Sobre mulheres oprimindo mulheres

Texto de Georgia Faust.

Essa semana que passou foi uma semana muito pesada para mim e para o movimento feminista na minha cidade. Filmaram uma menina fazendo sexo oral no namorado, o vídeo foi compartilhado rapidamente por meio de grupos de WhatsApp, gerando uma reação absurda. Uma culpabilização incrível da menina, julgamentos infinitos, nada se falou sobre o menino. Diversos memes maldosos espalhados pelo Facebook e, claro, a boataria generalizada.

Quando fiquei sabendo, o fato já tinha tomado proporções gigantescas. Passei praticamente a semana em função disso, escrevendo uma carta de apoio, procurando descobrir quem filmou e compartilhou, conversando com amigas e sofrendo muito, mas muito por ela.

E, o argumento de todo mundo ao xingar a menina de puta e etcétera, era sempre o mesmo: ela errou, não podia estar fazendo aquilo em uma biblioteca dentro da universidade. Mas, acabo sempre achando que essa desculpa cai como uma luva para simplesmente continuar botando mulheres na fogueira. Porque, se o problema realmente fosse o ato naquele lugar específico, o menino envolvido seria alvo do mesmo nível e volume de comentários. Mas, claro, não foi.

Me preocupou também o nível de “justiça com as próprias mãos”. Porque, novamente, se o problema realmente fosse o ato naquele lugar específico, quem deveria tomar as devidas providências seriam a polícia, a justiça, a universidade — tomando as medidas legais cabíveis. Acho engraçado — para não dizer deprimente — as pessoas realmente acharem que o escracho público é punição correta para esse tipo de coisa. Remeteu-me, sei lá, a tempos bíblicos, apedrejamento por adultério e outras coisas assustadoras. Tempos esses para os quais eu não quero retornar.

Minha atitude foi a de NÃO agir como polícia ou como universidade ou como “executor” de nada. Não acho que, no estado das coisas, venha ao caso discutir se o lugar era adequado ou não, ou como a instituição deveria lidar com essa transgressão deles. À mim, como mulher, me diz respeito apenas dizer que eu estava ao lado dela. Que eu e ela, nesse mundo de merda em uma cidade conservadora e machista, éramos uma só. E que muitas outras mulheres eram uma só, conosco. Queria que ela soubesse que não estava só.

Vivemos em uma cidade (em um mundo) onde nós, mulheres, somos julgadas e chamadas de puta a todo momento seja lá o que fizermos. Como se ser puta fosse ruim, mas a sociedade repete isso todos os dias. Se fizermos qualquer coisa que fuja do ambiente privado, doméstico, somos transgressoras. Não podemos fugir do script, não podemos tomar iniciativas, não podemos gostar de sexo, não podemos levantar a voz, não podemos pilotar aviões. Sempre vai ter alguém duvidando da nossa capacidade, tentando tirar nosso protagonismo, ou simplesmente julgando todas as nossas habilidades por conta do comprimento da nossa saia.

3ª Marcha das Vadias em São Paulo. Foto de Leandro Moraes/UOL.
3ª Marcha das Vadias em São Paulo. Foto de Leandro Moraes/UOL.

Especialmente na esfera sexual, sofremos. Mulher que é sexualmente ativa é puta, é desonrada, não presta, não serve para o “mercado matrimonial”, não pode ser levada a sério, merece apanhar, merece ser estuprada. Homem, ao contrário, quanto mais sexualmente ativo, mais é louvado. Por que não falaram do menino que estava com ela? Por que só ela errou? Por que só o nome dela e só foto dela foram divulgados pelas redes sociais? Não me entendam mal, eu não sou a favor do escracho público do menino também. Mas acho sintomático que, o tempo inteiro, o foco tenha sido ela.

E hoje, pouco tempo atrás, ficamos sabendo que quem filmou e compartilhou o vídeo foi — PASMEM — uma mulher também. E isso partiu o que restava do meu coração que já passou a semana em frangalhos. Porque, nós, feministas lutamos tanto há tantos anos para conquistar algumas poucas pequenas liberdades e para tentar diminuir um pouco os sofrimentos causados pela sociedade estruturalmente machista e, ver uma mulher prejudicando outra dessa forma é quase como ser traída da pior forma possível.

E daí vem a velha acusação: das mulheres que também são machistas. Que as maiores inimigas das mulheres são elas mesmas, e não os homens. Sim, meu coração está partido, mas não consigo odiar a tal mulher que cometeu o crime. E não pretendo fazer com ela, por conta da merda que fez, o mesmo que fizeram com a menina que protagonizou o vídeo. Não quero transformar a vida dela num inferno. Quero que a justiça seja feita, que ela seja processada, condenada. Vejo-a mais como estocolmizada do que qualquer outra coisa. Ainda a vejo como vítima do patriarcado (acredito que todas nós somos) e de um sistema que NOS CONDICIONA a ser assim.

