Como mudar o mundo?

Sexta-feira à noite, trânsito infernal no Rio de Janeiro, acabei perdendo o vôo para Brasília. Para pegar o próximo, precisava esperar mais de seis horas e decidi comprar um livro para passar o tempo. Escolhi “Como mudar o mundo” de John-Paul Flintoff. E adorei. Em poucas horas já tinha terminado de ler e estava cheia de idéias.

O livro dá dicas práticas de como alcançar o objetivo de mudar o mundo.  No início pode parecer um pouco óbvio ou simplista demais, mas com o passar do texto até os pequenos exercícios se mostram bastante úteis. Além disso, discorre sobre o alcance de determinadas ações e como às vezes deixamos de valorizar as pequenas atitudes em detrimento dos grandes feitos de líderes ou pensadores.

Um exemplo é a situação descrita na página 16, que fala da queda do muro de Berlim:

No vigésimo aniversário da queda do Muro de Berlim, “líderes mundiais” foram à Alemanha a fim de discursar para multidões de ouvintes.
Foi impressionante o fato de terem assumido o crédito por esse acontecimento histórico em particular, já que líderes mundiais tiveram pouquíssima influência na queda do Muro. Na verdade,  a barreira entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental foi destruída porque muitos berlinenses comuns fizeram algo mínimo. Após testemunhar as mudanças significativas de que “o poder do povo” provocava em alguns países vizinhos, e após os protestos em massa na Alemanha Oriental, os berlinenses simplesmente foram até a fronteira para ver o que estava acontecendo. Soldados no posto de controle, estupefatos e igualmente cientes do que havia acontecido pouco antes em países vizinhos, abriram caminho para que eles transitassem de um lado para o outro da cidade. Logo depois, por já ter deixado de ser uma barreira afetiva, o muro foi demolido. O fato de “líderes mundiais” assumirem o mérito não desmerece a conquista, mas insinua que, ao mudar o mundo, não podemos necessariamente esperar reconhecimento”. (pg.  16)

Para quem já está engajado, indico como uma reflexão importante sobre estratégias para gerar mudanças e motivação para continuar a fazê-lo. Porém, este livro também me ajudou a refletir sobre alguns pontos relacionados a militância.

Algumas pessoas acreditam que a militância e o ativismo se fazem apenas nas ruas e nos protestos. Existe ainda quem acredita que não devemos nos pronunciar sobre determinados assuntos, que pensar em certas coisas nos deixarias louc@s, que política, futebol e religião não se discutem.

Mas o ativismo tem um conceito muito mais abrangente, abaixo elenco algumas definições:

A.ti.vis.mo: qualquer doutrina ou argumentação que privilegie a prática efetiva de transformação da realidade em detrimento da atividade exclusivamente especulativa.

A.ti.vis.ta: Membro por afinidade em alguma ideologia política ou social.
Pessoa que exerce uma atividade política ou humanitário com grande empenho. Militante.

Mi.li.tan.te: Membro ativo de uma causa; que se posiciona de uma forma similar aquela ideologia, trabalho, profissão, causa, envolvido diretamente, ativamente e se identifica através de sua postura pessoal.

Nós escolhemos a militância e o ativismo por causa de um ideal. Como feministas, nos posicionamos contra a realidade atual, que nos parece injusta. Há quem diga que já conquistamos muito… E é aí que devemos perguntar: mas de onde vieram essas vitórias? Foi pelo silêncio e inércia que conquistamos o que temos hoje? Ou alguém teve que se posicionar e lutar por uma realidade diferente?

Aqui, quando falo de luta, não me refiro especificamente a embates, guerras. Lutar por direitos é um exercício diário que se pode fazer das mais diversas formas. O apêndice de “Como Mudar o Mundo” cita 198 métodos de protesto e persuasão não-violentos, elencados por Gene Sharp. Além dessas, cita também as pequenas escolhas que fazemos no dia-a-dia e que podem contribuir para mudar a realidade, a nossa vida e a das pessoas em volta.

É o ombro amigo que agente escolheu dar pr@ amig@, o incentivo que damos às pessoas para arriscar uma atitude diferente, é a bandeira de paz no meio dos conflitos diários, é a discussão de família ou no trabalho que escolhemos participar para mostrar outro ponto de vista, ou mesmo a que não escolhemos  para nos preservar, é o sorriso com que retribuímos as palavras agressivas que dirigem a nós, é o presente não-sexista, o produto ou serviço que escolhemos adquirir ou não, é o bolo de aniversário feito com carinho, é a palavra de apoio e conscientização nos momentos difíceis,  é o ouvido e o abraço que doamos um pouquinho, o termo preconceituoso que deixamos de usar. Enfim, não faltam exemplos.

Minha militância é uma militância de paz, acolhimento, amizade. Dos risos, da dança-como-se-ninguém-estivesse-olhando, da ocupação dos espaços públicos — principalmente à noite —, da independência… a militância pode ser tão plural quanto nós mesm@s.

Muitas vezes não enxergamos o poder transformador de certas atitudes. Mas cabe a cada um@ de nós escolher o que queremos perpetuar ou transformar. No livro, o autor cita a ação de Rosa Parks,  jovem negra que, ao se recusar a entregar seu lugar no ônibus a passageiros brancos, acabou por desencadear um movimento contra a segregação racial nos Estados Unidos.

