Vida Roubada – Autobiografia de Jaycee Dugard

Vida Roubada não é apenas mais um livro exposto nas estantes da livraria. É uma vida de fato. É o relato dos anos de sequestro de Jaycee Dugard. É uma lágrima, um sorriso, um abraço, um tapa no rosto. É a autobiografia de uma garota que viveu 18 anos em cárcere. Uma garota que por 18 anos não podia falar o próprio nome. Que ansiava por rever a mãe e sofria porque havia esquecido o rosto dela. Que foi violentada de todas as formas possíveis desde a adolescência.

Vítima de pedofilia, da manipulação psicológica, da privação do sol, protagonista de filmes sadomasoquistas em que não pediu para participar, à mercê de duas pessoas completamente desiquilibradas. Daria um filme de terror de muito mal-gosto. Ainda sim, o que mais surpreende não são as atrocidades pelas quais passou, nem o fato de que a polícia estava o tempo todo ao lado da sua masmorra e ainda sim não a viu. O que surpreende é a lucidez de Jaycee. A capacidade de conseguir digerir tudo, de analisar a situação friamente e retomar as rédeas da própria vida depois de tamanha violência. E a sua denúncia ao mundo é: nossas crianças precisam ser melhor protegidas.

“Agora estou com este estranho que me faz perguntas estranhas e só consigo pensar na mamãe. Ela deve estar preocupada. Alguém contou para mamãe que eu fui levada por um estranho? Como ela vai me encontrar? O homem raspa minhas axilas e minhas pernas e depois diz que vai raspar os pêlos da minha vagina […]”

“Penso se alguma dia serei feliz de novo.”

O livro começa com o relato do dia em que uma garota de 11 anos foi jogada para dentro de um carro, à força, enquanto caminhava para ir a escola.

Ela solta trechos de diários que conseguiu guardar da época do cárcere, e mistura a narrativa que escreveu depois. As cenas são vívidas, você quase consegue sentir a mão do sequestrador-estuprador quando ele a toca pela primeira vez. É opressor e deprimente.

Apesar de ser uma história de muita dor e violência, o texto de Jaycee é delicado e fluído; você sente o que ela sentiu, vive através dos olhos dela, e tem a mesma vontade de fugir que ela tem – talvez por isso eu tenha parado a leitura várias vezes. Há relatos em que senti que era muito para mim, não pela cena em si, porque sinto que se fosse um livo de ficção eu leria tranquilamente, mas aquilo era vida real, era algo que estava acontecendo com uma garotinha. Sentia ódio do mundo e ficava horas sem falar com ninguém, sozinha no meu quarto pensando.

É um livro leve e forte. Leve na linguagem, sem muitos floreios linguísticos, e por isso muito cru e tocante; forte pela história, pela capacidade de expressar os sentimentos. E é engraçado observar como ela escreve exatamente de acordo com a idade em que estava no dia dos ocorridos.

Jaycee viveu por um período trancada em um quarto escuro, comendo uma vez ao dia – fast food -, sem poder escovar os dentes ou ter acesso a um banheiro normal (o sequestrador lhe dava um balde), e servindo de amante para uma criatura – desculpem, não consigo chamá-lo de pessoa ou ser humano depois de tudo – muito maior que ela, contra a sua vontade. Depois do estuprador, a outra pessoa com quem Jaycee teve contato foi Nancy, a esposa do criminoso. Várias vezes Jaycee se pergunta porque Nancy não a soltou quando teve oportunidade, já que ela não parecia estar completamente de acordo com o sequestro que seu marido realizou. Suspeito que Nancy sofresse de uma certa dependência psicológica do marido, aquele tipo de submissão inexplicável que só Freud poderia explicar.

