Epidemia de sífilis, DSTs e o uso da camisinha: questão de confiança nos relacionamentos ou o machismo e outros preconceitos também influenciam?

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Apesar da necessidade da camisinha para prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) ser bastante difundida aqui no Brasil, seu uso têm diminuído por diversos fatores. As alternativas de prevenção em relações sem penetração são pouco debatidas e diversas questões morais — além da falta de observação à questões de raça, classe, orientação sexual — fazem com que determinados grupos fiquem ainda mais vulneráveis ao contágio e suas consequências. Não é a toda que uma doença como a sífilis tenha voltado a se tornar uma epidemia com um número exponencial de contágios no Brasil e no mundo. Mas, boa parte do material de divulgação desses dados se mostra bastante preconceituoso.

Como toda ação que depende de um acordo de todas as partes, muitas decisões com relação a qual método contraceptivo ou de prevenção de DSTs são consequência de relações de poder. O que isso resulta na prática? Que em relações entre homens e mulheres cis, geralmente cabe ao homem decidir pelo uso ou não da camisinha. Mesmo que a pessoa mais vulnerável às consequências negativas dessas doenças sejam as mulheres, já que lesões no canal vaginal e no colo do útero podem demorar a ser diagnosticadas dificultando a cura e até trazendo sequelas irreversíveis como: o HPV que pode levar ao câncer, a clamídia que pode levar a infertilidade e a sífilis que pode levar a malformação de fetos durante a gravidez, além é claro, do vírus HIV que não tem cura e também pode ser passado na gravidez). São os homens que costumam optar por não usar devido ao “desconforto” que seu uso gera durante as relações.

Outro dado que vejo ser ignorado quando se fala da transmissão é a falta de cuidado com a própria saúde e higiene dos homens. Números apontam que homens cis buscam menos a prevenção de doenças, vão menos ao médico e têm menos cuidado com a higiene do pênis, mas qual a consequência disso nas relações sexuais e na disseminação das DSTs? Bem, algumas que poderiam ser diagnosticadas cedo para evitar seu contágio ou potencial agravante para a saúde são simplesmente ignoradas. Isso impacta diretamente no número de contágios e até a reincidência, já que se apenas a mulher vai no médico ela pode tratar da doença e depois ser novamente infectada. Isso influencia até em casos de candidíase de repetição, por exemplo, mesmo que não seja uma DST é uma condição que pode ser sexualmente transmitida e depende do tratamento de ambos.

Existe ainda todo o falocentrismo que leva as pessoas a ignorarem o potencial de transmissão em outras formas de sexo que não envolvem apenas a penetração pênis-vagina. Diversas DSTs, como herpes, HPV e sífilis, podem ser transmitidas facilmente até no beijo se a boca tiver alguma lesão. Fora isso, há possibilidades de contaminação por sexo oral e anal, a transmissão indireta por brinquedos sexuais e, mesmo a masturbação, sem o devido cuidado com as unhas, pode gerar feridas que aumentam o potencial de transmissão de várias DSTs. A falta de atenção à essas informações faz com que as relações da população LGBT sejam apagadas ou envoltas em moralismo e ignorância.

Outro problema se dá na dificuldade do acesso à camisinha, que ainda que tenha preço baixo e uma grande distribuição pelo SUS, enfrenta algumas barreiras: seja por falta em alguns postos de saúde (e a limitação da mobilidade para a chegada nos mesmos), seu alto custo para uso contínuo, a alergia que algumas pessoas têm ao material (a maioria das camisinhas masculinas é feita de látex, no SUS todas são deste material e nas farmácias além de nem sempre existir alternativa seu custo é muito maior) e, mesmo o tabu envolto nas práticas sexuais fazendo com que muitas pessoas não busquem nunca ou de forma menos frequente que o necessário. Lembrando também que camisinha tem prazo de validade, uma camisinha velha ou mal colocada pode rasgar ou estourar.

