A prisão dos estereótipos

A maioria das pessoas não consegue lidar com o que foge do comum e do convencional. Por isso, muitas vezes nos sentimos aprisionadas em caixas sociais. Devemos seguir determinado estereótipo porque dessa maneira seremos aceitos dentro de um determinado grupo. Não apenas as pessoas, mas também o capitalismo e o mercado nos ensinam como ser homem, mulher, gay, lésbica, transsexual, etc. Há estereótipos para todos os gostos, preços e tamanhos. Porém, a diversidade humana é imensa e nem todas as pessoas se encaixarão. Isso acaba sendo uma forma de violência derivada do preconceito, pois a sociedade nos força a não sermos quem somos.

Ou você é hétero ou gay, ou você é ativa ou passiva (e isso inclui todo um código de conduta social e sexual além da forma de se vestir e de se arrumar), ou você é assumida ou ainda está no armário, ou você sai para uma balada de música eletrônica ou para um barzinho de MPB.

O mundo lésbico é um mundo de poucas opções. E como se não bastasse sofrer com o preconceito ja usual, mesmo dentro deste grupo é difícil se encaixar. Me considero bissexual, gosto de rock, sou assumida apenas em alguns círculos sociais e gosto de variar entre ser ativa ou passiva. Por conta disso não sou aceita por muitos (héteros ou não) e tenho bastante dificuldade de encontrar mulheres para me relacionar.

Já tive muitas dúvidas sobre minha sexualidade, afinal ao contrário da maioria eu tenho alguma “opção”. Posso simplesmente me isolar socialmente de tal forma que a homossexualidade se torne inviável. Simplesmente deixando de freqüentar os lugares exclusivamente gays já que “lésbica que é lésbica mesmo não freqüenta ambientes majoritariamente heteros”. Me sinto culpada as vezes por preferir o lado mais “favorecido”.

Foto de DarkChunsa no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mesmo a classificação é uma dificuldade: o que te faz realmente ser heterossexual, homossexual ou bissexual? E será que isso realmente importa? Sonho com o dia que não vão questionar minha sexualidade por quanto tempo namorei um homem ou uma mulher, pelo grau de intimidade que já tive com cada um, pela forma que me visto ou pelos lugares que freqüento.

Corpos Queer

A categoria gênero surgiu nas discussões sobre a Mulher, e sobre mulheres, como sujeitos históricos, sempre na busca de interrogar a universalidade atribuída ao Homem; categoria esta pensada como constituída por relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, e que se instituíam no interior de relações de poder. Gênero era, enfim, a organização social da diferença sexual. A diferença sexo-gênero ou seja, a relação de gênero e as diferenças percebidas entre os sexos pressupunha a antecedência do sexo. Tal pressuposição, no entanto, acabava por colocar o sexo como elemento pré-discursivo, como não tardou em assinalar certa crítica feminista que, ancorada em análises de autores como Foucault e Laqueur, passou a refletir sobre o caráter histórico do sexo. Tal movimento permitiu afirmar que, em realidade, o sexo é resultado discursivo, e que o gênero constituía o sexo.

Butler, por exemplo, foi uma das autoras mais incisivas a questionar a categoria gênero como interpelação cultural do sexo, afirmando que gênero não está para cultura assim como o sexo está para a natureza. Questionou, portanto, a constituição pré-discursiva do sexo. Ademais, argumentou a autora, a distinção entre sexo e gênero acaba por manter o binarismo da complementaridade categórica estável entre homem e mulher o qual reproduz a lógica da normatividade heterossexual. A diferença sexo-gênero deveria, pois, ser criticada, tratando-se de redargüir concepções que estabeleçam idéias de identidade estável de gênero.

Gênero para Butler seria performance social, e a performatividade do gênero é um efeito do discurso o sexo consistiria, portanto, num efeito do gênero. As regras discursivas da heterossexualidade normativa produzem performances de gênero, que são reiteradas e citadas. A própria sexualização dos corpos deriva de tais performances. No processo de reiteração das performances de gênero, algumas pessoas, fora da matriz heterossexual, passam a ser consideradas como abjetas. A política queer consiste em perturbar os binários de gênero e brincar com as menções feitas sobre gênero espaço privilegiado para as teorizações e práticas queer.

Continue lendo em Corpo, sexo e subversão: reflexões sobre duas teóricas queer

de Pedro Paulo Gomes Pereira.