Com o tempo, Jaycee cria um laço esquisito com essas duas pessoas. Claro que sem esse laço ela não sobreviveria, e por isso a admiro muito pelo talento em sobreviver; incoscientemente ela sabia que precisava daquelas pessoas, e precisava criar um teatro para que eles pensassem que ela estava completamente rendida àquela vida falsa que eles criaram para ela. Com o tempo, eles a tiraram do quartinho escuro e fizeram uma pequena vila no pátio dos fundos da casa, que foi uma necessidade mais do que um agrado dos sequestradores, pois Jaycee deu a luz duas meninas. A primeira aos catorze, e a segunda aos dezoito. Essas filhas foram um bálsamo para Jaycee. Acredito que os últimos dez anos de cárcere tenham sido baseados na dedicação em manter aquelas duas filhas vivas e saudáveis.

Parte das construções onde Jaycee morou com as filhas, nos fundos da casa do sequestrador. Foto de Nick Stern/Redthinkmedia.com

De tudo, o que mais revolta é o fato de que a polícia visitava frequentemente a casa do estuprador, que estava em condicional, e jamais visitaram os fundos da casa. Ali viveu, aprisionada, uma pessoa. Por 18 anos. Debaixo do nariz dos vizinhos, da polícia, do mundo. Outro fato que chama muito atenção é o fanatismo religioso do sequestrador, que assim justificava seus atos. Algumas vezes me peguei pensando se Jaycee se deixaria levar por isso e viraria uma fanática também, mas ela só faz ser irônica sobre isso no livro, o que faz com que ela nos cative mais ainda. A garota, apesar de tudo, consegue manter uma lucidez impressionante – esses momentos irônicos são respiros de alívio no meio de tantas passagens pesadas e melancólicas.

“[…] sobre a minha dificuldade de confiar na polícia. Eles não estavam presentes quando precisei”.

Esta história é para ser lida em um momento de reflexão. Não é um livro leve, apesar da leitura ser fácil e corrida. Ao total li metade dele – 167 páginas – em apenas umas quatro horas, e li o resto ao longo de 24h – é um livro médio, de 292 páginas. Recomendo a leitura para aquele amigo seu que diz que a mulher é culpada de tudo que lhe acontece, que a polícia sabe de tudo, ou para sua irmã mais nova, ou cunhada, que acredita que nenhum mal pode acontecer a ninguém caso a pessoa ‘não se exponha’. “Vida Roubada” é uma história e tanto, uma lição, uma denúncia. E esse grito deve ser lido por todo mundo que convive com mulheres. O livro é uma conclusão de que o mundo é podre. E ao mesmo tempo, uma prova de que mesmo no meio da podridão algumas flores podem sobreviver.

Referência: Vida Roubada de Jaycee Dugard. Editora Record, 2011.

*Imagem do destaque: Jaycee Dugard. Foto de Mark Ralston, AFP/Getty Images.

Skate Para Meninas

O campeonato Skate Só Para Meninas rolou no último dia 27 e 28 de novembro, no bairro da Lapa, em São Paulo. Como o próprio nome diz, tratava-se de um campeonato de skatistas, categoria 1 e 2, só para concorrentes do sexo feminino. Além do campeonato, também contamos com oficinas para quem queria dar as primeiras voltas – e levar os primeiros tombos.

Campeonato Skate Só Para Meninas - SP/2011. Foto de Vanessa Guedes
Campeonato Skate Só Para Meninas - SP/2011. Foto de Vanessa Guedes

Mas não foram só as iniciantes que levaram tombos fenomenais. O fato de não exigir o uso de capacete na pista surpreendeu, e resultou num total de apenas três concorrentes usando o acessório de proteção que é item obrigatório na maioria das pistas brasileiras, mesmo que não esteja rolando uma competição. Nem mesmo as profissionais presentes usaram. Na verdade, vimos muitas boinas estilosas e tranças bem feitas, mas capacete que é bom, zero. Esse fator foi de encontro diretamente ao modo com que a pista foi montada, com rampas de partida cuja altura não colaborava para dar impulso suficiente para as skatisas realizarem as manobras corretamente.

Porém, o clima dos treinos antes das baterias ela animador. As garotas interagiam bastante, trocavam informações, discutiam aperfeiçoamentos, e corriam bastante. O clima na arquibancada era bem ‘família’, e uma das coisas mais bacanas do evento foi ver os pais participando, torcendo, e lançando sorrisos reconfortantes para suas filhas quando elas caiam ou erravam alguma manobra. As turmas de amigos torcendo e vibrando era um grande estímulo para as garotas aperfeiçoarem movimentos e ousarem mais na próxima rampa.

