A Música Feminista das Riot Girls

Texto de Renata Arruda

Aqui no Brasil fala-se pouco sobre isso. Mas, segundo o The Guardian, mesmo após 20 anos, o movimento das Riot Girls (ou riot grrrls) continua relevante para meninas que buscam sua própria independência musical tocando rock. O movimento surgiu nos anos 90 como uma resposta ao machismo do movimento punk – e do rock em geral, que relegava às mulheres posições somente como vocalistas, como se mulheres não fossem capazes de tocar instrumentos considerados masculinos como: guitarra, bateria e baixo. Uma das ideias de incentivo às meninas era que “não importa se você toca bem ou não, o importante é ter algo a dizer”. Se estabeleceu nos EUA e alguns creditam a origem do nome à Alison Wolfe, da banda de punk rock Bratmobile – uma das pioneiras do riot grrrl junto ao Bikini Kill, liderada pela ex-stripper Kathleen Hanna, que acabou se tornando a banda porta-voz do movimento.

Imagem: Kathleen Hannah, do Bikini Kill, em 1992. Foto de Linda Rosier.

O Bikini Kill surgiu inicialmente como um fanzine e logo houve a necessidade de montar uma banda para reforçar o que seria o embrião de um movimento. Durante as apresentações da banda, Kathleen “convidava” os rapazes a irem para o fundo e convocava as meninas à ocupar posições privilegiadas em frente ao palco (onde a banda entregava zines e letras de músicas para elas) e costumava ter atitudes ditas “chocantes”, como levantar a blusa e exibir palavras como ‘slut’ (vadia) e “rape” (estupro) escritas em seu corpo. Uma forma de protesto contra a violência e o preconceito com a sexualidade feminina, não muito diferente daquela que assistimos recentemente ao redor do mundo, desta vez com as mulheres em marcha pelas ruas.

 No Brasil, a principal banda representante do rock feminista é a Dominatrix, liderada pela vocalista e guitarrista Elisa Gargiulo. A banda foi formada no final de 1995, inicialmente com composições em inglês e em 2008 lançaram seu primeiro CD todo em português, “Quem defende pra calar”. No show que fizeram na Verdurada, em São Paulo, Elisa fez o seguinte discurso antes de entoar a canção “Filhas, mães e irmãs”:

 “A música que a gente vai fazer agora é da fase nova da banda, cantando em português, e uma música que fala de violência. (…) E, na época que a gente fez essa música, um mês depois, aconteceu o caso de que uma menina de 15 anos foi jogada dentro de uma cela com mais de 20 presos na região norte do país, foi estuprada sequencialmente por todos eles e demorou mais de um mês pras pessoas saberem dessa situação. Isso causa uma revolta muito grande na gente, justo num momento em que a gente está querendo falar mais de violência e, de uma maneira mais clara, em português, porque a gente acha importante. Então, esta música, eu queria dedicar a todas as mulheres que cotidianamente resistem contra a violência doméstica e a todos os rapazes que um dia foram sensíveis à causa das mulheres e que quiseram se juntar a nós. Esta música é pra vocês, também.”

 Um sinal claro de como ainda é necessário sensibilizar a população para as situações de abuso e violência que as mulheres vêm se submetendo e que, apesar de algum avanço nas leis, pouco tem mudado culturalmente.

 Em 2002, a banda participou da edição holandesa do LadyFest – festival político- cultural feminista, sem fins lucrativos, surgido no ano 2000 nos EUA – e, em 2004, Elisa programou e organizou a primeira edição brasileira do evento, que atraiu um público de mais de mil pessoas e contou com shows de oito bandas femininas, cinco workshops, três exposições e, duas exibições de vídeos com produção independente e feminina. Os projetos do evento incorporam a ideia do “faça-você-mesmo”, com as próprias garotas tocando os instrumentos, compondo, atuando como DJs, técnicas de som, fotógrafas, cinegrafistas e divulgadoras, como bem observou a Draª em Ciências Sociais, Regina Facchini em seu artigo “Não faz mal pensar que não se está só”, publicado neste ano pelo Cadernos Pagu. Nele, Regina relata tudo o que observou entre os anos de 2004 a 2007, em que esteve em campo. Em um dos depoimentos, uma menina chamada Beatriz conta um pouco sobre o lema do movimento:

 “O faça-você-mesmo, tipo, se você não fizer, ninguém vai fazer. Isso é a coisa central no riot grrrl. Você não perder seu tempo com os caras, se eles quiserem ouvir o que você tem a dizer, beleza. A ideia é você fortalecer as meninas, não é você convencer um menino de que ele tá errado, é você pegar e ensinar a menina a se defender. Esse é o preceito central do riot grrrl pra gente, isso eu levo pra vida inteira. Porque, o quê que aconteceu? Uma das grandes ferramentas da cultura mesmo, até pra barrar o feminismo, é esse papinho: “Não, vocês estão sendo contra homens, não sei o quê”. E aí, tipo, a gente foi percebendo que isso tava entupindo o nosso canal de comunicação com as meninas. O cara vem me questionar, eu falo assim “Você quer aprender alguma coisa, você tá afim mesmo de entender alguma coisa ou você tá querendo me irritar?” O feminismo do riot grrrl é isso, e é muito agressivo, nesse sentido, pros homens, né? Ele é um tipo de feminismo que pega porque ele ignora os caras em alguns níveis. E é assim que a gente construiu a cena.”

 Homossexualidade

 Embora não seja uma das principais bandeiras do movimento, a homossexualidade está bem presente na cena riot grrrl, que reivindica também a liberdade sexual e uma referência são as dykes (termo em inglês similar ao “sapatão” brasileiro, que foi apropriado de maneira positiva pelas lésbicas da cena). No artigo de Regina, encontramos outro depoimento de Beatriz, importante para se entender a questão da homossexualidade:

“Acho que a grande diferença é uma coisa muita ligada à estética*,o feminismo das jovens do rock também está ligado a uma maneira de se vestir, a uma música que você escuta e não é muito profundo intelectualmente, assim, com pouca informação. São poucas as meninas que, de fato, vão atrás de coisas. A maioria pega como uma doutrina de vida por já ter desconfiado que estava alguma coisa errada e se identifica com isso: “Eu sou feminista, porque eu acho errado os caras serem toscos comigo e machistas” ou “Eu sou feminista, sim, porque eu acredito que as mulheres precisam ter mais direitos…”. Uma coisa bem básica. No feminismo do pessoal de ONG ou que vai a congresso, a galera leu mais livro. As Jovens Feministas, por exemplo, quando eu encontro com elas, o papo vai um pouco mais longe do que quando eu encontro com as meninas de banda, eu consigo aprofundar um pouco mais. Só que, em alguns momentos, no feminismo da cena, a discussão que as meninas têm em termos de sexualidade tá um pouco mais aprofundada. Existe mais transgressão de gênero, esteticamente, acontecendo no feminismo roqueiro. Elas estão brincando e, até meio intuitivamente, elas estão colocando em prática um feminismo até mais profundo do que o tradicional. A menina estar vestida de homem cantando no palco, e aí tira a roupa, fica com roupa de mulher e fala: “Ah, eu vou fazer o que eu quiser”… Pra quem olha tem um impacto de ter um feminismo transgressor. Isso eu não vou ver num congresso. Não é profundo intelectualmente, ela não falou um discurso mega elaborado de gênero, só que aquilo tem um impacto que é muito interessante pras meninas que estão vendo. No rock feminista, as meninas falam: “Ah, vou te comer” ou “dei pra fulana”. Então, não têm muitos pudores em usar esses termos que normalmente levam a discussões sobre o sexo lésbico ser horizontal… Elas se apropriam dos termos, têm menos medo de linguagem e acho que rola uma apropriação boa, sabe, de termos que são considerados tradicionalmente machistas e que elas acabam tirando o poder desses termos. E aí tem essa diferença. Aí, que eu vejo que a gente tem uma coisa estética importante, a gente tem mais prática com carisma, a gente domina a linguagem mais que elas, a gente mobiliza melhor, é mais generosa com informação, a gente lidera melhor, entendeu? Elas conseguem grana, a gente não consegue trabalhar com coisas de governo, mas a gente consegue juntar mil meninas num festival.”

Sendo uma cena onde as questões femininas, sejam elas quais forem, é o foco principal de debates, uma cena de questionamentos sobre os lugares que as mulheres podem ocupar, é compreensível que o “drama dyke” (como definiu a pesquisadora) encontre um campo propício para ser encenado, atraindo meninas que se identificam com tal “transgressão estética”.

