Mulheres negras na política: maioria na sociedade, minoria nos espaços de decisão

Texto de Luka Franca para as Blogueiras Feministas. 

Faz muito tempo que não escrevia para os Blogueiras Feministas. Desde 2013 e fiquei muito feliz quando recebi o convite para publicar durante a semana do Dia Internacional de Luta das Mulheres no site e ainda mais com um texto sobre participação política das mulheres negras.

Ao analisar as movimentações políticas do último período pelo Brasil e o mundo é notável a necessidade de pensar as questões de raça e gênero em conjunto com a estratégia política de enfrentamento ao pensamento conservador e a direita programática. A tarefa não é simples, é comum ouvirmos de quadros da esquerda brasileira de todas as sepas ideológicas.

O espaço da política é um espaço público e este lugar foi historicamente negado a negritude e as mulheres. Ou seja, quando falamos da participação política e empoderamento das mulheres negras falamos em uma perspectiva de mudança profunda de status quo na sociedade e modificar as estruturas sociais de forma radical requer retirar privilégios daqueles que sempre ocuparam o espaço público na sociedade para garantir a participação dos setores sociais historicamente marginalizados e alijados dos locais de decisão política e de poder.

Marcha das Mulheres Negras Rio de Janeiro 2016 – Márcia Foletto / Agência O Globo

É marcante a presença de mulheres negras em diversas formas de organização política, muitas vezes garantido a estrutura para que atividades, movimentações, articulações e formulações políticas sejam efetivadas. Ao mesmo tempo que fazem parte destes espaços, o racismo e machismo estrutural da sociedade colocam as mulheres negras fora dos espaços de real decisão de poder nos movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos, coletivos e nas diversas formas de organização política existentes.

É possível identificar a baixa representatividade da mulher negra em espaços de poder quando olhamos para a Câmara dos Deputados em Brasília. São 513 parlamentares, destes 52 são mulheres, sendo 7 mulheres negras segundo o critério do IBGE – para o Instituto a contagem de população negra engloba o número de pretos e pardos no Brasil. As mulheres no Brasil são pouco mais da metade da população, o mesmo quando vamos pegar os dados da negritude no país, mesmo assim o setor que sintetiza o que significa o racismo e o machismo para a constituição do país é profundamente sub-representada nos espaços de decisão política e isso vai influenciar diretamente na garantia, ou não, de políticas de enfrentamento a violência contra mulher, ao racismo e questões mais ligadas ao que se chama de “política geral” como economia e justiça.

As mulheres negras, com menor acesso a recursos partidários, enfrentam maiores dificuldades do que as brancas para se elegerem. Isto se soma aos efeitos da divisão sexual do trabalho que em muito explicam a baixa participação política das mulheres. Em 96% dos domicílios brasileiros, são elas as encarregadas das tarefas domésticas e do cuidado com filhas(os), o que gera o acúmulo das jornadas de trabalho remunerado e de trabalho doméstico/familiar.

Em conseqüência, as mulheres parecem demorar mais para construir uma carreira política, visto que 52% das deputadas federais têm entre 45 e 59 anos, enquanto os legisladores homens são 48% nesta mesma faixa etária. As poucas mulheres que atuam no Congresso Nacional, ou na política em geral, tendem a acumular menos encargos domésticos, por conta de seu estado civil. (A participação das mulheres negras nos espaços de poder)

A garantia de participação política e emancipação das mulheres negras não é apenas por questão de representatividade, mas também por localizar um programa de mudança social importante. Lembrar que somos nós mulheres negras que constam nas pesquisas como as que mais morrem por causa de feminicídio, vítimas de estupro e também as que tem os postos de trabalho mais precarizados e recebem os menores salários. Falar sobre racismo e machismo quando pensamos na política é fundamental para realmente se construir processos reais de emancipação.  Os debates e mobilizações sociais que temos visto no Brasil e no mundo apontam justamente para a necessidade de se pensar a questão de raça e gênero da mesma forma universal que pensamos a questão de classe para, efetivamente, combatermos a direita e o pensamento conservador que tem se aprofundado não apenas no Brasil, mas também no mundo.

É preciso não apenas enegrecer o feminismo, mas enegrecer e feminizar as analises políticas que aí estão, é preciso abrir espaço real para a participação das mulheres negras nos lugares de decisão política, seja institucional ou não. Para conseguirmos dar uma saída real pro momento político que vivemos encarar estas questões de frente é fundamental. A condição social das mulheres negras, a falta de representatividade e uma série de outras coisas que estabelece a relação profunda entre raça, gênero e classe não pode mais ser lidada como algo menor quando pensamos a formulação política, ou analisamos a conjuntura  que hoje vivemos pelo mundo.

Esses dois elementos estão profundamente marcados nas movimentações de ataques que temos visto a direita e o conservadorismo operarem em diversos países. Sejam nas propostas xenofóbicas de Donald Trump nos EUA, ou as reformas que Michel Temer quer enfiar goela abaixo aqui no Brasil. Para isso, os setores de esquerda e progressistas precisam realmente abrir espaço não apenas para fazer este debate de forma programática, mas investir e formar mulheres negras para disputarem os espaços dos movimentos sociais e também da política institucional.