Eugênia Ginepro da Argentina. Uma das skatistas estrangeiras que participaram do evento "Skate Só Para Meninas" na Categoria 1. Imagem: Lotta, Skatergirl International
Campanha de desodorante com a skatista brasileira Leticia Bufoni.

A presença de Jéssica Florêncio e Letícia Bufoni, famosa por fazer a rockslide de salto e vestido para uma peça comercial, foi estimulante para várias meninas que acompanham a trajetória das profissionais, e vêem nelas grandes fontes de inspiração. Houveram participações internacionais, como a Mecu e a Eugenia Ginepro, da Argentina. O show de abertura contou com a banda de hardcore feminista Dominatrix, velhas conhecidas do Blogueiras Feministas e orgulho da cena punk rock.

Algumas questões sobre a realização do evento devem ser consideradas em uma reflexão mais profunda. Como, por exemplo, algumas pessoas que se diziam patrocinadoras e apenas davam cartão para as garotas fisicamente mais atraentes; o completo descaso com a questão de segurança (o capacete) citada antes; a falta de patrocinadores; e a divulgação do evento.

Pâmela Leite, ganhadora do terceiro lugar da categoria 2, e seus menos de 10 anos de idade. "Skate Só Para Meninas" SP/2011. Foto de Vanessa Guedes.

A cena do skate já é marginal, e a participação das garotas é mais marginal ainda. Li em alguns sites que o público feminino já representa uma parcela significativa na cena, mas é impressionante o descaso com que esse público é tratado pelas marcas. Acessórios de tamanhos apropriados para a anatomia feminina são raros –  problema parecido com o das lutadoras que encontram só luvas rosas para o tamanho de suas mãos -, e elas ainda são tratadas como parte secundária nos grandes campeonatos. E em uma das campanhas publicitárias mais famosas, envolvendo skate, é sobre um produto de higiene íntima. Poucas campanhas mostram mulheres vendendo skates para mulheres e homens.

Talvez seja tempo de parar de chamar essas skatistas de meninas. Promovê-las ao lado dos grandes nomes do esporte, deixá-las competir em igualdade de número com os rapazes e dar espaço para que o esterótipo da skatista gata não se torne mais uma regra de ideal inatingível.

Uma Feminista no Puteiro

Nunca pensei que um dia entraria em um puteiro. Ainda mais um que cobrava apenas 10 reais para entrar e dava duas cervejas de cortesia. Um amigo me disse que não se tratava de um puteiro, mas uma casa de shows, e que o puteiro rolava no andar de cima, nas salinhas onde se negociava o programa. De qualquer forma, me vi ali dentro. Tipo um peixe fora do aquário, dançando ao som de músicas de baixo calão, inventando coreografias de funk e me divertindo com meus amigos como se estivesse em uma balada qualquer. Apesar das mulheres semi-nuas transitando pela casa – e me olhando com ar de dúvida – e dos shows eróticos rolando, parecia apenas mais uma balada alternativa entre as tantas que eu insisto em conhecer em São Paulo.

Dançarina de Pole Dance na Semana de Moda de New York. Fonte: Reuters

Mas eu não estava em apenas mais uma balada alternativa. Mesmo que estivesse me sentindo confortável, estava no lugar símbolo de todas as causas pelas quais eu luto. Apesar de estar conversando e contando piadas para os amigos, não pude deixar de olhar com um sentimento estranho de pena para a menina que abria as pernas em torno de um pole dance; o mesmo olhar que eu estendi para os garotos de boné que olhavam-na com curiosidade e desejo. Era uma relação de poder, sem dúvida. Ela exercia poder sobre os olhares, ela era toda dona de si. Sua realidade possivelmente é bem diferente daquelas meninas que são contrabandeadas, contra sua vontade, e se tornam literalmente escravas do sexo no sertão do Ceará. Aquela menina poderia estar ali contra a vontade, sim, porque a vida não lhe deu opção melhor de pagar a faculdade sem ter que prestar um serviço que lhe consumisse horas preciosas de estudo. Vida fácil, como muitos dizem, apesar de eu ter minhas ressalvas quanto essa opinião, mesmo quando se trata de Brunas Surfistinhas da vida.