 Cena Brasileira

 “Na televisão… MTV, rádio… acho que precisa dar mais espaço. Pelo que vejo, a cena feminina de rock brasileiro underground não se importa muito com isso especificamente. É uma cena muito independente. Não é porque o rádio não quer tocar que elas vão deixar de fazer show ou gravar disco. Pessoalmente, gostaria de ver mais meninas na televisão tocando instrumentos, não só como cantoras.” Elisa Gargiulo, quando perguntada sobre a presença das mulheres no rock.**

 Além da Dominatrix, a cena brasileira contou com outras bandas, que não estão mais em atividade. Uma delas era a brasiliense Bulimia, formada em 1998, que trazia letras em português abordando temas como preconceito e igualdade. O único CD da banda “Se Julgar Incapaz Foi o Maior Erro que Cometeu”foi lançado já quando a banda não estava mais em atividade, porém a Bulimia ainda é lembrada como uma das bandas mais importantes do riot grrrl brasileiro e sua música “Punk rock não é só pro seu namorado” foi classificada por Facchini como um “hino”:

O que te impede de lutar?

O que te impede de falar?

Pare de se esconder

Você não é pior que ninguém

Punk rock não é só pro seu namorado

Você sempre quis tocar

Você sempre quis andar de skate

Você que sempre quis quis quis

Você não é um enfeite!

Punk rock não é só pro seu namorado

Faça o que tiver vontade

Mostre o que você pensa

Tenha a sua personalidade

Não se esconda atrás de um homem

 Além das bandas, o movimento contou com portais, zines e e-zines, todos curiosamente inativos. O mais recente se chama Menstrual Attack, e foi fundado em 2008 com o objetivo de informar e apoiar bandas “femininas e feministas” envolvidas com o underground, nacional e estrangeiro. A última postagem do e-zine data do ano de 2009.

 O mais importante zine do movimento era o Bendita Zine, surgido em 2001, que tinha a proposta de chamar a atenção para as violências cometidas contra mulheres, publicando casos verídicos relatos em primeira pessoa. Ao final do Bendita enquanto projeto, uma das idealizadoras divulgou a seguinte nota:

 “É muito complicado explicar o que faz com que a gente se dedique por tanto tempo a uma empreitada e depois resolva deixar de lado. Não quer dizer que o valor daquelas ideias tenha se perdido, mas simplesmente que com o passar do tempo passamos a acreditar mais em outras abordagens, isso pela nossa experiencia, pela nossa historia de vida e pelas expectativas que nós criamos. Bom, eu posso falar por mim, e estou cansada. Cansada, mas não desacreditada entendam. Bom, isso é só para dar um apontamento para quem costumava ainda frequentar a pagina do bendita. Aquela contribuição se foi, o que ela representava não, e isso não quer dizer que desistimos.”

 Outras Bandas do Movimento

Kaos Klitoriano – “O nome “Kaos Klitoriano” significa a humilhação da mulher, a invisibilidade, inferioridade, a violência, objeto de procriação, “é o Kaos” da existência da mulher dentro da historia. E ‘clitóris’ é uma palavra forte ligada às mulheres”. As letras da banda falam sobre aborto, política e amor livre e a banda ganhou algum espaço na cena de Brasília, mas suas integrantes partiram para outros projetos.

She Hoos Go – É a mais recente banda influenciada pela cena riot grrrl, e surgiu no final de 2009 em Pelotas/RS. Segundo a baterista Simone Del Ponte, um dos objetivos é “não deixar o movimento morrer”, mesmo com todas as dificuldades para encontrar apoio no público gaúcho.

E também:

CosmogoniaSündae, Banda Pulso, The Hats, LavaSuffragettes, Biggs, CínicaSanta Claus,Frida

Um de vocês vai dizer que não viu nada, não ouviu nada.

Um de vocês vai me dizer ‘vai devagar, sem acusar’.

A violência se faz,

A indiferença se faz,

A intolerância se faz sem testemunha.

Dentro de casa, nas ruas do subúrbio,

Dentro de casamento e nas delegacias.

Não faz mal pensar que não se está só.

Um de vocês vai dizer que não viu nada, não ouviu nada.

Um de vocês vai me dizer ‘vai devagar, sem acusar’.

E também sofrem as ricas disfarçadas, as mães executivas e as presidiárias.

O grito mudo das filhas do subúrbio penetra nas entranhas do teu ouvido surdo.

Não faz mal pensar que não se está só.

(Filhas, mães e irmãs; Dominatrix)

Para saber mais

  • DVD: “Don’t Need You: The History of Riot Grrrl”, por Kerri Koch
  • Livro: ”Girls to The Front – The True Story of The Riot Grrrl Revolution”, por Sara Marcus

*Grifo meu

**Fonte: Blog Teenager Whore

#QuemMatouJuan?

Texto de Luana Tolentino.