Não podemos titubear na defesa de ampliação da participação política das mulheres negras em diversos espaços de atuação na sociedade, assim como é necessário dialogar e denunciar o quanto os projetos da direita que aí se apresentam atacam de forma universal as mulheres negras antes de todos os outros setores sociais. Tratar tais temas como perfumaria na política apenas faz coro com a política racista e machista da direita e isso não podemos mais deixar acontecer.

 

O novo feminismo ou a boa e velha cooptação nossa de cada dia

Texto de Luka Franca.

Vez ou outra me pego pensando em como uma sociedade capitalista se aproveita de outras formas de opressão. Como explora os flancos para assim poder ganhar mais, lucrar mais, explorar a força de trabalho de cada uma de nós de forma diferente e muito bem apurada e organizada. Sim, organização é seu nome, e é importante compreender que esta organização também pode permitir em alguns momentos que se abra espaço para apontar alguns debates, não aqueles que tocam em pontos nefrálgicos do modelo de organização da exploração e da opressão, mas aqueles que por algum motivo preferem continuar no conforto de debater suas próprias caixinhas e não questionar com profundidade o status quo.

O espaço aberto para se debater questões ligadas ao feminismo não se abre de forma desconexa ao momento histórico que vivemos no país, desconectar essas duas coisas é, no mínimo, ingenuidade e se for proposital é puro oportunismo. Quando o espaço se abre para os debates políticos sejam quais forem se destrava também o espaço para se debater o como se organiza o estado capitalista e como ele se apropria das opressões machistas, LGBTfóbicas, racistas e tantas outras para sobreviver. Como eu sempre digo, o debate da política real é o nosso debate, é o debate das “minorias” sociais.

Capa da revista Elle, edição de agosto.
Capa da revista Elle, edição de agosto.

Por que teimo a voltar neste tema? Ora, essa semana uma amiga postou uma capa de revista da Elle, em que se falava sobre o novo feminismo, do girl power, do sucesso, da liberdade e de Louboutins. Na mesma capa estava uma jovem branca, loira, sexy. O tal novo feminismo é isso? Bem, para mim não existe novo ou velho, existem apropriações de ideias que sempre ressurgem.

O novo feminismo, para mim nada mais passa do que um feminismo liberal, onde o importante é ter mulheres em espaços de poder e pouco importa se elas oprimem e exploram outras mulheres para manter seu staff de glamour. O novo feminismo cheio de purpurina e que ocupa espaços da mídia burguesa com a máxima: cada uma pode ser o que quiser; não bebe mais e nada a mais no velho calvinismo ou do próprio luteranismo, nos quais cada um, se trabalhar e seguir seu destino, terá o sucesso devido.

A questão a qual me detenho é: Por que existe espaço em meios capitalistas, que não criticam realmente o status quo que rege a nossa sociedade para se apropriar de uma parte do programa feminista? Pergunto mais! Por que há eco profundo desta lógica liberal de feminismo tomando conta do imaginário coletivo?

A abertura e a necessidade de se debater as contradições do capital e da sociedade patriarcal e racista estão colocadas, pois o momento que vivemos abre espaço para todos os questionamentos e se não há organização, disputa de posição e afins uma postura mais liberal e racista toma conta dos debates feministas que na sua base política debate a relação concreta de opressão de gênero.

Não há como não debater luta de classes sem debater as mulheres em geral, não há como debater a sociedade de classes sem localizarmos que o exército de reserva de trabalhadores na verdade é um exército de reserva de trabalhadoras negras, lésbicas, trans e que se uma atuação feminista não der conta disso, não se aperceber deste nó que organiza a exploração capitalista e as opressões que estruturam a nossa sociedade estarão apenas apresentando melhorismos que apenas uma parcela ínfima das mulheres irão desfrutar. É isso que queremos? Uma parcela ínfima das mulheres realmente livres e livres por que podem consumir e oprimir outras pessoas?

A reflexão fica, por que estas devem ser preocupações cotidianas dos nossos debates. Como sempre falo, o feminismo deve fazer parte de um projeto de totalidade e não apenas um fim em si mesmo. Aquelas que consideram o feminismo um fim em si mesmo e que um mundo só de mulheres irá melhorar as coisas só tenho a dizer: ajudar a manter o sistema de exploração que aí está e não pensas na liberdade das mulheres que realmente sofrem com o patriarcado, racismo, LGBTfobia e exploração de classes que aí se coloca cotidianamente e não é nada novo.

O novo feminismo que não debate os problemas concretos e ideológicos com os quais nos confrontamos cotidianamente na sociedade não passa de mera apropriação dos setores que oprimem. O novo feminismo branco, cis, descolado e que cabe nas capas de revista, é simplesmente a velha forma de dizer para nós, mulheres negras, lésbicas e trans que a efetivação de direitos nessa sociedade não é para a gente e sim para uma parcela ínfima de mulheres que prefere oprimir a libertar.

E tu? O feminismo que tu reivindicas samba de que lado?

