Invisibilidade Lésbica: uma reflexão sobre a lesbofobia e o descaso do Estado

Texto de Ana Carolina Delgado para as Blogueiras Feministas.

Proponho um debate sobre o interesse político em não fazer política para mulheres lésbicas. A invisibilidade dentro da sociedade se reflete em falta e inexistência de ações e políticas públicas para esse grupo marginalizado.

Faço da minha experiência pessoal uma motivação para fazer esse texto ganhar vida, mas não faço das minhas experiências verdades absolutas, tendo em vista que meu objetivo não é trazer uma certeza ao final da escrita, mas sim, várias incertezas e inquietudes que possam mobilizar novos debates e ideias. Que discordem comigo, mas não me deixem falando sozinha sobre lesbofobia. É importante pensar de uma maneira interseccional para construir uma nova realidade no Brasil, onde mulheres lésbicas sejam colocadas no mapa, pelo menos das políticas públicas.

A problemática da Invisibilização

Os primeiros registros sobre lesbianidade no Brasil foram no período da Inquisição, pois nessa época eram julgados casos de “sodomia” (seriam casos de relações homossexuais). Porém, após grandes debates, decidiram que mulheres que mantinham relações com outras mulheres não poderiam ser julgadas, pois segundo eles: duas mulheres não poderiam transar, já que não possuiam pênis. Apesar de parecer contraditório criticar que as mulheres lésbicas não eram julgadas, é notável que isso só ocorreu pois as relações entre mulheres sempre foram infantilizadas e suas relações sexuais invisibilizadas. Até hoje o pênis é a figura central do sexo, ou seja, só existe sexo com pênis.

Tais problemas como a infantilização, fetichização e “preparação para a vida adulta” são manifestações de ódio que diferenciam a homossexualidade feminina da masculina. As mulheres lésbicas também sofrem com a misoginia que existe em nossa sociedade. E, não se pode falar de opressão de maneira interseccional sem falar das mulheres negras lésbicas, que além de toda lesbofobia e misoginia, também sofrem preconceito racial.

Lesbofobia: o que o Estado tem a ver e as políticas públicas

Podemos partir do princípio concreto de que não há políticas públicas para mulheres lésbicas e bissexuais e, que não existem dados para fazer levantamentos necessários para que se possa criar qualquer política pública. Basicamente, não se sabe as formas mais frequentes de violência que as mulheres lésbicas sofrem, nem por onde andam e como estão se relacionando com sistemas de saúde e educação, por exemplo. O Estado permanece ignorando a existência não só dessas mulheres, como também das violências que sofrem.

De maneira geral, o Estado fecha os olhos para toda população LGBT. E esse descaso do Estado resulta em mais invisibilidade. Qual seria então o obstáculo que o Estado enfrenta em falar de mulheres lésbicas e lesbofobia? Mesmo nos governos mais progressistas não houve debates amplos e grandes preocupações com esses assuntos. Seria o medo de um rompimento do status quo, já que reconhecer relações entre duas mulheres destrói discursos misóginos e heteronormativos? Reconhecer as relações lésbicas não romperia, pelo menos em parte, o discurso da assexualidade da mulher e seu corpo apenas usado em serviço do homem? São questões que não podem ser respondidas com certezas, mas podem abrir um debate e produzir não só políticas públicas, mas reflexões que perpassam a questão da mulher lésbica e criam grandes possibilidades de ação e movimentos.

Há iniciativas como o Projeto de Lei Estadual 269/2915, que dispõe sobre o estabelecimento dos parâmetros para a inclusão dos itens “orientação sexual”, “identidade de gênero” e “nome social” nos boletins de ocorrência e nos Termos Circunstanciados emitidos por autoridades policiais do Estado do Rio Grande do Sul. Porém, não iniciativas nacionais nesse sentido. O Estado, além de ignorar a violência contra as mulheres lésbicas ao não criar nenhum tipo de sistema que possa gerar estatísticas desses casos, também ignora a lesbianidade como fator a ser analisado em caso de morte ou violência, especialmente em casos que aconteceram recentemente.

Um deles é o da Luana dos Reis, mulher negra e lésbica morta por policiais após recusar revista que iria ocorrer de forma abusiva. Outro caso é da Rafinha, morta com requintes de crueldade recebendo 17 tiros. Nesses dois casos foram ignoradas qualquer possibilidade da lesbianidade ter influenciado na motivação dos crimes, mesmo sendo mulheres lésbicas que desviavam os padrões heterossexuais esperados pela sociedade. Ambas, além da lesbofobia, também sofriam com o racismo. No caso de Luana acrescenta-se a violência institucional da polícia contra a população negra. Outro exemplo é o da Fabiane Hilário, em que foi descartado lesbofobia, pois o agressou negou ter sido essa a motivação.

