Por que nos calamos diante do assédio?

Texto de Patricia Anunciada para as Blogueiras Feministas.

Sabemos que, como mulheres vivendo em uma sociedade machista, racista, homofóbica, marcada por desigualdades, estamos sujeitas a toda sorte de preconceitos de acordo com nossa estética, nossa posição social, nossa cor, nossa orientação sexual e, claro, nosso gênero. Infelizmente o assédio está constantemente presente em nossas vidas, marcando-nos e limitando nossa atuação na sociedade.

Somos ensinadas desde pequenas a nos comportar e vestir adequadamente para não dar margem a investidas masculinas. Aprendemos que o sexo masculino é predador e que nós é que devemos afastar esse instinto predador, já que nós é que temos o poder de despertá-lo por meio das “liberdades” que damos e da imagem que possivelmente podemos passar.

Quando sofremos assédio, independentemente do lugar e da situação, muitas de nós nos sentimos coagidas e não conseguimos agir rapidamente para inibir quem nos assedia. Lembro de uma vez em que estava voltando do trabalho e um homem me abordou. Achei que ele fosse me pedir uma informação, mas ele na verdade me perguntou como ele fazia para entrar em mim. Fiquei tão chocada que não consegui responder, saí de perto dele e comecei a chorar.

Em outra situação estava sentada no ônibus voltando do trabalho e um homem sentou ao meu lado apesar de o ônibus estar vazio. Ele estava olhando insistentemente para mim, mas não dizia nada. Estranhei porque percebi que havia algo estranho. Ele estava com uma pasta preta no colo. Na hora em que me levantei pra descer, percebi que na verdade ele estava se masturbando. Novamente fiquei chocada e não consegui reagir. Apenas desci do ônibus me sentindo um lixo.

Em outra situação, estava indo trabalhar e um homem começou a me seguir de carro. Ele ficava me chamando e tentando me encurralar, atravessava a rua e ele vinha atrás. Nunca tive tanto medo e toda a minha vida. A rua estava cheia, mas a impressão que eu tinha era que eu estava sozinha e que ninguém poderia me ajudar. No final entrei em um boteco que estava lotado e ele foi embora.

Hoje, refletindo sobre essas situações e muitas outras que nós mulheres em geral passamos, percebo como geralmente somos educadas para aceitar o assédio como se ele fosse algo corriqueiro e não uma violação de nosso espaço, de nossa intimidade. Os homens agem conosco como se nosso corpo fosse um território livre.

Sendo assim, uma das possíveis saídas para que as mulheres se emancipem de fato e sejam donas de seus próprios corpos e de sua própria mente é uma educação pautada pelo feminismo, sem reproduzir estereótipos de gênero. Devemos ser educadas não para a aceitação e o silêncio, mas para o questionamento de estruturas que legitimam a violência contra nossos corpos.

O machismo está nos mínimos detalhes e devemos sempre fazer ecoar nossa voz para que ela não seja abafada. Devemos ocupar espaços de poder, que historicamente nos são negados, e nos tornar protagonistas para que nosso movimento não seja esvaziado por homens que se acham no direito de serem porta-vozes do movimento feminista

Autora

Patricia é paulistana, formada em Letras, com especialização em literatura, professora de Português e Inglês, ávida pesquisadora de questões de gênero e literatura africana e afro-brasileira.

Imagem: Ilustração de Gabriela Shigihara para a Campanha Chega de Fiu-Fiu do Think Olga.

Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?

Texto de Biamichelle para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Esperei bastante tempo para escrever sobre o filme Hidden Figures, intitulado no Brasil como “Estrelas além do tempo”, mesmo tendo ido assistir o filme na pré-estreia em São Paulo. A essa altura muita gente já escreveu sobre o tema, e muitos já o conhecem pelo menos após sua participação emocionante no Oscar 2017, quando as atrizes protagonistas do filme subiram ao palco com Katherine Johnson, matemática e cientista que inspirou uma das personagens.

