Dilma será impeachmada por ser mulher?

Texto de Catarina Corrêa para as Blogueiras Feministas.

Não, é claro que não (eu sei, eu sei, a rigor nem sabemos se ela será impeachmada). O argumento que está posto à mesa, as discussões feitas nos últimos meses… Nenhuma delas alega que o impasse no Governo, que o estado da economia, que a instabilidade ou desconfiança do mercado financeiro, que as pedaladas fiscais, que o aumento do desemprego, ou que o mais tímido desenvolvimento dos mais fortes setores da nossa economia são questões direta ou exclusivamente relacionadas ao fato de Dilma ser mulher.

Não. Ela simplesmente falhou. Falhou em articular-se com o Congresso, com seus próprios ministros, e, no limite, falhou em articular-se com setores privados que financiam e sustentam campanhas, candidatos e políticas no país desde os mais primórdios tempos (sim, apesar de todo nosso descontento, ela aparentemente não abaixou a cabeça o suficiente).

A presidenta Dilma Rousseff. Foto de Ueslei Marcelino/Reuters.
A presidenta Dilma Rousseff. Foto de Ueslei Marcelino/Reuters.

No entanto, com a finalidade de contraposição argumentativa, veja bem, Lula e FHC enfrentaram pessoalmente acusações mais sérias – ou ao menos mais consensualmente problemáticas do ponto de vista. Graças à facilidade de se solicitar afastamento do presidente no Brasil, que pode ser cassado tanto por ter cometido infrações penais comuns ou crimes de responsabilidade em processo desencadeado por qualquer cidadão, ambos sofreram denúncias de impeachment – nenhuma tentativa, no entanto.

Fernando Henrique Cardoso sofreu 17 denúncias que poderiam levá-lo ao impeachment. Lula, 34. No entanto, nenhuma delas chegou a ser recebida pela Câmara… quanto mais analisada e provida para encaminhamento regimental.

Mesmo considerando a força dos argumentos que se colocavam no pedido, ou o contexto conflitivo à data do seu recebimento, Dilma parece ter sido a única incapaz de articular-se politicamente para não haver oposição o suficiente e para que um processo de impeachment não parecesse absurdo no Congresso.

Há quem alegue que o processo tem a ver com nosso vingativo grande inimigo, Eduardo Cunha. De certa forma, sim, tentando não entrar no mérito do espectro ideológico de ambos, é possível opor-se à ação de impeachment simplesmente pela forma como este foi aberto.

Mas podemos fugir das ingenuidades de que o Congresso votaria de acordo com fatos jurídicos bem construídos, e também de que é a vontade de apenas uma pessoa raivosa que revira as coisas de ponta cabeça.

No entanto, pensemos, por que Dilma sofre um impeachment? Por que tantas tentativas de destruição da presidenta? Por que uma mídia que reforça sua incapacidade de articulação política a cada nova oportunidade? Por que um Congresso que não tolera alguém de pulso forte?

Talvez alguns tropeços na política econômica não convençam a direita, ou os liberais, mas não dá pra afirmar que o governo Dilma é contra o setor privado, ou que fere os interesses da grande mídia e dos banqueiros. Por que então lhe falta apoio?

Ora, nada senão a razão de que ela é vista como uma política ruim. Seus discursos são falhos, ela é entendida como alguém cabeça dura, que não dá o braço a torcer, exageradamente minuciosa…

Será isso um problema apenas por que ela é… mulher?

Um homem com a mesma conduta sofreria a ferrenha oposição ou seria admirado pela rigidez no comando político? Líder e não bossy*?

É claro que reconhecemos que ela falha e falhou, tanto na execução de políticas, quanto do ponto de vista da articulação. Mas e seus interlocutores? A respeitam enquanto mulher? Enquanto políticA? Enquanto presidentA? Ou enxergam uma capacidade inerente, quase sem querer admitir?

Ao contrário de assumir uma postura tradicionalmente associada ao estereótipo feminino, voltado à sensibilidade e à maternidade (ou mesmo à sensualidade), questões que inclusive foram alvo de críticas durante sua primeira campanha, Dilma entra no jogo com as mesmas regras, porém com padrões duplos.

Ora, se ela será impeachmada por ser mulher eu não sei, mas que as razões que levaram ao impeachment estão intrinsecamente ligadas ao machismo que a presidenta sofre, isso eu arrisco dizer.

Do contrário, não haveria tantas piadas, não haveria adesivos, não haveria os shows de ridicularização, de comentários sobre peso, roupas, sobre coisas que afinal de contas os homens, políticos, nunca passaram – e mesmo o mais recente capítulo da história, a Carta do Vice-Presidente não seria tão machista, como bem apontou a Renata Corrêa.