O que todos esses casos tem em comum são sua grande invisibilidade, poucos grupos ouviram falar desses assassinatos, porque não há divulgação dessas mortes. E, se não há divulgação dessa violência, também não há debate sobre lesbofobia e vai se perpetuando a ideia de que mulheres lésbicas não sofrem violência. O Estado faz questão de ignorar essas mortes, ignorar essa população e ignorar que existe a necessidade de mapear essas violências para que elas deixem de acontecer.

Estupro corretivo: Um crime que ninguém conhece

O estupro corretivo é um estupro motivado tanto pela misoginia como pela lesbofobia, é a violência usada para punir essa mulher por não desejar homens, por amar e desejar mulheres. Já sabemos que os dados de espancamento e morte de mulheres lésbicas são questionáveis devido à falta de investigação e ao descaso em relação aos levantamentos de dados, mas esses crimes, mesmo que de maneira ínfima existem em debates e pesquisas. Porém, o estupro corretivo é uma violência que não existe e não há esforço nenhum para que se inicie um debate sobre isso.

Ao fazer uma pesquisa rápida, descobre-se que, em 2012, 6% das vítimas de estupro que procuraram o Disque 100 foram mulheres homossexuais vítimas de violência. De acordo com a Liga Brasileira de Lésbicas, parte deste índice é de estupros corretivos, porque a entidade tem como referência outros dados do Ministério da Saúde que permitem fazer um comparativo percentual coincidente. Esse cenário é preocupante, já que o rastro dos estupros corretivos que violentam as mulheres lésbicas estão num extremo: a contaminação por doenças sexualmente transmissíveis. Portanto, isso nos leva a refletir que esse é um percentual muito inferior ao número real da ocorrência desses estupros.

A falta de dados específicos sobre os estupros corretivos e a inexistência de um sistema seguro e não-hostil para que as mulheres possam denunciar seus agressores, gera dados insuficientes e distantes da realidade. Com poucas informações e poucos dados é difícil confrontar o Estado e justificar políticas públicas. Outra barreira é a invisibilidade presente também nos movimentos sociais. O movimento LGBT, que pouco faz em relação às mulheres lésbicas, empurra para o movimento feminista tal responsabilidade. Ao mesmo tempo, o movimento feminista também não está aberto para debater lesbofobia, pois suas pautas giram majoritariamente em torno de um feminismo branco e heterossexual.

Meu objetivo com esse texto é demonstrar as diversas formas de invisibilidade que a mulher lésbica sofre na sociedade e como isso afeta na sua qualidade de vida. Ou seja, a invisibilidade na sociedade e, consequentemente, nas políticas públicas faz com que esse grupo siga marginalizado, cada vez mais violentado e sem proteção. Mas, também quero propor debates sobre a falta de políticas para esse grupo. Será que a invisibilidade social leva à uma invisibilidade nas Políticas Públicas? Ou, a falta de políticas públicas para lésbicas é uma manifestação intencional para que permaneçam invisibilizadas e marginalizadas?

Além de tudo que já foi dito, podemos também citar a falta de políticas sexuais para mulheres lésbicas que, quando existem, não são aplicadas e tampouco divulgadas. Não há métodos de proteção específicos para o sexo lésbico, por exemplo. Não existe preocupação do Estado com a saúde sexual dessas mulheres, com suas contaminações e consequentemente suas mortes. Mas isso ficará para um próximo texto.

Um grande passo na construção de políticas públicas para a população lésbica é o mapeamento de suas necessidades e violências que esses corpos sofrem. Os poucos dados e a falta de iniciativas do Estado para fazer um banco de dados eficaz sobre essa população resulta em falta de “munição” para que os grupos de pressão cobrem do Estado providências. Porém, mesmo sem informações precisas, não é difícil ver que as mulheres lésbicas mais marginalizadas e que carregam mais opressão em seus corpos são as que mais sofrem com a lesbofobia em todas suas faces. Também é uma violência que o Estado feche os olhos para isso.

Referências

CONEGATTI, Daniela. O que podem fazer duas vulvas: lesbianidades no Tumblr. 2015.

DWORKIN, Andrea; MACKINNON, Catharine. Pornography and civil rights: A New Day for Womens’ Equality. 1988.

GONZALES, Lélia. Racismo e Sexismo na cultura brasileira. Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984.

