Racismo pouco é bobagem: o desfile de Ronaldo Fraga e a defesa do indefensável

Texto de Jeanne Callegari.

Das horas em que dá vontade de rasgar o diploma: ler na Marie Claire, uma revista que já publicou tanta coisa bacana e fez história no jornalismo, uma nota parcial e cheia de fatos falsos, apenas pra defender o estilista Ronaldo Fraga. Vamos lá:

Leia a nota original: “Meu desfile foi capturado pelo ‘politicamente correto'”, afirma estilista Ronaldo.

Modelos desfilam coleção de Ronaldo Fraga durante a SPFW, março/2013. Foto de AFP/Yasuyoshi Chiba.
Modelos desfilam coleção de Ronaldo Fraga durante a SPFW, março/2013. Foto de AFP/Yasuyoshi Chiba.

1) A nota afirma que os padrões de beleza caucasianos não despertaram “grandes sanhas anti-racismo, contra a discriminação”. “Neste momento, talvez, os defensores dos direitos dos negros tenham cochilado”, diz a nota, em tom debochado e desrespeitoso. Gente. Não sei quem escreveu essa nota, mas a maior representação dos negros na moda, na mídia e em tudo o mais é uma demanda MUITO antiga. Se isso não aparece mais, é porque ninguém dá espaço pra isso. Né? É um INSULTO às pessoas que lutam por representação dos negros HÁ ANOS afirmar que eles “cochilaram”.

2) A nota usa a habitual desculpa de quem fala ou diz coisas racistas para se justificar. Afinal, o pai de Ronaldo Fraga era negro, foi até jogador de futebol. Essa é a desculpa clássica, gente. Sempre, SEMPRE que alguém diz ou faz algo racista, pode apostar que a pessoa irá se justificar citando alguém que ela conhece que era negro. “Não sou racista, minha empregada é negra!” “Não sou homofóbico, meu cabeleireiro é gay!”. Essa foi inclusive a desculpa usada por Marco Feliciano para se defender de acusações racistas: “Não sou racista, minha mãe é negra”. Sim, gente. Ter um parente negro não te isenta do racismo. Ninguém está isento do racismo, pois a questão é estrutural.

3) Aí a nota apela, ao comprar, sem nenhum senso crítico (e jornalístico), os argumentos de Ronaldo Fraga. “Foi um recurso estético, uma licença poética”, diz Fraga, e a revista assina embaixo. Claro. As blackfaces (quem não sabe o que é, google, gents) também eram uma licença poética, um recurso estético. Exagerar traços e características físicas dos negros não é algo novo, que o trote na UFMG ou Ronaldo Fraga inventaram: é antigo. É esse peso que as palhas de aço carregam. Elas não surgem no vácuo. Vêm na esteira de algo que foi usado para humilhar e estigmatizar os negros por muito tempo. Se os negros nunca tivessem tido seus cabelos associados a bombril ou assolan, isso não seria um problema.

4) Aí, a revista apela para uma falácia completamente sem pé nem cabeça: “Os detradores de Ronaldo Fraga, provavelmente, não entendem nem de arte e nem de negros. Acusá-lo de racista seria o mesmo que dizer que Tarsila do Amaral é jocosa em seu “Abaporu”, ao retratar o povo brasileiro em linhas modernistas.”  Sério, Marie Claire? Primeiro, não é verdade: muitas das pessoas que se manifestaram contra o desfile entendem MUITO de arte e de negros. De um lado, escritores, músicos, artistas. Do outro, pessoas do movimento negro, gente que MILITA NISSO HÁ ANOS. E claro, muita intersecção entre os dois grupos. Não que isso importe; no fundo, o argumento é o que vale. E esse vale. Afinal, os negros e negras que tiveram seus cabelos chamados de “ruim” e “bombril” a vida inteira é que podem dizer se o recurso das palhas de aço foi ofensivo. Pelo que vi por aí, eles não gostaram nada. Pois é.