Rosa Parks em um ônibus, com outras pessoas, após a decisão jurídica que pôs fim a segregação racial nos ônibus na cidade americana de Montgomery. Foto de Don Cravens/Time Life Pictures.
Rosa Parks em um ônibus, com outras pessoas, após a decisão jurídica que pôs fim a segregação racial nos ônibus na cidade americana de Montgomery. Foto de Don Cravens/Time Life Pictures.

O legal de Como Mudar o Mundo é que ele dá várias dicas práticas, usando como exemplo ações atuais e históricas que fizeram a diferença. Além disso, ele ensina a se planejar para construir ações efetivas. Recomendo a leitura e convido tod@s ao exercício: se você quer mudar o mundo, qual é a sua militância?

Um mundo bom não é um mundo em que todos se concentram em problemas globais segundo  um conceito de”importância” imposto pelo ambiente externo. Um mundo bom é aquele em que  as pessoas encontram sentido em cosias especificas que elas fazem….” (pg. 88)

A prisão dos estereótipos

A maioria das pessoas não consegue lidar com o que foge do comum e do convencional. Por isso, muitas vezes nos sentimos aprisionadas em caixas sociais. Devemos seguir determinado estereótipo porque dessa maneira seremos aceitos dentro de um determinado grupo. Não apenas as pessoas, mas também o capitalismo e o mercado nos ensinam como ser homem, mulher, gay, lésbica, transsexual, etc. Há estereótipos para todos os gostos, preços e tamanhos. Porém, a diversidade humana é imensa e nem todas as pessoas se encaixarão. Isso acaba sendo uma forma de violência derivada do preconceito, pois a sociedade nos força a não sermos quem somos.

Ou você é hétero ou gay, ou você é ativa ou passiva (e isso inclui todo um código de conduta social e sexual além da forma de se vestir e de se arrumar), ou você é assumida ou ainda está no armário, ou você sai para uma balada de música eletrônica ou para um barzinho de MPB.

O mundo lésbico é um mundo de poucas opções. E como se não bastasse sofrer com o preconceito ja usual, mesmo dentro deste grupo é difícil se encaixar. Me considero bissexual, gosto de rock, sou assumida apenas em alguns círculos sociais e gosto de variar entre ser ativa ou passiva. Por conta disso não sou aceita por muitos (héteros ou não) e tenho bastante dificuldade de encontrar mulheres para me relacionar.

Já tive muitas dúvidas sobre minha sexualidade, afinal ao contrário da maioria eu tenho alguma “opção”. Posso simplesmente me isolar socialmente de tal forma que a homossexualidade se torne inviável. Simplesmente deixando de freqüentar os lugares exclusivamente gays já que “lésbica que é lésbica mesmo não freqüenta ambientes majoritariamente heteros”. Me sinto culpada as vezes por preferir o lado mais “favorecido”.

Foto de DarkChunsa no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Mesmo a classificação é uma dificuldade: o que te faz realmente ser heterossexual, homossexual ou bissexual? E será que isso realmente importa? Sonho com o dia que não vão questionar minha sexualidade por quanto tempo namorei um homem ou uma mulher, pelo grau de intimidade que já tive com cada um, pela forma que me visto ou pelos lugares que freqüento.

Corpos Queer

A categoria gênero surgiu nas discussões sobre a Mulher, e sobre mulheres, como sujeitos históricos, sempre na busca de interrogar a universalidade atribuída ao Homem; categoria esta pensada como constituída por relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, e que se instituíam no interior de relações de poder. Gênero era, enfim, a organização social da diferença sexual. A diferença sexo-gênero ou seja, a relação de gênero e as diferenças percebidas entre os sexos pressupunha a antecedência do sexo. Tal pressuposição, no entanto, acabava por colocar o sexo como elemento pré-discursivo, como não tardou em assinalar certa crítica feminista que, ancorada em análises de autores como Foucault e Laqueur, passou a refletir sobre o caráter histórico do sexo. Tal movimento permitiu afirmar que, em realidade, o sexo é resultado discursivo, e que o gênero constituía o sexo.

Butler, por exemplo, foi uma das autoras mais incisivas a questionar a categoria gênero como interpelação cultural do sexo, afirmando que gênero não está para cultura assim como o sexo está para a natureza. Questionou, portanto, a constituição pré-discursiva do sexo. Ademais, argumentou a autora, a distinção entre sexo e gênero acaba por manter o binarismo da complementaridade categórica estável entre homem e mulher o qual reproduz a lógica da normatividade heterossexual. A diferença sexo-gênero deveria, pois, ser criticada, tratando-se de redargüir concepções que estabeleçam idéias de identidade estável de gênero.

Gênero para Butler seria performance social, e a performatividade do gênero é um efeito do discurso o sexo consistiria, portanto, num efeito do gênero. As regras discursivas da heterossexualidade normativa produzem performances de gênero, que são reiteradas e citadas. A própria sexualização dos corpos deriva de tais performances. No processo de reiteração das performances de gênero, algumas pessoas, fora da matriz heterossexual, passam a ser consideradas como abjetas. A política queer consiste em perturbar os binários de gênero e brincar com as menções feitas sobre gênero espaço privilegiado para as teorizações e práticas queer.

Continue lendo em Corpo, sexo e subversão: reflexões sobre duas teóricas queer

de Pedro Paulo Gomes Pereira.