PRÁ, Jussara Reis; EPPING, Léa. Cidadania e feminismo no reconhecimento dos direitos humanos das mulheres. Estudos feministas, Florianópolis, 20 (1): 33 -51, janeiro-abril/2012.

VAINFAS, Ronaldo. Homoerotismo feminino e o Santo Ofício. In: Del Priore, Mary; Bassanezi, Carla; Bassanezi, Carla. História das mulheres no Brasil. São Paulo, Contexto, 2001.

Autora

Ana Carolina Delgado tem 24 anos. É estudante de Políticas Públicas na UFRGS. Lésbica, Feminista e sagitariana.

Imagem: Março/2017. 8M no DF. Mídia Ninja no Flickr, alguns direitos reservados.

Cara Gente Branca: mulheres e personagens transversais

Texto de Isabela Sena para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca (Dear White People) da Netflix (2017).

Recentemente, a Netflix foi pivô de diversas polêmicas ao lançar a série Cara Gente Branca, produção que se propõe a discutir o racismo em uma universidade de elite norte-americana, expondo as tensões raciais existentes e questionando a crença de que vivemos em uma sociedade pós-racial. A série dá continuidade ao filme homônimo, lançado em 2014, em uma tentativa — um tanto falha — de desenvolver a história e aprofundar os personagens.

É uma série curta — eu assisti inteira em um dia — e acompanha o cotidiano de jovens alunos negros, envolvidos ou não com a política e militância dentro do campus. Como cada episódio é focado em um personagem, ela toca em questões diferentes relacionadas às experiências deles. Assim, a série consegue mostrar, de um jeito bem simples, a heterogeneidade das experiências negras, as formas de pensar, cores de pele, estilos de vida, aspirações e angústias. É uma mudança interessante, em grande parte por causa da falta de representatividade e, ainda mais, devido ao racismo essencialista, é comum que personagens e pessoas negras sejam tratadas como uma massa homogênea, que deve pensar igual, reagir igual e ter as mesmas experiências. O que, obviamente, não condiz com a realidade.

Provavelmente porque minha vida virtual é uma bolha cuidadosamente selecionada, Cara Gente Branca vem sendo um dos principais assuntos das últimas semanas. Apesar disso, diversos textos explicitaram a pouca projeção que a série teve em relação a outras séries que tratam questões sociais importantes e envolvem jovens, como 13 Reasons Why. Falar sobre racismo nunca é tarefa fácil e as pessoas têm uma capacidade inacreditável de ignorar toda e qualquer referência à questão, mesmo entre a militância de esquerda. Nos Estados Unidos, a série causou um rebuliço tão grande que chegou a inspirar uma campanha de boicote por “promover o genocídio branco”.

Sem entrar no mérito do genocídio branco — que em uma sociedade racializada onde o ideal é o da branquitude, chega a ser uma piada de mal gosto — é impressionante como algumas falas assertivas sobre racismo consegue desestabilizar tantas pessoas. Apesar das pessoas reconhecerem a existência do racismo, basta uma pessoa negra falar sobre isso, apontar atitudes individuais ou parar de usar eufemismos, para que a discussão se torne algo bizarro como o “racismo reverso”. Mas o que mais me chama a atenção em relação às reações de boicote é que, para mim, considerando a realidade racial nos Estados Unidos, o discurso veiculado na série nem é violento o suficiente. Para falar a verdade, ela toca em diversos pontos, mas aprofunda muito pouco e propõe menos ainda. É uma série que fala da angústia de ser um jovem negro na universidade, em uma sociedade racista, apenas.

Para quem faz parte da militância, estuda e pesquisa o assunto, a maior parte dos pontos levantados por Cara Gente Branca são lugares comuns. Assuntos bem batidos mesmo. O que dá a impressão de que a série os aborda de forma superficial. Mas acho que é uma boa porta de entrada pra quem ainda não conhece essas questões e quer conhecer, embora seja impossível não ficar um tiquinho ressentida de que seja necessária uma série para atiçar a curiosidade das pessoas, sendo que muitas militantes vem fazendo um trabalho magnífico na produção de materiais sobre o assunto.

Sem tirar o êxito de Cara Gente Branca, tem alguns pontos que me incomodaram muito no decorrer da série. O primeiro é como eles tratam a questão da mulher e feminismo. Se o objetivo da série é questionar a noção de mundo “pós-racial”, que acha que raça não importa mais e que racismo é coisa de gente retrógrada, a série, infelizmente, reforça a ideia de pós-feminismo. Não há questionamento sobre as especificidades da mulher negra além de algumas referências à solidão, e o feminismo aparece de forma bastante caricaturada, como se as mulheres negras não tivessem há décadas promovendo o debate de gênero dentro do movimento negro.

