Cara Gente Branca e os desafios da militância interseccional

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca da Netflix (2017).

A série Cara Gente Branca (Dear White People) baseada, no filme homônimo, traz a rotina de alguns estudantes negros de um colégio de elite dos Estados Unidos. A maioria deles em dado momento se vincula a alguma atividade de militância e, apesar da série usar o recurso narrativo de trazer a mesma história vista pela perspectiva de vários personagens, boa parte da trama gira em torno de Sam, aluna que trabalha em um programa de rádio e busca de forma irônica apontar o racismo que enfrenta todos os dias no ambiente universitário, enquanto tenta equilibrar os desafios que enfrenta na sua vida pessoal e na militância.

De forma resumida a série consegue explorar as diversas formas de manifestações possíveis de racismo velado que podem ocorrer por parte das pessoas brancas. O que leva a várias situações ridículas e absurdas, além de expor os estudantes negros à violência constante em diversos níveis, até o limite em que a vida de um dos estudantes é ameaçada.

Pontuando sem esgotar algumas das situações racistas presentes na série:

– Insistência no uso de termos pejorativos, mesmo quando são apontados dessa forma;

– Objetificação de homens negros;

Apropriação cultural;

Blackface (“maquiagem” ou “fantasia” que busca de forma caricata e pejorativa representar personagens negros);

– Diversas situações que demonstram como pessoas brancas enxergam um estereótipo que atribui violência e agressividade aos homens negros;

Violência policial contra a juventude negra;

Padrões de estética que fazem com que mulheres negras busquem mudar sua aparência e as fazem ser preteridas em relação à mulheres brancas;

– Falta de representatividade não estereotipada na mídia e produções de cinema;

– Ensino que não trata da cultura negra;

– Minimização das violências apontadas;

– Falta de interesse no entendimento das pautas do movimento negro;

Tokenização (Uso da proximidade com alguma pessoa pertencente a uma minoria para justificar alguma ideia ou atitude, na maioria das vezes preconceituosa);

Racismo institucional, quando instituições ignoram atitudes racistas e usam do poder do capital para manipular situações a seu favor;

– O mito do racismo reverso e a dificuldade das pessoas brancas entenderem a origem e o impacto estrutural de algumas ações;

Colorismo. As diferentes cobranças e violências sofridas por pessoas negras de pele escura e pessoas negras de pele clara, que acabam gerando tensões dentro da própria comunidade negra;

– A cobrança para que pessoas de uma minoria política sejam representantes de toda uma comunidade/população.

Entre diversas outras. A série mostra de um jeito sarcástico e leve, na medida do possível, como a postura de certas pessoas brancas pode impactar a juventude negra. Além de mostrar diversos conflitos internos gerados por diferentes situações que refletem na forma como as pessoas definem sua busca por direitos, lazer e afetividade numa sociedade racista.

Um ponto que me chamou muita atenção é como a série consegue trabalhar os desafios da militância jovem na militância interseccional. Além da constante tensão entre os diversos grupos minoritários, a dificuldade de militar sobre situações em que você sofreu as violências, as dificuldades e os limites em abraçar causas que não são as nossas e, acima de tudo, como a militância traz uma complexidade ainda maior para os dramas inerentes à juventude (que também estão sendo influenciados por diferentes formas de opressão).

Isso se revela em diversas situações para além de todo arco do triângulo amoroso entre Sam, Gabe e Reggie. É possível ver como a militância de cada um influencia na vida afetiva e sexual dos três. Algumas situações que ocorrem na série trazem as diversas tensões existentes no cotidiano de militantes.

No caso da Sam isso ocorre, por exemplo, quando a personagem entra no dilema se assume ou não o relacionamento com um homem branco ou quando se vê sendo pressionada por todos os lados no momento em que as situações de racismo se intensificam e se mostram mais evidentes no campus. Ela enfrenta o dilema entre continuar ou não com um protesto que poderia cortar recursos da universidade que afetariam diretamente a permanência e o convívio dela e de seus colegas no campus.