É, esse território, parece, é muito menos receptivo do que se pode imaginar. Não se trata somente de recursos para candidaturas dentro dos partidos, e não se trata somente da falta de permissividade dentro das instituições para o discurso das mulheres. Se trata de viver como mulher, seja jogando o jogo dos caras na assertividade e dureza, seja vivendo conforme o ser mulher socialmente determinado — tanto que a eurodeputada italiana Licia Ronzulli é recorrentemente citada como exemplo.

Não é só a entrada, nem a permanência, não é a bizarra cobertura midiática sobre o vestido bege, mas os constantes estereótipos e obstáculos, as constantes e cada vez maiores resistências, que uma mulher, mesmo quando se apropriando de um estereótipo tradicionalmente masculino, e, portanto, tecnicamente pertencente ao campo, sofre como sendo presidentA.

*Bossy ou mandona, é frequentemente apontado como um adjetivo usado para meninas que tem posturas assertivas, em oposição a meninos, em quem a mesma postura gera o reconhecimento de líderes. O banimento do termo é inclusive alvo de uma campanha em inglês.

+Sobre o assunto:

[+] Após Collor, país teve 61 tentativas de destituir presidentes.

Conchita Wurst e a perfomance de gênero

Texto de Catarina Corrêa com colaboração de Marcelo Caetano e Bia Cardoso.

Aviso: este texto denuncia transfobia, por isso apresenta alguns termos transfóbicos em suas exemplificações.

Conchita Wurst venceu o Festival Eurovision 2014. A final foi no último sábado. Eurovision é um festival de canções que reúne artistas ícones de cada país da Europa para concorrer com a música do ano, desde 1956. Entre grandes nomes revelados, está por exemplo, a banda Abba, que venceu em 1974. Quase 40 países europeus fazem suas competições locais e a música escolhida vai para grande final.

Na final de 2014, Conchita Wurst, representando a Áustria, venceu. A mídia brasileira reagiu de forma absurdamente transfóbica em suas manchetes. Infelizmente, sinto que estou dizendo obviedades, não é mesmo? Por que esperar um tratamento mais respeitoso da mídia brasileira em relação a gêneros fora da binaridade de gêneros?

A BBC Brasil, revistas semanais e portais de notícias usaram termos como “mulher barbada” e “travesti barbudo”:

manchetetransfobia_conchita

Por que eu esperaria algo diferente dos veículos de comunicação? Bem, em primeiro lugar, porque a mesma notícia foi publicada na BBC UK com a seguinte manchete:

bbc_ukeurovision

Então sim, é possível tratar a diversidade como ela deve ser tratada. Pra começar, você poderia, simplesmente, dizer o nome dela. Por que o resto importa? E, se importa, então publique-se o que a pessoa tem a dizer sobre si mesma. Dê-lhe voz, por favor (porra!).

Conchita Wurst é uma persona criada por Thomas “Tom” Neuwirth. É cantora e tem uma longa carreira na Europa. Quanto é Tom utiliza pronomes masculinos, quando é Conchita, femininos. Em seu site oficial, há a biografia tanto de Tom, como de Conchita e uma breve explicação:

“Dois corações batem em meu peito. Eles são um time trabalhando em sincronia. Embora, nunca tenham se encontrado antes, sentem a falta um do outro constantemente no espelho. A pessoa privada Tom Neuwirth e a figura artística Conchita Wurst respeitam-se do fundo de seus corações. São dois personagens individuais, com suas próprias histórias individuais, mas com uma mensagem essencial pela tolerância e contra a discriminação.”

Ao receber o prêmio pela música ‘Rise Like a Phoenix’, que contem o verso: “Waking in the rubble / Walking over glass / Neighbors say we’re trouble / Well that time has passed” (“Acordar nos escombros / Caminhando sobre vidro / Vizinhos dizem que nós somos o problema / Esse tempo já passou”; emblemático, não?), a cantora disse: “Esta noite é dedicada a todos os que acreditam num futuro de paz e liberdade. Somos unidos e somos imparáveis”.

Bem, a questão é que as frases como “mulher barbada” me encheram. Fiquei pensando na condição e trajetória circense que as mulheres barbadas ocuparam durante tanto tempo, na condição marginalizada à qual mulheres e homens são submetidos por transfobias midiáticas e por intolerâncias que nossa sociedade como um todo constrói em cima da transgressão do nosso binarismo de gênero e sexo: homem e mulher.

Explico, mas antes devo dizer que mulheres barbadas, mulheres e/ou homens trans e drag queens são questões diferentes. Cada pessoa com suas características.

