O anônimo perseguidor

Esse texto é um relato. Ele pertence a Clara. Durante alguns anos ela sofreu perseguição cibernética. Uma pessoa enviava constantemente ameaças e ofensas em seu blog. Ela suspeitava de quem era, mas teve muito trabalho para convencer a polícia que seu caso merecia investigação.

Publicamos esse texto porque escrevemos na internet, por conta disso estamos tod@s sujeit@s a perseguição e agressão de pessoas que não o fariam se não contassem com o suposto anonimato da internet e com a impunidade da nossa legislação. A nossa luta também é contra o ódio na internet. Para que Clara não precise usar um pseudônimo por medo de represálias.

Escrever blogs ou simplesmente usar redes sociais, estar ao alcance do outro — experiência que Exupéry ilustra com uma jibóia que engoliu um elefante — pode ser um perigo para o sossego de desavisad@s. Foi uma experiência real e que resolvi dividir com a intenção de apoiar o fim da impunidade para quem se utiliza do anonimato para agredir via internet. Agressão machuca, não importa onde.

Foto de Brittany Thomas/Cov News

Escrevo desde 1999 e já causei espanto por opiniões pouco convencionais (talvez ridículas, limitadas e tudo mais), sei a dor e delícia de ter um texto lido e comentado, mas nunca tive comentaristas fixos. Meio que descobrem e (des)gostam, se cansam e esquecem, a relação virtual dificilmente dura mais do que alguns meses, para elogios ou críticas sempre houve um limite no que considerava normal. Eis que a coisa começa a degringolar quando começo a receber comentários ultra raivosos, apesar de bem escritos, agredindo meu filho maior. De imediato, suspeitei de pessoas que me conheciam pelo teor da agressão e, pensando com carinho enquanto lia comentários anteriores passei a suspeitar de um colega que se dizia amigo.

Era frequente. Era acusada pelo agressor de ir contra a liberdade de expressão por não publicar essas ‘opiniões’ e, mesmo depois de dois anos, a pessoa ainda me perseguia. Até suspeitava de quem era, mas a falta de certeza me impedia de ter paz, suspeitar de alguém conhecido e ter muita imaginação apodrecida pela cultura do medo é um prato cheio para o pânico. Resolvi procurar uma delegacia quando o assunto do agressor passou a ser minha última gravidez, trazia coisas que poucas grávidas teriam sangue frio para tolerar quietas. Várias vezes o agressor disse que não voltaria, afinal não era correspondido com a visibilidade que esperava, mas sempre voltava e agredia onde sabia ser meu ponto fraco, o que apenas reafirmava minha suspeita de ser alguém que me conhecia pessoalmente.

Bem, os comentários eram da qualidade destes:

Comentário:

pessoas boas… inocentes… gente ruim… covardes… filho sagrado… hahaha… exatamente o que eu disse, vc é um clichê tão grande q dá até dó… tomara q seu filho morra arrastado que nem joão hélio. argumentos… desde quando fundamentalistas povão q nem vc que acha q é educado, culto, refinado sabem o q é argumento? volta pro tanque q é seu lugar o sua parda terceiro mundista de merda q acha q é branca.

Comentário:

hahaha… adoro minha onipotência… faço de gato e sapato a coitadinha… namorada? mano, vc nem sabe se eu sou homem ou mulher… namorada feia? uma mulher com um braço do tamanho do popeye, acabada, com cara de dona florinda, sem peito, sem bunda, com nariz de porquinho, voz de maconheira retardada, julgando a beleza de alguém??? isso sem contar o namorado que tem… que parece uma mistura de indiano de baixa casta com favelado boliviano… errou feio, filha, pra variar… não engoli suas desculpas não, sua boçal escreve pq acha q é inteligente e q os outros vão ler… volta pra ZL que é o teu lugsr e é bom parar de escrever mesmo, poupa o mundo dessa sua pataquada de quinta.