Um dos desafios mostrados é a dificuldade em se buscar formas de lazer que não tenham grandes cobranças políticas, mas ao mesmo tempo não os exponham a mais violência. Isso é mostrado quando Reggie e seus amigos estão caminhando pelo campus buscando alguma distração e, em algum momento, caem na festa que acaba sendo palco da violência pela segurança do campus contra Reggie. Eles apenas queriam se divertir, não estavam fazendo nada de errado e acabaram tendo a vida ameaçada, o que mostra o tamanho da fragilidade da segurança dos jovens negros.

E o personagem de Reggie, quando é pressionado pela Sam ao se posicionar politicamente com relação a violência que sofreu por parte dos policiais, busca expor que ainda não está preparado para se posicionar publicamente. “Meu palco não é sua dor”, ele diz. Quantas vezes militantes, ou até aqueles que nem estão envolvidos com política, são forçados de alguma forma a se posicionar em momentos de fragilidade?

As tensões entre diferentes grupos organizados se mostram quando Joelle e Gabe buscam aliados para fazer o protesto contra a segurança do campus. Além das tensões entre as minorias, são expostas algumas rixas e dilemas da juventude que podem complicar algumas alianças.

Ainda existe todo o arco de Gabe, que numa atitude inocente e ignorante, acaba expondo a integridade física e a vida de todos os alunos negros da festa. Isso mostra o tamanho da responsabilidade que está nas mãos de pessoas que não fazem parte de uma minoria mas buscam se aliar a uma militância da qual não sofrem as consequências. Não parar para pensar por um minuto que chamar a segurança do campus, que representa um dos maiores agentes da violência contra a juventude negra, em meio a um conflito que poderia ser resolvido entre eles mesmos… poderia ter custado a vida de Reggie.

Outro aspecto dessa situação é pontuado quando em determinado momento Leonel aponta que enquanto seus amigos se desgastavam em criticar o Gabe, perdiam de vista que o principal inimigo não era um indivíduo, mas sim um sistema que os expunha à tamanha violência. Apesar da atitude falha de Gabe, não era ele o responsável direto pela violência que Reggie havia sofrido.

Ainda sobre Gabe, apesar da série ter mostrado alguém tão “bonzinho” e, que pelo menos busca na maior parte do tempo uma postura até bastante coerente do ponto de vista de um aliado (demonstrando humildade), ao mesmo tempo, ele guarda pra si diversos preconceitos. E, enquanto Sam aguenta o mundo nas costas, ele não consegue nem ao menos encarar de frente o conflito no relacionamento. Como se os poucos problemas que ele teve que enfrentar fossem enormes e absurdos.

Isso demonstra muito da hipocrisia nas relações entre pessoas brancas e negras, ou em relações com pessoas que sofrem diferentes tipos de preconceito: quando em alguns debates existe a tentativa de trazer simetria entre uma pessoa que faz parte de um grupo opressor e outra que faz parte de um grupo oprimido. Mesmo que a pessoa não seja um completo babaca, ainda assim, quando não se busca uma postura ativa de desconstrução (seja pela empatia, por buscar ativamente se informar sobre determinadas pautas, mudar atitudes, etc.), podemos cometer muitos erros e acabar mantendo uma postura opressora. Ainda que as pessoas que participam de grupos opressores possam se beneficiar até indiretamente da desigualdade, é imperativo que busquemos ao menos diminuir os danos das nossas ações (e de nossos iguais sempre que possível).

A série também trata das tensões entre os diferentes grupos organizados… além de expor que alguns tinham uma postura mais radical enquanto outros tinham uma postura mais conservadora e conciliadora, demonstram-se desafios em buscar ações efetivas quando cada um se utiliza de diferentes ferramentas para luta (como a internet ou os protestos presenciais e ações diretas).

São expostas também as tensões com relação ao trabalho, mostradas no arco de Leonel quando ele tem de enfrentar as exigências de sua profissão, enquanto se depara constantemente com dilemas de ética. Além de ter de expor em algum momento a organização que financiava seu trabalho. Que aliás me chamou muito a atenção por ser uma personagem que expõe como a interseccionalidade em nós pode acabar nos levando para um sentimento de constante inadequação. Por ser negro e gay ele passa por preconceitos nas duas comunidades. Acabou virando um personagem pelo qual eu tive muito carinho e identificação (por ter alguns desafios similares ao buscar espaço em movimentos organizados feministas e LGBT).