5) E a Tarsila do Amaral, gente? Sério que vocês tão comparando uma coisa com a outra? Que tal comparar com o Monteiro Lobato, então? O fato de ser arte não impede que seja racista, a gente sabe.

6) “E achar que a defesa dos negros e de seus direitos se dá em uma arena histriônica, em um compêndio de acusações e ofensas desprovidas de ligações com a realidade é no mínimo ingenuidade, senão má-fé.” Nossa. Em uma frase, conseguiu chamar os negros e negras que se sentiram ofendidos de ingênuos, de agirem com má-fé e de fazerem acusações DESPROVIDAS DE LIGAÇÃO COM A REALIDADE. Histéricos, lunáticos. É. Pois tem alguma negra aí na redação, Marie Claire? Pergunte se ela já teve seu cabelo associado a bombril. Vamos ver se isso tem ou não ligação com a realidade.

7) E a cereja do bolo: “Será que esses que se levantam para apontar o dedo a Ronaldo já se mobilizaram para ajudar a sociedade a garantir os direitos dos negros? É irônico que não tenham produzido contra o deputado Marcos Feliciano (atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara), abertamente racista, a mesma enxurrada cibernética de críticas que destinaram ao estilista brasileiro.”  HELLO. Gente! Talvez o pessoal da revista estivesse mesmo MUITO ocupado vendo desfiles esses dias, porque protestar contra o Feliciano é SÓ o que as pessoas têm feito, há semanas, desde que ele assumiu a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Em São Paulo, as pessoas foram para as ruas duas vezes já, assim como em diversas cidades do país. Em Brasília, militantes do movimento negro estão lado a lado com o pessoal LGBT nas reuniões da comissão, protestando. Fora as milhares de manifestações online, em blogs, redes sociais e petições. Não precisa nem entrar em um site de notícias pra ver isso, gente. Tá em toda parte, até eu já tou cansada de olhar pra cara dele. Ou seja: o pessoal da Marie Claire só presta atenção quando o assunto tem a ver com moda. Se saiu desse universo, não sabem de nada. Esperava mais da revista, de verdade. Já quis até trabalhar lá. Mas trabalhar em um veículo racista acho que não rola. Que pena.

8) Tudo isso pra quê, né? O Ronaldo Fraga podia ter pedido desculpas. Era só isso, sabe. Admitir que não teve intenção de ofender, mas que, como ofendeu, sente muito mesmo. Se o pai dele é negro, ele devia saber como essas coisas doem. E quando a gente machuca alguém, mesmo sem querer, a gente pede desculpa, sabe. Imediatamente. Pisei no seu pé? Desculpa. Não foi por querer, mas desculpa. Agora, dizer que a dor que você sente por eu ter pisado no seu pé é ingenuidade, má-fé ou algo que não tem ligação com a realidade, é ofender mais. É cravar o salto agulha até o fundo. Se o Ronaldo Fraga quer insistir em ficar na defensiva e culpar o mítico “politicamente correto” em vez de ter responsabilidade (accountability, gente!), OK. A revista não precisa fazer isso. O jornalismo tem que ficar um pouquinho mais distante das coisas que cobre, sabe. Não precisa fingir que é isento, a gente sabe que isso não existe. Mas um pouquinho de distância faz bem.

Enfim, desculpem o desabafo. Gosto demais dessa profissão, sabe. Não quero ter que rasgar a porcaria do diploma de jornalista.

Crowdfunding: R$ 25 pra mudar o mundo (e apoiar um projeto feminista)

Texto de Jeanne Callegari.