Em primeiro lugar, Thomas Tom Neuwirth é frequentemente referido como drag queen, ainda que, ao que observei, sem qualquer afirmação dos próprios Tom ou Conchita. Ambos transitam entre os gêneros, referindo-se a si mesmos ora no masculino, ora no feminino. Drag queens são pessoas que, para fins de performance, se travestem. Pessoas trans*, por outro lado, são pessoas que não se identificam com o gênero e/ou sexo que lhes foi designado no nascimento. Quem se identifica com o gênero e o sexo que lhe foi designado ao nascer são pessoas cisgênero.

Os três conceitos se encontram na noção de performance de gênero, que é a forma como seu gênero é entendido e vivenciado pela sociedade, como você se coloca no mundo e como o mundo te enxerga a partir da sua performance de gênero. Assim, é possível ser um homem cis heterossexual, ter uma performance de gênero não-hegemônica e ser violentado por isso.

Mais especificamente, a performance de gênero (e isso não sou eu que digo, é Judith Butler, ou ao menos é o que eu digo do que a Butler diz), é aquilo que perturba as associações binárias sexo/gênero. A noção de performance caminha para a desnaturalização do estereótipo do binarismo homem-mulher e chama atenção para o caráter de fabricação de toda identidade sexual.

A Mulher Barbada, de acordo com a Wikipedia, é alguém que possui hirsutismo, supostamente uma doença, definida como o crescimento excessivo de pelos terminais na mulher em áreas anatômicas características de distribuição masculina. Pode se apresentar acompanhado de outro sinais de hiperandrogenismo, distúrbios menstruais e/ou infertilidade, ou ainda alterações metabólicas relacionadas com hiperinsulinemia/resistência insulínica. Blá blá blá biologicismo.

Como barbas e bigodes são normalmente consideradas características sexuais secundárias masculinas, mulheres com pelos faciais sofrem enorme pressão cultural para removê-los, visto que sua manutenção configura um estigma social. Justamente por isso, as exceções notáveis acabaram se tornaram atrações burlescas entre o final do século XIX e o início do século XX, nos chamados “circos dos horrores”.

Nossa aversão, nossa associação ao horror daquilo que transgride o “””normal””” do ser mulher e do ser homem se reproduzem ainda hoje, para além do espaço do riso do circo, na figura do transgênero marginal.

Quando, pensando nisso, eu já estava quase desistindo da humanidade, as atrocidades midiáticas me fizeram lembrar uma música (que acho brilhante) da Adriana Calcanhoto: A Mulher Barbada.

Com o que será que sonha a mulher barbada?
Será que no sonho ela salta como a trapezista?
Será que sonhando se arrisca como o domador?
Vai ver ela só tira a máscara como o palhaço.
O que será que tem?
O que será que hein?
O que será que tem a perder a mulher barbada?

A razão de eu achar esse música tão brilhante e genial é que Adriana menciona três possíveis sonhos. Primeiro, a trapezista que corresponde ao estereótipo mais feminino das mulheres: delicada, é também aquela que salta, que se joga, que corre riscos. Depois, o domador, o mais viril e corajoso dos homens. E por último, o palhaço, alguém que se expõe à graça e ao riso, mas que ao final tira a máscara e não vive constantemente o ser horrível, a causa do riso e da marginalização — ou ainda aquele que apenas performatiza e não é sempre palhaço.

A dicotomia de ser um estereótipo, feminino ou masculino, causa repulsa. Porque queremos ser quem somos, num momento performático. Isso é tudo que o conceito de performance de gênero quer gritar. Não há homem tão homem quanto o estereótipo de gênero pretende. E ainda que haja, que isso não limite e sujeite todas as formas de ser homem. Não há mulher tão mulher quanto o estereótipo de gênero supõe. E ainda que haja, que isso não limite e sujeite todos as pessoas que querem ser mulheres.

Conchita é linda. Ela é Conchita, não é “a drag Conchita”, ou a trans, travesti ou qualquer coisa que o valha seguido de seu nome. Sua performance de gênero, seu rosto fino, suas sobrancelhas feitas, seu longo cabelo e sua forma de se vestir e falar contrastam com sua barba. Isso perturba nossa associação binária sobre o que é ser mulher ou homem. Ainda assim, não temos nenhum direito de apagar e invisibilizar o ser que vive, quem se é, e que sonha (com o que quer que seja).

Somos imparáveis desde que sonhemos e, desde que lutemos para que qualquer pessoa seja o que sonha e não o que a sociedade nos limita ser.