Já Coco mostra o desafio de se encarar de forma militante determinadas situações quando ela mesma vivenciou de perto diversas violências. Além da dificuldade de ter sempre uma postura crítica, sendo que é tão cobrada enquanto uma mulher jovem de ter uma estética e uma vida afetiva que muitas vezes não está ao alcance das mulheres negras. Uma coisa que me incomodou um pouco foi o fato da, aparentemente única, personagem de origem humilde ter uma posição tão conversadora. Mas ao mesmo tempo, para estar num desses colégios de elite é preciso um tanto de ambição, como ela mesma pontua e todas suas atitudes demonstram a complexidade de sua posição.

Troy e Sam, principalmente mas não só, mostram também o tamanho da cobrança que vem de todos os lados para que pessoas de alguma minoria tenham caráter, atitudes perfeitas e precisas o tempo todo. Seja por cobranças da família, dos amigos ou de toda sua comunidade, os dois têm de gerenciar expectativas sobre-humanas com relação ao seu trabalho e posicionamento político.

Porém, e aí vai uma crítica que não queria ter de fazer a essa série, as experiências de Leonel e de Troy acabam levando a arcos bastante bifóbicos. Os personagens bissexuais que aparecem ou são citados na série, surgem apenas em contextos relacionados à sexo, traição e objetificação. Estereótipos relacionados às pessoas bissexuais. A fala da jovem branca direcionada ao jovem (também branco) que tentou seduzir o Leonel é bastante violenta. Ela o acusa de ser usada no relacionamento porque “na realidade” ele seria homossexual e não bissexual. A outra personagem bissexual que tem destaque, a professora de Troy, passa boa parte do tempo na série traindo sua esposa. Fica óbvio que os roteiristas não tiveram nenhum cuidado ou preocupação em buscar quais são as pautas de pessoas bissexuais, trazendo um ponto de vista bastante preconceituoso que é disseminado inclusive entre as pessoas homossexuais.

Por fim, me pergunto como aqueles jovens no meio de todos esses conflitos ainda conseguiriam conciliar as atividades formais acadêmicas (na série apenas as atividades extra curriculares aparecem em alguns momentos), mas a verdade é que morando numa cidade universitária e tento proximidade com movimentos estudantis, posso dizer que tenho uma ideia do que acontece… a verdade é que a maioria não dá conta de conciliar tudo isso, o que acaba impactando na demora do término da graduação ou desistência da universidade e/ou ainda acabam adoecendo no processo.

Inclusive em algum momento, Joelle aparece comendo compulsivamente um salgadinho no ápice do desenrolar dos conflitos, mostrando como a complexidade das situações poderiam gerar esses impactos. Outro momento em que isso é demonstrado está nas falas que tratam do relacionamento entre Gabe e Sam, sobre como ele conseguia fazer ela sorrir, e isso se mostra como é algo raro para a protagonista que vive sempre tão mobilizada.

Muitos textos, de pessoas negras, falaram sobre como a série não teve a mesma repercussão, e nem ao menos o mesmo investimento na divulgação, como outras séries por parte do Netflix. Por isso, um apontamento precisa ser reforçado aqui: essa série é sobre a comunidade negra, mas ao mesmo tempo pontua como pessoas brancas precisam urgentemente se inteirar melhor das pautas do movimento negro e mudar nossas atitudes frente diversas situações de racismo. Se cada pessoa toma para si a responsabilidade de transformar essa realidade, podemos contribuir de fato para essa luta. Isso não irá acontecer diminuindo o trabalho e a militância de pessoas negras, chamando tudo de vitimismo, mimimi ou, pior ainda, cobrando uma postura dócil de militantes negros.

Se nós, feministas brancas, pontuamos sempre que não precisamos nos cobrar uma postura sempre didática e carinhosa com homens ao expor nossas pautas, não deveríamos esperar o mesmo de militantes negros. E, essa série já é um esforço de externalizar essas pautas de forma pra lá de mastigada. Basta a gente sentar, assistir, se informar e ouvir mais.