Você sabe o que é crowdfunding? É um sistema de financiamento coletivo de projetos bacanas, sejam de cultura, arte, esportes, eventos, tecnologia… Existem vários modelos e formatos, e dá pra começar a apoiar, em geral, com R$ 25. Não se trata, exatamente, de doação; os apoiadores recebem contrapartidas, proporcionais ao apoio dado. Aqui uma explicação mais detalhada:

Crowdfunding é um sistema no qual um projeto qualquer se financia a partir da contribuição de base de uma comunidade de apoiadores. Os primeiros projetos foram artísticos. Em 1997, os fãs da banda de rock Marillion conseguiram captar US$60 mil para financiar uma tournê. O sucesso de uma comunidade de apoiadores em viabilizar um projeto acabou por profissionalizar o processo e inúmeras plataformas digitais de captação de recursos de apoiadores foram desenvolvidas.[…] Referência: Crowdfunding: eu apoio, tu apóias, nós apoiamos – o projeto “Força para a Força”.

No Brasil, a plataforma mais conhecida de crowdfunding é o Catarse, que usa o sistema de “ou tudo ou nada”: se o dinheiro total do projeto não for levantado até o deadline, as pessoas perdem tudo. Existem muitas críticas a fazer a esse sistema; uma delas é o estresse a que submete os proponentes de projetos, que, mesmo que se conseguirem juntar boa parte da grana, ficam sem nada. Isso pode não ser um problema para alguém que quer fazer um livro ou disco, por exemplo, afinal, a obra só começa a ser produzida depois de o dinheiro estar disponível. Mas para um atleta, que precisa se concentrar na performance e no treinamento para um campeonato, isso pode ser bem mais complicado. Outro caso problemático é quando se tenta levantar dinheiro para um evento, como um festival de música, por exemplo, que tem data pra acontecer.

Os problemas do crowdfunding, porém, derivam mais dos formatos e das plataformas existentes. A ideia, em si, é sensacional: fazer acontecer projetos que dificilmente seriam contemplados com patrocínios ou apoios de outra maneira. Tem muita coisa legal sendo feita por aí, mas que não é publicada/realizada porque não se encaixa no mercado mainstream, sempre mais conservador do que os grupos minoritários gostariam.

Crowdfunding e feminismo

Alguns anos atrás, antes de os projetos de crowdfunding começarem a rolar no Brasil, um amigo meu expressava dúvidas: ele achava que a coisa não iria dar certo por aqui, pois brasileir@s não têm o costume de doar em projetos alheios, colaborar, enfim, não é uma prioridade pra gente. Sempre preferiríamos tomar uma cerveja ou comprar um Big Mac do que doar uma graninha para uma instituição de caridade ou para um projeto bacana, dizia ele.

Pois bem. O tempo passou, o Catarse abriu, assim como outras plataformas de captação de recursos. Muitos projetos legais foram financiados dessa maneira, o que, de certa forma, prova que meu amigo estava errado. O Cidades para Pessoas foi um deles, assim como o Bike Anjo e o Mulheres no Volante – para ficar apenas em projetos em que contribuí pessoalmente. E fica a conclusão: podemos, sim, ser solidári@s.

E o que tem tudo isso a ver com feminismo? Bom, daí que eu acredito que o formato do crowdfunding é uma ótima maneira de financiar projetos de mulheres e de outros grupos marginalizados — ligados ou não ao feminismo. A ideia é simples, de fato: se cada uma ajuda um pouco, todas nos beneficiamos.

Sabemos que existem barreiras – concretas e simbólicas – para as mulheres realizarem coisas no mundo. É só olhar as listas de livros e discos lançados. Quantos foram feitos por mulheres? Um livro que saiu no final do ano passado, da Regina Dalcastagné, dá um panorama da coisa na literatura. Na pesquisa que ela fez com as quatro principais editoras do Brasil:

quase três quartos dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% dos autores são brancos; o local da narrativa é mesmo a metrópole em 82,6% dos casos; o contexto de 58,9% dos romances é a redemocratização, seguida da ditadura militar (21,7%). O homem branco é, na maioria das ocorrências, representado como artista ou jornalista, e os negros como bandidos ou contraventores; já as mulheres, como donas de casa ou prostitutas. Referência: Ensaio aborda os silêncios e as exclusões da literatura brasileira contemporânea