O filme retrata a história de três mulheres negras cientistas que trabalham na NASA nos anos 60, e que tiveram um papel fundamental nesse período. Não apenas pela disputa que se dava pela corrida espacial que ocorria na época, mas também pelo enfrentamento a branquitude e o racismo permitidos durante aquele período. Talvez seja por isso que apenas quatro décadas depois o mundo pode conhecer a história de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughn.

Quando assisti o filme não consegui, por um minuto sequer durante sua exibição, sentir a sensação de felicidade sem que ela estivesse acompanhada de angústia. Desde a primeira cena… Tive angústia por conta do policial que as abordou, pelas palavras contidas na garganta diante de uma simples pergunta sobre promoção, angústia quando uma foi promovida, deusas… como o choro ficava entalado na minha garganta toda vez que uma delas ia no banheiro… e o quanto parecia sair pela minha pele o esbravejar delas diante do confronto.

Sinceramente, não tive nenhum sentimento de gratidão pelo personagem do Kevin Costner quando ele quebrou as placas do banheiro. Meu sentimento de gratidão está para essas e outras mulheres cujas as histórias são invisíveis quando se trata de empoderar e encorajar meninas, mulheres a seguirem em frente, lutar pelos seus sonhos, serem livres e felizes.

Digo isso porque em Santa Isabel, interior do Pará, todas as mulheres que me deram por referência eram esposas, boas mães, que com sorte poderiam ser professoras do ensino infantil para continuar a cuidar de outras crianças e assim exercer sua função natural. Não lembro de nenhuma mulher nas histórias que me contavam que ousaram romper com sua “função natural” e não tiveram “um final de desgraça” (como ensinavam). Ou seja, não tinham maridos, eram mães solteiras, mulheres da vida. Nem mesmo nas histórias regionais as mulheres que apareciam em diferentes. Sempre eram velhas solitárias que perturbavam a vida das pessoas. Não havia nenhuma mulher para me dizer que eu poderia tentar ser uma cientista, por exemplo.

Digo tentar porque sei que, mesmo se houvesse uma história que me servisse de inspiração ao longo da infância, sei que a caminhada para a realização não seria como é para quem não é mulher preta, do interior do norte. E como sei disso? Quando passei a não me importar para o que os outros falariam de mim, fui para a Universidade de Matemática e, em seguida, cursei Sistemas de Informação. Não foi fácil. E, quanto mais eu entendia que a dificuldade, na maioria das vezes, vinha não pelas exigências da matéria, mas por conta de ser mulher e preta, por morar longe, muuuuito longe da universidade, por ter que chegar em casa e cuidar dos afazeres domésticos, ao invés da lição da faculdade… Eu conseguia sentir em mim a angústia das personagens do filme ao chegarem em casa e ao serem intimadas a passarem mais tempo no trabalho.

Quando a personagem de Janelle Monáe foi incentivada a fazer o teste para o cargo de engenheira … putz… Eu sei o que é me sentir incapaz, toda mulher preta que foi ao longo da vida desincentivada, sabe! Uma das frases mais marcantes do filme para mim foi: “Toda vez que temos a chance de avançar, eles mudam a chegada”. Parece ser a canção da vida diante das oportunidades que surgem e nos sentimos motivadas a tentar.

Mesmo hoje, quando já terminei a faculdade e consegui um trabalho, o sentimento de que posso ser despejada a qualquer momento (mesmo que aparentemente eu não esteja fazendo nada para isso), é gritante e permanente. E não é à toa. A personagem de Octavia Spenser tinha, até então, um trabalho estável na NASA, mas com a entrada de novas ferramentas computacionais se viu à beira de ser descartada. Não só ela, mas também todas as demais mulheres pretas com quem trabalhava, como se fossem calculadoras. Esse sentimento, como disse, não é por acaso, infelizmente está dado que somos quando necessário (ou não) as primeiras a serem descartadas, o índice de mulheres pretas desempregadas indica isso.

Ah sim… Eu sorri, e chorei junto… quando elas se permitiram dançar juntas em meio a todo caos que viviam. Porque às vezes é preciso, sabe? E existe uma força muito grande nesses momentos de libertação. Quando saí do cinema fiquei me perguntando quantas outras histórias de mulheres pretas poderiam ter me incentivado quando criança (e que podem incentivar várias meninas agora), são desconhecidas? Ou melhor, são propositalmente escondidas?