Comentário:

como voce fede! como é podre! covarde, manipuladora, canalha! espero que aborte esse anticristo que carrega nessa barriga velha e flácida, ou espero que você morra no parto e a criança nasca com down! espero mesmo, vou torcer pressas possibilidades… eu realmente cansei de brincar por aqui, voce é tão escrota q por mais bem humorada que eu seja nao dá fico com tanto asco diante dessas suas demonstrações de manipulação e canalhice q no fim das contas me faz mais mal do que bem nao comento mais aqui, mas nunca vou te esquecer mesmo. como uma das piores pessoas que conheci, como o exato tipo de pessoa q quero meu filho(a), se tiver algum(a) BEM LONGE!

Na delegacia resolvi fazer um boletim de ocorrência por ameaça, o que foi quase impossível. Mesmo com todos os emails impressos identificando origem dos comentários e pesquisa prévia que fiz, foi muito difícil convencer o escrivão de que eu me sentia ameaçada devido ao longo tempo em que a coisa estava acontecendo. Precisei argumentar muuuuito que não se tratava de casos isolados, mas de perseguição. A ‘autoridade’ nem se deu ao trabalho de ler com atenção o que levei, muito menos solicitou cópia de qualquer coisa. Apenas abriu um BO por ameaça, com muita má vontade e nem me deu tchau quando saí de lá com o papel na mão e agradeci. Bem, achei que o caso seria resolvido e esperei. Meses. Nada.

Resolvi ir até a delegacia novamente e depois de passar pela arrogância e pela prepotẽncia de quase todo mundo que lá estava, consegui que alguém fizesse o grande favor de me responder onde eu poderia pedir uma informação. Depois de mais de uma hora esperando, fico sabendo que não era naquela delegacia que deveria ter ido. Fui a outra delegacia. Ao chegar, fico sabendo da necessidade de “reapresentar o boletim de ocorrência”, ação que enfim resultaria numa investigação para que pudesse entrar com qualquer ação na justiça. Reapresentei o BO, o que significou convencer mais um homem que me sentia ameaçada e que o caso poderia piorar se eu continuasse quieta. Mais uma vez levei todo o calhamaço de emails que foi praticamente ignorado e precisei apelar para o fato de estar grávida e apavorada para conseguir que o cara, então, concordasse em ‘reapresentar o BO’. O que me deixava fula era saber que não seria trabalho daquele cara azedo investigar um crime dessa natureza, não custava nada me poupar da humilhação indigna de precisar justificar com lágrimas meu pedido por ajuda.

Foto de The Associated Press

A investigação teve tanta atenção que nem perceberam que o endereço do meu marido é o mesmo que o meu quando o intimaram a prestar esclareciemento, devido a ser o titular da conta de nosso servidor de internet, nosso número de IP e tal. No dia em que ele compareceu também foi intimado o titular da conta de outra fonte dos comentários, pai da pessoa de quem eu suspeitava e, ao chegar em casa e me dizer o nome do tal senhor, soube na hora que minha desconfiança não era infundada. Fiquei na minha e esperei, afinal que poderia fazer além de roer a vontade de quebrar a cara do imbecil?

Bem, depois de dois anos recebi o ‘convite’ para ir até a delegacia resolver o caso. Notem que em nenhum momento fui informada sobre meus direitos e deveres em relação ao que planejava fazer, nenhuma instrução me foi oferecida e ainda enfrentei considerável resistência por parte dos dois policiais — o que ‘fez’ e o que ‘reapresentou’ o BO — em acatar a denúncia. Ao chegar na delegacia, encontro com um senhor de quem sei apenas o primeiro nome. Ele me pede para entrar em sua sala e já manda um: “Ah, esse caso, dona, você já sabia então quem era, né? Ele disse que você sabia quem era e que tinha até ficado com você! Eu não sei o que é essa coisa de ficar, sabe? Eu sou velho e não entendo dessas coisa… Mas então você sabia quem era!”