Ou seja: se você é mulher, dificilmente terá seu material publicado, lançado, visto no mundo. Primeiro porque talvez você nem chegue a considerar essa hipótese — lembram do Miss Representation e da ideia de que não podemos ser o que não podemos ver? Pois é. E segundo porque, mesmo que você decida fazer algo, outras barreiras simbólicas e invisíveis, tão invisíveis que muita gente vai negar que existem, farão com que seu livro/filme/disco/projeto esteja no fim da fila para sair no mundo.

Daí a importância de a gente formar essa grande corrente de ajuda mútua. Quebrando todos aqueles mitos bestas de que mulheres não se ajudam, não são solidárias e só querem mesmo pular no pescoço umas das outras.

Força para a Força

Ficou com vontade de colaborar pra algum projeto? Pois tem um agora bem bacana rolando. É o projeto da Marília Coutinho, pesquisadora, biológa, campeã de powerlifting com recordes quebrados e irmã d@ Laerte. Inclusive, nós já fizemos uma entrevista coletiva com ela.

Pois a Marília e um amigo estão com um projeto no Catarse para financiar a participação deles em um campeonato. Quem colabora tem direito a uma série de recompensas, entre elas um e-book super legal sobre o culto à forma em nossa sociedade, por exemplo.

Você pode colaborar com o projeto Força para a Força doando R$25 ou mais. Faltam 11 dias para acabar o prazo. Clique aqui e avise amigas e amigos sobre esse projeto bacana.

[vimeo=http://vimeo.com/56155786]

A princípio, pode parecer que um projeto de powerlifting não tem nada a ver com a gente, feministas, algumas não-atletas.

Mas tem, gente.

Porque: se é difícil para as mulheres publicarem livros, justo as mulheres, que teriam, segundo os evolucionistas e o senso comum, o cérebro mais voltado para a comunicação e as palavras e blá, imagine o patrocínio no esporte. Sempre, sempre é mais complicado pra uma mulher se destacar nessa área; atletas mulheres ganham menos, recebem menos apoio, aparecem menos na mídia, ocupam menos cargos de direção do que os colegas homens. Daí imaginem isso em um esporte tão tradicionalmente associado ao gênero masculino, como o levantamento de peso.

Não é fácil. Marília Coutinho comprou muitas brigas no esporte contra o machismo. Chegou a sofrer agressões em campeonatos que arbitrava por conta de ser mulher. E o que ela faz é de alto nível, quebrando todo tipo de paradigmas: os de gênero, os de que pessoas acima dos 50 anos não podem ter alto rendimento, o de que pessoas inteligentes e intelectuais não podem ser atletas. Pra ela, o powerlifting é mais que um esporte: é uma forma de arte e, acima de tudo, de sobrevivência.

A Marília fez uma série de vídeos falando da relação do esporte de força com o feminismo:

“Força para a Força” – força e feminismo, parte 1

“Força para a Força” – força e feminismo, parte 2

“Força para a Força” – força e feminismo, parte 3

Abaixo, uma entrevistinha com ela.

Três perguntas para Marília Coutinho

– Como surgiu a ideia de usar o crowdfunding para financiar sua participação no campeonato?

Quem me sugeriu utilizar o crowdfunding, em especial o Catarse, foi meu irmão, Laerte, pois meu sobrinho Rafael Coutinho teve sucesso em sua campanha para financiar o projeto de um livro. Como eu já argumentei profusamente, no meu entendimento o que eu faço é tão arte quanto qualquer arte. Além disso, não consigo ver, mesmo para quem não considera esporte arte, qual a diferença de mérito entre um livro (do próprio autor) e um campeonato. Então, achei que era uma boa, até porque o valor da campanha é modesto. Ponderei o tamanho da minha rede (número de seguidores da página do Facebook, do perfil do Facebook, LinkedIn e twitter, menos os overlaps), o impacto do meu website e fui à luta. Tem sido uma experiência muito dolorosa verificar que a admiração e votos de apoio que recebi ao longo da minha carreira são formalidades vazias, pois o apoio tem sido inexpressivo e deprimente.

