A questão do aborto não é sobre convencer você

Texto de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas.

Enquanto houver pessoas tecendo logos comentários e textos, acadêmicos ou não, querendo provar que o aborto seria uma questão moral e, que por isso, não é uma solução para o problema de saúde pública que o Brasil enfrenta — mesmo havendo mortes de 4 mulheres cis por dia, vítimas de abortos clandestinos e/ou de tentativas desesperadas de por fim a uma gravidez violentando brutalmente seus corpos ao inserir neles objetos e substâncias nocivas a sua própria saúde — o debate não vai andar.

O debate sobre o aborto não é para convencer as pessoas pró-vida do feto que o aborto não é um crime ou não é imoral. O ponto crucial na questão do aborto é salvar as vidas de mulheres que estão morrendo, enquanto você, do alto do seu pedestal acadêmico ou não, tece teorias absurdas para camuflar o que, em essência, é apenas misoginia internalizada e racismo descarado.

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Feminismos, hashtags e um elefante chamado Horton

Texto de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas.

Tenho lido muitos relatos e análises sobre as recentes campanhas feministas #PrimeiroAssédio e #MeuAmigoSecreto. Opiniões sobre sua validade como instrumento de militância, sobre sua contribuição para o avanço do movimento, ou quais conquistas essas campanhas angariam. Sobre o que campanhas catárticas como essas trariam de bom e ruim, ou sobre esse tipo de ação ser o futuro do movimento feminista nas redes sociais.

Então, enquanto debatia sobre essas questões eu me lembrei de um filme que assisti muitas vezes com minhas crianças e que recomendo a todos: “Horton e o mundo dos Quem”. Adoro esse filme porque para mim a mensagem que ele traz de respeito mútuo e intrinseco a todos os seres, independente de seu tamanho, sempre foi algo que entendo ser importante ensinar para meus filhos.

Mas ai eu me peguei incomodada com a campanha do #MeuAmigoSecreto, com as coisas ditas em alguns status, com a forma que outras coisas foram faladas e tenho tentado entender o alcance das campanhas, a sua importância, a sua necessidade e como compreender esse feminismo que não me contempla, mas contempla a tantas e que tem surtido um efeito que todas as horas que passei escrevendo textos e respondendo comentários em blogs e fan pages não trouxeram.

Foi aí que lembrei do filme. No filme, o mundo dos Quem cabe inteiro dentro de um ínfimo grão de poeira. E por um motivo desconhecido, a voz de um dos habitantes desse mundo chega aos ouvidos de Horton, um elefante meio atrapalhado que mora numa selva. E, desse momento em diante, Horton toma como missão salvar a pessoa pequena que mora no grão. Outros habitantes que moram na selva acham que ele está maluco, que no grão não pode haver uma pessoa, não existem pessoas tão pequenas assim e tentam dissuadí-lo de continuar. Enquanto isso, no grão, as pessoas minúsculas não se dão contam de que fora do grão existe um mundo muito maior do que eles podem imaginar, e que esse mundo influencia o mundo delas também. A conversa então se estabelece entre o prefeito do mundo dos Quem e Horton, o elefante.

Cena do filme 'Horton e o Mundo dos Quem' (2008).
Cena do filme ‘Horton e o Mundo dos Quem’ (2008).

No decorrer do filme fica claro para nós, para o prefeito e para Horton que a salvação do mundo dos Quem não depende deles sozinhos. Eles descobrem juntos que sem a implicação de todos os habitantes do seu minúsculo mundo, sem as vozes de todos juntos, os habitantes da selva jamais os ouvirão e jamais pararão de perseguir Horton, que assim não será capaz de salvá-los. E é assim que acontece no filme, quando todos os habitantes do mundo dos Quem juntam suas vozes num coro uníssono, é aí que os animais da selva passam a escutá-los, num primeiro momento um ruído para depois se distinguir as vozes.

Para mim esse filme traz uma analogia perfeita para o que representam e ao que servem essas hashtags. Elas servem para dar voz aos feminismos. Para desnaturalizar comportamentos machistas inaceitáveis que são horrivelmente corriqueiros, para desnaturalizar falas preconceituosas e atitudes intolerantes, para educar os ouvidos de quem sequer imagina que existimos enquanto pessoas, para exigir a atenção de quem está acostumado a pensar que se está bem para si mesmo, então está bem para todos.

