Curso de Formação Feminista

Uma iniciativa muito bacana está rolando na cidade de Goiânia, Goiás. Trata-se de um curso de formação feminista, gratuito, semipresencial, direcionado a qualquer pessoa que tenha interesse em conhecer e/ou se aprofundar no feminismo. Basta ter concluído o ensino médio, ter mais de dezoito anos e alguma habilidade em informática.

Promovido pelo Grupo Transas do Corpo em parceira com o Ser-tão, ambos ligados à UFG e comprometidos com ações educativas em gênero, saúde e sexualidade, o curso conta com profissionais muito experientes.

Folder da 2ª Edição do Curso de Formação Feminista: tramas e redes para mudar o mundo.

A 2° edição do curso, garante um certificado de extensão com carga horária de 120 horas, terá início no dia 1º de setembro deste ano. Os encontros presenciais são sempre aos sábados, o que abre a possibilidade de participação para quem mora em Brasília ou em cidades do interior de Goiás. Confira no site as datas, o programa do curso e outras informações.

A metodologia utilizada faz uso não só da teoria, mas também das vivências corporais, promovendo espaços para expressividade d@s participantes — em sua maioria mulheres —, seja através da escrita, seja através de outras formas criativas de expressão.

O Ser-Tão é um núcleo de estudos e pesquisas em gênero e sexualidade criado em 2006. Tem como missão a produção e a divulgação de conhecimentos voltados à promoção da equidade de gênero e à garantia dos direitos sexuais.

IV Encontro de Formação Feminista. Foto do grupo Transas do Corpo.

Já o Grupo Transas do Corpo – Ações Educativas em Gênero, Saúde e Sexualidade é uma organização civil de direito privado sem fins lucrativos e econômicos, não partidária, com finalidade educativa, cultural e de pesquisa, com vistas à redução das desigualdades de gênero.

Surgido em 1987, o Transas do Corpo é hoje uma das mais antigas organizações feministas do Brasil.

Sua criação está intimamente vinculada ao processo de reabertura política verificada no Brasil nos anos 1980 e à (re)organização de grupos feministas em todo o país. O campo aberto pela sociedade civil em pleno processo de redemocratização mobilizou os sonhos e ambições de transformação do mundo de quatro jovens mulheres cujas experiências remontavam a diferentes grupos de reflexão ou instituições governamentais nos campos da saúde e da educação. Motivadas pelo desejo de preencher uma lacuna sentida – a ausência de uma organização feminista formal na cidade de Goiânia àquela época – e, contabilizados os prós e os contras de tal coisa, essas quatro jovens ativistas decidiram fundar o Grupo Transas do Corpo. (Fonte: Site do GrupoTransas do Corpo)

As inscrições acontecerão de 30/07 a 12/08/2012. Para se informar melhor, entre nos sites do Transas do Corpo ou do Ser-tão. Mas corra, são só 100 vagas!

Para conhecer mais:

[+] Sobre discurso feminista em publicações: a política do Grupo Transas do Corpo por Joana Plaza Pinto, colaboradora do Grupo Transas do Corpo.

80 anos do voto feminino no Brasil

Em outubro deste ano as eleitoras brasileiras – estima-se 52% do eleitorado – exercerão o direito de votar nas eleições municipais e estaduais. Outras tantas, por sua vez, serão candidatas a prefeitas e vereadoras. Contudo, estes direitos somente foram conquistados pelas mulheres, não sem muito empenho e luta, há 80 anos.

A instituição do voto feminino se deu a partir de uma reforma no Código Eleitoral, com a assinatura do decreto-lei 21.076 de 24 de fevereiro de 1932 pelo então Presidente Getúlio Vargas. O Brasil, em comparação a outros países, pode ser considerado pioneiro. Argentina e França só o fizeram na década de 1940, e Portugal, Suíça, na década de 1970. Nova Zelândia, no entanto, saiu na frente ao instituir o voto feminino em 1893.