Nesse sentido, as relações entre mulheres lésbicas e bissexuais são as mais ignoradas pelas campanhas de prevenção, existe pouco material que trate do assunto mesmo dentro das campanhas criadas pelos órgãos ligados à saúde. Os profissionais de saúde também não sabem como orientar propriamente as mulheres nestes casos. Por outro lado, o preconceito dentro e fora da comunidade LGBT faz com que se ignore o potencial de risco de determinadas práticas ou se estigmatize determinados grupos, sendo ainda muito comum o discurso que se associa o sexo entre homens gays à contaminação — por essa comunidade já ter sido a mais afetada pelo HIV, e no caso do Brasil ter voltado recentemente a ser o maior grupo de risco — ou as pessoas bissexuais serem vistas como eternos potenciais propagadores dessas doenças.

Tudo isso faz com que na maioria das vezes o único foco das ações de saúde pública voltadas para população LGBT seja o uso da camisinha. Com isso, não se abarcam as outras formas de transmissão de DSTs, além de ignorar as diversas pautas relacionadas a saúde física e mental dessa população. Outro problema é que poucos números (seja de saúde pública, comportamento ou para qualquer outro fim) são registrados sobre a população LGBT levando em conta seu gênero e orientação, o que dificulta a criação de políticas públicas ou mesmo a ação de organizações não governamentais para a prevenção. Muitos dados ainda trazem um viés de coleta e análise moralista e preconceito, o que nos deixa quase às cegas ao fazer campanhas de prevenção.

Daí, ainda vem toda a mística envolvida no compromisso com a exclusividade nas relações e a moralidade envolta na prática do sexo casual. No primeiro caso, muitas mulheres cedem à vontade dos companheiros (e até em relações não heterossexuais acaba prevalecendo uma lógica heternonormativa que gera consequências parecidas) para demonstrar que acreditam e confiam em sua fidelidade. Isso obviamente leva ao descobrimento tardio dessas doenças, porque a maioria não faz exames frequentes ou muitas vezes nenhum exame para verificar a possibilidade de algum dos dois ter adquirido algumas dessas doenças previamente, até em outros meios que não a relação sexual. Vale lembrar que DSTs também podem ser transmitidas por transfusão de sangue infectado, objetos mal higienizados, compartilhamento de seringas no uso de drogas, etc.

Isso também influencia na falta de orientação para aqueles que levam outros arranjos de relacionamento que não o monogâmico. Não existe nenhum protocolo para orientação de prevenção e tratamento de DSTs nesse caso. Um exemplo básico é quando o tratamento de alguma doença ou condição envolve a prática ou tratamento de pessoas com as quais você se relaciona. O protocolo é tratar a pessoa sozinha ou ela e o parceiro ou parceira fixos. O que a medicina entende como parceiro fixo é um mistério e nenhum profissional, bula ou material que eu já tenha visto ou esbarrado trouxe nenhuma orientação para o caso de existir mais de duas pessoas envolvidas numa possível transmissão.

No caso do sexo casual, ainda que atualmente sua prática não seja vista de forma tão negativa quanto era alguns anos atrás, ainda existe toda uma preocupação sobre a tal fama da pessoa ser reconhecida como “promíscua”. Pessoalmente, já vi casos absurdos de mulheres não quererem comprar ou andar com camisinha para não serem reconhecidas como “galinhas”, reportagens que culpam aplicativos de relacionamento pelo aumento na transmissão de algumas doenças entre homens gays e bissexuais, textos que recomendam o celibato para diminuir chances de transmissão de doenças e diversas pessoas que se recusam a fazer exames de sangue porque isso poderia “pegar mal”. O que leva inclusive a muitas delas usarem a doação de sangue como desculpa para serem examinadas.

Aliás, as orientações da própria Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre descarte e recusa da doação de “grupos de risco” ilustra muito bem como determinadas condutas e a orientação sexual são vistas na sociedade. Sexo entre homens e a prática sexual com mais de dois parceiros em um ano são vistos como potencial perigoso, enquanto sexo sem camisinha e falta de exames frequentes não é. Esse exemplo ilustra muito bem como as orientações de prevenção de DSTs são falhas. Também mostra como profissionais da área da saúde, e aqueles com poder que tomam as decisões sobre esse tipo de orientação, preferem fechar os olhos para a realidade e enxergar a prática sexual com uma lente moralista.