Muitas de nós aprendem, a duras penas e depois de dar muito murro em ponta de faca, que É MAIS FÁCIL deixar as coisas simplesmente serem do jeito que são — e muitas vezes ainda ajudar a MANTER as coisas do jeito que estão. Porque também não é fácil querer mudar. Vem o cansaço que dá lutar todos os dias. Não tô falando de tiro, porrada e bomba. Tô falando da luta diária, do bate-boca, de defender posições, de não deixar passar piada machista, de denunciar conteúdo misógino, de aguentar assédio na rua, de convencer as pessoas que a felicidade plena de ser mãe não é universal, de acolher azamiga, etcétera etcétera etcétera. Depois de tantas vezes ver o backlash rolando e pensar: Véi, essa poha nunca vai mudar. Então, sim, é mais fácil “parecer ser inimiga das mulheres.

Sei que nem toda mulher sente empatia por outras mulheres. Em certa medida, acho que fomos criadas para nos odiarmos. Quantas mulheres tem o maior orgulho de dizer que sempre foram da turma dos meninos? Mas não consigo, agora já não mais, ver mulheres como inimigas. Vejo comportamentos machistas, vejo competitividade, vejo tudo isso. Ao contrário do que vocês possam estar pensando, não estou cega. Mas não vejo, DE JEITO NENHUM, mulheres se BENEFICIANDO do machismo. Só acho que, das duas uma: ou elas fizeram como eu quase faço de vez em quando — desistiram para evitar a fadiga; ou elas simplesmente don’t know better.

Posiciono-me como radicalmente contra fazer com a menina que compartilhou o video a mesma coisa que fizeram com a menina que o protagonizou. São mulheres. O judiciário que resolva da melhor forma possível. E que essa história toda logo fique na lembrança. Estamos prontas para a próxima luta.

Mulheres: donas das próprias vidas

Texto de Georgia Faust.

Assisti, há um tempo, o vídeo ‘Mulheres Donas da Própria Vida’.

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Vídeo – Mulheres Donas da Própria Vida.

Esse vídeo é antigo e faz parte de uma campanha pelo fim da violência contra a mulher do campo e da floresta. Achei todo lindo. Porque tem tanto a ver com tantas mulheres que me cercam. Mas não foquei tanto na parte do viver sem violência (apesar de ser o foco da campanha), mas na parte de ser dona da própria história. Pois, vejo tantas de nós tendo dificuldades em assumir as rédeas da própria vida.

Penso, dizendo isso com base no meio em que convivo e milito, que não há coisa mais importante e urgente do que todas nós, mulheres, sermos donas da nossa própria vida. E, ao mesmo tempo, é algo que se torna tão difícil estando dentro de um relacionamento. Até onde nós levamos a sério o: “para o relacionamento dar certo, tem que ceder”? Tão a sério a ponto de sermos as que mais cedem no final das contas, sermos aquelas que deixam a vida pessoal de lado para priorizar a relação. É uma condição tão esperada do feminino essa, a de se esforçar ao extremo para que as coisas deem certo, chegando a nos invisibilizarmos em prol de um relacionamento que muitas vezes já está fadado ao fracasso.

Eu acho que uma relação que me impede de priorizar minhas próprias conquistas não é uma relação que valha a pena ser vivida.

Uma manhã, bem cedo, eu estava correndo e fiquei pensando em meus relacionamentos do passado. Cheguei a conclusão de que eu jamais estaria ali, correndo, super high de endorfinas, exalando felicidade e me sentindo fabulosa, se estivesse ainda junto com qualquer um dos bostas caras com quem me relacionei. Não, amigos, isso não é misandria, quem me conhece ou conhece eles, ou sabe da minha história por cima, sabe também que realmente tive o dedo podre A VIDA INTEIRA. E, claro, meu perfeccionismo e minha mania de viver minhas experiências intensamente faziam com que eu me esforçasse ao máximo para que as coisas dessem certo, e isso incluía o tal do “ceder”. Quando falo dos males do ceder demais e não ter as rédeas da própria vida, acredite, falo de cadeira.

Por isso eu não fiz faculdade quando quis, porque um dos ex não queria que eu estudasse (oi?!?!). Pois é, ele não achava necessário. Estudar para que? Se eu já tinha profissão e emprego? Por isso eu não fiz academia quando quis também, porque ele tinha ciúme dos caras que possivelmente iam ficar me olhando malhar (oi?!?!?). Por isso eu nem comia onde eu queria na praça de alimentação do shopping, porque ele achava que casais unidos de verdade comiam a mesma coisa, no mesmo lugar (oi?!?!?!?!?).

