Como se prevenir de um estupro? A vulnerabilidade e as estatísticas que preferimos não encarar

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Quando se fala em estupro, a primeira imagem que vem a nossa mente é de um homem estranho abordando uma mulher adulta numa rua escura.

Mas as estatísticas mostram um cenário bem diferente. Além de dados que indicam que a maior parte desses casos de violência (70%) ocorre com pessoas próximas, como familiares ou companheiros, outro dado importante diz respeito a faixa etária: a grande maioria ocorre entre a infância e adolescência (70%). Dados detalhados a respeito desse tipo de violência podem ser encontrados nesse link: Estupro no Brasil, uma radiografia segundo dados da Saúde.

Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos. Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. 

Algumas questões que surgem e que precisamos abordar quando falamos dessas estatísticas:

– Se depois de certa idade essa violência diminui porque carregamos ainda o mesmo medo?

– Se as violências acontecem em casa, por que não se fala em “prevenção” dentro dos relacionamentos entre conhecidos?

– E a pergunta mais dolorida: como proteger as crianças e adolescentes?

A proposta desse texto é refletir sobre a última questão.

Primeiro, acho importante refletir sobre a natureza desses abusos. É bom pontuar que ainda que meninas sejam percentualmente mais vulneráveis existe também uma porcentagem significativa de meninos que sofrem abusos. Outro ponto delicado é que uma parte expressiva desses abusos são cometidos por outras crianças e adolescentes mais velhos.

E qual seria a solução? Privar as crianças e adolescentes de contato com outras pessoas? Manter uma vigília eterna?

Além de inviáveis, essas soluções são obviamente prejudiciais à convivência e ao desenvolvimento delas. O que precisamos fazer urgentemente é começar a encarar essa realidade e a desconstruir a cultura do estupro desde a infância. Mas como tratar de um assunto tão delicado com elas? Um caminho viável é começar a trabalhar com a ideia de consentimento desde cedo. Já se fala por exemplo da necessidade de parar de forçar crianças a receberem beijos e abraços de pessoas conhecidas. Crianças precisam aprender a respeitar seus próprios limites e a identificar e denunciar intimidade forçada.

Outro ponto importante é ensiná-las a não fazer o mesmo com as outras. Se a outra criança não quiser brincar/abraçar/beijar ou ainda fazer /receber cócegas então sua vontade deve ser respeitada. Pode parecer bobo, mas quantas vezes já não presenciamos a cena de uma criança puxando a outra para um beijo e abraço e achamos bonitinho? Mais uma vez, não estou defendendo que interações e carinhos devam ser proibidos, mas que desde de criança se ensine a respeitar o espaço pessoal, as vontades próprias e os limites dos outros.

Outro ponto delicado é sobre aprender a ouvir as crianças. Muitos relatos sobre violência são desacreditados, relativizados ou até ignorados nessa fase. Isso traz um impacto avassalador no desenvolvimento delas. Muitas vezes é preciso bastante tempo para elaborar a situação, em alguns casos são necessários anos para isso. Mas algumas crianças apresentam mudanças de comportamento e tentam denunciar de alguma forma e, é a forma com que esses sinais são ou não acolhidos que podem contribuir para aumentar um sentimento de vergonha e culpa, ou até desencadear alguns transtornos psicológicos e físicos. Saiba mais sobre como identificar esses sinais no link: Como identificar sinais de abuso sexual em crianças e adolescentes.

Importante ressaltar que abusos nessa fase não necessariamente vão deixar marcas, e podem muitas vezes não se tratar de um caso isolado. Por isso a observação é importante.

Entre pré-adolescentes e adolescentes outros fatores ainda devem ser observados. É nessa fase que muitas pessoas começam a explorar a própria sexualidade e como buscar intimidade. Nesse momento não apenas a família, como amigos, religião e toda cultura pop vão influenciar as decisões e a forma de encarar essa fase.

É o momento de buscar um debate mais aberto e profundo sobre sexualidade e relacionamentos. Reforçar a importância de reconhecer e respeitar limites, que existem muito mais formas (geralmente mais saudáveis) de se relacionar do que mostram filmes, novelas ou a pornografia. E buscar desconstruir mitos, por exemplo, os relacionados a “natureza masculina” de que eles não conseguem se controlar, que a vontade dos meninos tem que prevalecer ou que só eles gostam de verdade de sexo. Também importante desconstruir a ideia de que são as mulheres que “pedem” ou que a primeira vez necessariamente vai doer.

Claro que existem diversos tabus relacionados à sexualidade, mas enquanto não defendermos e buscarmos formas mais saudáveis de relacionamentos vamos continuar indiretamente contribuindo para que essas violências aconteçam.