Essas hashtags estão aí para mim também, para nós, militantes. Para me lembrar que por mais que pareça natural, para mim, que esses relatos horríveis tratam da mais absurda violência machista, racista, homolesbobitransfobica. Há outros que sequer as percebem, ou que imaginam que as coisas são assim mesmo. Essas hashtags somos nós, mulheres do mundo, juntando nossas vozes num coro para sermos ouvidas. Essas hashtags nos fazem perceber o quanto o discurso é poderoso e o quanto modificá-lo é importante.

Para mim, para além de problematizar, simplesmente criticar ou diminuir a importância dessas campanhas deveria ser nosso papel, como militantes feministas, saber usar essas energias, saber acolhê-las e fazer delas um meio para alcançarmos as conquistas pelas quais lutamos. Saber ajudar a força dessas vozes a focar em objetivos, saber apontar as outras vozes que ainda não são escutadas e outras vivências que são ainda mais oprimidas. Trocar nossa própria perspectiva pela de quem sente-se agredida, mas não sabe o que fazer, não sabe ou não se sente forte o suficiente para responder. Abrir canais para concentrar forças, ser humilde o suficiente para amplificar as vozes que surgem, sem querer moldá-las ao que julgamos ser o correto, o melhor, o sério, o mais apropriado. E espero que a força dessas hashtags continuem e que não paremos de falar até que sejamos escutadas.

+Sobre o assunto: #MeuAmigoSecreto e a poética do feminismo. Por Alana Moraes.

50 tons de preconceito, repressão sexual e machismo

Texto de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas.

O filme ’50 tons de Cinza’ chega finalmente aos cinemas. E com ele voltam as questões sobre a trilogia. Eu li os livros, mais de uma vez. Eu li sobre os livros em vários locais diferentes. E fiquei intrigada em descobrir por quê esse livro, que me provocou tanto incomodo, fez e faz tanto sucesso. Eu não sei se descobri, mas queria compartilhar o que penso com vocês.

Para começar, eu li o livro em inglês numa cópia de revisão que foi disponibilizada na internet quando o livro foi lançado em português. Eu li porque sou curiosa. Nunca tinha lido nenhum livro de literatura erótica e o mais perto que cheguei de pornografia foi ‘Delta de Vênus’ de Anaïs Nin.

Antes de ler o livro, li sobre ele. Muita gente, dizendo que não leu e não gostou. Gente dizendo que era muito mal escrito e que não passou da página 20. Gente dizendo que não leu porque era ofensivo demais. Enfim, era um consenso, nas minhas relações, que todo mundo achava que o livro era uma porcaria. E foi ai que ele me conquistou. Eu tinha que ler esse lixo pra ter minha opinião sobre isso. Foi por isso que eu li o Alquimista de Paulo Coelho, todo mundo falava tanto sobre o livro que eu tive que ler.

A primeira coisa sobre o livro é que, como literatura erótica, ele é uma decepção. Especialmente para quem, como eu, queria ler um livro sobre BDSM. O livro é érotico, mas mesmo para uma pessoa como eu — heterossexual e monogâmica com mais de 40 — é um livro bobo. É um romance de banca de revista, escrito por alguém com um catálogo de sex toys do lado, só que o manual dos sex toys é ultrapassado.

Mas isso não descobri lendo o livro. Lendo o livro eu fiquei incomodada com o roteiro. Uma história tipo Júlia, moça linda e pobre se acha horrível e encontra rapaz lindo e rico que se apaixona por ela, se casam e terminam todos felizes no gramado da mansão dele, com suas crianças lindas ao redor. Um livro extremamente clichê.

Cena dos filme '50 Tons de Cinza' (2014).
Cena dos filme ’50 Tons de Cinza’ (2015).

Eu fiquei incomodada com o que é dito sobre BDSM no livro, o BDSM é tratado como um desvio de caráter, uma doença cuja cura é o amor. Fiquei chocada como a mocinha é preconceituosa, mesquinha, machista e extremamente moralista. Fiquei incomodada como esse romance é misógino, como o galã — um cara de 27 anos — tem uma mentalidade mais atrasada que a do meu pai, que se fosse vivo teria 80 anos. E fiquei incomodada com outras coisas que não soube elaborar, não soube apontar. Fiquei intrigada, como um livro tão bobo, tão pobre em BDSM podia ser considerado um marco no segmento e podia ser consumido tão vorazmente.