Esse foi o tom que a coisa começou: eu sendo culpada por conhecer o agressor, que dizia ter um passado romântico comigo. Nunca acredito que o erro nunca da vítima. O maior erro é a garantia de impunidade. Segue diálogo com licença poética inspirada pelo empoderamento:

– Oi? O senhor acha que tudo bem ele me mandar as coisas que mandou só porque supostamente tivemos alguma coisa?

– Eu nem li! Ele trouxe um pendrive lotado de mails e anotações e eu nem quis ver! Eu não sou desse tempo em que as coisas aconteciam no computador! Sei de coisas muito piores que acontecem de verdade e só uso o computador pra isso aí, ó (mostra a impressora – ‘talvez seja um antigo estagiário’, penso…)

– Ah é? Você acha que foi exagero meu procurar uma delegacia?

– É, você sabia quem era, então procurou a polícia por quê?

– Por que? É, realmente… É super natural alguém ficar perseguindo por anos outra pessoa, se valendo da impunidade do anonimato, só porque levou um fora, né? Mulheres não morrem todo dia pelas mãos de homens que um dia passaram por suas vidas?

– É, mas ele falou que pediu desculpas via email.

– Veja bem, depois que o pai dele foi intimado, ele enviou um email onde tentava se retratar, mas nem de longe me pareceu realmente arrependido. Parece mais um maluco que persegue tudo o que escrevo para tentar chamar minha atenção.

– É, mas você vai levar isso adiante?

– Que opçỗes tenho?

– Na verdade, para levar isso adiante teria de nomear um advogado para entrar com uma “queixa crime”, do jeito que foi feito nem tem como dar andamento, você vai gastar uns quatro mil reais pro sujeito pagar uma cesta básica, no máximo.

– E a coisa fica por isso mesmo, né? Afinal, quem pode bancar um desaforo desses? E mais uma vez um criminoso sai ileso apesar da injustiça que cometem, pois outros asseguram que nada seja feito. Quem sabe quando a geração mudar, né? Afinal você se justifica dizendo não entender o que se passa… é bem absurdo, não? Não entender de tecnologia é uma coisa

– É, veja bem, não cabe a mim julgar ou condenar, a corregedoria está em cima nesses casos… se falo algo que não me é permitido, posso ser suspenso ou coisa pior.

Por fim, retirei a queixa por medo. Tenho filhos, não quero arriscar. Já sei quem é e consta nos autos. Se esse maluco um dia resolver atacar a mim ou meus filhos, consta em algum lugar que ele já me perseguia há anos. Mas fiquei com medo de provocar ainda mais, pois os comentários cessaram depois que seu pai foi intimado a prestar esclarecimento devido a investigação. Ele ainda enviou emails dizendo o seguinte: Provocar, xingar, tirar sarro, está tudo no campo da civilidade, por mais intestinal e ofensiva que seja a forma como nos tratamos. Mas cogitar que eu pudesse ser uma ameaça real, sinceramente, aí você esqueceu completamente do cara que um dia te deu carinho, independente de você ter gostado ou só fingido que gostou.

A violência contra a mulher começa em casos como esse, o agressor argumenta que sempre gostou da mulher e que apesar de ofendê-la e desejar a morte dos seus filhos com requintes de crueldade, ele na verdade jamais seria capaz disso. Uma lógica torta e perversa que quando não mata humilha e agride milhares de mulheres todos os anos.

Violência sexual no BBB e muito machismo fora dele

Texto de Luma Perrete.

Estou muito chocada com certos comentários que vi sobre o caso do abuso sexual que aconteceu no BBB.