É fácil ver que o problema não está na prática sexual em si, mas na falta de debate, dinâmicas de poder e abuso nas relações, falta de cuidado com a saúde e principalmente preocupação e cuidado com os parceiros. Todos esses fatores impactam a saúde geral da população de diversas formas, mas em especial a população pobre, negra, indígena e LGBT — estando a população T mais vulnerável às consequências mais devastadoras — que possuem maior dificuldade ao acesso de informações e ferramentas para prevenção.

Imagem: Fevereiro de 2017. Campanha de Carnaval em Santa Catarina. Foto de Paola Fajonni/G1.

Cara Gente Branca e os desafios da militância interseccional

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas. Alerta de spoiler! Este texto revela informações sobre a série Cara Gente Branca da Netflix (2017).

A série Cara Gente Branca (Dear White People) baseada, no filme homônimo, traz a rotina de alguns estudantes negros de um colégio de elite dos Estados Unidos. A maioria deles em dado momento se vincula a alguma atividade de militância e, apesar da série usar o recurso narrativo de trazer a mesma história vista pela perspectiva de vários personagens, boa parte da trama gira em torno de Sam, aluna que trabalha em um programa de rádio e busca de forma irônica apontar o racismo que enfrenta todos os dias no ambiente universitário, enquanto tenta equilibrar os desafios que enfrenta na sua vida pessoal e na militância.

De forma resumida a série consegue explorar as diversas formas de manifestações possíveis de racismo velado que podem ocorrer por parte das pessoas brancas. O que leva a várias situações ridículas e absurdas, além de expor os estudantes negros à violência constante em diversos níveis, até o limite em que a vida de um dos estudantes é ameaçada.

Pontuando sem esgotar algumas das situações racistas presentes na série:

– Insistência no uso de termos pejorativos, mesmo quando são apontados dessa forma;

– Objetificação de homens negros;

Apropriação cultural;

Blackface (“maquiagem” ou “fantasia” que busca de forma caricata e pejorativa representar personagens negros);

– Diversas situações que demonstram como pessoas brancas enxergam um estereótipo que atribui violência e agressividade aos homens negros;

Violência policial contra a juventude negra;

Padrões de estética que fazem com que mulheres negras busquem mudar sua aparência e as fazem ser preteridas em relação à mulheres brancas;

– Falta de representatividade não estereotipada na mídia e produções de cinema;

– Ensino que não trata da cultura negra;

– Minimização das violências apontadas;

– Falta de interesse no entendimento das pautas do movimento negro;

Tokenização (Uso da proximidade com alguma pessoa pertencente a uma minoria para justificar alguma ideia ou atitude, na maioria das vezes preconceituosa);

Racismo institucional, quando instituições ignoram atitudes racistas e usam do poder do capital para manipular situações a seu favor;

– O mito do racismo reverso e a dificuldade das pessoas brancas entenderem a origem e o impacto estrutural de algumas ações;

Colorismo. As diferentes cobranças e violências sofridas por pessoas negras de pele escura e pessoas negras de pele clara, que acabam gerando tensões dentro da própria comunidade negra;

– A cobrança para que pessoas de uma minoria política sejam representantes de toda uma comunidade/população.

Entre diversas outras. A série mostra de um jeito sarcástico e leve, na medida do possível, como a postura de certas pessoas brancas pode impactar a juventude negra. Além de mostrar diversos conflitos internos gerados por diferentes situações que refletem na forma como as pessoas definem sua busca por direitos, lazer e afetividade numa sociedade racista.

Um ponto que me chamou muita atenção é como a série consegue trabalhar os desafios da militância jovem na militância interseccional. Além da constante tensão entre os diversos grupos minoritários, a dificuldade de militar sobre situações em que você sofreu as violências, as dificuldades e os limites em abraçar causas que não são as nossas e, acima de tudo, como a militância traz uma complexidade ainda maior para os dramas inerentes à juventude (que também estão sendo influenciados por diferentes formas de opressão).

