

Autora

Luana Tolentino é mulher, negra, canhota, gêmea univitelina.

* “Luana” foi publicado no livro “Cada Tridente em seu lugar” de Cidinha da Silva, pela Mazza Edições.

Desafios da Comunicação na Atualidade

Texto de Carine Roos.

Quando refletimos sobre os desafios da comunicação na atualidade, não há como não sermos redundantes se pensarmos que o principal desafio hoje é informar a população de forma responsável – premissa basilar do jornalismo. Sabemos que toda e qualquer empresa, especialmente a jornalística, visa lucro, são partidárias, apresentam uma linha editorial definida e que tudo isso será levado em conta na publicação de um texto. Não entramos nem no mérito da imparcialidade, porque nem um texto esgotaria esse debate na tentativa de buscar ao máximo a ideia de “isenção jornalística”.

Da esquerda para direita: Luana Diana, Cynthia Semiramis e Erika Pretes comandam o debate sobre Direitos Humanos no Encontro de Blogueiros Progressistas de Minas Gerais. Foto de Michael Vieira Rosa, no Flickr.

Mas o fato é que nem o feijão com o arroz as empresas de comunicação têm feito, nos referimos ao básico, tentar ouvir todas as fontes envolvidas e opiniões diferentes, fazer uma boa pesquisa exploratória sobre o tema, divulgar dados estatísticos para enriquecer a matéria, enfim, trazer uma composição diversa de elementos para que o cidadão forme a sua própria opinião.

Nós, Blogueiras Feministas, estamos cientes de toda essa problemática na comunicação, entretanto, não estamos resignadas com essa situação. Acreditamos que o debate como um todo sobre a regulação da comunicação e a consequente pulverização da verba publicitária governamental para veículos menores deva ser conjunto com a necessidade de colocar na agenda pública a visibilização de opressões vivenciadas por minorias, restabelecer a discussão sobre a legalização do aborto, que a entendemos como questão de saúde pública, a colocação em pauta midiática sobre o PLC 122, a ampla garantia de união civil homossexual.

Compreendemos que a democratização da comunicação vai além da regulação de gigantes, mas sobretudo, perpassa o papel da mídia como instrumento de pressão política que garante direitos sociais para a população, que na atuação em conjunto com a sociedade civil deve influenciar decisões governamentais e o processo legislativo. Para tal, sabemos que a Internet não deve ser o único meio de expressão daqueles que possuem capital “tecnológico-informacional”, as empresas de comunicação devem refletir e garantir os anseios de cidadãos, especialmente daqueles grupos que não possuem voz.

Colocamos em xeque o modelo atual de comunicação que exclui, subjulga e reforça a violência contra mulheres, negros, indígenas, gays, lésbicas, transexuais, acreditamos que o debate deva ser além do marco regulatório e da implantação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), o desafio aponta para uma completa transformação dos media em contato direto com a reivindicação de cidadãos e a sociedade civil, numa relação plural, aberta e de respeito. Queremos ser reconhecidas e representadas por aquilo que somos, simples assim.

O Coletivo Blogueiras Feministas participará do II Encontro de Blogueiros Progressistas. De terça a quinta publicaremos posts sobre democratização da comunicação lançando um olhar feminista sobre a questão.

[+] Atentado à liberdade das Mulheres no México – Agência Patricia Galvão

[+] Reações a Democratização da Informação por Mario Augusto Jakobskind

[+] Rede de Mulheres no Rádio no Mulheres de Segunda

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Carine Roos é Jornalista, blogueira, ativista open-source, pesquisadora em novas mídias, estuda sociologia, vidrada em ficção científica e ama conhecer novas cafeterias. Escreve no blog Androidella.