Você pode me perguntar: se a história te trouxe tanta angústia, o que você achou de brilhante neste filme? No que diz respeito às personagens: tudo! Mesmo angustiada eu podia sentir em mim algo crescer quando Dorothy Vaughn aprendeu sobre os computadores da IBM e foi contratada a operar e treinar novos operadores. Quando Mary Jackson saiu de casa, foi ao tribunal, conseguiu o direito de estudar numa escola de brancos e, com isso, o direito de tentar a vaga para engenheira. E, por fim, quando Katherine Johnson sambou na cara dos machos brancos resolvendo o que eles não conseguiam. Mostrando para mim e para o mundo que viu suas histórias, que elas conheciam muito bem a sociedade racista em que elas viviam, mas que estavam dispostas a lutar, às suas maneiras, pelos seus espaços.

Eu cresci. Muitos anos desde a época dessa história se passaram, mas ainda vivemos numa sociedade racista marcada pelo seu histórico racista e misógino. Ainda temos muitas jovens que precisam ver essa história. A Jasmim precisa ver essa história. A juventude preta morre todos os dias com a falta de oportunidade, sejam nas periferias ou na porta de uma lanchonete Habib’s. As minas pretas ainda são vistas como a carne barata e gostosa do mercado. Musas do carnaval porém, não dignas de serem assumidas com seus filhos. A polícia só vê preto. As cadeias ainda estão lotadas de povo preto, enquanto a universidade ainda decide dentro dos seus conselhos se cotas raciais são necessárias ou não, influenciando a população a duvidar se existe necessidade da tal reparação histórica.

Talvez, se histórias como as de ‘Estrelas Além do Tempo’ fossem mais divulgadas, como forma de evidenciar que existe muito mais de história na antiguidade e na atualidade do povo preto para além dos navios negreiros, somadas as oportunidades e políticas públicas efetivas para nosso povo… Talvez, a nossa realidade fosse diferente. Não sendo puxadas para dentro da sala pela mão (como foi dado a entender no final do filme, numa cena entre Katherine Johnson e o personagem do Kevin Costner), mas sim pela nossa própria força, pois: “Liberdade nunca é dada aos oprimidos. Precisa ser conquistada, tomada”.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Winnie Bueno

[+] “Estrelas Além do Tempo”: o filme que Hollywood nos devia! Por Anne Caroline Quiangala

Autora

Biamichelle é mulher preta, ativista. Mestranda na USP e analista de infraestrutura pela Thoughtworks. Paraense papa chibé e tia da Jasmin.

Imagem: Cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).

Sobre drag queens e o Feminino

Texto de Vlada Vitrova para as Blogueiras Feministas. 

Eu (e mais 105 milhões de brasileiras) fomos designadas mulheres ao nascer. Algumas de nós antes mesmo de nascer! Ganhamos coisas rosas, enchemos nossa família de fantasias sobre a princesa que iria vir ao mundo. Era o Feminino batendo na nossa porta e dizendo: “agora você me pertence, aprenda a viver comigo, e com as minhas regras”.

Essa entidade, o Feminino, dizia que nós não podíamos falar muito alto, senão estaríamos nos comportando igual os meninos, e ninguém espera isso de uma mocinha. Ele nos disse que pouca maquiagem é desleixo, e muita maquiagem é coisa de puta. Nos ensinou que ser magra demais é feio, e ser gorda demais também – nenhum (ne-nhum!) homem vai nos querer assim. Nos impôs uma maturidade falsa, afinal, temos que nos preparar desde cedo para cuidarmos do homem da nossa vida. E, é claro, nos deixou bem explicado que, nós vivemos para um dia encontrarmos o tal HOMEM, e aí então, estaríamos completas e realizadas no nosso papel de mulher.