Imagem divulgada pelo blog Ilha da Lindalva, que usou como base um selo americano comemorativo de 1991.

Historicamente, mesmo na Grécia, o berço da democracia, as mulheres não possuiam direito ao voto. No século XVIII, filósofos iluministas classificavam as mulheres como pessoas dotadas de uma razão inferior ou mesmo como irracionais. Nada deveria ameaçar os deveres considerados “naturais” das mulheres: cuidar do marido e dos filhos. Em 1793, Olympe de Gouges, a principal personagem feminina da Revolução Francesa, foi guilhotinada sob a acusação de ter desejado ser um homem de Estado e ter esquecido as virtudes próprias de seu sexo.

O sufrágio feminino era a principal bandeira feminista nas primeiras décadas do século XX, que foram marcadas também por diversos acontecimentos revolucionários, a exemplo das lutas do operariado por melhores condições de trabalho, da Semana de Arte Moderna e da fundação do Partido Comunista.

A luta pelo voto feminino no Brasil iniciou-se em 1910, quando a professora Deolinda Daltro fundou, no Rio de Janeiro, o Partido Republicado Feminino. Porém, manifestações mais contundentes só ocorreram em 1919, quando a bióloga Bertha Lutz fundou a Liga pela Emancipação Intelectual da Mulher.

Há nos registros históricos brasileiros uma mulher que conseguiu o alistamento eleitoral logo após a proclamação da República. Para participar das eleições da nova Assembléia Constituinte, ela invocou a “Lei Saraiva”, promulgada em 1881, que determinava direito de voto a qualquer cidadão que tivesse uma renda mínima de 2 mil réis.

O primeiro registro de voto feminino no Brasil do século XX é de 1928, na cidade de Mossoró, Rio Grande do Norte. Celina Guimarães Viana, fez uma petição invocando o artigo 17 da lei eleitoral local: “No Rio Grande do Norte, poderão votar e ser votados, sem distinção de sexos, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas por lei”. Um juiz deu parecer favorável e enviou telegrama ao presidente do Senado Federal, pedindo em nome da mulher brasileira, a aprovação do projeto que instituía o voto feminino, amparando seus direitos políticos reconhecidos na Constituição Federal.

Vale ressaltar que a luta por direitos políticos não veio acompanhada de um questionamento das estruturas patriarcais da sociedade. As sufragistas, que têm em Bertha Lutz sua principal liderança, praticavam um “feminismo comportado”, caracterizado por um discurso conciliatório, que afirmava que o fato da mulher votar não traria conflito para os lares, desviando-as de suas funções “naturais” de zeladora do lar e da maternidade.

Maria Aparecida dos Santos durante votação biométrica realizada em Nuporanga - SP, nas eleições de 2010. Foto de Silva Junior/Folhapress.

Somente a partir de 1946, o voto feminino passou a ser obrigatório, analfabetos e analfabetas só tiveram garantido o voto em 1985, o que significa que, nesse primeiro momento, uma parcela reduzida de mulheres participou dos processos eletivos.

A primeira mulher eleita deputada federal foi Carlota Pereira de Queirós (1892-1982), que tomou posse em 1934 e participou dos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Com a implantação do Estado Novo, em novembro de 1937, houve o fechamento do Legislativo brasileiro e grande recuo das liberdades democráticas. Na retomada do processo de democratização, em 1946, nenhuma mulher foi eleita para a Câmara. Até 1982, o número de mulheres eleitas para o Legislativo brasileiro poderia ser contado nos dedos da mão. Continue lendo em 80 anos do direito de voto feminino no Brasil, por José Eustáquio Diniz Alves.

A luta das mulheres hoje não é mais apenas pelo voto, mas também pela participação política. Um movimento que está ligado a luta das trabalhadoras brasileiras por melhores salários e condições de trabalho. Em 1981, durante uma greve de professoras (carreira majoritariamente feminina) no estado de São Paulo, o ex-governador Paulo Maluf declarou: “Professora não é mal paga, é mal casada.”