+ Sobre o assunto:

[+] Por que “Cara Gente Branca” chegou em boa hora. Por Jarett Wieselman.

[+] Por que ‘Cara Gente Branca’ é ignorada enquanto ’13 Reasons Why’ viralizou? Por Jéssica Rosa.

[+] Os temas importantíssimos de “Dear White People”. Por Carolina Moreira.

[+] Cara Gente Branca: uma luta pela igualdade de direitos. Por Carolina Maria.

[+] Sobre Reggie. Por Tulio Custódio.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

Como se prevenir de um estupro? A vulnerabilidade e as estatísticas que preferimos não encarar

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Quando se fala em estupro, a primeira imagem que vem a nossa mente é de um homem estranho abordando uma mulher adulta numa rua escura.

Mas as estatísticas mostram um cenário bem diferente. Além de dados que indicam que a maior parte desses casos de violência (70%) ocorre com pessoas próximas, como familiares ou companheiros, outro dado importante diz respeito a faixa etária: a grande maioria ocorre entre a infância e adolescência (70%). Dados detalhados a respeito desse tipo de violência podem ser encontrados nesse link: Estupro no Brasil, uma radiografia segundo dados da Saúde.

Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos. Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. 

Algumas questões que surgem e que precisamos abordar quando falamos dessas estatísticas:

– Se depois de certa idade essa violência diminui porque carregamos ainda o mesmo medo?

– Se as violências acontecem em casa, por que não se fala em “prevenção” dentro dos relacionamentos entre conhecidos?

– E a pergunta mais dolorida: como proteger as crianças e adolescentes?

A proposta desse texto é refletir sobre a última questão.

Primeiro, acho importante refletir sobre a natureza desses abusos. É bom pontuar que ainda que meninas sejam percentualmente mais vulneráveis existe também uma porcentagem significativa de meninos que sofrem abusos. Outro ponto delicado é que uma parte expressiva desses abusos são cometidos por outras crianças e adolescentes mais velhos.

E qual seria a solução? Privar as crianças e adolescentes de contato com outras pessoas? Manter uma vigília eterna?

Além de inviáveis, essas soluções são obviamente prejudiciais à convivência e ao desenvolvimento delas. O que precisamos fazer urgentemente é começar a encarar essa realidade e a desconstruir a cultura do estupro desde a infância. Mas como tratar de um assunto tão delicado com elas? Um caminho viável é começar a trabalhar com a ideia de consentimento desde cedo. Já se fala por exemplo da necessidade de parar de forçar crianças a receberem beijos e abraços de pessoas conhecidas. Crianças precisam aprender a respeitar seus próprios limites e a identificar e denunciar intimidade forçada.

Outro ponto importante é ensiná-las a não fazer o mesmo com as outras. Se a outra criança não quiser brincar/abraçar/beijar ou ainda fazer /receber cócegas então sua vontade deve ser respeitada. Pode parecer bobo, mas quantas vezes já não presenciamos a cena de uma criança puxando a outra para um beijo e abraço e achamos bonitinho? Mais uma vez, não estou defendendo que interações e carinhos devam ser proibidos, mas que desde de criança se ensine a respeitar o espaço pessoal, as vontades próprias e os limites dos outros.

Outro ponto delicado é sobre aprender a ouvir as crianças. Muitos relatos sobre violência são desacreditados, relativizados ou até ignorados nessa fase. Isso traz um impacto avassalador no desenvolvimento delas. Muitas vezes é preciso bastante tempo para elaborar a situação, em alguns casos são necessários anos para isso. Mas algumas crianças apresentam mudanças de comportamento e tentam denunciar de alguma forma e, é a forma com que esses sinais são ou não acolhidos que podem contribuir para aumentar um sentimento de vergonha e culpa, ou até desencadear alguns transtornos psicológicos e físicos. Saiba mais sobre como identificar esses sinais no link: Como identificar sinais de abuso sexual em crianças e adolescentes.

Importante ressaltar que abusos nessa fase não necessariamente vão deixar marcas, e podem muitas vezes não se tratar de um caso isolado. Por isso a observação é importante.