Mas afinal o que eu fazia ali? Curiosidade, suponho. A mesma curiosidade que me fez ir ao Comedians uma semana depois de dar entrevista para Folha durante o desfecho da Marcha das Vadias. Conhecer o âmago do que eu discordo, para mim, é fundamental para saber por qual causa eu estou lutando. Não, eu não quero que fechem os puteiros. Eu quero que regularizem uma troca de serviços e que se pontue que se trata de uma escolha. Pedofilia, escravidão, tráfico humano, tudo isso cerca a prostituição como um todo, porque é algo ainda marginalizado – é uma terra sem lei, sem dono. Aliás, minto. Há donos, sim. Exploradores dos corpos alheios, que se dizem protetores, e se protegem sob a alcunha de cafetões. Isso seria tema para um post jurídico, então, prefiro me ater à experiência. Pura e simples.

Cena do filme Klute, o Passado Condena (1971). Com Jane Fonda e Donald Sutherland.

Uma garota mais robusta subiu no palco. Braços fortes, pernas grossas. Instalou-se um burburinho de dúvida sobre se era uma mulher ou uma transsexual. Na minha estrita opinião, nenhuma dúvida tenho de que se trata de uma mulher, mesmo que tenha nascido em um corpo masculino, quem se define é ela, ela é senhora do seu corpo e de sua mente. Mas num ambiente daqueles, as dúvidas recaem, assim como na sociedade inteira. Como se o corpo do outro fosse assunto coletivo. No puteiro, pensando de modo prático, ainda reconheço que existisse uma preocupação quase técnica para essa questão, o que a torna até menos inválida frente a sociedade quando decide se meter neste assunto. Acompanhei o desfecho do show e percebi rapazes interessados, talvez exatamente pelo fato da dúvida sobre se era ou não era. Pelo menos ali, acho que ela não seria exposta ao rídiculo como seria se estivesse dançando normalmente, fora de um palco, em uma balada alto nível. Não senti hostilidade absoluta da casa. Acredito que ali ninguém julgaria ninguém.

Muitos perguntam se eu desfrutei do puteiro como se esperaria, mas a resposta é sempre não. Fui embora do lugar com algumas impressões que a vida aqui fora jamais me ensinaria. Uma coisa é ter ciência de como esses ambientes funcionam, e tomar partido de como a vida dessas garotas é através de livros escritos por elas e documentários filmados por especialistas. Outra coisa é estar ali. Respirar aquele ar. Ver os olhares ao vivo, a dois passos de distância, viver aquele momento. Algo que nenhum filme jamais iria me presentear. De todo um modo foi um presente inesperado, nem bom nem ruim. Foram constatações de fatos.

Existe um poder feminino incontestável naquele lugar. A submissão dos homens ao sexo e objetificação da mulher como esse alvo de interesse absoluto são tão perceptíveis que parece que dá para pegar a tensão no ar. É quase sólido. Mas perdi a percepção de onde esse sentimento se inverte. Quando a poderosa mulher, tão desejada, vai fazer a contabilização da sua noite e acertar as contas com seu cafetão. Até que ponto esse poder vira-se contra ela ao receber uma bofetada em um programa. Até que ponto esse poder persiste quando eu, mulher e dona do meu corpo, sou xingada de prostituta quando admito gostar de sexo e não ter problema de transar sem me envolver sentimentalmente. Sabe?

Ir a um puteiro me ensinou a conhecer o poder que o nosso corpo tem, e o des-serviço que esse próprio poder nos presta. É triste. É como receber uma dádiva e descobrir que era uma punhalada pelas costas.
Ficam aí os meus sentimentos e impressões. Façam o que quiserem deles. Mas não os joguem sobre a mim, porque eu mesma já o fiz.

*Imagem do destaque: Cena do filme Uma Linda Mulher (1990). Com Julia Roberts e Richard Gere.