Então, comecei a buscar pessoas que tivessem lido o livro e estivessem dispostas a discutir sobre ele. E isso se provou impossível. A maioria das pessoas da minha entourage não estava nem aí pro livro. Então, alguém me indicou um blog que estava resenhando o livro. E, partindo daí, eu encontrei a Jenny Trout, que é escritora de romances eróticos e que tem um blog onde encontrei uma resenha dos livros da série, capítulo por capítulo, apontando todos os absurdos e foi aí que eu percebi o que tanto me incomodava.

A trilogia dos ’50 Tons de Cinza’ é uma fanfiction baseada na série ‘Crepúsculo’ de Stephenie Meyer (lembram do vampiro apaixonado?), que fez um baita sucesso entre os leitores e foi adaptado (ou seja, mudaram os nomes dos personagens) para poder ser vendido como obra original. Sim, amiguinhes esse é o mercado editorial.

Para quem lê inglês e se interessa pelo tema, mas não quer ler o livro, eu sugiro a leitura da resenha feita por Jenny. Ela é hilária e expõe toda a problemática do livro. Para quem quer ler literatura erótica, ela também é uma boa opção.

E agora, faço um resumo do que é problemático. Christian é um stalker, manipulador, extremamente machista e condescendente. Ana é moralista, mesquinha, preconceituosa e sem nenhuma autoestima. Ele teoricamente seria o mentor de BDSM dela, mas não se comporta assim. Ele nunca informa a ela nada sobre as cenas que eles vão fazer. E por isso ela nunca pode consentir, que é o mais importante nesse tipo de prática, sobre o que vai ser feito. Ela não tem parâmetros para entender o que está vivendo (a relação BDSM) e ele se aproveita disso, da fragilidade e desinformação dela. No que tange o BDSM, o livro é um manual do que não deve ser feito e a utilização de brinquedos sexuais é limitadíssima. E olha que eu não sou praticante de BDSM e pelo livro fica claro que a escritora também não é.

Os personagens são rasos e sem nenhuma consistência ou humanidade. As cenas de BDSM são poucas e muito repetitivas, as cenas de sexo tediosas até. Em certo ponto da trilogia eu pulava as cenas de sexo porque é sempre mais do mesmo. As personagens não falam abertamente de sexo, os genitais não são nomeados, em alguns momentos tive a impressão que o romance tinha sido escrito por mim, aos 11 anos de idade.

Em mais de 1500 páginas de um romance erótico, a palavra pênis aparece uma única vez, e não me lembro de ter lido a palavra vagina ou clitóris ou qualquer um de seus apelidos no livro inteiro. Ela fala de sexo anal como algo sujo, proibido e pecaminoso.  Quando ela se refere ao pênis de Christian é sempre como “a ereção”, o que me levou a pensar que ele na verdade era o dono da farmacêutica que produz o viagra.

A mocinha é tão pudica e alienada que acredita em cavaleiros que resgatam princesas. Ela repete insistentemente que o amor dela vai libertar ele das trevas que são seus desejos, ou seja o BDSM. E foi aí que eu entendi porque esse livro faz tanto sucesso. E é bem triste que ele faça tanto sucesso. O sucesso dos ’50 Tons de Cinza’ é baseado no preconceito, na repressão sexual e no machismo da nossa sociedade.

Penso em ver o filme. Há notícias de que algumas características e diálogos do livro foram modificadas e por isso a própria autora estaria propondo um boicote. Há também ativistas propondo um boicote ao filme, por glamourizar relações de abuso e violência doméstica. A autora se defende dizendo que a história relata uma fantasia e que todas as mulheres tem direito a elas. Lamento apenas que seja a fantasia do príncipe encantando reeditada com todo seu moralismo. Como diz Natalia Engler em sua crítica: “o público merecia mais. E não só em termos de sexo. Mas isso não deve ser um problema para a bilheteria”.

No fim, acredito que muitas pessoas gostam dessa trilogia porque os livros são o moralismo fantasiado de sacanagem. É uma relação entre duas pessoas em que uma é extremamente controladora e a outra, que não tem voz no relacionamento, é a salvadora. Não há novidades, nem mesmo no que se refere ao prazer feminino, muito menos aos papeis que homens e mulheres representam. É tudo preto no branco.

+ Sobre o assunto:

[+] 50 tons de “amiga, pare”. Por Letícia B.

[+] Eu tentei gostar de 50 Tons de Cinza. Por Ana Luiza Figueiredo.

[+] BDSM e violência doméstica: saiba a diferença. Por Jarid Arraes.