Guias técnicos com orientações sobre identidade de gênero

Há publicações que podem nos ajudar a encontrar a melhor forma de apresentar informações sobre identidades de gênero:

Orientações sobre identidade de gênero: conceitos e termos. Guia técnico sobre pessoas transexuais, travestis e demais transgêneros, para formadores de opinião. Por Jaqueline Gomes de Jesus.

Guia Mídia e Direitos Humanos. Do Coletivo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Guia para jornalistas sobre Gênero, Raça e Etnia. Parceria da FENAJ – Federação Nacional dos Jornalistas com a ONU Mulheres.

Por um feminismo transformativo

Texto de Catarina Corrêa.

Estamos constantemente advogando por uma democracia que se exerça para além do voto, e pela participação política popular. Em um ano eleitoral, marcadamente enfático na reafirmação do voto, a participação se faz mais necessária do que nunca.

Além de ser um espaço onde trocamos ideias, criamos discursos e defendemos posições, a participação deve ser um qualificador do voto, na medida em que contextualiza todas e todos como sujeitos, como participantes de um sistema político.

Participar é ainda mais importante, porque somos plurais e queremos construir uma sociedade que espelhe essa pluralidade. Assim, cada um de nós, com suas subjetividades, com suas experiências particulares, opiniões e valores deve demandar um lugarzinho que seja (e que seja um lugarzão) para se fazer ouvir: um lugar onde aquilo que somos se transforme em propostas de uma sociedade que nos inclua e que nos respeite.

Mas, bem, os espaços de participação – o conselho escolar, a câmara, as assembleias legislativas, as reuniões de condomínio – são dominados por uma lógica de racionalidade. Uma lógica que impõe obstáculos à construção da subjetividade dos sujeitos políticos e sociais. A forma de falar e agir é tão pré-formatada, que parece que não nos cabe, que o nosso jeito de ser não pode falar ali. Especialmente para alguns grupos, para minorias que somos (mulheres, negras, trans, lésbicas e tantas outras) a participação precisa se apoiar na luta, no sofrimento e na condição de marginalidade, que não deve ser submetida ao imperativo de linguagem e racionalidade de espaços políticos hegemônicos: a voz que eu quero é a minha, não aquela que reforça o jeito político de falar.

São espaços onde o nosso discurso, gritado, chorado, xingado, sofrido, pessoal, com sotaques mil, se transforma no discurso ilustrativo da política pública economicista. No entanto, nossas experiências nem sempre podem ser racionalizadas. A violação, simbólica ou não, do nosso corpo, é sensorial e sensitiva, particulariza-se nas nossas lutas políticas, como diferentes mulheres e homens que somos.

Menina indiana participa das celebrações do Holi, o festival hindu das cores. Foto de Anupam Nath/Associated Press.
Menina indiana participa das celebrações do Holi, o festival hindu das cores. Foto de Anupam Nath/Associated Press.

É imprescindível constituir espaços de fortalecimento, de discussão, de posicionamento e de experiência da participação política dentro do próprio feminismo. Vamos lutar contra a condição de verdade que determinadas posições sociais impõem sobre nossos corpos e nossas demandas políticas.

Devemos participar não para conciliar ou descontruir interesses apenas; devemos participar para fomentar a própria participação. Participar entre nós mesmas, decidindo que compromissos queremos com os direitos das minorias dos próximos políticos eleitos, dos atuais, dos que não forem eleitos, e de nós mesmas nos anos que se seguem.

É preciso viver e criticar os feminismos, é preciso debater com os feminismos, mas é preciso também partir para fora: construir discursos que sejam permeáveis em espaços de transformação política.

Não se trata de forçar um consenso impossível. A conflituosidade e o reconhecimento de diferenças não meramente ilustrativo que buscamos no espaço político institucional e dos movimentos sociais deve também necessariamente se calcar no reconhecimento das relações de subordinação e hierarquias que nós mesmas vivemos e perpetuamos – e por isso, mais do que nunca, a interseccionalidade é fundamental para fortalecer o feminismo transformativo contra a sociedade opressora e careta.

O meu feminismo tem uma dimensão utópica. Não é utópico por ser impossível, mas sim, por pretender transformar o espaço a partir de um horizonte do que é o ideal. Embora eu gostaria, não acho que tudo vá se transformar da noite pro dia após uma lua vermelha, mas pretendo levar meu ideal de sociedade feminista, igualitária, justa, dialógica, democrática, anarquista para qualquer espaço que eu ocupe (e pretendo ocupar ao invés de apenas estar). E os lugares, e o mundo há de se transformar. E o feminismo há de me dar força e voz para que lutar não seja apenas necessário, mas para que não lutar seja impossível.