Isso se revela em diversas situações para além de todo arco do triângulo amoroso entre Sam, Gabe e Reggie. É possível ver como a militância de cada um influencia na vida afetiva e sexual dos três. Algumas situações que ocorrem na série trazem as diversas tensões existentes no cotidiano de militantes.

No caso da Sam isso ocorre, por exemplo, quando a personagem entra no dilema se assume ou não o relacionamento com um homem branco ou quando se vê sendo pressionada por todos os lados no momento em que as situações de racismo se intensificam e se mostram mais evidentes no campus. Ela enfrenta o dilema entre continuar ou não com um protesto que poderia cortar recursos da universidade que afetariam diretamente a permanência e o convívio dela e de seus colegas no campus.

Um dos desafios mostrados é a dificuldade em se buscar formas de lazer que não tenham grandes cobranças políticas, mas ao mesmo tempo não os exponham a mais violência. Isso é mostrado quando Reggie e seus amigos estão caminhando pelo campus buscando alguma distração e, em algum momento, caem na festa que acaba sendo palco da violência pela segurança do campus contra Reggie. Eles apenas queriam se divertir, não estavam fazendo nada de errado e acabaram tendo a vida ameaçada, o que mostra o tamanho da fragilidade da segurança dos jovens negros.

E o personagem de Reggie, quando é pressionado pela Sam ao se posicionar politicamente com relação a violência que sofreu por parte dos policiais, busca expor que ainda não está preparado para se posicionar publicamente. “Meu palco não é sua dor”, ele diz. Quantas vezes militantes, ou até aqueles que nem estão envolvidos com política, são forçados de alguma forma a se posicionar em momentos de fragilidade?

As tensões entre diferentes grupos organizados se mostram quando Joelle e Gabe buscam aliados para fazer o protesto contra a segurança do campus. Além das tensões entre as minorias, são expostas algumas rixas e dilemas da juventude que podem complicar algumas alianças.

Ainda existe todo o arco de Gabe, que numa atitude inocente e ignorante, acaba expondo a integridade física e a vida de todos os alunos negros da festa. Isso mostra o tamanho da responsabilidade que está nas mãos de pessoas que não fazem parte de uma minoria mas buscam se aliar a uma militância da qual não sofrem as consequências. Não parar para pensar por um minuto que chamar a segurança do campus, que representa um dos maiores agentes da violência contra a juventude negra, em meio a um conflito que poderia ser resolvido entre eles mesmos… poderia ter custado a vida de Reggie.

Outro aspecto dessa situação é pontuado quando em determinado momento Leonel aponta que enquanto seus amigos se desgastavam em criticar o Gabe, perdiam de vista que o principal inimigo não era um indivíduo, mas sim um sistema que os expunha à tamanha violência. Apesar da atitude falha de Gabe, não era ele o responsável direto pela violência que Reggie havia sofrido.

Ainda sobre Gabe, apesar da série ter mostrado alguém tão “bonzinho” e, que pelo menos busca na maior parte do tempo uma postura até bastante coerente do ponto de vista de um aliado (demonstrando humildade), ao mesmo tempo, ele guarda pra si diversos preconceitos. E, enquanto Sam aguenta o mundo nas costas, ele não consegue nem ao menos encarar de frente o conflito no relacionamento. Como se os poucos problemas que ele teve que enfrentar fossem enormes e absurdos.

Isso demonstra muito da hipocrisia nas relações entre pessoas brancas e negras, ou em relações com pessoas que sofrem diferentes tipos de preconceito: quando em alguns debates existe a tentativa de trazer simetria entre uma pessoa que faz parte de um grupo opressor e outra que faz parte de um grupo oprimido. Mesmo que a pessoa não seja um completo babaca, ainda assim, quando não se busca uma postura ativa de desconstrução (seja pela empatia, por buscar ativamente se informar sobre determinadas pautas, mudar atitudes, etc.), podemos cometer muitos erros e acabar mantendo uma postura opressora. Ainda que as pessoas que participam de grupos opressores possam se beneficiar até indiretamente da desigualdade, é imperativo que busquemos ao menos diminuir os danos das nossas ações (e de nossos iguais sempre que possível).