No último relacionamento eu já estava feminista e era uma briga sem fim toda vez que eu queria sair de manhã cedo para treinar. Sempre tinha que escutar chantagem emocional, porque eu gostava mais de correr do que de ficar com ele. Mas, dessa vez eu ia correr mesmo assim. Só que carregando uma culpa infinita nos ombros e fazendo de tudo depois para compensar a minha transgresão de ter abandonado o pobrezinho por uma hora, para fazer uma coisa que me fazia enormemente bem.

Tem um texto, de muitos anos atrás (exatamente de julho de 2009), da Marjorie Rodrigues, que posso dizer que foi o texto feminista que mais mudou a minha vida. Muito mais do que muitos livros que li, muito mais do que ‘Backlash’ da Susan Faludi. Porque esse texto falou diretamente com o meu coração.

Se eu escolhi fazer tal coisa, o ato de escolher faz de mim automaticamente um sujeito.

Por exemplo: “se eu escolhi ser prostituta/stripper/atriz pornô/whatever, se eu fiz isso porque quero, então eu não sou uma mulher objetificada. Eu sou sujeito das minhas ações e quem disser que estou numa posição de passividade ou vulnerabilidade está errado. É paternalista dar a entender que eu sou burra, não sei o que faço ou sou apenas um joguete do patriarcado”.

Eu acho esse ponto de vista TÃO perigoso. Primeiro, porque reduz o feminismo a essa hiper-relativização: I choose my choice, cada um com sua escolha, pronto e acabou, ninguém mete o bedelho na vida de ninguém. É mais ou menos como o pessoal que, numa leitura super torta de algumas obras da antropologia, sai dizendo por aí que a gente não pode condenar a mutilação genital feminina ou a burca ou o infanticídio ou seja lá o que for, porque “assim é a cultura deles”. Ou “assim é a religião deles”. Referência: Da onda feminista: “I choose my choice”.

Então, assim… Guardadas as devidas particularidades, eu acho sim que quando você escolhe colocar sua vida nas mãos de outra pessoa, mesmo que você tenha certeza absoluta de que essa é uma escolha plena e legítima sua, ainda assim, você está se colocando em uma posição de vulnerabilidade que coloca você em risco. E não há nada mais perigoso do que isso.

E muitas vezes, mais vezes do que eu gostaria, esse esforço todo em manter um relacionamento nem é porque casamento é instituição sagrada e tal. É por medo de ficar sozinha mesmo. Queria que todas as mulheres soubessem que ficar sozinha não é tão ruim assim, e muitas vezes vale bem mais a pena. Posso contar nos dedos de uma mão as mulheres que conheço que estejam em relacionamentos que realmente as permita ser elas mesmas, realizar, brilhar, ter objetivos próprios. Mas tento ser otimista e sei que ainda vou estar viva para ver muito mais.

Esporte: lugar de quem?

Texto de Georgia Faust.

Em primeiro lugar, acredito que faz-se necessária uma apresentação — especialmente porque faz um bom tempo que não escrevo nesse espaço. Meu nome é Geórgia, tenho 31 anos e há mais ou menos um ano e um mês minha vida tomou um rumo diferente. Virei atleta! Claro, nada olímpico, como algumas amigas andam sonhando. Mas regionalmente, tenho tido bons resultados e estou em visível progresso.

Sou fundista. Dentro do atletismo, fundistas são corredores que competem em distâncias superiores a uma milha (1,609m), sendo que a minha prova específica é a de 10,000 metros em pista e minha prova preferida é a meia-maratona (21 km). Treino com a equipe de atletismo da minha cidade, recebo pagamento para isso (apesar de ainda não estar nem perto de ser elite) e tenho circulado em um ambiente onde nunca havia estado antes: o dos atletas profissionais.

Na verdade, nunca tinha estado nem entre atletas amadores. Até dois ou três anos atrás era 100% sedentária. Porém, esse novo convívio tem me trazido muitas reflexões, uma delas é a surpresa em ver que, na minha equipe (são três equipes de fundistas que a prefeitura mantém), somos apenas eu e mais uma mulher.

Precisei deixar um pouco o ego inflado pelos resultados de lado quando percebi que é muito mais fácil para mim, Geórgia, ser atleta profissional do que para meus amigos homens que treinam comigo e correm mil vezes melhor. Especificamente, dentro do atletismo, o caminho é menos pedregoso para mulheres. O número de praticantes é bem menor, a competitividade em termos gerais acaba sendo menor, portanto, a concorrência é muito menor. Veja você que não há absolutamente nada de excepcional na minha performance e, ainda assim, fiquei bem colocada em todas as competições que participei.