– Algumas das recompensas são e-books de treinamento para atletas. Que recompensas o projeto oferece para pessoas que não praticam esportes?

Pois é, um dos problemas da plataforma é não dar visibilidade ao conteúdo de fato do projeto. Não é verdade que as recompensas sejam voltadas aos praticantes de esportes. Dois dos e-books que eu acho mais bacanas são especificamente relacionados à minha militância feminista: o e-book sobre formolatria, onde eu explico como o sistema combinado de marketing da indústria da beleza produziu uma “forma” desumanizada a qual, pela sua hegemonia, exerce um poder coercivo letal sobretudo sobre as mulheres; e o e-book sobre força feminina, onde eu reviso a literatura sobre o tema e desenvolvo a tese de que a alienação (a “desapropriação” operada na primeira infância) corporal feminina é a causa subjacente de inúmeros transtornos (não apenas no sentido médico, mas no sentido de motivo de dor e infelicidade) em suas vidas.

– Você acha que existe sexismo no esporte? É mais difícil, por exemplo, para uma mulher conseguir patrocínios e apoios?

Existe sexismo e violência discriminatória no esporte. Eu sugiro um exercício às leitoras: tente lembrar nomes de algumas dirigentes esportivas mulheres. Não conseguiu? Nem uma? Pois é. A pirâmide do poder organiza a opressão sexual, como em todos os segmentos da vida social. Mulheres atletas têm um item a mais para se submeter no sistema já ditatorial de governança desportiva: portar-se como mulher submissa. Quando eu fui dirigente, a quantidade de violência que eu sofri daria um pequeno livro de horrores. Ameaças de violência física abundantes, de morte uma ou duas e intimidação física, com resultados de fato (rompi um tendão), uma.

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E aí, curtiram o projeto da Marília? E a ideia de crowdfunding? Se souber de algum projeto bacana, feminista ou não, feito por mulheres ou outros grupos marginalizados, compartilhe nos comentários! Quem sabe assim a gente aumenta o tamanho dessa rede de apoio mútuo. 😉

A palavra tem poder

Jornalista há anos, poeta há algum tempo, eu devia saber disso desde sempre.

Mas faz pouco tempo que descobri a força da palavra, em seu sentido mais amplo. Foi por meio do feminismo, de ver como a violência contra as mulheres se manifesta, principalmente, no campo do simbólico. Foi aí que vi a força da piadinha, do apelido engraçadinho, daquele meme bobinho que reproduz a dicotomia da mulher-pra-casar e da mulher-pra-transar. Vi a força reafirmadora do discurso na propaganda, nas revistas. E vi o quanto eu, mesmo querendo ser certa, errava. Porque reproduzia a linguagem sem questionar. Nós jornalistas sabemos – ao menos em tese – que a linguagem repetida sem questionamento vira clichê. O que aprendi no ativismo é o lado mais perverso do clichê: o estereótipo. Palavra repetida tem força de criação. De profecia. Forma o mundo e inventa categorias inteiras. Agrupa as pessoas de certas formas e não de outras, e o que poderia ser apenas uma escolha de conjunto acaba sendo a escolha de um mundo.

É aquilo: a palavra tem poder. O discurso tem força. Não é a única coisa a ter força, existem outros tipos de violência no mundo, muitas delas além do discurso. Mas a palavra inegavelmente é forte o suficiente para perpetuar e criar realidades.