O resumo: rolou uma festa com muito álcool no programa. A participante Monique bebeu muito e foi dormir. De acordo com um vídeo amplamente divulgado na internet ontem, o participante Daniel aparece ao lado de Monique na cama, os dois estão cobertos por um edredon. Daniel faz movimentos que para qualquer pessoa representam sexo, Monique não se mexe. Em outra cena, Monique aparece dormindo de barriga para cima, com as pernas visivelmente afastadas, vemos sob o edredon movimentos do braço de Daniel sobre seu corpo. Pode não ter ocorrido penetração, mas está muito claro que Daniel aproveitou-se do momento e Monique sofreu abuso sexual.

Daniel e Monique, participantes do BBB 12. Foto de Frederico Rozário/Folhapress.
Daniel e Monique, participantes do BBB 12. Foto de Frederico Rozário/Folhapress.

No dia anterior, a participante Mayara já havia reclamado de ter sido bolinada por Daniel. Diante de sua reclamação os outros participantes colocaram panos quentes na questão.

No programa de domingo ficou claro que a Rede Globo vai ignorar o assunto, e pior, tratá-lo como um caso de amor: Mr. Edição transforma dúvida sobre estupro em caso de amor. Leia também: Me sentindo estuprada e Bial, o Cínico.

O diretor do programa alega que conversou com Monique: “Ela não confirmou que teve sexo e disse que tudo o que aconteceu foi consensual”. Porém o jornalista nos conta que: após passar pelo confessionário, Monique demonstrou estar confusa. A Analice, ela até se questionou: “Será que eu fiz [sexo]?”. O mínimo que deveria ser feito é mostrar o vídeo para Monique, fornecer atendimento médico/psicólogico e expulsar Daniel do programa. Mesmo assim, há todo estigma de assumir ser vítima de violência sexual em rede nacional. De acordo com o artigo 217-A do Código Penal:

Art. 217-A. Ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos:

Pena – reclusão, de 8 (oito) a 15 (quinze) anos.

§ 1o Incorre na mesma pena quem pratica as ações descritas no caput com alguém que, por enfermidade ou deficiência mental, não tem o necessário discernimento para a prática do ato, ou que, por qualquer outra causa, não pode oferecer resistência.

Não houve violência, constrangimento, nem grave ameaça. Houve aproveitamento de um momento em que ela não podia oferecer resistência. E sim, independentemente de penetração, é estupro. Basta ler a definição na Lei 12.015/09. E, principalmente, ela pode ter bebido, mas isso não justifica. Só para esclarecer: se ela não pode consentir, é estupro. Ela pode estar bêbada, pode estar desmaiada, pode ter passado mal. Não tem condições de consentir, se a outra pessoa resolver seguir adiante, é estupro. Espero que o Ministério Público tome providências e a que a família de Monique faça alguma coisa.

Acho muito estranha essa necessidade que as pessoas têm de justificar o estupro. A gente vê isso em todo caso que aparece: “Ah, mas ela estava de roupa curta? Ela estava bêbada? Ela estava drogada? Ela foi pra casa dele?”. Muito preocupante. Vamos fazer como no caso da pastora evangélica que foi demitida depois de ter sido estuprada por um fiel da igreja? Por que os chefes dela entenderam que ela foi estuprada porque quis? Por que não lutou e gritou o suficiente?

Parece que as pessoas acham que estupro ocorre somente quando um psicopata armado te aborda na rua e te obriga a fazer sexo com ele. Pois saibam que a maioria dos estupros são cometidos por pessoas conhecidas. Amigos, colegas, namorados, maridos, tios, pais etc.

Se uma pessoa esquece a porta de casa aberta e um ladrão entra e leva tudo, a culpa deixa de ser do ladrão? A pessoa pode ter sido descuidada, idiota, irresponsável, ter dado bobeira ou o que for, mas isso diminui a responsabilidade do ladrão? Não foi o ladrão que tomou a decisão de roubar? Por que a gente dá mais valor à violação do direito à propriedade do que à violação do direito da pessoa de decidir com quem quer fazer sexo?