E, de verdade, lamento isso. Lamento porque estou numa boa posição nas competições porque minhas amigas mulheres simplesmente não praticam esportes. E, dentre as poucas que os praticam, preferem ficar em aulas de aeróbica, step ou circuitos em academias de 30 minutos. Não tem absolutamente nada de errado com isso, ressalto. Quero que cada vez mais mulheres pratiquem dança do ventre e façam pilates, porque qualquer atividade esportiva é válida. O que quero pontuar é culturalmente percebemos que as mulheres crescem sem interesse por coisas que os homens se interessam. E, vale lembrar, não existe instinto competitivo, existe cultura competitiva. Criamos homens competitivos, mas não mulheres.

Corredoras da prova de 1500 metros. Foto de William Warby no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Corredoras da prova de 1500 metros. Foto de William Warby no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Arthur Brittan fala disso em seu livro “Masculinity and Power:

“A imagem mais popular da masculinidade na consciência de todos os dias é aquela do homem-herói, do caçador, do competidor, do conquistador. Uma coisa é certa: é a imagem que é glorificada na literatura, na arte e na midia ocidental… Em certo sentido, a crença no homem-caçador ou no herói não parece ter nenhum fundamento no mundo cotidiano onde vive a maioria dos homens. Os homens têm pouquissimas ocasiões de serem heróis, a não ser como passatempo ou nos esportes. 0 homem-caçador foi transformado no ‘homem-sustentáculo da familia’. As chances de heroísmo surgem apenas no campo dos esportes, e não na floresta durante uma perseguicão sem tréguas para alimentar a tribo”

Então, enquanto as mulheres são educadas para as tarefas do lar, para cuidar de crianças, para sermos contidas e modestas, os homens ainda são educados para matar um leão por dia. Como não é possível literalmente matar um leão por dia nas ruas de nossas cidades, a grande oportunidade de destaque e heroísmo para os homens é conquistar medalhas, superar limites, vencer competições, derrubar o oponente. Não existe apenas a divisão sexual do trabalho, existe também a divisão sexual do esporte, dentro do que é esperado de nós dentro da sociedade ou do grupo em que estamos inseridos. Força, resistência, determinação e busca de limites (indispensáveis qualidades para atletas) são características associadas à masculinidade.

Liv-Jorunn Kolnes, em “Heterosexuality as an Organizing Principle in Women’s Sport”, diz que:

Enquanto se espera que os homens sejam fisicamente fortes, espera-se que as mulheres sejam mais frágeis do que os homens com quem interagem. Quando homens e mulheres fogem a essa regra há uma tendência em categorizá-los como desviantes. Um homem com fragilidade física é tido como ‘feminilizado’ enquanto que uma mulher com força física é rotulada como ‘masculinizada’. Para participar de esportes meninos têm que ser tradicionalmente masculinos, ou seja, fortes, impetuosos e agressivos. A possibilidade da mulher fazer parte desse mundo esportivo é menor, afinal, esporte nunca teve como finalidade tornar a mulher mais feminina.”

Sendo assim, tem sido também uma luta feminina (feminista?) entrar para o mundo dos esportes, quando historicamente nossa participação como atletas foi vedada. E, acredite se quiser, em 1965 aqui no Brasil o CND (Conselho Nacional de Desportos) baixou uma deliberação que instruiu entidades esportivas no Brasil sobre a participação feminina em modalidades esportivas, estabelecendo: “não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e beisebol”. Pois é.

Isso tudo para não entrar na discussão de como se lida com as atletas na mídia e cobertura esportiva. Ok, as mulheres podem ser atletas, mas como enfeite. Dificilmente são retratadas por suas qualidades esportivas, mas sim por sua beleza. A maior parte do tempo dado as coberturas esportivas é dedicada aos homens. Quando inclui mulheres, incorre em dois tipos de erro: ou compara a performance de uma mulher com a de um homem, ou tece comentários idiotas sobre forma corporal, beleza, sensualidade. Ou seja, as conquistas femininas no esporte são menos importantes do que as barrigas chapadas.

Claro, só tenho a agradecer às feministas que vieram antes de mim e deram a cara a tapa para garantir hoje meu espaço dentro do atletismo. Àquelas que romperam fronteiras, brigaram, lutaram, tiveram sua sexualidade questionada, mas abriram portas para o reconhecimento que ainda estamos ampliando. Gostei de me sentir um pouco transgressora ao me tornar atleta. Sempre gostei de transgressões. Um beijo de admiração às minhas amigas atletas que estão junto comigo nesse barco.