Resumindo: se informem, conversem, ouçam, observem as crianças e adolescentes. Mesmo que não se possa evitar que determinadas violências ocorram ainda é possível diminuir o impacto em suas vidas.

[+] O que é estupro? E por que os homens se sentem a vontade para realizá-lo?

[+] Hoje eu quero voltar sozinha: a necessidade de desconstruir mitos sobre a violência contra as mulheres.

Imagem: Museu da Educação e do Brinquedo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.

Estrelas Além do Tempo: os obstáculos das mulheres nas exatas

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre o filme ‘Estrelas Além do Tempo‘ (Hidden Figures, 2016).

Quando ouvi falar sobre ‘Estrelas Além do tempo’ (Hidden Figures, no título original) fiquei bastante intrigada, afinal são raras as histórias sobre mulheres na computação que tem visibilidade. Fui ver o filme sem ler muitas informações, pois gosto do suspense da trama, sabia apenas que era baseado em histórias reais de cientistas negras que trabalharam na Nasa.

Quando acabou, estava maravilhada enquanto pesquisadora e ativista: vi uma representação fiel de diversos desafios enfrentados pelas mulheres que buscam a carreira científica e tecnológica, alguns dos quais eu experimentei na pele e tantos outros sobre os quais eu pesquisei nos estudos de gênero na Ciência e Tecnologia.

Mas o filme vai além e traz também o recorte de raça. E foi importante me sentir identificada em algumas situações com as protagonistas, afinal são poucos os filmes com protagonismo negro. E ao mesmo tempo ver quão distante de mim elas estavam ao passar por diversas situações de racismo.

O filme busca retratar as situações de preconceito de forma leve e didática, algumas situações são tão absurdas que beiram o cômico. Mas assim como a Bia Michelle no texto ‘Estrelas Além do Tempo: quantas histórias de mulheres pretas pioneiras são desconhecidas?’, o que mais senti durante o filme foi angústia… Angústia e desconforto. Não só pelos absurdos mostrados no dia-a-dia dessas mulheres em meio à segregação racial forçada nos Estados Unidos do anos 60, mas também perceber o quanto disso ainda está presente na nossa cultura. O quanto aqui no Brasil isso se mostra em situações como as citadas pela Bia Michelle, como no caso do garoto morto em frente a lanchonete Habib’s. Aqui não existem placas mas a segregação é tão cruel quanto.

Voltando a trama do filme, outra coisa que me chamou atenção foram os personagens brancos e o papel que eles tiveram no processo de emancipação dessas mulheres, que na maior parte do tempo foi de criar obstáculos.

Primeiro, eu esperava ver alguma menção às programadoras do ENIAC ou à Margaret Hamilton. As poucas referências históricas que tinha das mulheres na computação eram todas de mulheres brancas, com o filme, vi que existia toda uma equipe de mulheres negras para além das protagonistas que foram invisibilizadas na história. Fiquei pensando no quanto a emancipação feminina branca, além de não abrir espaço para a emancipação das mulheres negras, na verdade contribuiu e ainda contribui de alguma forma para atrapalhar e invisibilizar o processo delas.

No enredo do filme isso também se materializa nas personagens da secretária do Al Harisson (personagem de Kevin Costner) e da supervisora Vivian Michel (Kirsten Dunst) que quando não estão simplesmente ignorando as dificuldades sofridas pelas protagonistas do filme — Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe) — estão de alguma forma atrapalhando diretamente. Já li e ouvi alguns relatos sobre esse processo, sobre como algumas mulheres que alcançam certas posições na hierarquia simplesmente não contribuem para a chegada de outras. Seja por acreditar que isso ocorreu apenas por mérito próprio e de alguma forma seria injustiça ajudar as outras, seja por ter uma postura muito competitiva e ter receio que outra ocupe seu lugar, pelo qual batalhou tanto.

Uma passagem que gerou controvérsias é a do Al Harisson quebrando a placa de segregação racial dos banheiros… vale ressaltar em primeiro lugar que essa situação não correu (detalhes no verbete do filme na Wikipédia). Não sei se a intenção era mostrar algum tipo de atitude heróica do personagem, mas a verdade é que ele só se manifestou mediante protestos e porque viu que a produtividade de sua equipe dependia disso. O astronauta que pediu a participação de Katherine também só o fez porque sua vida dependia disso. Eu acredito que é possível enxergar que essas atitudes não foram altruístas. Homens brancos privilegiados só costumam dar espaço para minorias quando de alguma forma dependem muito disso. Poucos são os casos como o chefe da Mary, que também fazia parte de alguma minoria (por ser judeu) e por isso buscava incentivar quem estava numa condição também marginal.