Falar que tirar a responsabilidade dela por ter bebido é o mesmo que tirar a responsabilidade do motorista que bebeu e causou um acidente (como vi dizerem) é um absurdo tremendo. Ela não cometeu crime algum. Beber, ficar bêbada e ir dormir não é crime. Dirigir bêbado e estuprar são.

E, veja bem, não estou falando apenas do caso do BBB, estou falando de vários casos. Não assisto BBB, nem televisão tenho. Os comentários que ouvi em relação ao programa, já ouvi outras vezes como: “isso é fim de balada, coisa normal, se ela estivesse sóbria, quetinha, nada disso teria acontecido, procurou, achou, na minha opinião”. Muito medo de quem acredita que mulheres procuram alguém para violentá-las. É muito importante que alguma atitude seja tomada, porque há muitas mulheres violentadas no Brasil todos os dias e isso não pode se tornar rotina na televisão.

Portanto, caso você ache que: a mina do BBB bebeu muito, por isso foi estuprada e mereceu mesmo, por favor não chegue perto da nossa caixa de comentários. E vá ler outros posts que podem lhe ajudar a ver o absurdo que você está dizendo como: Isso não é um convite para me estuprar!!! ou Ninguém quer ser estuprada ou Estupro: o que é, como não fazer.

Caso você ache que: a mina do BBB não foi realmente estuprada, que fazer sexo com uma pessoa desacordada não é estupro, que usar esse termo é exagero, favor seguir as instruções acima.

Caso você ache que: o importante mesmo é falar mal do programa e esquecer que um CRIME foi testemunhado em rede nacional e uma mulher sofreu uma das piores violências que um ser humano pode sofrer na vida, favor seguir as instruções acima.

Caso você ache que: a Globo não tem qualquer culpa nisso (apesar de ter bombeiros e paramédicos à disposição na casa!), que a Globo não tinha qualquer obrigação de mandar imediatamente alguém tirar o cara de cima da mulher e chamar a polícia no mesmo minuto (e eles estavam cientes, pois desligaram a câmera logo e não há mais um único vídeo disponível na internet), favor seguir as instruções acima.

Muito obrigada pela colaboração.

*Este post contou com a colaboração de tweets e mensagens no facebook de Deborah Leão e Érika Pretes e uma mãozinha da Srta. Bia.

[+] BBB12: uma vomitadinha marota na mídia Global

[+] A cena do Big Brother é um problema do Brasil

[+] Estupro não é sexo

[+] Violência contra a mulher, até quando vamos ignorar?

[+] Deveria ser óbvio. Mas não é

[+] Eu não quero mais viver neste mundo

[+] A mídia que estupra

[+] O “Boa Noite Cinderela” do BBB

Petições:

Globo Network: Take responsability for covering the rape aired in one of their shows

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Luma Perrete vive aprontando altas confusões com uma galerinha do barulho.

Marcelo Serrado e o perigo do beijo gay

Texto de Marcelo Spitzner.

Minha estreia no Blogueiras Feministas acontece numa semana em que declarações polêmicas são emitidas por pessoas conhecidas a respeito das relações homoafetivas. A primeira e sobre a qual pretendo discorrer nesse post, é a declaração de Marcelo Serrado, ator que interpreta o personagem gay Crodoaldo Valério, o Crô, da novela Fina Estampa, de que é contra beijo gay na novela das 21h. A outra declaração polêmica vem de um lugar de onde muitos já estamos acostumados a ouvir coisa semelhante, do Vaticano. O Papa Bento XVI numa reunião com o corpo diplomático do Vaticano, embaixadores de 180 países que têm relações de Estado com a Santa Sé, disse formalmente que as relações homossexuais representam um perigo para a humanidade e que a família tradicional (leia-se pai e mãe) é o lugar do verdadeiro acolhimento dos filhos. O problema dessa declaração, ao meu ver, é que ela além do peso espiritual para os cristãos, se reveste de um caráter político. Mas, esse é assunto para outro texto. Vamos ao caso Marcelo Serrado.