A série também trata das tensões entre os diferentes grupos organizados… além de expor que alguns tinham uma postura mais radical enquanto outros tinham uma postura mais conservadora e conciliadora, demonstram-se desafios em buscar ações efetivas quando cada um se utiliza de diferentes ferramentas para luta (como a internet ou os protestos presenciais e ações diretas).

São expostas também as tensões com relação ao trabalho, mostradas no arco de Leonel quando ele tem de enfrentar as exigências de sua profissão, enquanto se depara constantemente com dilemas de ética. Além de ter de expor em algum momento a organização que financiava seu trabalho. Que aliás me chamou muito a atenção por ser uma personagem que expõe como a interseccionalidade em nós pode acabar nos levando para um sentimento de constante inadequação. Por ser negro e gay ele passa por preconceitos nas duas comunidades. Acabou virando um personagem pelo qual eu tive muito carinho e identificação (por ter alguns desafios similares ao buscar espaço em movimentos organizados feministas e LGBT).

Já Coco mostra o desafio de se encarar de forma militante determinadas situações quando ela mesma vivenciou de perto diversas violências. Além da dificuldade de ter sempre uma postura crítica, sendo que é tão cobrada enquanto uma mulher jovem de ter uma estética e uma vida afetiva que muitas vezes não está ao alcance das mulheres negras. Uma coisa que me incomodou um pouco foi o fato da, aparentemente única, personagem de origem humilde ter uma posição tão conversadora. Mas ao mesmo tempo, para estar num desses colégios de elite é preciso um tanto de ambição, como ela mesma pontua e todas suas atitudes demonstram a complexidade de sua posição.

Troy e Sam, principalmente mas não só, mostram também o tamanho da cobrança que vem de todos os lados para que pessoas de alguma minoria tenham caráter, atitudes perfeitas e precisas o tempo todo. Seja por cobranças da família, dos amigos ou de toda sua comunidade, os dois têm de gerenciar expectativas sobre-humanas com relação ao seu trabalho e posicionamento político.

Porém, e aí vai uma crítica que não queria ter de fazer a essa série, as experiências de Leonel e de Troy acabam levando a arcos bastante bifóbicos. Os personagens bissexuais que aparecem ou são citados na série, surgem apenas em contextos relacionados à sexo, traição e objetificação. Estereótipos relacionados às pessoas bissexuais. A fala da jovem branca direcionada ao jovem (também branco) que tentou seduzir o Leonel é bastante violenta. Ela o acusa de ser usada no relacionamento porque “na realidade” ele seria homossexual e não bissexual. A outra personagem bissexual que tem destaque, a professora de Troy, passa boa parte do tempo na série traindo sua esposa. Fica óbvio que os roteiristas não tiveram nenhum cuidado ou preocupação em buscar quais são as pautas de pessoas bissexuais, trazendo um ponto de vista bastante preconceituoso que é disseminado inclusive entre as pessoas homossexuais.

Por fim, me pergunto como aqueles jovens no meio de todos esses conflitos ainda conseguiriam conciliar as atividades formais acadêmicas (na série apenas as atividades extra curriculares aparecem em alguns momentos), mas a verdade é que morando numa cidade universitária e tento proximidade com movimentos estudantis, posso dizer que tenho uma ideia do que acontece… a verdade é que a maioria não dá conta de conciliar tudo isso, o que acaba impactando na demora do término da graduação ou desistência da universidade e/ou ainda acabam adoecendo no processo.

Inclusive em algum momento, Joelle aparece comendo compulsivamente um salgadinho no ápice do desenrolar dos conflitos, mostrando como a complexidade das situações poderiam gerar esses impactos. Outro momento em que isso é demonstrado está nas falas que tratam do relacionamento entre Gabe e Sam, sobre como ele conseguia fazer ela sorrir, e isso se mostra como é algo raro para a protagonista que vive sempre tão mobilizada.