Pílula sobre as mobilizações em São Paulo

Texto de Luka Franca.

O Brasil está em chamas. São Paulo está em chamas. O estopim dado por conta da truculência policial em cima das pessoas que vinham protestando contra o aumento da passagem dos transportes públicos na cidade da garoa demonstra que o espaço para se discutir ideias as disputar está aberto. E como sempre nos perguntamos, o que as feministas têm com isso?

A pauta dos transportes também nos atinge diretamente. Os metrôs, trens e ônibus lotados potencializam em muito a violência sexual e já tivemos demonstrações claras sobre isso quando foi apresentado para a sociedade as ocorrências no metrô de São Paulo, ou no caso da moça que teve jogado em sua perna na CPTM um tipo de ácido. A alta tarifa e a falta de transporte público de qualidade é pauta nossa e assim precisa ser apontada. Não apenas por conta dos crimes de oportunidade existentes nos meios de transporte lotados, mas também pelo reconhecimento de que a feminização da pobreza nos jogam para os rincões e por conta disso somos nós, mulheres e negros, que dependem do transporte público para poder chegar ao trabalho, levar as crianças na escola, ter acesso aos hospitais e que precisa realmente ter assegurado o seu direito de ir e vir.

O aumento da tarifa não pode ser debatido apenas nos marcos dos termos de contrato, mas em uma compreensão mais geral sobre o custo de vida e sobre a qualidade de vida da população que há quase uma década vive em uma cidade movida pelo interesse do capital. Especialmente para as mulheres que ocupam majoritariamente postos informais no mercado de trabalho e recebem até dois salários mínimos, o impacto do aumento da tarifa é muito grande no custo e qualidade de vida. (Todas às ruas: contra o aumento da tarifa e a violência da polícia)

Não é só por R$ 0,20, mas é também por R$ 0,20. Pois sim, concretamente estes centavos a mais pesam em nossos bolsos e em algum lugar do orçamento doméstico ele terá de sair. A questão é que a pauta não é só a tarifa, neste caso de São Paulo a pauta é a tarifa junto com a criminalização recorrente dos movimentos sociais. Recorrente e cada vez mais truculenta.

Dizem que o gigante acordou, para mim ele nunca esteve adormecido. Mas com o escopo que as coisas tomaram vejo que é preciso refletir, entender o que acontece e ao mesmo tempo agir. Agir para que as pautas concretas existentes nas lutas de tantos movimentos progressistas não sejam tomados como pano de fundo por um discurso conservador. Um discurso que em diversos espaços, inclusive nos atos desde segunda-feira, pautam contra a autonomia das mulheres, dizem que comunista deve morrer e tantos outros clássicos do repertório conservador.

Para falar a verdade, quando vi algumas instituições conservadoras e reacionárias apoiando os protestos, fiquei com um arrepio na coluna. Isso não tira um milímetro de legitimidade das manifestações, mas preocupa a carona que alguns querem pegar. Páginas de extrema direita na internet, contrárias à pauta da manifestação, conclamando o povo para o ato são de doer. Seria apenas cômico se a coisa não fosse séria. (Em breve, o preço da passagem será o menor dos problemas do poder público. SAKAMOTO, Leonardo)

Ainda é por R$0,20 que estamos, mas nos tem colocado uma tarefa maior: Como disputamos estes centavos com um caráter político claro, pois transporte público é pauta política também e não apenas econômica. É preciso que além da juventude aguerrida que vinha pautando a redução da tarifa dos transportes estejamos nós feministas, o movimento negro, LGBT, os movimentos por moradia e tantos outros movimentos sociais que tem atuado em conjunto para poder barrar o Estatuto do Nascituro, a “cura gay”, o aumento da tarifa dos transportes, a violência policial nas periferias e afins.

Acreditamos, no entanto, que nenhum destes problemas foi casual: nem a transferência, nem a demora dos documentos, nem os valores das fianças. Todo esse conjunto de empecilhos tem como objetivo atrasar o processo, mantendo os companheiros por mais tempo na cadeia – algo que não pode ser deixado de lado em hipótese alguma. Além disso, contribui para a criminalização de quem luta por uma cidade de e para todas as pessoas. (Nota sobre os presos no ato do dia 06/06)

Quando falo que nós precisamos estar lá, não é do ponto de vista físico (até por que encontrei muitas amigas e camaradas feministas nas manifestações), mas é que tenhamos a noção de que hoje tá posto uma disputa ideológica nas ruas de forma concreta e nós fazemos parte dessa disputa ideológica. São R$ 0,20 sim, são por que vitória concreta é necessária, mas há perfil político claro do porque dessa reivindicação, do por que se está na rua neste momento.

Nossa responsabilidade política nesse exato momento é enorme. Até por que nunca vimos manifestações destas proporções em nossa vida política, só as vimos passar na TV ou em documentários e mesmo assim tinham características diferentes. É continuemos nas ruas até a tarifa baixar e durante esse processo que estejamos em unidade, por que disputar ideologicamente com o status quo conservador é tarefa hercúlea e todxs lutadorxs devem tomá-la para si.