Olha, eu não sei vocês, mas eu não achava o Feminino um cara muito legal, já que toda vez em que eu tentava me soltar um pouco mais, fazer um cabelo diferente, usar uma roupa mais extravagante (ou simplesmente não gostar de brincar de bonecas e ser LOUCA por Forte Apache), vinha o Feminino me lembrar do papel que eu estava fadada a desempenhar.

O Feminino é nosso carcereiro.

É nesse momento em que entram as Drag Queens. A arte do “transformismo” (embora muito mais antiga do que isso) tomou consistência no período Elisabetano, quando as mulheres eram proibidas de atuar em peças de teatro. Porém, os papéis e personagens femininos ainda existiam nas histórias contadas. Qual foi a solução encontrada para esse problema? Permitir às mulheres a participação nas peças? Não. Permitir aos homens que se vestissem de mulher. Portanto, não podemos esquecer que a arte Drag surgiu num contexto de opressão e repressão à mulher, em que a solução encontrada para o problema do teatro fora a manutenção da exclusão das mulheres.

Por conta desse contexto histórico, do pensamento patriarcal e da facilidade de assimilação do senso comum, a ideia de Drag Queens como pessoas que mimetizam o feminino se mantém até os dias de hoje.

Mas pera aí. O Feminino é aquele serzinho que aprisiona várias mulheres até hoje, lembram? Porque então insistirmos em uma arte que apenas reforça os estereótipos que alimentam o Feminino?

A resposta é bem simples: a arte Drag já deixou de ser, há muito tempo, uma arte preocupada com mimetizar o feminino (embora o senso comum e a mídia de massa reforcem esse aspecto). Na verdade, ela evoluiu: a arte Drag ( performada por Queens, Kings, Club Kids, Tranimals, entre outros) passou a ser uma arte que trata, principalmente, de quebrar as barreiras de gênero: é uma arte que destrói a ideia normativa de gênero em si. A arte Drag critica os papéis que nos são determinados ao nascer, a forma exata que temos que nos comportar. Critica o Feminino e, o irmão dele, o Masculino também. Portanto não faz muito sentido julgarmos uma Drag Queen com base no gênero com que a pessoa se identifica quando não está performando.

Nós, mulheres Drag Queens (surpresa!) lidamos diariamente com o machismo e a misoginia partindo de dentro da própria comunidade queer. Aquele mesmo machismo e misoginia que disse às nossas ancestrais, nos século 16, que não elas não podiam subir nos palcos. E o argumento ainda é o mesmo: “isso é coisa de homem”. Mal veem eles que nós, ao subir em um palco (que nos é negado há séculos), usando a maquiagem que queremos, vestindo a roupa que quisermos, falar alto, não tendo vergonha dos nossos corpos, e ocupando um espaço que nos é negado pelo simples fato de sermos mulheres é lutar contra o Feminino. É quebrar padrões de gênero. É fazer Drag. É nos libertar do nosso carcereiro.

Portanto, desmerecer e negar a participação de mulheres (cis E trans) no movimento Drag é sinal de duas coisas: ou desconhecimento da causa e contexto (o que não é um problema e tanto eu, quanto várias outras mulheres Drags, estamos sempre dispostas a conversar e tirar dúvidas) ou, infelizmente, machismo (esse sim, um grande problema).

Vai ter mulher Drag sim!

P.S.: Acessem a página das Riot Queens no Facebook, para conhecer mulheres maravilhosas, do Brasil inteiro, que fazem Queen e King.

P.S.: Não podemos deixar de lado a discussão sobre o fato de várias Drag Queens do gênero masculino estarem, cada vez mais, reforçando os estereótipos que fortalecem o Feminino – ao invés de buscarem a quebra de gênero. Se a liberdade de um grupo oprime outro grupo não é liberdade de verdade, é exercício de poder. Mas, isso é assunto pra outro momento!

Autora

Vlada Vitrova, 26 anos, é drag queen e mulher, nascida no Brasil e residente na Suécia. Utiliza a arte drag como plataforma de militância feminista e queer. Utiliza fotografias como principal suporte para a criação de conceitos e imagens que ajudem na quebra de estereótipos geralmente ligados à imagem feminina.

Imagem: Vlada Vitrova, arquivo pessoal