Além disso, a exposição de Sam pelo então ficante, Gabe — sua foto se vestindo sendo postada no Instagram sem sua permissão — é bem problemática e conversa com diversos casos mais ou menos graves de exposições íntimas de mulheres por seus parceiros. Não há, entretanto, nenhuma palavra sobre isso, apenas questionamentos sobre sua vida sexual e afetiva e um pedido de desculpas feito por ela publicamente no fim do episódio.

A vida sexual e afetiva de Sam é alvo de debate o tempo todo, quase como se fosse pública. Uma amiga, vendo a série, comentou que nunca tinha visto uma boceta tão fiscalizada quanto a dela, o que, infelizmente, não é muito distante do que ocorre com mulheres negras, dentro da militância ou não. Nós somos, frequentemente, definidas por nossa vida sexual/afetiva, e pelo nosso valor como militantes dentro do movimento. É uma pena que essa questão não seja colocada de maneira crítica na série.

Outro ponto é o colorismo. Acho fundamental que toda série que trate de racismo e movimento negro, aborde a questão do colorismo, já que, além de ser algo constantemente discutido, o colorismo evidencia que as experiências negras, mesmo em sociedades racistas, não são iguais nem homogêneas. Em uma sociedade racista cujo o ideal é branco, pessoas negras de pele mais clara e traços mais finos têm uma certa “tolerância” em determinados espaços, até mesmo uma “passabilidade”, isso não significa que ela seja aceita e desfrute dos privilégios brancos, mas, pode evitar que ela passe por algumas violências. Essas pessoas têm sua identidade negada e questionada a todo tempo, e, muitas vezes, demoram para se reconhecerem enquanto negras.

É notório que a maior parte das pessoas que tem sua identidade colocada em dúvida (muitas vezes em situações bizarras e violentas) são mulheres, exatamente o que acontece na série. Não julgo o ressentimento de Coco em relação à amiga mais clara e mais aceita que ela, mas a única personagem que tem sua negritude questionada é Sam, embora haja outro personagem com a pele até mais clara que a dela, mas, obviamente, ele é homem. Inclusive, a única menção que se faz ao fato de que ele é claro é em uma piada feita por ele mesmo para ironizar a vida sexual da Sam. Ou seja, a única vez que essa questão é direcionada a um homem ela é feita de modo a controlar e julgar a vida sexual e afetiva de uma mulher.

Há uma representação extremamente estereotipada dos personagens LGBT. Lionel segue a narrativa de sempre, o menino tímido homossexual que passa a trama apaixonado (e meio obcecado) pelo amigo hétero. Das personagens lésbicas, uma mantém um caso com o aluno mais jovem e as outras duas aparecem rapidamente, são um caso escondido e se importam mais com intrigas entre si do que com a política no campus. A bissexualidade nem existe. O cara do casal que Lionel encontra logo no início da série é, obviamente, um homem gay disfarçando seus desejos com uma namorada, não há nem a dúvida de que ele possa ser bissexual. O mesmo acontece com a professora com quem Trey tem um caso, ela é lésbica, menos quando está na cama com ele. Não houve nenhuma preocupação em discutir o que significa ser negro e ser gay, lésbica, bissexual, uma limitação bem comum da Netflix que, vira e mexe, escorrega na hora de compor personagens transversais.

Autora

Isabela Sena é formada em História. Pesquisa gênero e raça há sete anos. É apaixonada por novelas, programas de TV de qualidade duvidosa e The Sims. Escreve também no blog Forasteras.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

+ Sobre o assunto:

[+] Dear White People e o silêncio ensurdecedor da internet. Por Gabriela Moura.

[+] Dear White People, eu só quero que vocês assistam a série. Por Duds Saldanha.

[+] “Dear White People” e a diversidade de pele negra. Por Fábio Kabral.

O feminismo é a ação política de TODAS as mulheres

Texto de Máira Nunes.

Esses tempos, um amigo querido me marcou numa publicação de uma mulher que queria saber se era feminista ou não. Eu não conhecia a pessoa e não consegui comentar na hora, mas me chamou a atenção o fato de que os comentários todos do post iam na linha: “toda mulher que faz o que quer, é dona das próprias escolhas e do próprio destino é feminista”.

A autora da publicação reforçava o tempo todo que não via diferenças, que era apenas uma batalhadora e que queria direitos iguais para todo mundo e não apenas para as mulheres. Muitos homens também falando altas bobagens e geral sem saber do que se trata.