Com o intuito de aumentar a participação política feminina, está em vigor a Lei 9.504, promulgada em 1997, que institui a cota de 30% de candidaturas femininas. Uma das pautas da Reforma Política é aumentar esta cota para 50%, combinada com a lista fechada de candidatos.

Pela primeira vez na história do país, temos uma mulher na presidência da República, e no último pleito, um número expressivo de mulheres eleitas para diversos cargos eletivos. Nas eleições de 2010, foram eleitas 43 deputadas federais (de um total de 513 vagas), no Senado foram 12 senadoras (de um total de 81 vagas). Contudo, considerando que hoje compomos mais da metade do eleitorado brasileiro, o número de mulheres em cargos eletivos ainda é pequeno, menos de 10%.  Apesar das resistências, as mulheres participam ativamente da construção da sociedade brasileira, mesmo que essa participação não seja contada e comemorada pela maioria dos livros de História.

Esse post contou com a colaboração da Srta. Bia.

[+] 80 anos da conquista do sufrágio feminino e que catzo isso tem com a nossa vida hoje? por Luka.

Aquele dia junto ao mar

A literatura lésbica é um segmento desprestigiado pelo mercado editorial.

A Editora Malagueta, fundada por Hanna Korich e Laura Bacellar, tem buscado preencher esta lacuna, promovendo a publicação de textos de autoria lésbica, que versem sobre o universo das relações amorosas e sexuais entre mulheres.

Capa do Livro

A autora de Aquele dia junto ao mar, campeão de vendas da Editora, começou sua carreira escrevendo em um blog pessoal. Karina dias, pseudônimo da jovem escritora carioca, é dona de uma narrativa leve, despretensiosa e bem humorada. Um aspecto bem interessante da sua literatura, contudo, é o erotismo que permeia a narrativa.  Karina é uma das autoras que ousam escrever abertamente sobre sexo, assunto ainda estigmatizado como “proibido para mocinhas’”. Isso porque existe uma idéia equivocada a respeito do desinteresse feminino por sexo. É importante destacar a importância do conteúdo erótico lésbico da narrativa para a visibilidade das mulheres homossexuais.

A trama, que se passa no Rio de Janeiro, é protagonizada por Duda, estudante de Educação Física, e Gabriela, garota de programa. A narrativa se desenrola em torno das dificuldades enfrentadas pelas personagens para ficarem juntas, e, ainda que um tanto previsível, é animada pelas interessantes cenas de sexo entre as duas. O maior entrave da relação é o fato de Gabriela, enquanto garota de programa, não ter lugar no contexto social em que vive Duda, família de classe média e valores cristãos.

Nesse contexto, a prostituição é vista como mazela social, que traz prejuízo para as famílias, e ainda vem atrelada a problemas como o uso de drogas, doenças sexualmente transmissíveis e violência. A autora, contudo, não deixa claro o objetivo de questionar as circunstâncias de opressão que levaram Gabriela a se prostituir. Não identifiquei, ainda, uma intenção da autora em questionar os modelos impostos de feminilidade, que encontramos representados em diversas personagens. Além disso, a construção da personagem Gabriela é baseada nos estereótipos de santa e puta, e essa estigmatização não chega a ser objeto de discussão.

Contudo é importante ressaltar a importância de termos, a cada dia, mais publicações com temática lésbica chegando às prateleiras, visto que estes são tempos de luta pelos direitos das mulheres homossexuais e pelo fim do preconceito. Dentro deste contexto, a iniciativa da Editora Malagueta em focar exclusivamente o público lésbico é uma estratégia interessante, visto que dentro do próprio movimento LGBT ainda existem impasses quando se trata de incluir pautas que atendam às reivindicações das mulheres.

Para conhecer mais a Malagueta, confira o site e o canal As Brejeiras no Youtube.

Referência: Aquele Dia Junto ao Mar. Editora Brejeira Malagueta, 2011.