Muitos textos, de pessoas negras, falaram sobre como a série não teve a mesma repercussão, e nem ao menos o mesmo investimento na divulgação, como outras séries por parte do Netflix. Por isso, um apontamento precisa ser reforçado aqui: essa série é sobre a comunidade negra, mas ao mesmo tempo pontua como pessoas brancas precisam urgentemente se inteirar melhor das pautas do movimento negro e mudar nossas atitudes frente diversas situações de racismo. Se cada pessoa toma para si a responsabilidade de transformar essa realidade, podemos contribuir de fato para essa luta. Isso não irá acontecer diminuindo o trabalho e a militância de pessoas negras, chamando tudo de vitimismo, mimimi ou, pior ainda, cobrando uma postura dócil de militantes negros.

Se nós, feministas brancas, pontuamos sempre que não precisamos nos cobrar uma postura sempre didática e carinhosa com homens ao expor nossas pautas, não deveríamos esperar o mesmo de militantes negros. E, essa série já é um esforço de externalizar essas pautas de forma pra lá de mastigada. Basta a gente sentar, assistir, se informar e ouvir mais.

+ Sobre o assunto:

[+] Por que “Cara Gente Branca” chegou em boa hora. Por Jarett Wieselman.

[+] Por que ‘Cara Gente Branca’ é ignorada enquanto ’13 Reasons Why’ viralizou? Por Jéssica Rosa.

[+] Os temas importantíssimos de “Dear White People”. Por Carolina Moreira.

[+] Cara Gente Branca: uma luta pela igualdade de direitos. Por Carolina Maria.

[+] Sobre Reggie. Por Tulio Custódio.

Imagem: Elenco da série Cara Gente Branca. Netflix/Divulgação.

Como se prevenir de um estupro? A vulnerabilidade e as estatísticas que preferimos não encarar

Texto de Jussara Oliveira para as Blogueiras Feministas.

Quando se fala em estupro, a primeira imagem que vem a nossa mente é de um homem estranho abordando uma mulher adulta numa rua escura.

Mas as estatísticas mostram um cenário bem diferente. Além de dados que indicam que a maior parte desses casos de violência (70%) ocorre com pessoas próximas, como familiares ou companheiros, outro dado importante diz respeito a faixa etária: a grande maioria ocorre entre a infância e adolescência (70%). Dados detalhados a respeito desse tipo de violência podem ser encontrados nesse link: Estupro no Brasil, uma radiografia segundo dados da Saúde.

Os registros do Sinan demonstram que 89% das vítimas são do sexo feminino e possuem, em geral, baixa escolaridade. Do total, 70% são crianças e adolescentes. “As consequências, em termos psicológicos, para esses garotos e garotas são devastadoras, uma vez que o processo de formação da autoestima – que se dá exatamente nessa fase – estará comprometido, ocasionando inúmeras vicissitudes nos relacionamentos sociais desses indivíduos”, aponta a pesquisa.

Em metade das ocorrências envolvendo menores, há um histórico de estupros anteriores. Para o diretor do Ipea, “o estudo reflete uma ideologia patriarcal e machista que coloca a mulher como objeto de desejo e propriedade”. Ainda de acordo com a Nota Técnica, 24,1% dos agressores das crianças são os próprios pais ou padrastos, e 32,2% são amigos ou conhecidos da vítima. O indivíduo desconhecido passa a configurar paulatinamente como principal autor do estupro à medida que a idade da vítima aumenta. Na fase adulta, este responde por 60,5% dos casos. Em geral, 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima, o que indica que o principal inimigo está dentro de casa e que a violência nasce dentro dos lares. 

Algumas questões que surgem e que precisamos abordar quando falamos dessas estatísticas:

– Se depois de certa idade essa violência diminui porque carregamos ainda o mesmo medo?

– Se as violências acontecem em casa, por que não se fala em “prevenção” dentro dos relacionamentos entre conhecidos?

– E a pergunta mais dolorida: como proteger as crianças e adolescentes?

A proposta desse texto é refletir sobre a última questão.