Eu fiquei bem incomodada com o conteúdo da publicação, pensando onde que é que estamos errando, pois já é 2017 e gente que está conectada e não chegou no rolê ontem (a maioria das pessoas no debate eram da área da comunicação) não entendeu nem o básico do básico: que feminismo não é o contrário de machismo.

Daí pensei no feminismo pedagógico e em como a gente precisa ficar desenhando o tempo todo e ressaltando que dá pra ser feminista de salto e maquiagem. Essas coisas super ano de 2011, e que feminismo é sobre igualdade, e o teste da Semíramis e me deu um cansaço gigantesco.

E fiquei matutando: o que é que a gente pode fazer pra avançar? Porque, né? Já deu. Daí lembrei da definição da Vera Soares(1), que eu gosto muito, e que diz que: feminismo é a ação política das mulheres. E eu friso: DE TODAS AS MULHERES.

Talvez esteja na hora da gente sair da matriz igualdade/diferença e passar a olhar mais pra essa ação política aí. Porque a gente tá presa num “autofeminismo”: meu feminismo é assim, meu feminismo é assado, no meu feminismo pode isso, no meu não pode aquilo. E a potência da ação política se perde no individual. E a gente vai vendo essas coisas que acontecem aí nas redes, esse feminismo divônico, essa batalha de egos, esse racismo, essa transfobia, esse elitismo e tal.

Porque veja, eu sou uma mulher branca, cis, de meia idade, escolarizada, classe média, mãe, tenho emprego e independência financeira. Tô quase no topo da cadeia alimentar dos privilégios, só faltou ser homem. Então meu feminismo vai ser sobre o quê? Igualdade salarial, direito à depilação e reconhecimento intelectual? E a violência estrutural? E o heterocispatriarcado? E a exploração capitalista? E a crítica à branquitude? Entram onde? Por que nada disso me afeta eu não devo lutar pra mudar? Onde é que foi parar o “até que TODAS sejam livres”?

É por isso que acho que essa vibe “meu feminismo” não serve pra nada. Sei, já fui assim também, mas a gente pode melhorar, né? E pode começar a pensar em um feminismo que seja político, que seja estratégico e que seja para TODAS as mulheres.

Acho que a onda atual do libfem, do feminismo pedagógico, não ajudou muito, sabe? Porque pra uma galera feminismo continua sendo feminazi-anti-ômi, pra outra feminismo virou commoditie, virou hype, virou festa. Daí tudo bem ser racista, ser transfóbica, porque nesse feminismo “tudo pode”. Você pode inclusive ficar com os seus privilégios aí, bem de boa. Olha que ótimo.

E não, eu não sou a rainha da desconstrução, nem a dona da porra toda, aliás, nem seguidores tenho, tenho meia dúzia de amigues e alunes que tão aqui na peleia comigo. Mas tô na luta, né gente. Bem sem saber o que fazer, confesso. Na real, isso tá me incomodando há muito tempo, mas só consegui escrever agora porque entreguei o texto da qualificação e tô podendo pensar em outras coisas que não só na tese.

Então, pra concluir o textaço, quando a discussão sobre a opressão da imposição de estereótipos de gênero e padrões estéticos virou defesa do direito de usar salto e batom, quando o debate sobre maternidade compulsória virou direito de odiar crianças, quando direito a creche deixou de ser pauta feminista, quando a crítica ao machismo estrutural virou “homem não dá pitaco”, quando debate sobre monogamia virou “meu homem, ninguém sai”, quando crítica à sororidade virou o direito de chamar a coleguinha de puta-feia-chata-whatever, quando apontar racismo e transfobia é “rachar o movimento”, a gente tá fazendo tudo muito errado, né não?

E, o mais importante: não basta superar o autofeminismo, tem que superar o feminismo messiânico. Pra ontem! Chega de esperar salvação, gente. Como diz Jota Mombaça(2): “Isso aqui é uma barricada! Não uma bíblia”.

Referências

(1) Soares, Vera. Muitas faces do feminismo no Brasil. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, p. 33-54, 2006.

(2) rumo a uma redistribuição desobediente de gênero e anticolonial da violência! Por Jota Mombaça. Publicado no Issuu em 12/12/2016.

Autora

Máira Nunes é 8 ou 80. Feminista, mãe, professora e aspirante a artesã. Aguarda ansiosamente o apocalipse queer. Publicado originalmente em seu perfil do Facebook no dia 05/05/2017.

Imagem: Março/2017. Tuane Fernandes/Mídia NINJA.