Crodoaldo, personagem gay interpretado por Marcelo Serrado na novela Fina Estampa. (TV Globo/Divulgação/João Miguel Júnior)

Um trecho da declaração de Marcelo Serrado à Folha de São Paulo diz o seguinte: “Não quero que minha filha [Catarina, 7] esteja em casa vendo beijo gay às nove da noite [na TV]. Que passe às 23h30.”

A reação geral das pessoas e militantes LGBT´s, bem como todos que defendem o direito de igualdade, da livre expressão do amor foi de surpresa e indignação. O que primeiro me veio à mente é que a declaração feita pelo ator traz em si informações sobre as quais podemos fazer algumas inferências. Que os linguistas e semanticistas me ajudem e corrijam se me equivoco!

1- a filha do ator vê a novela das 21h, mesmo que circunstancialmente;

2- a filha do artista acompanha o enredo da novela das 21h bem como o caráter dos personagens;

3- Catarina, embora até o momento “protegida” de um eventual beijo gay, assiste a todo tipo de imoralidade e falta de ética que se desenrola na novela.

4- o ator se importa que sua filha veja beijo gay na novela, mas não liga que ela aprenda a viver com o pior e o mais baixo que o ser humano pode chegar e prefere privá-la da descoberta de que o amor pode romper as fronteiras das normas estabelecidas por uma sociedade machista e homofóbica.

Marcela (Luciana Vendramini) e Marina (Giselle Tigre) trocam beijo na novela Amor e Revolução (SBT/Divulgação/Lourival Ribeiro)

As inferências podem ser óbvias, mas extremamente necessárias para determinar o tipo de mentalidade que, não raramente, corre pelo nosso país.

Muitos expectadores de novelas, e de outros programas em geral, não questionam o efeito da divulgação da violência, de corrupção, de todo tipo de infidelidade, deslealdade, atitudes antiéticas, mas não consegue aceitar que o afeto e o amor entre pessoas do mesmo sexo apareça num capítulo do folhetim. Uma grande parcela da população pensa que a forma de proteger o bem-estar da família brasileira é manter os seus olhos distantes de um beijo gay sem se importar que todo um imaginário escuso se aloje na mentalidade de crianças e adultos.

Claro que não podemos relacionar a violência urbana às novelas e aos programas televisivos, mas não podemos ignorar que eles a banalizam e fazem da desgraça um espetáculo para consumirmos com os olhos marejados e um pote de pipoca nas mãos. Nesse momento, lembro-me de tragédias como a do Realengo em que mais do que a dor e as causas do fato, se esquadrinhava tudo o que pudesse dar àquele momento tão triste um cenário e um enredo cinematográfico hollywoodiano.

Day Kiss by Joe Phillips - paródia à fotografia de Jorgensen, cartoon
Day Kiss, ilustração Joe Phillips – paródia à foto clássica de Victor Jorgensen.

A declaração de Marcelo Serrado me faz pensar como para muitas pessoas é mais palatável um personagem cúmplice de barbaridades, como o é o personagem Crô – salvo suas ambigüidades e contradições, não é um personagem de todo mal, ri e se alegra com boas notícias, se sensibiliza com dores alheias -, do que um personagem que ame, beije, ria, cante, pule, se joge na grama com seu namorado.

Depois da reação de LGBT´s e seus pares nas redes sociais, Serrado tentou se retratar dizendo não ser homofóbico e que até tem amigos gays. Argumento bem conhecido de quem é gay ou sofre racismo: não sou racista, até tenho amigo negro.

Não diria que o ator seja homofóbico nem que um beijo gay na novela acabaria com a homofobia, mas que, certamente, ele está imerso numa sociedade que pensa que o diferente é sempre um perigo.

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Marcelo Spitzner: Sei lá que sou eu? Sei la! cumprindo os fados, num mundo de maldades e pecados, sou mais um mau, sou mais um pecador… (Florbela Espanca). Escreve no blog Ditos e Contraditos.