O distritão dificulta a entrada das mulheres nos espaços de poder

Texto de Priscilla Brito para as Blogueiras Feministas.

A discussão sobre a necessidade de uma reforma do sistema político não é novidade no Congresso Nacional. Desde a Constituinte, tramitam por lá propostas diversas, que mudam desde pontos específicos até aspectos mais estruturais, que mudariam a forma como entendemos o nosso poder de incidir na política institucional. Nos últimos dias, ganhou força na Câmara o chamado distritão, que muda a lógica da eleição dos deputados e deputadas no âmbitos federal, estadual e municipal. Segundo alguns parlamentares, a proposta simplificaria a eleição, pois os deputados mais votados em cada estado seria os eleitos. Na prática, o distritão enfraquece os partidos e dificulta a eleição de mulheres, negros e outros grupos com pouca representatividade nesses espaços de poder.

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A prisão de Cunha não é motivo de comemoração para o feminismo

Por Priscilla Brito.

É claro que dá vontade de comemorar. No ano passado, milhares de mulheres foram às ruas contra o Cunha, pela ameaça que seu PL 5069/2013 representava no nosso direito de abortar legalmente em casos de violência, mas também pela importância dele no processo de Impeachment.

As manifestações contribuíram para o desgaste público de Cunha, mas ele não foi afastado da presidência da Câmara por causa delas. Também não foi por causa das denúncias de corrupção. Ele foi afastado porque se tornou perigoso para a reorganização do poder na Câmara, por ter há muito tempo nas mãos o cerne da manipulação dos parlamentares: doações para as campanhas e esquemas de enriquecimento.

E agora, Cunha é preso sem justificativa legal. Não porque as mulheres se manifestaram, mas porque era conveniente para o judiciário — erradamente analisado como simples aliado do PSDB, mas que é movido por interesses próprios. Moro se alia, sem dúvidas, com os partidos de direita, mas também acredita ser o próprio Leviatã encarnado.

O discurso “apolítico” da empreitada anti-corrupção desenha um projeto de poder que temos que observar com cuidado. O modo como a prisão de Cunha foi decretada só deixa claro que o que se ergue não é nada progressista, não é de avanço de direitos, é uma forma de organização em que judiciário, mídia e polícia são protagonistas e não tem compromisso com a democracia — essa vai pro lixo junto com a política.

A Primavera Feminista teve sua força de mobilização convenientemente incorporada ao tensionamento, mas não está no jogo. Ninguém da esquerda está. Na arena, a disputa é entre a velha elite política, uma burocracia-judiciária que comanda a polícia e o fundamentalismo religioso. Nós, enquanto feministas, vamos precisar de mais estratégia pra fazer valer nossa luta e a democracia que a duras penas conquistamos.

“Marchar é o que nos restou: desacreditamos dos parlamentos, somos ignoradas pelos poderes políticos, cada vez mais nos devolvem para a casa e o cuidado dos filhos como um destino da natureza”. Por que só nos restou marchar? Por Debora Diniz.

Texto originalmente publicado em seu perfil do Facebook no dia 20/10/2016.

Imagem: São Paulo, 2015. Mulheres protestam por seus direitos e contra Eduardo Cunha na avenida Paulista. Foto de Diego Padgurschi/Folhapress.

Por que eleger prefeitas e vereadoras em meio à crise política?

Texto de Priscilla Brito para as Blogueiras Feministas. 

Então, o que afinal podem fazer vereadoras e prefeitas nos seus municípios em meio à crise política e econômica em que vivemos? No texto de ontem: Por que votar em meio à crise política? Compartilhei algumas das questões sobre as quais tenho pensado e que antecedem a reflexão sobre esses papeis e sua importância no contexto político atual.

As pessoas com as quais conversei argumentaram que as candidaturas feministas tem pouca pretensão de ganhar e são como um convite ao debate ou uma tentativa de incomodar os espaços da política, tradicionalmente dominados por homens brancos, heterossexuais e cisgêneros. Acreditamos que as instituições podem servir para promover a igualdade e por isso faz sentido almejar ocupá-las para então transformá-las.

O desafio é imenso. Em 2016, 5.568 cidades escolherão novas prefeituras (somente Brasília e Fernando de Noronha não fazem eleições desse tipo) e novas composições para as câmaras dos municípios. Embora o Brasil tenha uma estrutura de poder centralizada, com grande acúmulo de poder no Governo Federal, há algumas questões relevantes a cargos desses poderes.

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