Entre pré-adolescentes e adolescentes outros fatores ainda devem ser observados. É nessa fase que muitas pessoas começam a explorar a própria sexualidade e como buscar intimidade. Nesse momento não apenas a família, como amigos, religião e toda cultura pop vão influenciar as decisões e a forma de encarar essa fase.

É o momento de buscar um debate mais aberto e profundo sobre sexualidade e relacionamentos. Reforçar a importância de reconhecer e respeitar limites, que existem muito mais formas (geralmente mais saudáveis) de se relacionar do que mostram filmes, novelas ou a pornografia. E buscar desconstruir mitos, por exemplo, os relacionados a “natureza masculina” de que eles não conseguem se controlar, que a vontade dos meninos tem que prevalecer ou que só eles gostam de verdade de sexo. Também importante desconstruir a ideia de que são as mulheres que “pedem” ou que a primeira vez necessariamente vai doer.

Claro que existem diversos tabus relacionados à sexualidade, mas enquanto não defendermos e buscarmos formas mais saudáveis de relacionamentos vamos continuar indiretamente contribuindo para que essas violências aconteçam.

Resumindo: se informem, conversem, ouçam, observem as crianças e adolescentes. Mesmo que não se possa evitar que determinadas violências ocorram ainda é possível diminuir o impacto em suas vidas.

[+] O que é estupro? E por que os homens se sentem a vontade para realizá-lo?

[+] Hoje eu quero voltar sozinha: a necessidade de desconstruir mitos sobre a violência contra as mulheres.

Imagem: Museu da Educação e do Brinquedo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Estrelas Além do Tempo: os obstáculos das mulheres nas exatas

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Quando ouvi falar sobre ‘Estrelas Além do tempo’ (Hidden Figures, no título original) fiquei bastante intrigada, afinal são raras as histórias sobre mulheres na computação que tem visibilidade. Fui ver o filme sem ler muitas informações, pois gosto do suspense da trama, sabia apenas que era baseado em histórias reais de cientistas negras que trabalharam na Nasa.

Quando acabou, estava maravilhada enquanto pesquisadora e ativista: vi uma representação fiel de diversos desafios enfrentados pelas mulheres que buscam a carreira científica e tecnológica, alguns dos quais eu experimentei na pele e tantos outros sobre os quais eu pesquisei nos estudos de gênero na Ciência e Tecnologia.

Mas o filme vai além e traz também o recorte de raça. E foi importante me sentir identificada em algumas situações com as protagonistas, afinal são poucos os filmes com protagonismo negro. E ao mesmo tempo ver quão distante de mim elas estavam ao passar por diversas situações de racismo.

O filme busca retratar as situações de preconceito de forma leve e didática, algumas situações são tão absurdas que beiram o cômico. Mas assim como a Bia Michelle no texto ‘Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?’, o que mais senti durante o filme foi angústia… Angústia e desconforto. Não só pelos absurdos mostrados no dia-a-dia dessas mulheres em meio à segregação racial forçada nos Estados Unidos do anos 60, mas também perceber o quanto disso ainda está presente na nossa cultura. O quanto aqui no Brasil isso se mostra em situações como as citadas pela Bia Michelle, como no caso do garoto morto em frente a lanchonete Habib’s. Aqui não existem placas mas a segregação é tão cruel quanto.

Voltando a trama do filme, outra coisa que me chamou atenção foram os personagens brancos e o papel que eles tiveram no processo de emancipação dessas mulheres, que na maior parte do tempo foi de criar obstáculos.

Primeiro, eu esperava ver alguma menção às programadoras do ENIAC ou à Margaret Hamilton. As poucas referências históricas que tinha das mulheres na computação eram todas de mulheres brancas, com o filme, vi que existia toda uma equipe de mulheres negras para além das protagonistas que foram invisibilizadas na história. Fiquei pensando no quanto a emancipação feminina branca, além de não abrir espaço para a emancipação das mulheres negras, na verdade contribuiu e ainda contribui de alguma forma para atrapalhar e invisibilizar o processo delas.