Paul Stafford (Jim Parsons), o personagem que ficava atrapalhando o progresso da Katherine, na verdade traz atitudes que são uma combinação de situações em que colegas de trabalho arrumam alguma forma de atrapalhar seu trabalho. Esse é outro fenômeno bem comum apontado pelos estudos de gênero e vivido por mim e por muitas colegas da área. Homens não estão acostumados a terem seus erros apontados por mulheres e se sentem ameaçados muito facilmente, pois existe algo de humilhante em ser ultrapassado por uma mulher.

Agora, ao se voltar para as personagens principais, alguns pontos precisam ser destacados: primeiro de tudo que para conseguir o espaço que tiveram (na equipe e como protagonistas desse filme que foi adaptado do livro homônimo) elas tinham que se mostrar excepcionais o tempo todo. Poder errar sem que isso seja atribuído a toda uma classe de pessoas é privilégio de homens brancos. Para alcançar e garantir o próprio espaço pessoas que fazem parte de alguma minoria social precisam apresentar padrões excepcionais de moral, produtividade, acerto, etc. Atribuições que nunca seriam cobradas de homens na mesma posição.

Ainda assim, o filme talvez falhe de certa forma por não mostrar o quão ampla é a equipe da qual as personagens principais fazem parte. Esse olhar da história que enfatiza umas poucas personalidades como grandes heroínas é prejudicial por trazer a sensação de que apenas poucas pessoas conseguiram mudar sozinhas toda realidade de um grande grupo de mulheres.

Por outro lado, é importante quando mostram a Dorothy realizando um treinamento com toda sua equipe e exigindo sua continuidade ao ser chamada para atuar na programação do mainframe da IBM. Essa passagem demonstra como a união de pessoas de um mesmo grupo é importante na busca de mais direitos.

Outros tantos desafios mostrados são rotina na vida de mulheres que buscam as carreiras de exatas, mais especificamente da computação. Não é a toa que estudos (Como de Marcel M. Maia de 2016) apontam que estamos cada vez mais para trás na quantidade de pessoas que buscam os cursos e se formam na área. Este é um ambiente muito hostil para qualquer minoria.

Ter seus conhecimentos subestimados, ter cobranças surreais em seu trabalho que inviabilizam a possibilidade de conciliar outras atividades como a vida social e o cuidado com a casa e a família, cobranças de vestimenta que os homens nunca vão experimentar, ter nossa participação abafada e invisibilizada em grandes projetos, tudo isso é rotina para nós, mas é uma rotina que precisamos transformar, juntas.

[+] Estrelas Além do Tempo. Por Milena Martins e Lorena Pimentel.

[+] Como “Estrelas Além do Tempo” destaca desafios ainda em voga para mulheres na ciência e na tecnologia. Por Carine Roos

[+] From Computers to Leaders: Women at NASA Langley.

Imagem: cena do filme ‘Estrelas Além do Tempo’ (2016).

Saia, batom, flor e glitter na barba

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Nas últimas semanas observei várias falas, posts e atitudes pondo em xeque uma tal figura já bastante conhecida para o ativismo feminista: o “Esquerdomacho”, também conhecido como “Feministo”. Aliás a gota d’água para eu me aventurar a tocar no assunto foi o compartilhamento de imagens traçando o perfil destas tais figuras, algumas postagens vindas de páginas bem preconceituosas e cheias de discurso de ódio mas que foram largamente compartilhadas no facebook por mulheres que se identificam com o feminismo.

Quero pontuar aqui que quando falo desses caras, estou falando daqueles homens cis que se aproveitam de alguns espaços e pessoas feministas ou de outros movimentos sociais para ganhar algum tipo de vantagem. Seja para alimentar o próprio ego, seja para se aproveitar da vulnerabilidade de algumas mulheres, seja até mesmo para encobrir violências praticadas. Toda ativista já conheceu uma ou várias dessas histórias.E minha maior crítica, não é sobre passar a mão na cabeça desses caras, mas evitarmos buscar um perfil de comportamento e vestimenta facilmente identificável dessas figuras.

Eu, particularmente, gostaria muito que o feminismo se preocupasse menos com homens dentro ou fora do movimento do que com os próprios objetivos e ações que podemos tomar. Mesmo achando que é importante a lembrança de que os homens que compartilham dos nossos espaços não estão isentos de seus privilégios concedidos pelo patriarcado. Mas vamos combinar uma coisa? Se todo cara é esquerdomacho ou feministo. Nenhum cara é esquerdomacho ou feministo.

Mas o que eu quero dizer com isso?

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