E justamente por isso, é preciso ter paciência. Muita mesmo. A palavra usada como arma – mesmo que seja de defesa – pode ferir. A agressividade é uma estratégia que pode ganhar o respeito, mas junto com o respeito vêm o medo e o silenciamento. Isso, talvez, seja uma forma de alienação. E se a gente quer mudar as coisas, talvez alienar as pessoas do nosso discurso não seja a melhor forma de agir. Não que todo mundo precise ser feminista limpinha fofinha adorável, não é isso. Tem que poder ser contundente, falar o que pensa. Mas a gente, mais que ninguém, sabe que palavra tem força. E se a gente solta sem pensar, aquilo volta. Ação e reação. Se estou de bike e um carro me fecha na rua e quase me mata, quero muito xingar o desgracento até o fim dos dias, rogar praga sobre seus descendentes e os filhos de seus descendentes até a sétima geração. Mas se eu faço isso – e já fiz muitas vezes – passo o resto do trajeto com medo, apavorada de o cara ficar puto e se vingar. Ou de se vingar em outro ciclista, depois. Não que eu precise ficar calada ali, bicicleteirinha com vergonha de existir, pedindo desculpas por estar no cantinho da rua. Não. Mas posso me manifestar de outras formas. Dar um tchauzinho. Mandar beijinho. Perguntar por que a pessoa fez aquilo. Cantar Gangnam Style em versão heavy metal. Sei lá. Qualquer coisa que não seja continuar o ciclo de agressão.

Justamente porque a palavra tem tanto poder, a gente precisa se conter. Por mais certa que a gente ache que esteja. Por mais justa. Por mais que a nossa causa seja a correta. Porque a palavra recebida como arma também tem força e machuca. E as pessoas são só pessoas, sabe. Que elas vão errar é líquido e certo, faz parte de ser pessoa, de ser gente. Algumas irão pedir desculpas, outras não. Algumas irão se odiar por semanas, outras irão criar casquinha. Mas e aí, o que aquilo adiantou? Serviu de escape momentâneo, de catarse, mas e daí? Gerou felicidade, trouxe gente nova para a discussão, ajudou a ampliar o debate? Na maioria das vezes, não. Essas divisões são uma catarse coletiva que podem servir como momento de pertença para grupos excluídos. Mas que no fim das contas, aliena um monte de gente que poderia ser um aliado mais próximo.

É preciso aprender a debater, a discordar, sem partir pro xingamento. Aprender a se sentir ofendidas sem achar que isso é justificativa pra perseguições e ameaças, ou pra incentivos a perseguições e ameaças. Tem que ser hippie nessa hora, gente, não tem jeito. Quase budista. Essas brigas, essas tretas, no longo prazo não significam nada. Eu sei que faz parte do ser humano. Sei também que já perdi as estribeiras, rodei as tamancas e fiz todos os clichês esquentadinhos. E sei que vou fazer de novo. Mas a gente precisa começar a repensar isso, achar formas de não cair nessa.

Acredito totalmente em discutir e discordar. Mas, para a sociedade que a gente quer, é importante o processo. Como a gente vai chegar lá. E se pra chegar lá a gente precisar usar de armas que sempre foram usadas contra a gente, e a gente precisar apontar dedos contra colegas o tempo todo, tem algo errado.

A palavra tem poder. Por isso, temos que pensar bem antes de apertar o send naquele e-mail raivoso, de dar “curtir” num comentário de ódio, de chamar de nazista alguém que só está discordando. O processo importa. O discurso também. Não é fácil, nem automático. Por isso é que é preciso lembrar sempre, refletir sempre. E aí é aquela coisa, cada uma começa por si. Revendo as próprias atitudes, antes de apontar dedos. Olhando de frente para o nosso teto de vidro. Que é o que dá pra fazer.

O tsuru é uma ave símbolo de paz no Japão. Talvez a gente esteja precisando um pouco por aqui. Foto de Amanda Cabral, no Flickr, em CC.