No enredo do filme isso também se materializa nas personagens da secretária do Al Harisson (personagem de Kevin Costner) e da supervisora Vivian Michel (Kirsten Dunst) que quando não estão simplesmente ignorando as dificuldades sofridas pelas protagonistas do filme — Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) — estão de alguma forma atrapalhando diretamente. Já li e ouvi alguns relatos sobre esse processo, sobre como algumas mulheres que alcançam certas posições na hierarquia simplesmente não contribuem para a chegada de outras. Seja por acreditar que isso ocorreu apenas por mérito próprio e de alguma forma seria injustiça ajudar as outras, seja por ter uma postura muito competitiva e ter receio que outra ocupe seu lugar, pelo qual batalhou tanto.

Uma passagem que gerou controvérsias é a do Al Harisson quebrando a placa de segregação racial dos banheiros… vale ressaltar em primeiro lugar que essa situação não correu (detalhes no verbete do filme na Wikipédia). Não sei se a intenção era mostrar algum tipo de atitude heróica do personagem, mas a verdade é que ele só se manifestou mediante protestos e porque viu que a produtividade de sua equipe dependia disso. O astronauta que pediu a participação de Katherine também só o fez porque sua vida dependia disso. Eu acredito que é possível enxergar que essas atitudes não foram altruístas. Homens brancos privilegiados só costumam dar espaço para minorias quando de alguma forma dependem muito disso. Poucos são os casos como o chefe da Mary, que também fazia parte de alguma minoria (por ser judeu) e por isso buscava incentivar quem estava numa condição também marginal.

Paul Stafford (Jim Parsons), o personagem que ficava atrapalhando o progresso da Katherine, na verdade traz atitudes que são uma combinação de situações em que colegas de trabalho arrumam alguma forma de atrapalhar seu trabalho. Esse é outro fenômeno bem comum apontado pelos estudos de gênero e vivido por mim e por muitas colegas da área. Homens não estão acostumados a terem seus erros apontados por mulheres e se sentem ameaçados muito facilmente, pois existe algo de humilhante em ser ultrapassado por uma mulher.

Agora, ao se voltar para as personagens principais, alguns pontos precisam ser destacados: primeiro de tudo que para conseguir o espaço que tiveram (na equipe e como protagonistas desse filme que foi adaptado do livro homônimo) elas tinham que se mostrar excepcionais o tempo todo. Poder errar sem que isso seja atribuído a toda uma classe de pessoas é privilégio de homens brancos. Para alcançar e garantir o próprio espaço pessoas que fazem parte de alguma minoria social precisam apresentar padrões excepcionais de moral, produtividade, acerto, etc. Atribuições que nunca seriam cobradas de homens na mesma posição.

Ainda assim, o filme talvez falhe de certa forma por não mostrar o quão ampla é a equipe da qual as personagens principais fazem parte. Esse olhar da história que enfatiza umas poucas personalidades como grandes heroínas é prejudicial por trazer a sensação de que apenas poucas pessoas conseguiram mudar sozinhas toda realidade de um grande grupo de mulheres.

Por outro lado, é importante quando mostram a Dorothy realizando um treinamento com toda sua equipe e exigindo sua continuidade ao ser chamada para atuar na programação do mainframe da IBM. Essa passagem demonstra como a união de pessoas de um mesmo grupo é importante na busca de mais direitos.

Outros tantos desafios mostrados são rotina na vida de mulheres que buscam as carreiras de exatas, mais especificamente da computação. Não é a toa que estudos (Como de Marcel M. Maia de 2016) apontam que estamos cada vez mais para trás na quantidade de pessoas que buscam os cursos e se formam na área. Este é um ambiente muito hostil para qualquer minoria.

Ter seus conhecimentos subestimados, ter cobranças surreais em seu trabalho que inviabilizam a possibilidade de conciliar outras atividades como a vida social e o cuidado com a casa e a família, cobranças de vestimenta que os homens nunca vão experimentar, ter nossa participação abafada e invisibilizada em grandes projetos, tudo isso é rotina para nós, mas é uma rotina que precisamos transformar, juntas.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Milena Martins e Lorena Pimentel.

[+] Como “Estrelas Além do Tempo” destaca desafios ainda em voga para mulheres na ciência e na tecnologia. Por Carine Roos

[+] From Computers to Leaders: Women at NASA Langley.

Imagem: cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).