Faz pouco tempo que ingressei nas redes sociais. Talvez por ser resistente ao novo (pra não dizer que sou cabeça-dura), ainda prefiro o bom e velho email. Tenho algumas restrições à exposição exacerbada cometida por alguns no twitter e no facebook. Concordo com o Ziraldo quando ele diz que vivemos um momento de evasão de privacidade.

Críticas à parte, é incontestável o poder de mobilização que as páginas de relacionamento possuem, como foi mostrado na Carta Capital no mês passado. Assistimos a eclosão das Marchas das Vadias em vários estados, o sucesso do Churrasco da Gente Diferenciada e da Marcha pela Liberdade. Esses são apenas alguns exemplos dessa nova forma de ativismo, que não requer necessariamente um líder e um gabinete para exigir direitos e mudanças.

E por acreditar na força dos protestos virtuais, participei do twitaço realizado na noite de sexta-feira passada – #QuemmatouJuan?. As centenas de posts no twitter foram uma reação ao assassinato do garoto Juan Moraes, na Comunidade Danon, localizada na Baixada Fluminense. O corpo do menino de 11 anos foi encontrado num rio, em 6 de julho, 16 dias após o seu desaparecimento. Os principais suspeitos do crime são quatro policiais militares que lideraram uma ação de combate ao tráfico de drogas no local na data em que Juan desapareceu. O irmão de Juan também foi baleado e por sorte sobreviveu.

08/07/2011 – Ong Rio de Paz, faz manifestação na praia de Copacabana, pela morte do menino Juan. Na foto, Rosana Drumond, 55 anos, dona de casa, colocando flores perto da foto do menino Juan. Foto de Paulo Alvadia / Ag. O Dia

Temos no assassinato de Juan uma continuidade histórica. Ainda no século XIX, intelectuais brasileiros tomaram de empréstimo as teorias raciais disseminadas na Europa, que atestavam a inferioridade dos negros. Ao adaptá-las à realidade nacional, imputaram aos descendentes de escravos uma suposta tendência ao crime. Outrossim, o negro associado à criminalidade foi fundamentado pela Ciência, ganhou caráter institucional no Estado e foi amplamente disseminado pela população.

Passado mais de um século, este estigma permanece arraigado no inconsciente coletivo e nas abordagens policiais. Os moradores das periferias, vilas e favelas, sobretudo os negros e do sexo masculino, são vistos como “Elementos suspeitos”. Do ponto de vista da violência urbana, um estudo realizado pelo Laboratório de Análises Estatísticas Econômicas e Sociais das Relações Raciais da UERJ mostrou que, entre os anos de 1999 e 2005, o número de pretos e pardos assassinados cresceu 46,3%. No contingente branco, esse crescimento foi de 0,1%. Os reflexos das teorias raciais formuladas pela elite brasileira nos primeiros anos da República também são visíveis no sistema prisional. No Rio de Janeiro, 90% da população carcerária é formada por afro-descendentes. Impossível não lembrar dos versos de Gil e Caetano: “mas presos, são quase todos pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres, e pobres são como podres, e todos sabem como se tratam os pretos”.

Como se sabe, racismo é uma palavra praticamente proibida no Brasil. Dessa forma, crimes como o ocorrido em Nova Iguaçu dificilmente são associados à violência racial. Além disso, quando chegam a ser noticiados na mídia impressa e televisa são fruto de denúncias de moradores e de pressões dos movimentos sociais. Embora eu não tenha assistido, é necessário louvar as reportagens veiculadas recentemente pelo SBT e pela Rede Record, que recentemente levaram ao ar matérias sobre a discriminação racial e a violência policial no Brasil. Fato raro na televisão brasileira.

No ano passado, em um dos debates entre os presidenciáveis, Plínio Arruda, candidato do PSOL, nos poucos minutos em que teve direito de se pronunciar, sintetizou um dos legados deixados pelos quase quatro séculos de escravidão no país: “Ser negro no Brasil é extremamente perigoso”. A assertiva de Plínio deve ter passado desapercebida para muitos, porém, a morte precoce de Juan não deixa dúvidas de que o militante socialista estava coberto de razão.

O assassinato de Juan ganhou o noticiário, mobilizou a comunidade, as redes sociais e as organizações não-governamentais. Maria do Rosário, Ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, exigiu rigor nas investigações através de uma Nota Pública. O depoimento de uma testemunha aponta #QuemmatouJuan. Resta saber se os acusados serão julgados e condenados.

O texto da Professora Luana

Texto de Luana Tolentino.