Primeiro, acho importante refletir sobre a natureza desses abusos. É bom pontuar que ainda que meninas sejam percentualmente mais vulneráveis existe também uma porcentagem significativa de meninos que sofrem abusos. Outro ponto delicado é que uma parte expressiva desses abusos são cometidos por outras crianças e adolescentes mais velhos.

E qual seria a solução? Privar as crianças e adolescentes de contato com outras pessoas? Manter uma vigília eterna?

Além de inviáveis, essas soluções são obviamente prejudiciais à convivência e ao desenvolvimento delas. O que precisamos fazer urgentemente é começar a encarar essa realidade e a desconstruir a cultura do estupro desde a infância. Mas como tratar de um assunto tão delicado com elas? Um caminho viável é começar a trabalhar com a ideia de consentimento desde cedo. Já se fala por exemplo da necessidade de parar de forçar crianças a receberem beijos e abraços de pessoas conhecidas. Crianças precisam aprender a respeitar seus próprios limites e a identificar e denunciar intimidade forçada.

Outro ponto importante é ensiná-las a não fazer o mesmo com as outras. Se a outra criança não quiser brincar/abraçar/beijar ou ainda fazer /receber cócegas então sua vontade deve ser respeitada. Pode parecer bobo, mas quantas vezes já não presenciamos a cena de uma criança puxando a outra para um beijo e abraço e achamos bonitinho? Mais uma vez, não estou defendendo que interações e carinhos devam ser proibidos, mas que desde de criança se ensine a respeitar o espaço pessoal, as vontades próprias e os limites dos outros.

Outro ponto delicado é sobre aprender a ouvir as crianças. Muitos relatos sobre violência são desacreditados, relativizados ou até ignorados nessa fase. Isso traz um impacto avassalador no desenvolvimento delas. Muitas vezes é preciso bastante tempo para elaborar a situação, em alguns casos são necessários anos para isso. Mas algumas crianças apresentam mudanças de comportamento e tentam denunciar de alguma forma e, é a forma com que esses sinais são ou não acolhidos que podem contribuir para aumentar um sentimento de vergonha e culpa, ou até desencadear alguns transtornos psicológicos e físicos. Saiba mais sobre como identificar esses sinais no link: Como identificar sinais de abuso sexual em crianças e adolescentes.

Importante ressaltar que abusos nessa fase não necessariamente vão deixar marcas, e podem muitas vezes não se tratar de um caso isolado. Por isso a observação é importante.

Entre pré-adolescentes e adolescentes outros fatores ainda devem ser observados. É nessa fase que muitas pessoas começam a explorar a própria sexualidade e como buscar intimidade. Nesse momento não apenas a família, como amigos, religião e toda cultura pop vão influenciar as decisões e a forma de encarar essa fase.

É o momento de buscar um debate mais aberto e profundo sobre sexualidade e relacionamentos. Reforçar a importância de reconhecer e respeitar limites, que existem muito mais formas (geralmente mais saudáveis) de se relacionar do que mostram filmes, novelas ou a pornografia. E buscar desconstruir mitos, por exemplo, os relacionados a “natureza masculina” de que eles não conseguem se controlar, que a vontade dos meninos tem que prevalecer ou que só eles gostam de verdade de sexo. Também importante desconstruir a ideia de que são as mulheres que “pedem” ou que a primeira vez necessariamente vai doer.

Claro que existem diversos tabus relacionados à sexualidade, mas enquanto não defendermos e buscarmos formas mais saudáveis de relacionamentos vamos continuar indiretamente contribuindo para que essas violências aconteçam.

Resumindo: se informem, conversem, ouçam, observem as crianças e adolescentes. Mesmo que não se possa evitar que determinadas violências ocorram ainda é possível diminuir o impacto em suas vidas.

[+] O que é estupro? E por que os homens se sentem a vontade para realizá-lo?

[+] Hoje eu quero voltar sozinha: a necessidade de desconstruir mitos sobre a violência contra as mulheres.

Imagem: Museu da Educação e do Brinquedo. Foto: Marcos Santos/USP Imagens.