São cinco da manhã. Hora de acordar. Há tempo apenas para um banho rápido e um café. Até chegar à Escola Estadual Djalma Marques, na periferia de Ribeirão das Neves, serão dois ônibus e uma hora de viagem. Depois desse longo percurso é preciso andar um pouco mais pelas ruas sem asfalto do bairro Florença. A paisagem predominante é a de casas inacabadas, esgoto a céu aberto, pequenos comércios e muitas, muitas igrejas de variadas denominações.

O Djalma é uma escola nova, tem pouco mais de quatro anos. Logo à entrada vê-se a deterioração do prédio. Vidros e portas quebradas. Nas salas de aula a situação se repete com as mesas e cadeiras. A quadra ainda não ficou pronta. Segundo a coordenadora pedagógica, a biblioteca foi criada apenas para que houvesse o cargo de bibliotecária, e os poucos livros que tem devem ficar sempre trancados. A escola conta com câmeras por todos os lados para reforçar a segurança.

Escola de Ensino Fundamental Roberto Mubarac. Foto: Agência de Notícias do Acre, no Flick em CC, alguns direitos reservados.

Sete da manhã. Na sala dos professores entre as conversas, a insatisfação pelo descaso das autoridades com a educação, os problemas do dia anterior, e pedidos de proteção para mais um dia de aula. O sino toca. Os alunos sabem que precisam formar filas para a oração do Pai Nosso. É necessária uma longa espera. Fico em dúvida sobre quem fala mais: a coordenadora aos berros exigindo silêncio ou os alunos dispersos, sem muito interesse em rezar a oração que o Senhor os ensinou. Finalmente a oração é feita e as turmas são conduzidas pelos professores até a sala de aula. Até às 11:30 serão cinco turmas: quinta, sexta, sétima e oitavas séries, num total de quase 200 alunos.

Indisciplina, desinteresse e agressões fazem parte do cotidiano do Djalma. De quem é a culpa? Como disse o Ferreira Gullar “Uma sociedade fundada sobre a injustiça educa para a injustiça.” Entro na sala da 701. Uma turma com 40 alunos. A mais cheia, a mais bagunceira, a mais difícil, enfim, a mais tudo. De que forma sensibilizar esses alunos provenientes de famílias desestruturadas, expostos de forma cruel às mazelas sociais, sem perspectivas, sedentos de carinho e afeto? Penso que Dom Pedro II esteja muito distante deles, talvez uma das causas do desinteresse pelas aulas. Resolvo então dar uma pausa no conteúdo e levo para sala de aula “Luana”**, crônica que narra a violência urbana que assola os jovens das periferias do Brasil.

Distribuo o texto e ouço reclamações quanto ao tamanho. Insisto para que eles leiam. Encontro espaço para falar da importância do ato de ler e digo que o texto é muito bacana, que eles vão gostar. Não consigo acreditar no que vejo. Todos os alunos lendo. Alguns têm dificuldade na leitura. Outros mais afoitos interrompem a leitura a todo o momento, querendo saber se aquela “Luana” sou eu. Não respondo. Peço somente que eles continuem a leitura. Percebo que em cada parágrafo os alunos parecem estar vendo/ouvindo/vivendo aquilo tudo. “Luana” é real, “Luana” está próxima, certamente ao lado de cada um deles. Ao final da leitura um misto de incredulidade e tristeza: “Nossa, que triste professora, a Luana morreu”.

Iniciado o debate acerca do texto a maioria está ansiosa para falar. Ora Luana é culpada, ora inocente. É difícil contê-los. É difícil conter-me. Fico emocionada. Pela primeira vez em dois meses consigo me aproximar dos meninos, fazer com que eles participem da aula. Como na escola os materiais são precários, nem sempre é possível deixar os textos com os alunos. Dessa vez não teve jeito, alguns pediram que deixasse o texto com eles.

Tive a sensação de estar começando uma longa caminhada. Não posso desistir. Acredito que uma educação pública de qualidade é possível e que um dia nossos governantes passarão a tratar nós professores e os alunos como prioridade. Quimera, utopia, ilusão? Ainda não sei. Prefiro acreditar que nem tudo está perdido.

Ps: Escrevi este texto em agosto de 2008, logo que comecei a lecionar. De lá para cá, pouca coisa mudou. Mas uma coisa é certa: o último parágrafo do texto continua dando o tom do meu trabalho como docente.

Autora

Luana Tolentino é mulher, negra, canhota, gêmea univitelina.

* “Luana” foi publicado no livro “Cada Tridente em seu lugar” de Cidinha da Silva, pela Mazza Edições.